Arquivo da tag: piadas

Snow flake

 

Uma das minhas manias mais radicais é com a questão da liberdade de expressão; sou fanático por isso. Não aceito de forma alguma cerceamento de consciência. Não vejo erro em defender vacinas, putaria, homeopatia, transexualismo, futebol, parto humanizado, homem, mulher, gays, nazismo, comunismo e neoliberalismo. Tudo, literalmente tudo, e sempre no terreno das idéias.

Infelizmente vemos a censura da geração “overly woke”, ou “snowflake” que nao suporta que determinados grupos ou ideias possam ser submetidos a críticas e – muito pior do que isso – ao humor.

Ontem assisti dois espetáculos de stand up que tratam exatamente dessa questão: Rick Gervais e Brimbilla. Ambos traziam uma temática provocativa sobre temas complexos, passando dos transgêneros aos abusos sexuais. Evidentemente, com graça e humor, mas sem fugir do tema e sem sacralizar grupos e sujeitos.

Sim…. é possível fazer humor com qualquer tema. Morte, estupro, mulher, homem, gay, judeus ou palestinos. A questão é a forma, a circunstância e o contexto. Se a piada visa humilhar um grupo, sendo apenas um veículo desse ataque, somente os preconceituosos serão parceiros nas risadas. Porém, se a piada serve para puxar o tapete de nossas certezas e nossa arrogância – para qualquer sujeito ou grupo – essa piada precisa ser PROTEGIDA dos batalhões snowflake, pois ela está na essência humanizadora do humor, a mesma que percorria o coração dos menestréis quando ridicularizavam a vida palaciana e apontavam a nudez dos soberanos.

Uma vida onde o humor é sufocado pela simples possibilidade de ferir suscetibilidades é uma vida onde os poderes são estanques, a existência imutável e o sorriso criminalizado.

Quem se leva muito a sério e não consegue rir de si mesmo está condenado a jamais entender sua própria existência, sufocado pelo mau humor e por uma falsa idéia de proteção.

Para exercício de alteridade aconselho refletir sobre os perigos de uma postura pusilânime em relação aos grupos minoritários. E claro, assistam “Humanidades” de Rick Gervais.

E sobre o humor, invoco Belchior:

 

“Não me peça que eu lhe faça

Uma canção (piada) como se deve

Suave limpa, muito linda muito leve

Sons e palavras são navalhas

E eu não posso cantar (contar) como convém

Sem querer ferir ninguém”

Salve o humor.
O humor não morrerá jamais.
Chega de caretice.
Abaixo toda forma de racismo.

 

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo, Pensamentos

Sensacionalista

fb_img_1486938468624

O site de humor Sensacionalista acaba de iniciar uma parceria com a Veja, o folhetim de extrema direita reacionária. Para alguém que acha que é possível fazer humor alinhado ao grande poder e ao lado da imprensa mais fascista eu apenas tenho a dizer: R.I.P. Sensacionalista.

Lembro o “Perdidos na Noite”, com a irreverência do Faustão, sendo cooptado pela Globo que oferecia a ele “total liberdade criativa”. Resultado: a dança dos famosos, babaca por um dia e entrevista chapa branca com artista que bebe e atropela.

Veja é muito mais esperta do que os caras do Sensacionalista. Compraram e colocam na folha de pagamento um menestrel adestrado, contratado para fazer pilhéria do Rei, mas que sabe muito bem até onde pode debochar do patrão.

Não se deixem enganar pelas aparentes críticas na primeira edição do Sensacionalista. O humor não pode jamais ser presa de um poder econômico. Com essa atitude perdeu o humor, perdeu o Sensacionalista e perdemos todos o prazer de ver a graça autêntica e livre.

Os que aderem ao poder sempre pensam: “Eles acham que podem me comprar, mas sou mais esperto. Nunca vou me vender”. Tolos… Isso acontece na medicina com os presentes, prêmios, vantagens e toda sorte de badulaques oferecidos pela indústria farmacêutica. Muitos médicos ingenuamente acreditam que as vantagens recebidas não vão condicionar seu julgamento sobre determinada droga ou tratamento.

Pura ilusão. Mas estas estratégias funcionam exatamente porque desprezamos a sua influência subconsciente de direcionar e moldar nossa vinculação com a realidade.

Deixe um comentário

Arquivado em Política

Bobagens

cabeca-oca_slide

No que estou pensando?

Penso em muitas coisas mas a maioria é bobagem. Não tem sentido nem direção. Tipo uma diversão mental em solilóquio.

Por exemplo, quando escuto alguém dizer que tomou banho numa Jacuzzi eu sempre penso no Emile Zola, gordo, descabelado, com bigode apontando pra cima e com o dedo em riste dizendo “J’accuse!!!”. Também olho para o símbolo do Carrefour e digo mentalmente “Care  for” (me importo). Eu rio. Sempre que alguém me convida para fazer compras no Leroy Merlin eu digo para mim mesmo o nome em francês  (lerroá merlã), só porque acho mais chique.  Quando não tem nenhum lugar aberto para jantar eu digo “Só nos resta ir no Osmar”. Sempre um incauto pergunta: “Que Osmar?”, e eu respondo “Osmar Kidonald”.

Engraçadinho? Não… é um sintoma.

É por estas e outras razões que não sou convidado para festas desde 1963.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

O Retorno do Soldado

O Retorno do Soldado

(Roteiro adaptado sobre uma ideia original de Isabel Jones)

Depois de passar 12 anos foragido Ricachensky (Rick) Yonewsky voltou a ser visto em público. A sua trágica desaparição há mais de uma década destroçara sua família, destruíra seus afetos e criou uma dúvida entre todos os que de alguma forma privaram de sua intimidade.

O que, afinal, aconteceu com Rick Yonewsky?

As marcas no rosto denunciavam a dor e a penúria que sofreu. Do pouco que disse soube-se que vagou entre os campos de concentração na Armênia e o exílio no Turcomenistão. Quando, por fim, terminaram seus dias de angústia e pôde voltar para casa, só desejava o afago da família e o abraço dos filhos que, sem surpresa, sequer o reconheceram. Mas por que foi e, mais importante ainda, porque voltou? Que mistério rondava a “fuga” do soldado Rick?

Eu não lembrava mais da sua cara, papai“, disse Bebeluska, que mal sabia seu nome, já que há doze anos fora dado como morto ou foragido. “Porque voltou depois de tanto tempo?”, perguntou ela.

O velho soldado nem sabia o que dizer. “Voltei porque amo meu país, porque quero provar minha inocência, porque quero resgatar minha honra. E também porque acabou meu dinheiro”, disse ele derramando uma lágrima que driblava os sulcos profundos de sua máscara de sofrimento.

Sua mulher, Olga Zeziskaya, era duplamente viúva. De si mesmo, dado como desaparecido ou desertor, e de Vladimir Cocorutchka, vendedor de puxadores de persiana com quem havia se casado legalmente após Rick ser dado como oficialmente morto.

Infelizmente para ela Vladimir havia caído da janela em que instalava um puxador de persianas. Ao falsear o pé na borda ainda teve tempo de gritar ” Perdoe-me Rick. Fiz tudo por amor”. As últimas palavras de “Vlad” denunciavam sua participação no “desaparecimento” de Rick, e talvez o regresso do soldado pudesse por fim esclarecer o mistério de 12 anos.

“Tenho muito a falar, e depois que o fizer não sobrará pedra sobre pedra. Aqueles que fizeram de minha vida um inferno pagarão por cada minuto de exílio e humilhação. E que Deus tenha piedade de suas almas, pois eu jamais perdoarei aqueles que tanto mal me causaram.”

Bebeluska chorava ao ver o pai tão velho e tão amargurado. Em sua cabecinha de menina era incapaz de imaginar as atrocidades pelas quais seu velho pai passou. Ela era toda espanto e surpresa, tanta que nem alegria pela volta do pai cabia em seu coração.

“Tudo isso ficará para amanhã. Quero todos aqui ao meu lado para que eu possa contar-lhes toda a verdade, a longa história suja que cerca meu desaparecimento. Aguardem.”, disse o velho combatente de olhar duro e face dolorida.

“Hoje apenas me permitam ir ao futebol, me afastar do mundo, desviar o olhar e a memória de tantos horrores e, por fim, olhar o preto, azul e branco vencer. Hoje só quero repousar a mente e, por alguns minutos, esquecer o que fiz, e o que fizeram de mim”.

Deixe um comentário

Arquivado em Ficção

Como saí do Armário

Hand of a child opening a cupboard door

É claro que eu contei primeiro para a minha mãe. Todos nós sentimos mais confiança nela, não? Ela é nossa reserva de amor, e confiamos que seu julgamento será baseado no afeto que tem por nós. Um dia, com um misto de coragem e um senso de urgência, eu falei assim prá ela:

– Sabe mãe, eu não sou como os outros meninos. Sempre soube que era, digamos, “diferente”. Desde o tempo da faculdade que tenho esses sentimentos estranhos. De inicio eu não me aceitava, ficava tentando me enganar. Até fiz coisas que me violentavam. Hoje sinto vergonha de coisas que fiz só por medo de não ser aceito. Não queria que os outros meninos me achassem estranho, bizarro e fizessem troça de mim. Todo mundo quer ser aceito, mãe. Na verdade a gente faz qualquer coisa nesse sentido; até faz coisas que agridem seus princípios.

– Sua mãe vai lhe apoiar sempre, filho…

– Sei disso, mãe, por isso tenho certeza que posso me abrir. Mãe, eu preciso lhe contar…

– Diga meu filho…

O momento era de angústia, e se podia sentir na própria pele. Um segredo por tempo guardado, mas que precisava ser revelado. Minha esperança é que minha mãe pudesse escutá-lo com ouvidos amorosos, e que seu julgamento não fosse duro e cruel como tantos que já havia presenciado.

– Mãe, preciso te dizer, antes que você fique sabendo por outros. Eu, eu, eu… eu não gosto tanto de cesariana quanto gosto de parto normal. Veja bem, não é que eu não goste de operar, mas é diferente. É uma sensação difícil de explicar. Operar não me completa tanto quanto ver uma mulher parindo pelas suas próprias forças. É uma coisa assim, sublime. É como se a cada parto eu pudesse ver um arco-íris na minha frente, brilhante, colorido e resplandecente. Espero que me entenda. Agora não tenho mais medo de lhe contar…

Minha mãe sorriu se escutasse uma história antiga.

– Meu filho, tolinho. Eu sempre soube e agora que você me contou eu o amo mais ainda. Vem aqui dar um abraço na sua velha mãe…

Foi assim. Levou tempo para contar, mas depois de dizer a ela eu me senti muito mais leve. Limpo e digno.

Deixe um comentário

Arquivado em Ficção