Arquivo da tag: piadas

Sobre o humor

É curioso ver o quanto o humor é atacado nos tempos atuais, em especial porque em tempos de identitarismos e de cancelamentos os próprios humoristas tiveram que refrear sua propensão a fazer piadas sobre tudo e todos. A grande queixa é que o humor “pode ferir as pessoas” e os humoristas não deveriam fazer de sua arte uma arma para gerar sofrimento, exclusão, preconceito e divisões.

Parece justo, desde que se entenda a diferença entre piada e “humor bullying”. Existe entre elas uma diferença muito grande que poucas pessoas – até mesmo por oportunismo – se negam a ver. É possível – e eu diria, é necessário – fazer piada com QUALQUER coisa. Sim, inclusive mortes de crianças, câncer, tragédias e até abusos, desde que o texto do gracejo respeite o CONTEXTO. A piada não pode ser o veículo que carrega o preconceito. Ela não pode ser usada para que uma mensagem obtusa, excludente ou claramente ofensiva seja levada adiante sem pagar o preço de uma posição aberta e estampada. “Ah, relaxa, é só uma piada”, frequentemente é usado para esconder uma manifestação de puro racismo, sexismo, lgbtfobia, preconceito de classe, etc. O humor não deveria se prestar para isso, mas para quebrar a arrogância que cada um constrói sobre si mesmo ou o grupo ao qual pertence.

O HUMOR É SAGRADO e eu não acho que existam etnias, gêneros, comportamentos ou orientações sexuais que possam exigir isenção à acidez natural e benéfica de uma piada. Um chiste humaniza a todos nós, mostrando nossas quedas, falhas, desacertos e aspectos ridículos. Nos reinos antigos o Menestrel tinha pleno direito de fazer gracejos com o Rei e sua família, porque assim humanizado o povo se sentia mais próximo dele – e assim podia ser mais facilmente manipulado e roubado.

Portanto, creio ser importante garantir o direito à piada, ao gracejo e ao humor… sobre QUALQUER coisa, sem limites (a não ser os legais, se houver) e sem censura. Como diria um famoso piadista americano quando perguntado se era possível fazer piada com “câncer infantil”, sua resposta foi excelente: “Claro que pode, mas é melhor que seja muito boa”. Ele dizia que tocar em um ponto tão delicado como este para fazer humor é possível, mas é importante que a qualidade da piada e seu contexto sejam tão bons a ponto de romper a barreira que naturalmente usamos para nos defender destes temas.

Aliás, para mim um dos piores tipos de exclusão em um grupo é saber que meus iguais se negam a fazer gracejos a meu respeito apenas porque acham que minha condição – seja ela qual for – me impediria de rir de mim mesmo.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

Snow flake

 

Uma das minhas manias mais radicais é com a questão da liberdade de expressão; sou fanático por isso. Não aceito de forma alguma cerceamento de consciência. Não vejo erro em defender vacinas, putaria, homeopatia, transexualismo, futebol, parto humanizado, homem, mulher, gays, nazismo, comunismo e neoliberalismo. Tudo, literalmente tudo, e sempre no terreno das idéias.

Infelizmente vemos a censura da geração “overly woke”, ou “snowflake” que nao suporta que determinados grupos ou ideias possam ser submetidos a críticas e – muito pior do que isso – ao humor.

Ontem assisti dois espetáculos de stand up que tratam exatamente dessa questão: Rick Gervais e Brimbilla. Ambos traziam uma temática provocativa sobre temas complexos, passando dos transgêneros aos abusos sexuais. Evidentemente, com graça e humor, mas sem fugir do tema e sem sacralizar grupos e sujeitos.

Sim…. é possível fazer humor com qualquer tema. Morte, estupro, mulher, homem, gay, judeus ou palestinos. A questão é a forma, a circunstância e o contexto. Se a piada visa humilhar um grupo, sendo apenas um veículo desse ataque, somente os preconceituosos serão parceiros nas risadas. Porém, se a piada serve para puxar o tapete de nossas certezas e nossa arrogância – para qualquer sujeito ou grupo – essa piada precisa ser PROTEGIDA dos batalhões snowflake, pois ela está na essência humanizadora do humor, a mesma que percorria o coração dos menestréis quando ridicularizavam a vida palaciana e apontavam a nudez dos soberanos.

Uma vida onde o humor é sufocado pela simples possibilidade de ferir suscetibilidades é uma vida onde os poderes são estanques, a existência imutável e o sorriso criminalizado.

Quem se leva muito a sério e não consegue rir de si mesmo está condenado a jamais entender sua própria existência, sufocado pelo mau humor e por uma falsa idéia de proteção.

Para exercício de alteridade aconselho refletir sobre os perigos de uma postura pusilânime em relação aos grupos minoritários. E claro, assistam “Humanidades” de Rick Gervais.

E sobre o humor, invoco Belchior:

 

“Não me peça que eu lhe faça

Uma canção (piada) como se deve

Suave limpa, muito linda muito leve

Sons e palavras são navalhas

E eu não posso cantar (contar) como convém

Sem querer ferir ninguém”

Salve o humor.
O humor não morrerá jamais.
Chega de caretice.
Abaixo toda forma de racismo.

 

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo, Pensamentos

Sensacionalista

fb_img_1486938468624

O site de humor Sensacionalista acaba de iniciar uma parceria com a Veja, o folhetim de extrema direita reacionária. Para alguém que acha que é possível fazer humor alinhado ao grande poder e ao lado da imprensa mais fascista eu apenas tenho a dizer: R.I.P. Sensacionalista.

Lembro o “Perdidos na Noite”, com a irreverência do Faustão, sendo cooptado pela Globo que oferecia a ele “total liberdade criativa”. Resultado: a dança dos famosos, babaca por um dia e entrevista chapa branca com artista que bebe e atropela.

Veja é muito mais esperta do que os caras do Sensacionalista. Compraram e colocam na folha de pagamento um menestrel adestrado, contratado para fazer pilhéria do Rei, mas que sabe muito bem até onde pode debochar do patrão.

Não se deixem enganar pelas aparentes críticas na primeira edição do Sensacionalista. O humor não pode jamais ser presa de um poder econômico. Com essa atitude perdeu o humor, perdeu o Sensacionalista e perdemos todos o prazer de ver a graça autêntica e livre.

Os que aderem ao poder sempre pensam: “Eles acham que podem me comprar, mas sou mais esperto. Nunca vou me vender”. Tolos… Isso acontece na medicina com os presentes, prêmios, vantagens e toda sorte de badulaques oferecidos pela indústria farmacêutica. Muitos médicos ingenuamente acreditam que as vantagens recebidas não vão condicionar seu julgamento sobre determinada droga ou tratamento.

Pura ilusão. Mas estas estratégias funcionam exatamente porque desprezamos a sua influência subconsciente de direcionar e moldar nossa vinculação com a realidade.

Deixe um comentário

Arquivado em Política

Bobagens

cabeca-oca_slide

No que estou pensando?

Penso em muitas coisas mas a maioria é bobagem. Não tem sentido nem direção. Tipo uma diversão mental em solilóquio.

Por exemplo, quando escuto alguém dizer que tomou banho numa Jacuzzi eu sempre penso no Emile Zola, gordo, descabelado, com bigode apontando pra cima e com o dedo em riste dizendo “J’accuse!!!”. Também olho para o símbolo do Carrefour e digo mentalmente “Care  for” (me importo). Eu rio. Sempre que alguém me convida para fazer compras no Leroy Merlin eu digo para mim mesmo o nome em francês  (lerroá merlã), só porque acho mais chique.  Quando não tem nenhum lugar aberto para jantar eu digo “Só nos resta ir no Osmar”. Sempre um incauto pergunta: “Que Osmar?”, e eu respondo “Osmar Kidonald”.

Engraçadinho? Não… é um sintoma.

É por estas e outras razões que não sou convidado para festas desde 1963.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

O Retorno do Soldado

O Retorno do Soldado

(Roteiro adaptado sobre uma ideia original de Isabel Jones)

Depois de passar 12 anos foragido Ricachensky (Rick) Yonewsky voltou a ser visto em público. A sua trágica desaparição há mais de uma década destroçara sua família, destruíra seus afetos e criou uma dúvida entre todos os que de alguma forma privaram de sua intimidade.

O que, afinal, aconteceu com Rick Yonewsky?

As marcas no rosto denunciavam a dor e a penúria que sofreu. Do pouco que disse soube-se que vagou entre os campos de concentração na Armênia e o exílio no Turcomenistão. Quando, por fim, terminaram seus dias de angústia e pôde voltar para casa, só desejava o afago da família e o abraço dos filhos que, sem surpresa, sequer o reconheceram. Mas por que foi e, mais importante ainda, porque voltou? Que mistério rondava a “fuga” do soldado Rick?

Eu não lembrava mais da sua cara, papai“, disse Bebeluska, que mal sabia seu nome, já que há doze anos fora dado como morto ou foragido. “Porque voltou depois de tanto tempo?“, perguntou ela.

O velho soldado nem sabia o que dizer. “Voltei porque amo meu país, porque quero provar minha inocência, porque quero resgatar minha honra. E também porque acabou meu dinheiro”, disse ele derramando uma lágrima que driblava os sulcos profundos de sua máscara de sofrimento.

Sua mulher, Olga Zeziskaya, era duplamente viúva. De si mesmo, dado como desaparecido ou desertor, e de Vladimir Cocorutchka, vendedor de puxadores de persiana com quem havia se casado legalmente após Rick ser dado como oficialmente morto.

Infelizmente para ela Vladimir havia caído da janela em que instalava um puxador de persianas. Ao falsear o pé na borda ainda teve tempo de gritar “Perdoe-me Rick. Fiz tudo por amor”. As últimas palavras de “Vlad” denunciavam sua participação no “desaparecimento” de Rick, e talvez o regresso do soldado pudesse por fim esclarecer o mistério de 12 anos.

“Tenho muito a falar, e depois que o fizer não sobrará pedra sobre pedra. Aqueles que fizeram de minha vida um inferno pagarão por cada minuto de exílio e humilhação. E que Deus tenha piedade de suas almas, pois eu jamais perdoarei aqueles que tanto mal me causaram.”

Bebeluska chorava ao ver o pai tão velho e tão amargurado. Em sua cabecinha de menina era incapaz de imaginar as atrocidades pelas quais seu velho pai passou. Ela era toda espanto e surpresa, tanta que nem alegria pela volta do pai cabia em seu coração.

“Tudo isso ficará para amanhã. Quero todos aqui ao meu lado para que eu possa contar-lhes toda a verdade, a longa história suja que cerca meu desaparecimento. Aguardem.”, disse o velho combatente de olhar duro e face dolorida.

“Hoje apenas me permitam ir ao futebol, me afastar do mundo, desviar o olhar e a memória de tantos horrores e, por fim, olhar o preto, azul e branco vencer. Hoje só quero repousar a mente e, por alguns minutos, esquecer o que fiz, e o que fizeram de mim”.

Deixe um comentário

Arquivado em Humor