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Os gays na caserna

Quando vejo os trejeitos do presidente, sua fixação anal, seus temores expressos e seu horror à homossexualidade misturados com suas piadas e declarações homofóbicas eu lembro do tempo em que fui militar – tenente médico da gloriosa Força Aérea Brasileira – e pude observar por dentro da caserna como estas questões eram vistas e tratadas.

Minha turma de oficiais da reserva era formada por garotos de 24 a 32 anos recém formados em medicina, odontologia, cartografia e engenharia. Éramos não mais que meninos que durante o treinamento nos comportávamos como adolescentes. Moleques, alegres, entusiasmados, curiosos e arrojados, tínhamos a vida inteira pela frente, com toda a carga de expectativas, sonhos e dúvidas.

O mais velho dos aspirantes era de fora do estado e tinha um comportamento curioso. Era afetivo e brincalhão, porém exagerava nas piadinhas sobre gays, machos, “bonecas”, “maricas” e tamanho de pinto, as mesmas que qualquer bando de adolescentes costuma contar. Havia estudado no interior, era casado e pai de três meninas. No último dia do estágio me cumprimentou e disse lamentar que nossa amizade não tivesse avançado para “outro nível”. Seu colega de faculdade, que presenciou a cena de longe, me puxou para um canto e disse: “É isso mesmo que você está pensando“.

Havia um outro rapaz no nosso pequeno grupo que era delicado, sorridente, bonito e vaidoso, algo que se adaptava ao “estereótipo gay”. Claro, ele tinha uma noiva, e às vezes me falava dos seus sonhos de casar, ter filhos e morar no interior, talvez em Santa Catarina. Por alguma razão ele se sentia seguro em me confiar estes planos, uma conversa pouco comum entre homens. Alguns anos depois de sair da aeronáutica eu o encontrei passeando em Balneário Camboriú, e ao seu lado alguém que não deixava dúvidas de ser seu namorado: o telefonista do quartel onde fizemos nosso estágio para o oficialato.

Nessa mesma época recebi um telefonema anônimo para minha casa tarde da noite. Não reconheci a voz, mas era de um jovem dizendo me conhecer do quartel. Ele parecia saber muitos detalhes da minha vida, inclusive sobre meus filhos pequenos. Quando foi pressionado para se identificar, respondeu: “Sou alguém que você bobeou e perdeu“. Quase enxerguei pelo telefone a “egípcia” que se seguiu a esta frase. Nunca soube quem era, mas evidentemente era alguém da caserna.

Havia entre os profissionais do hospital dois homossexuais inconfessos. Um deles tinha uma postura máscula, voz grossa, um homem forte, bonito e atlético. Tinha consultório na cidade e fazia grande sucesso na sua especialidade. Discreto, jamais foi visto com qualquer soldado sem alguém próximo, e nunca oferecia caronas até a estação do trem – algo que eu fazia todos os dias. Tinha 42 anos e era solteiro. Todavia, ele tinha uma particularidade muito incomum; para além de ser militar era…. bailarino. Sim, bailarino clássico de uma companhia da capital, mas nunca falava abertamente sobre esta sua “outra vida”. Era uma espécie de segredo que poucos conheciam. Esse colega também era muito chegado a mim e ao nosso amigo em comum, o “Derma”. Certa vez, no término do expediente, quando estávamos os três no vestiário nos preparando para sair, nosso parceiro Derma lhe disse:

– Fulano, faz aquele giro que os bailarinos fazem na ponta dos pés. A gente quer ver. Por favor… uma pirueta!!

Ele se negou. Depois disse que não podia por causa do sapato. Depois sorriu envergonhado, dizendo que precisaria aquecer, mas por fim, depois da insistência, cedeu e nos ofereceu um pouco da sua arte. Não há como esquecer; foi a mais bela e emocionante “Pirouette dedans” que jamais vi ao vivo.

Este colega resolveu se mudar para o Rio. Foi nesse dia que, para mim, fez sua confissão. Disse-lhe eu que ele devia ficar. Seu horário no hospital era folgado, a semana era de 4 dias, não fazia mais plantões (pois era capitão) e seu consultório estava lotado de pacientes. “Vida tranquila e sucesso profissional“, falei.

Seu sorriso foi, então, revelador. Mais do que uma confissão explícita ou um flagrante constrangedor, ele abriu um sorriso tímido, me olhou nos olhos e disse “Existem outras coisas na vida para além da tranquilidade e do sucesso. Vou ao Rio para encontrá-las“. Diante dessa declaração, sorri como resposta e disse: “Vá em paz, brother“. Dei-lhe um forte abraço e nunca mais o vi.

O outro colega gay – cuja especialidade não convém dizer – era um homossexual muito sofrido. Também quarentão, igualmente solteiro, mas jamais exibia a jovialidade e o humor debochado do colega bailarino. Era duro, sério, fechado até obtuso. Foi ele quem, num lampejo de “sinceridade”, uma tarde me abordou no cafezinho do hospital e disse que não conseguia aceitar que as mulheres ganhassem seus filhos naquela posição (cócoras) que eu havia introduzido no hospital. “Acocoradas como bichos, pareciam estar defecando; ou como galinhas botando ovo“, disse ele, com nojo indisfarçável.

Sem dúvida. Animalizadas, despojadas de sua capa cultural asséptica, moderna, limpa e higiênica… essa era a imagem insuportável de uma mulher. Uma mulher parindo lhe obrigava a ver o que seus olhos evitavam: a imanente e poderosa força selvagem e sexual do parto – e de uma mulher.

Em um ambiente de pura testosterona era natural que essas manifestações fossem perceptíveis nas fissuras, nas rachaduras abertas no discurso, rompendo as capas de proteção criadas para impedir a expressão de sentimentos conflituosos. Nesse ambiente marcadamente masculino a homossexualidade era latente, porém suprimida e sufocada. Nenhum desses personagens jamais admitiu abertamente sua orientação sexual, mesmo diante das pistas que deixavam por todos os lugares por onde transitavam. Eram segredos, vozes que ecoavam em solilóquio, maldições escondidas.

Para a formação dos aspirantes oficiais, depois de alguns meses de treinamento físico e militar, era necessário fazer uma palestra para os colegas, como prova de conclusão do “curso de oratória”, algo ingênuo e inútil, mas obrigatório. Aliás, foi nesse curso que um oficial professor me disse uma frase que jamais esqueci: “Marx era um homem inteligente, mas um péssimo pai de família“. Nada mais natural de se ouvir em um quartel apenas poucos anos após o fim da ditadura.

Não tive muita dificuldade em escolher o tema. “Se é para agitar, vamos chacoalhar“, pensei. Meu tema escolhido foi “Homossexualidade em tempos de Aids“, exatamente durante a histeria pelo seu aparecimento nos Estados Unidos. Na minha breve palestra, que misturava questões médicas da síndrome com conceitos (avançados para a época, acreditem) de diversidade e liberdade de escolha, eu lembro de ter olhado firme nos olhos destes colegas e amigos como que a lhes dizer que “existe vida fora do armário“, mas que eu conseguia compreender porque lá dentro ainda parecia tão mais seguro.

Terminei minha palestra dizendo que estávamos no limiar de um novo tempo e era necessário nos adaptar a ele. Os homossexuais estavam adquirindo seus direitos e se apresentavam à luta. Citei para eles meu episódio predileto: “O Levante de Stonewall” e disse-lhes que devíamos entender que os gays não sofriam de nenhum distúrbio de ordem moral, mas aqueles que menosprezavam sua dignidade humana, sim.

Nunca encontrei meus amigos no Facebook, já passados 30 anos dessas histórias. Gostaria de poder dizer a eles que tive muita honra de conhecê-los para entender o peso que carregavam pela vida que tinham. Espero que hoje sejam homens felizes e realizados e que tenham aproveitado as últimas três décadas com a mesma alegria adolescente da época dourada em que nos conhecemos.

Amém

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Outing

Na minha juventude o meu grupo de jovens espíritas era formado por um grande contingente de homossexuais. Todos estavam vivendo a gigantesca angústia da transição, do “outing“, do abandono do armário. A maioria não se reconhecia gay e achava que seus pensamentos eram influências espirituais maléficas e perturbadoras, vindas das profundezas do Umbral e os seus sentimentos homoafetivos eram perturbações kármicas. Todos, sem exceção, acreditavam que o espiritismo poderia funcionar como um “torniquete afetivo” capaz de impedir a hemorragia erótica que se anunciava para breve. Naquela época, fim dos anos 70, a homossexualidade ainda guardava nitidamente uma relação com mácula moral, fraqueza, obsessão e pecado. Talvez por isso muito de sua invisibilidade.

Até mesmo nós, amigos e companheiros, acreditávamos nessa fantasia, que nos garantia que a fé e a contenção poderiam funcionar para endireitar o comportamento errôneo e doentio. Seria como um “gays anônimos“. Pensávamos que a imersão num mundo de crenças místicas associadas à ideia da reencarnação poderia causar dois resultados: o fim das ideias obsessivas em relação ao mesmo sexo ou – no caso de falha – a contenção e a castidade. Afinal, se Chico e Divaldo podiam “sublimar” seus impulsos em nome da moral, do trabalho e das promessas realizadas antes do nascimento, por que haveriam eles de sucumbir?

Todos os meus amigos, gays espíritas da juventude, romperam com o movimento espírita com graus variáveis de violência logo após a saída da adolescência ou mesmo durante essa fase. Não foram poucos os que não aceitam falar no assunto. Muitos pediram acolhimento na Umbanda e alguns se tornaram agnósticos. Todos se sentiram oprimidos e pouco acolhidos nas hostes espíritas, e com boas razões. Eu mesmo testemunhei palestras catastróficas sobre o tema e senti na pele a ardência da rejeição quando falei publicamente de forma mais compreensiva e acolhedora sobre o tema. Em algumas vezes pensei, logo após uma palestra que praticamente criminalizava a homossexualidade: “se eu fosse gay só me restaria uma vida de culpa imobilizante ou o suicídio“.

Meus amigos precisaram abandonar o espiritismo mesmo mantendo suas crenças na reencarnação, mediunidade, na sobrevivência do espírito ou nas leis de causa e efeito, pois o convívio com o moralismo cristão espírita foi tóxico demais para suas vidas. É uma pena que tal barreira ainda permaneça no seio de uma filosofia que deveria ser progressista e comandar a mudança de compreensão sobre tais fenômenos.

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