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Cabelo Natural

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Qual sua proposta para solucionar o dilema do “Cabelo Natural”?

Vou contar uma história que talvez possa nos oferecer uma elaboração útil até para outras questões…

Um determinado sujeito – genial – inventa um xampu milagroso que cura a calvície de forma incontestável. Um tratamento adequadamente testado, aprovado e comprovado. Entretanto, ele levou 40 anos pesquisando e quer receber pela sua dedicação e trabalho. Resolve colocar o xampu no mercado e percebe (é claro!) que faz um grande sucesso. Pelo seu esforço e dedicação incansáveis ele cobra caro pelo tratamento de renovação capilar, mas mesmo assim constata uma fila enorme de pessoas que se dispõe a pagar pela solução do seu problema.

Entretanto, surge um questão facilmente previsível. Muitas pessoas gostariam de vencer a calvície, porque foram por décadas maltratadas por ela, porém não tem dinheiro suficiente para o tratamento. É claro também que, fosse mais barato, o médico não teria tempo e nem sossego para atender todos os seus pacientes; o preço é uma forma de diminuir a demanda e respeitar a lei de oferta e procura. Todavia, o inventor – que é uma boa pessoa – ensina alguns colegas a fabricar o xampu e a fazer o adequado tratamento, que é difícil e demorado. Outros profissionais chegam, mas o problema se mantém: como levar a descoberta a todos?

Ele se esforça, através de publicações e demonstrações, para que o governo tome conhecimento de que descobriu a cura da calvície, mas o governo tem outras prioridades. Afinal ser careca não é tão ruim assim, não é verdade? Existem coisas mais importantes a tratar. A imensa maioria dos colegas deste profissional ganha um bom dinheiro vendendo perucas e poucos estão realmente interessados na descoberta revolucionária. Por outro lado, quem teve o cabelo de volta sente-se muito agradecido, e coloca relatos e vídeos na Internet, o que só faz aumentar o número de interessados. Os poucos especialistas que se dedicam à nova descoberta ganham bem pelo tratamento, mas muitos pacientes sem recursos continuam carecas, enquanto outros acham que peruca é legal, pois o importante “é ter algo cobrindo a cabeça“.

Com o tempo os especialistas que restauram o cabelo são alvo de perseguições e difamações pelos colegas, os mesmos que lucram com as perucas. São atacados, vilipendiados, difamados e maltratados. Entretanto, colecionam sucessos e ficam conhecidos. São os “cabelistas“, que se contrapõem aos “peruquistas“, pelos quais são odiados. A associação de profissionais convoca reuniões para mostrar que são as próprias pessoas que escolhem usar perucas, pois o tratamento natural para restaurar cabelo é demorado e impõe uma certa dedicação do paciente. Além disso, se apressam em mostrar como as perucas são modernas, tecnológicas, feitas com fios “quase naturais”, não tem risco algum e são lindas.

O Movimento do Cabelo Natural, apesar de todos os ataques e mentiras, ganha as ruas, a mídia, os clientes e seduz cada dia mais profissionais, cansados de vender perucas para sujeitos que poderiam ter seu próprio cabelo. Esses pacientes são a melhor propaganda do novo tratamento, pois melhoram sua auto estima e impõem um novo direcionamento para suas vidas. “Se eu posso ter meu cabelo de volta, agora posso vencer qualquer desafio“, dizem os orgulhosos pacientes.

Ainda assim pessoas são condicionadas a comprar perucas, pois os profissionais mais conservadores não querem se reciclar ou não desejam perder tanto tempo com um tratamento que as vezes pode até não funcionar. Preferem continuar vendendo perucas, um tratamento simples e rápido, mas com inúmeros efeitos colaterais. Eczemas, dermatites, infecções, retração do couro cabeludo e até morte (3,5 x mais comum do que no tratamento capilar) pela anafilaxia causada pelos produtos de fixação da peruca.

Como fazer para que todos os carecas, não só os que tem recursos, possam ter o direito assegurado a um cabelo natural e mais seguro? Como garantir liberdade de escolha para ter seus cabelos naturais, ou para ter uma peruca (para quem assim escolher)? Como forçar os “peruquistas” a utilizar o tratamento mais natural se muitos não querem, não sabem ou não se interessam?  Como lidar com o fato de que os intermediários pagam o mesmo pelo cabelo natural ou pela peruca, mas esta última se coloca em 30 minutos, enquanto um tratamento natural leva meses?

Mas… a culpa pela falta de profissionais para tratar os carecas menos abastados é dos poucos profissionais que se dedicam e se expõe oferecendo a terapia mais lógica, segura e racional? Ou é do sistema? Ou será dos pacientes, que não se mobilizaram para garantir o direito a um cabelo sedoso, abundante e natural pago pelo governo?

Qual sua proposta para a encruzilhada do cabelo natural?

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Dilema Médico

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Ontem à noite recebi o telefonema de uma paciente que não conhecia, mas que estava sendo acompanhada por uma colega que está viajando, participando de um congresso em SP. Apresentou-se dizendo ser paciente da Dra. Fulana e que ela havia me indicado durante sua ausência, coisa que eu já sabia de antemão, pois havia sido previamente combinado com minha colega. A paciente disse que estava com 39 semanas de gestação e a bolsa havia acabado de se romper.

Perguntei da movimentação fetal e da cor do líquido. A resposta foi que o bebê estava se movimentando bem e que o líquido era transparente. Combinei com ela de ir à sua casa para avaliar os batimentos do bebê e conversar. Estávamos em pleno domingo em Porto Alegre, a terra dos 92.5% das cesarianas da Unimed. Aliás, este era o convênio que ela possuía. Algumas horas depois fomos, eu e Zeza, à sua casa para fazer uma avaliação. As contrações já haviam aparecido, mas estavam frágeis e esparsas, como uma em cada 15 ou 20 minutos, e muito fracas e curtas. Exames de pré-natal, BCFs, pressão, temperatura, posição fetal, etc. todos valores normais. Mas havia um porém…

Ela não nos conhecia, apenas havia escutado que somos a favor dos partos normais. Nunca havia participado do curso de gestantes da Zeza, ou conversado longamente sobre os grandes dilemas do parto, principalmente uma RUPREMA (ruptura prematura de membranas). Estava assustada. Ao seu lado estavam seus pais e seu jovem marido de primeira viagem. Ela mesma contou que havia nascido de cesariana por apresentação pélvica. Depois de uma avaliação cuidadosa e de algumas explicações sobre o que poderia ocorrer sua mãe me perguntou se era seguro um parto normal, e se uma cesariana não seria indicada. Foi então que ela interrompeu minhas explicações aos pais e falou de seus sentimentos e dúvidas. Este foi o ponto nevrálgico do seu parto.

Dr. sei que minha bolsa rompeu e que isso é arriscado, pois o parto pode ser “seco”. Sei também que nessas circunstâncias se faz uma indução, mas se é para induzir eu estou pensando em uma cesariana. O que o Sr. acha?

Veja bem… Eu me encontrava diante de uma encruzilhada: operar uma paciente às 20h de um domingo e voltar para casa a tempo de ver os gols do Fantástico, dormir bem e começar a semana sem atrapalhações e sem correr RISCOS (para mim, por certo), atender meu consultório na manhã de segunda feira… ou esperar o desencadeamento de um parto que poderá ocorrer muitas horas depois, e que talvez acabe em uma cesariana. Que fazer?

E tudo isso por 500 reais…

Façam a escolha. A primeira alternativa é ISENTA de riscos para o médico. Não atrapalha o domingo, não incomoda o consultório pela manhã, não lhe tira o sono, não traz transtornos para a relação com o paciente – afinal foi ELA quem sugeriu a cesariana – e podemos colocar este caso na conta dos “pacientes que optam pela cirurgia”. Jamais um médico que faz esta opção será criticado pela classe ou chamado a dar explicações como réu perante sua corporação. Já o segundo caminho significa uma noite de dedicação, o olhar de censura dos colegas (deixou essa bolsa rota por horas, tu viu?), a perda das consultas da manhã (por estar atendendo ou dormindo após o parto) e o risco do julgamento por parte da própria família (mas porque o senhor não fez o que eu sugeri?).

E pelos mesmos 500…

Minha resposta foi absolutamente “irresponsável”, ou “imoral”, no entendimento de Richard Dawkins: “Não vejo nenhuma justificativa para partirmos para uma cesariana. A bolsa rota, por si só, não indica uma cesariana e “parto seco” não tem valor na medicina atual: é apenas um mito. Creio que podemos dar um tempo para o seu bebê se ajeitar e suas contrações ficarem vigorosas. É uma questão de confiança e paciência. Vamos descansar e aguardar. Os valores de bem estar fetal estão excelentes. Descanse e aguarde. Ligue se for necessário, a qualquer momento”.

Algumas horas depois ela liga dando entrada no hospital. Ao exame, 6 cm. Cinco horas depois nasce um bebê de 3.180g, parto espontâneo hospitalar de cócoras, sem episiotomia e períneo íntegro. Nesse momento este lindo bebê está no colo de sua mãe, que se movimenta pelo hospital sem nenhum ponto de sutura em seu corpo. Minha pergunta: Num universo paralelo, onde minha escolha fosse diferente, o que uma paciente diria diante das seguintes palavras de seu médico: “É verdade, a bolsa rompeu e você nem está com contrações. O colo deve estar fechado e teremos que induzir. Podemos provocar as contrações no hospital e ainda assim ter que fazer uma cesariana, e você teria os dois sofrimentos: as contrações e a recuperação da cirurgia. Você tem razão: o melhor é partir para a cirurgia e poupar você de tanta dor…

A família respiraria aliviada. Afinal, a decisão do doutor lhes retira o peso e o pânico de esperar o desfecho demorado de um parto normal. Fazer a cirurgia abreviaria o sofrimento de aguardar pelo parto, evento tratado de forma apavorante, aterrorizante e dramática pela cultura, a ponto de ser totalmente “desnaturalizado”, imaginando ilusoriamente que o controle cirúrgico do evento pelas mãos dos profissionais lhe configura mais segurança. “Sim, melhor aceitar o conselho do doutor. Uma cirurgia é a melhor escolha. Afinal, o melhor é quando mães e bebês estão bem, certo? A forma de nascer não importa de nada. E, além disso, o doutor deve estar certo, já que estudou tanto para isso…

Será que me fiz entender sobre os dilemas de uma indicação cirúrgica no contexto dos planos de saúde e na classe média contemporânea? ______________________

Para quem quiser ler o artigo “Dilema Médico” traduzido para o francês por Hélène Vadeboncoeur

LE DILEMME D’UN OBSTÉTRICIEN-GYNÉCOLOGUE : ATTENDRE APRÈS UN ACCOUCHEMENT OU FAIRE UNE CÉSARIENNE ?

Ricardo Herbert Jones.

Reproduit le 29 juin 2015 sur Facebook par Movimento Nascer Melhor, traduit par Hélène Vadeboncoeur, Ph.D, chercheure en périnatalité, le 15 juillet 2015.

Hier soir, j’ai reçu l’appel d’un patiente que je ne connaissais pas, mais qui était suivie par un collègue en voyage, en train d’assister à un congrès à Sao Paulo. C’était une patiente de Dr. Fulana et celle-ci lui avait recommandé de m’appeler durant son absence. Je la connaissais, comme collègue. La patiente a déclaré qu’elle était à 39 semaines de grossesse et que ses eaux avaient crevé.

Je lui ai posé des questions sur les mouvements du bébé et sur la couleur du liquide amniotique. Elle m’a répondu que le bébé allait bien et que le liquide était transparent. Je lui ai dit que j’irais chez elle écouter le cœur du bébé et parler avec elle. Nous étions un dimanche, à Porto Alegre, ville avec un taux de césariennes de 92,5 % (Unimed).   Elle accepta.

Quelques heures plus tard nous sommes allés, moi et Zeza (ma femme qui est sage-femme) chez elle, pour faire une évaluation de la situation. Elle avait commencé à avoir des contractions, mais celles-ci étaient faibles et peu fréquentes (toutes les 15-20 minutes). Test prénatal, FBC, tension artérielle, température, position fœtale : tout était normal. Mais il y avait quelque chose…

Elle ne nous connaissait pas, mais elle avait entendu que nous étions en faveur de l’accouchement naturel. Elle n’avait pas participé aux rencontres prénatales animées par Zeza, ni discuté longuement des questions controversées reliés à l’accouchement, en particulier de la rupture prématurée des membranes. Elle avait peur. À ses côtés prenaient place ses parents et son jeune époux. Elle a dit qu’elle était née par césarienne (présentation par le siège). Après mûre réflexion et quelques explications sur ce qui se produirait, sa maman m’a demandé si un accouchement naturel était sécuritaire, et si une césarienne ne serait pas plutôt indiquée. C’est alors que la jeune femme a interrompu mes explications à ses parents et a parlé de ce qu’elle ressentait et de ses doutes. Ce fut un point tournant.

Le médecin sait que mes eaux ont crevé et que c’est risqué car l’accouchement se ferait ‘à sec’. Je sais aussi que, dans ces circonstances, on induit mais je pense aussi à la césarienne. Qu’en pensez-vous?”Vous voyez… J’étais à la croisée des chemins: ou bien une césarienne faite à 20 heures le dimanche, et je serais de retour à la maison à temps pour voir les buts de Fantastique, j’aurais une bonne nuit de sommeil et je commencerais la semaine sans problèmes et sans prendre de risques (pour moi, à coup sûr). Je serais à mon bureau le lundi matin… ou bien j’attendrais que se déclenche l’accouchement – ce qui pourrait n’arriver que plusieurs heures après, et qui pourrait aboutir à une césarienne. Que faire ?

Et tout cela pour 500 reais…

Choisir. Le choix de faire une césarienne est sans risque pour le médecin. On la fait le dimanche, cela ne dérange pas les heures de bureau le lundi matin. Cela ne nuirait pas à ma relation avec la patiente – après tout c’est elle qui a évoqué la césarienne, et ce serait classé dans la catégorie ‘les patientes qui optent pour l’opération’. Jamais un médecin qui choisit de faire une telle césarienne ne sera critiqué par ses pairs ni appelé à s’expliquer devant le Collège des médecins.La deuxième optioin signifie une soirée dédiée à accompagner cette femme lors de son accouchement, le regard réprobateur de collègues (vous avez laissé cette femme accoucher combien de temps après la rupture des membranes ?), l’annulation des rendez-vous avec vos patientes durant la matinée (parce que vous attendiez qu’elle donne naissance ou vous deviez dormir une fois celle-ci arrivée), le risque d’un procès de la famille (pourquoi n’avez-vous pas fait ce que j’avais suggéré?).

Et tout cela pour 500 reais.

Ma réponse, dans la perspective de Richard Dawkins, fut absolument “irresponsable” ou “immorale”: ”Je ne vois aucune raison de vous faire une césarienne. Des membranes rompues ne sont pas une indication de césarienne, et le concept de ‘naissance à sec’ est un mythe. Je pense que nous pouvons attendre un certain temps que votre bébé se positionne pour le travail et que les contractions s’intensifient. C’est une question de confiance et de patience. Nous reposer et attendre. Les paramètres de bien-être fœtal sont excellents. Vous reposer et attendre. Et m’appeler, le cas échéant, n’importe quand.”

Quelques heures plus tard, elle demande à être admise à l’hôpital. Elle est alors dilatée de 6 cm, et donne naissance, 5 heures après, à un bébé de 3 180 g, de manière spontanée en position accroupie, sans épisiotomie ni déchirure périnéale. Depuis qu’il est né, le bébé est dans les bras de sa mère, et elle se déplace dans la chambre de l’hôpital, le corps intact.

Ma question : dans un univers parallèle, où mon choix aurait été différent, que dirait ma patiente des paroles de son médecin: “C’est vrai, vos membranes sont rompues et vous n’avez pas de contractions. Votre col est fermé, et nous allons devoir provoquer l’accouchement. Nous pouvons le faire à l’hôpital, et il se peut que cela aboutisse en césarienne. Vous vous retrouveriez alors à avoir affronté deux difficultés : les contractions et la récupération de la chirurgie. Vous avez raison : il est préférable d’opter pour la chirurgie et de vous épargner la douleur des contractions.

La famille pousserait alors un soupir de soulagement. Après tout, la décision du médecin lui enlève un poids et l’inquiétude relativement au bon déroulement d’un accouchement naturel. Opérer abrège la souffrance reliée à l’attente du bébé, à l’accouchement, un événement considéré comme terrifiant, terrifiant et dramatique dans notre culture, au point d’avoir été complètement ‘dénaturalisé’. Où on a l’illusion – à tort – que le contrôle de l’événement au moyen de la chirurgie le rend sécuritaire simplement parce que celle-ci est aux mains de professionnels de la santé. “Oui, vous devriez suivre l’avis du médecin. La chirurgie est le meilleur choix. Après tout, c’est le bien-être des mères et des bébés qui est le plus important, n’est-ce pas ? La manière de naître n’est pas importante.

“En plus, la manière dont un bébé naît n’est pas importante.”“Et, en outre, ce que le médecin fait est sûrement juste, il a étudié si fort pour devenir médecin !

C’était mon opinion sur le dilemme posé par une indication chirurgicale, dans le contexte des plans de santé et de la classe moyenne.

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Teia de Mentiras

Teia de Mentiras

Quando uma teia bem costurada de mentiras é vendida gradualmente para as pessoas através de gerações, a Verdade nos parece profundamente absurda e aquele que a traz um lunático em delírio“. (Dresden James)

Pensei nisso hoje quando discutia questões como episiotomias, circuncisões e cesarianas com um grupo extremamente ativo e lúcido de feministas americanas. Algumas mentiras (como a superioridade das cesarianas em oferecer segurança, os benefícios da episiotomia ou a inocuidade das circuncisões) foram enfiadas goela abaixo de gerações de homens e mulheres com tanto vigor e intensidade que qualquer um que ouse questionar estas inverdades é imediatamente tratado como ignorante ou maluco. Mentiras que, de tanto usarem a capa da verdade, acreditamos serem legítimas. Só o contraditório, a informação, o debate e o confronto podem nos auxiliar na busca do aprimoramento.

E o tempo, senhor de todas as verdades…

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Como saí do Armário

Hand of a child opening a cupboard door

É claro que eu contei primeiro para a minha mãe. Todos nós sentimos mais confiança nela, não? Ela é nossa reserva de amor, e confiamos que seu julgamento será baseado no afeto que tem por nós. Um dia, com um misto de coragem e um senso de urgência, eu falei assim prá ela:

– Sabe mãe, eu não sou como os outros meninos. Sempre soube que era, digamos, “diferente”. Desde o tempo da faculdade que tenho esses sentimentos estranhos. De inicio eu não me aceitava, ficava tentando me enganar. Até fiz coisas que me violentavam. Hoje sinto vergonha de coisas que fiz só por medo de não ser aceito. Não queria que os outros meninos me achassem estranho, bizarro e fizessem troça de mim. Todo mundo quer ser aceito, mãe. Na verdade a gente faz qualquer coisa nesse sentido; até faz coisas que agridem seus princípios.

– Sua mãe vai lhe apoiar sempre, filho…

– Sei disso, mãe, por isso tenho certeza que posso me abrir. Mãe, eu preciso lhe contar…

– Diga meu filho…

O momento era de angústia, e se podia sentir na própria pele. Um segredo por tempo guardado, mas que precisava ser revelado. Minha esperança é que minha mãe pudesse escutá-lo com ouvidos amorosos, e que seu julgamento não fosse duro e cruel como tantos que já havia presenciado.

– Mãe, preciso te dizer, antes que você fique sabendo por outros. Eu, eu, eu… eu não gosto tanto de cesariana quanto gosto de parto normal. Veja bem, não é que eu não goste de operar, mas é diferente. É uma sensação difícil de explicar. Operar não me completa tanto quanto ver uma mulher parindo pelas suas próprias forças. É uma coisa assim, sublime. É como se a cada parto eu pudesse ver um arco-íris na minha frente, brilhante, colorido e resplandecente. Espero que me entenda. Agora não tenho mais medo de lhe contar…

Minha mãe sorriu se escutasse uma história antiga.

– Meu filho, tolinho. Eu sempre soube e agora que você me contou eu o amo mais ainda. Vem aqui dar um abraço na sua velha mãe…

Foi assim. Levou tempo para contar, mas depois de dizer a ela eu me senti muito mais leve. Limpo e digno.

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A necessidade das Doulas

RenataFrohlich044a

Creio que quando falamos de doulas e suas tarefas na assistência ao parto precisamos deixar papéis e funções bem claras. Muito já foi dito sobre o quanto uma doula pode ser importante no parto, pela vinculação emocional que ela produz com a mulher que está parindo, assim como muito já se disse sobre os limites desta atuação. Doulas NÃO fazem nenhuma ação médica ou de enfermagem. Doulas não substituem o pai, e não discutem determinações médicas. Doulas não receitam droga de espécie alguma e não assumem o protagonismo pela mulher. Doulas são ajudantes, amigas, parceiras compassivas e auxiliares experientes na tarefa de fazer nascer.

Mas são elas fundamentais?

Eu acho que nós precisamos contextualizar. O movimento de doulas no Brasil já tem mais de 10 anos, e muitas doulas no Brasil saem dos cursos de capacitação todos os dias com o real interesse de ajudar gestantes na tarefa de parir. Para muitas mulheres, com suas histórias, contextos e circunstâncias, uma doula será fundamental, mas para que isso aconteça deveremos respeitar o sentimento dela sobre o evento. Caso contrário criaremos apenas outra invasão sobre a autonomia das mulheres.

Quando eu fui pai – há mais de 30 anos – não havia doulas. Minha mulher não teve este tipo de ajuda e apenas pude estar presente porque era estudante de medicina. Ela deu a luz em um parto grosseiro, em uma sala cheia de profissionais pouco afeitos a trabalhar com a magia do nascimento. Entretanto, ela pariu. Posso dizer que, para ela uma doula não foi “fundamental”, o que não significa que, se uma doula estivesse presente, ela não poderia ter uma experiência muito mais gratificante e menos angustiante.

É possível que a grande dificuldade quando tratamos da presença de uma doula esteja na ideia de que isso seja “fundamental”. Essa expressão nos leva aos fundamentos, à essência, condições sine-qua-non. Por exemplo: uma bola é fundamental para o futebol; um juiz não. Assim, podemos dizer que para o nascimento de uma criança apenas a mãe e o seu bebê são “fundamentais”; todo o resto vem por acréscimo. Desta forma, para um parto é necessário que haja uma grávida, mas não uma doula. É importante, entretanto, que entendamos quando as ativistas dizem: “Toda mulher TEM que ter uma doula“. Nesse caso, trata-se de uma emoção, uma maneira muito mais simbólica do que real de tratar a importância que elas percebem na ação de uma doula. É apenas a expressão de uma alegria e de uma gratidão, e não um tratado sobre a ontologia do parto.

Ter uma doula em um parto PODE ser espetacular para o desenvolvimento do parto, por que tem a ver com as necessidades básicas humanas de carinho, suporte, apoio e afeto. Entretanto, para algumas mulheres a presença de qualquer pessoa pode produzir um efeito contrário, e nesse caso uma doula NÃO deveria estar presente. Essa é a tese que eu mais me dedico no momento: o “Parto na Perspectiva do Sujeito“. Nós, profissionais de saúde e gestores, temos o DEVER de oferecer uma doula para todas as gestantes, tanto quando oferecemos cesarianas para casos patológicos, analgesias para dores acima do limite ou antibióticos nas infecções. Eu até acredito que não disponibilizar uma doula um dia será considerado antiético, se forem proféticas as palavras do Dr John Kennell. Todavia, utilizar uma doula como ajudante na atenção ao parto só pode ocorrer quando estiver em sintonia com as características do SUJEITO que está parindo, e não pela imposição de protocolos coisificantes, objetualizantes e homogeinizantes. Uma doula é um DIREITO, e jamais uma rotina hospitalar ou uma peça de mobiliário, que estará junto à gravida quer ela queira ou não.

Somos muito mais do que mamíferos, e nossa conformação racional nos impõe características ímpares. Somos agentes da natureza, e não apenas submetidos à sua vontade. Somos seres de linguagem, vagamos no universo da palavra, volitamos sobre significados e significantes e não podemos ser analisados apartados da consciência que conquistamos. Assim, determinar uma doula como “essencial” é desreconhecer nossa característica única de “humanos”, tanto quanto impor analgesias ou decretar a privacidade como igualmente “fundamentais”.

Deixemos nas mãos das mulheres as escolhas, este é o caminho. Se é importante oferecer a elas o que o conhecimento nos mostra como válido, mais fundamental ainda é permitir que cada mulher faça suas escolhas como desejar, baseadas em sua vida, desejos e valores.

PS: Esse é um debate que aconteceu em 2012, reformatado…
Na foto, Zeza Jones, Doula Zezé e Renata Fröhlich no nascimento de Flora, em 29/12/2007

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Cesarianas em excesso

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A propósito, com relação às cesarianas em excesso…

Diminuir “na marra” as cesarianas excessivas que presenciamos no mundo contemporâneo jamais será uma solução definitiva. De que adianta diminuir índices de cesariana para aumentar taxas de violência obstétrica? Nada, pelo contrário, tal atitude só tornará a situação pior e criará uma fama injusta para o parto normal. É inútil solicitar aos profissionais errados que façam o trabalho correto. Michel Odent já falava isso há muitos anos. A simples diminuição de cesarianas não nos leva a lugar algum. O que precisamos é tornar o parto um evento tão grandioso e prazeroso que a cesariana se tornará a mais tola das escolhas, ou a mais rara das opções.

É necessário MELHORAR o parto, para que as cesarianas caiam por consequência, e não por decreto

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Cesarianas, episiotomias, clitoridectomias…

Cesariana

Episiotomias, cesarianas, histerectomias, ooforectomias…

O que estas cirurgias têm a nos dizer?

Aparte de ocorrerem apenas em um gênero – as mulheres – tais intervenções estão entre as cirurgias mais realizadas do mundo, mas a ninguém parece lícito questionar a necessidade de algumas destas cirurgias. Nós mesmos, os humanistas do nascimento, historicamente defendemos a cesariana bem indicada, criticando apenas seu uso abusivo e indiscriminado. Porém, estamos nos aproximando de números para os quais não existe justificativa. Nos Estados Unidos as cesarianas já chegaram a 33% das gestantes, mais de 1 milhão delas sendo realizadas todos os anos. O Brasil ostenta a vergonhosa marca de 56% de cesarianas todos os anos. No setor privado brasileiro as cesarianas se aproximam de 90%, mostrando que a obstetrícia brasileira desistiu da atenção ao parto normal, oferecendo a via sedutora e alienante da cesariana como primeira (e muitas vezes única) alternativa.

Estes números sobre a forma de nascer deveriam acender um sinal vermelho intermitente para a sociedade. A “vida natural” parece estar cedendo espaço de forma intensa para sua vertente artificial. O nível de intervenção sobre o ciclo fisiológico feminino atinge coeficientes absurdos e inaceitáveis. Entretanto, quando vamos analisar a cesariana com mais profundidade para entender as reais motivações para a sua realização abusiva, percebemos que ela não está isolada no espectro de intervenções sobre o corpo feminino.

As histerectomias estão entre as cirurgias mais realizadas nos Estados Unidos. Por volta de 600 mil são realizadas todos os anos, e mais de 20 milhões de americanas não possuem mais o seu útero. As episiotomias, apesar da sua queda na prática obstétrica graças a quase três décadas de evidências científicas em contrário, ainda são muito utilizadas por lá. No Brasil os relatos das pacientes que sofreram uma episiotomia nos chegam diuturnamente, e até revistas para mulheres ainda as caracterizam como “pequenas intervenções que não machucam a mãe”.

Estas intervenções cirúrgicas ocorrem exclusivamente entre as mulheres e sobre a sua sexualidade. Qual a razão disso?

Para entender as razões para o aumento de cesarianas é fundamental inseri-las no contexto das intervenções culturalmente aplicadas sobre o corpo da mulher, onde esta cirurgia se situa como a mais chamativa, mas não a única.

A clitoridectomia – retirada cirúrgica do clitóris – cirurgia ritualística utilizada por alguns povos africanos, também se caracteriza por uma intervenção ablativa sobre o corpo da mulher. Para estas mulheres a retirada do clitóris as capacita para a vida adulta, fornecendo um ritual de iniciação preparatório para a maternidade. Este ritual milenar, assim como todos os outros que fazem parte do nosso dia-a-dia, não se estabelece ao acaso. Um ritual pode ser definido como “um ato repetitivo, padronizado e simbólico, de uma crença cultural ou um valor. Estas atitudes podem ser simultaneamente ritualísticas ou técnico-racionais”, segundo a definição de Robbie Davis-Floyd. Assim, um ritual qualquer pode ser entendido como a encenação de um valor cultural, de forma consciente ou não.

Uma clitoridectomia e uma cesariana, desta forma, obedecem a um ordenamento semelhante, pois se caracterizam por encenações de valores profundos relacionados à mulher e ao feminino. Se para muitos fica clara a ideia de que a clitoridectomia é uma violência para cercear e controlar a sexualidade feminina, para alguns a mesma lógica pode ser aplicada à realização abusiva de cesarianas, que apenas demonstra uma dificuldade de lidar com as energias de ordem sexual que se tornam evidentes no transcorrer de um parto. A retirada de úteros e ovários, práticas comuns nas sociedades ocidentais também corroboram esta hipótese na medida em que confirmam a noção do corpo da mulher como sendo imperfeito, mal elaborado e defectivo, indigno de confiança.

As sociedades humanas temem a sexualidade feminina porque ela atenta contra um dos seus pilares mais importantes de sustentação: o patriarcado.

As intervenções sobre o corpo da mulher estão assentadas sobre um olhar específico sobre o feminino. Cesarianas, histerectomias, clitoridectomia, episiotomias são todas faces de uma mesma figura. O uso alastrado de formas ablativas de intervenção em seus corpos se baseia na ideia da mulher como ser perigoso, traiçoeiro, dissimulado e inconfiável. As razões médicas para tamanha intervenção são incapazes de explicar a enorme adesão a esta forma de atenção. As culturas humanas olham para a mulher de uma forma depreciativa. Seus órgãos são frágeis e problemáticos, sua menstruação é uma “sangria inútil”, sua gestação é uma bomba relógio prestes a explodir e sua menopausa é uma “falência” que necessita de reposições químicas, caso contrário seus ossos se tornam farinha e se quebram.

Nenhum aspecto FISIOLÓGICO da vida masculina recebe atenção ou tratamento da medicina. Como dizia meu colega Max “Se mulheres tivessem barba haveria tratamento para isso”.

Para entender a profusão de cesarianas é importante entender a mulher e seu contexto. Para mudar esta realidade não será suficiente proibirmos as cesarianas, ou mesmo penalizarmos quem as comete em demasia. É preciso mudar a forma como a sociedade enxerga a mulher e o feminino, valorizando seus rituais de passagem e oferecendo um olhar positivo para eles. O cuidado com momentos críticos da vida reprodutiva e sexual de uma mulher exige mais do que simplesmente intervir quando é necessário; implica em valorizar o que existe de belo e estimular  a vivência mais natural possível destes eventos.

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