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Histórias médicas

Há basicamente três tipos de escritos médicos que eu me acostumei a ler, tanto na literatura em geral quanto na internet. Existem milhões de textos nessas categorias, e não poderia ser diferente. Ao lidar com a vida, a morte e todas as manifestações da libido, não seria possível à medicina deixar de produzir escritos sobre a profusão de emoções que permeiam as consultas e tratamentos, desde os encontros em consultório até as cirurgias sofisticadas e complexas que são correntes na atualidade. Poucos lugares são mais privilegiados para entender o drama da vida humana do que aquele onde se encontram os guardiões da doença e do sofrimento, da redenção e da cura. Não à toa, grandes literatos foram médicos, como Moacyr Scliar, Arthur Conan Doyle, Anton Tchekov, Ferdinand Céline, Oliver Sacks, William Somerset Maugham, François Rabelais, John Keats, etc…

O primeiro tipo de texto que eu reconheço é o escrito técnico, não o trabalho científico academicamente estruturado, mas aquele onde o objetivo é expor um caso clínico, uma história que ocorre ao redor de um diagnóstico e um tratamento, mesmo que envolto por reflexões de ordem filosófica ou ideológica. Nestes, o centro é a patologia, a doença, a enfermidade como um ente que se apossa do sujeito, toma conta dele e, por fim, o faz sucumbir – ou se salvar, normalmente pela ação médica. Nestes casos a patologia é a protagonista, como uma sombra maligna que ameaça o sujeito que, desesperado, se joga nos braços da medicina em busca de salvação.

O segundo tipo tem como foco o paciente. Durante anos me acostumei a ler histórias onde médicos escrevem sobre as curiosidades que os pacientes lhes contam. Por vezes o paciente é tratado como ingênuo, desatento, inculto, que trata suas doenças por nomes curiosos e “errados” e traz à consulta fantasias sobre o funcionamento do corpo. Diz coisas “engraçadas”, como “operar-se da pênis” (o apêndice) ou que teve “febre interna”. A descrição dos clientes é muitas vezes jocosa e, por vezes, desrespeitosa. Por certo que existem também as descrições de dramas, visões pessoais, dilemas terríveis, alegrias esfuziantes e as perspectivas dos doentes sobre a própria doença e a morte. Na área do parto e nascimento são muito frequentes as descrições do parto quem têm como foco as lutas do casal por uma gestação digna, os dilemas da gestação, a busca pelo protagonismo, as escolhas pelo parto normal, a decisão pelo local de nascimento, a luta contra o sistema e os resultados colhidos nestes desafios.

O terceiro grupo é sobre o próprio médico. Neste tipo especial de texto, o médico é o centro das histórias e é sobre sua atuação que gira o núcleo dramático da narrativa. Sua atenção, a precisão do diagnóstico, a descoberta da doença rara, a paciência, a argúcia, a persistência, a coragem são valores que frequentemente aparecem nessas descrições. Também é usual o paternalismo típico do discurso médico, a postura bondosa e condescendente e as narrativas heroicas, onde o médico é travestido de super herói, que sacrifica seu tempo, sua saúde e sua família em nome da cura dos seus pacientes.

Neste último grupo, e bem mais raro, se encontram os textos que estimulam posturas críticas em relação à ação da medicina e ao próprio proceder médico. Essas são as narrativas mais importantes e de qualidade superior, pois que pressupõem a coragem de tocar nas próprias feridas, tanto sobre o significado último da arte médica na cultura quanto nas fragilidades do médico, seus medos, suas angústias, suas aspirações, seus desejos e suas fantasias de onipotência. O profissional que tem a coragem de se olhar no espelho e descrever a si mesmo com a dureza necessária já é merecedor de toda admiração. Poucos ousam apontar suas máculas e falhas; aqueles que o fazem, demonstram força e um singular senso de integridade.

Não há dúvida que a medicina é um palco especial para as narrativas da vida. Ela está presente no seu início e no seu fim, com um olhar especial sobre as pontas da nossa curta passagem por este plano, mas também sobre todos os percalços dessa travessia complexa e tortuosa. As reflexões dos médicos se tornam extremamente criativas quando quem as escreve se afasta do ufanismo arrogante do “salvador” ou do “abnegado curador” e se aproxima do sujeito com todas as fragilidades humanas a quem foram oferecidas as ferramentas de um saber milenar para levar adiante seu ofício. O médico sofistica sua escrita quando descreve o choque entre o saber do médico e os dramas e dores do seu paciente como um encontro de almas, pois é dessa matéria única que são feitas as consultas.

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Milan

O escritor Milan Kundera faleceu aos 92 anos. Alguns defendem o trabalho do escritor – um notório anticomunista – dizendo que as acusações de Milan Kundera aos dramas do bloco soviético eram baseadas na verdade. “As coisas que ele relata eram reais” dizem. Todavia, o mesmo tipo de narrativa aconteceu faz pouco aqui no Brasil quando os golpistas falavam: “sim, mas as queixas contra Dilma eram todas reais” – o que justificaria o golpe. Neste caso, o “real” é aquela perspectiva apresentada pelos vencedores, né? As coisas na União Soviética eram realmente conturbadas durante a Guerra Fria (entre outras razões pelo esforço armamentista, que destruiu sua economia, mas é o que faz a Rússia ainda existir e estar vencendo a guerra – exatamente o que a Coreia Popular historicamente faz), mas o golpe de Yeltsin – a serviço do Império – fez a Rússia mergulhar no Caos do qual levou 25 anos para se reerguer.

Quem reclama do período Temer-Bolsonaro pode imaginar como seria uma economia reduzir-se a 1/3 do que era nos meses que se seguiram à fragmentação do bloco soviético. A destruição da União Soviética e o poder popular por ela criado era visto como o grande objetivo para a expansão do Império. Não foi possível com os tanques, mas o foi pela guerra gelada do comércio.

E quanto à “Primavera de Praga”, o eurocentrismo que ela denuncia é apenas espetacular. Claro, tanques em Praga são inaceitáveis, não? Já no Vietnã, qual o problema? Por que será que a gente não dá nomes bonitos para os 70 países invadidos pelo Império nas últimas décadas? Só esse episódio parece causar horror aqui no Ocidente. Mas e a Síria? E a Líbia, que retrocedeu um século após a invasão (por que não a “Primavera de Trípoli”?)? E Gaza? E o Afeganistão? E o Iraque? E o Panamá? Não deveríamos tratar por ‘Verão Panamenho” quando o país foi invadido e o presidente Noriega sequestrado pelos americanos? Não haveria uma estação do ano para adornar e dar nomes às sanguinárias invasões do imperialismo em países soberanos?

Eu li Milan Kundera e “A insustentável leveza do ser” me cativou. Poético, tocante, duro e delicado. Mas também li Vargas Llosa, que foi um baluarte de sustentação de Fugimori – e inclusive de sua filha, além de ter apoiado Orbán e Bolsonaro. E isso porque é possível ser reacionário e um gigante da literatura. Da mesma forma eu adoro Zizek e fiquei chocado ao ler seu apoio ao Otanistão, para tristeza de todo mundo que deseja o fim da guerra. As posições políticas desses escritores e intelectuais (inclusive Kundera) eu ponho na conta da russofobia que muitos ainda carregam. Se aqui no Brasil ainda acreditamos nas mentiras contadas sobre a USSR, imaginem o que é feito pela máquina de propaganda da burguesia entre os vizinhos da Rússia, e o grau de manipulação que deve existir até hoje. Mesmo com os graves erros cometidos na Cortina de Ferro – e que devem ser denunciados – nada justifica a adesão ao imperialismo mortal e destruidor que esses personagens adotaram. Meu interesse não é diminuir a importância do escritor Kundera, apenas lembrar desse aspecto da sua personalidade. Um grande escritor, mas um reacionário no campo da politica.

Por outro lado eu nunca deixo de me surpreender com o anticomunismo da esquerda brasileira. Essa característica pode ser explicada pela cultura ocidental que afunda no oceano de propaganda anticomunista que já tem mais de 1 século. Esses ataques é que nos fazem ver o cisco da “primavera” e não enxergar a trave das inúmeras invasões genocidas do Império. Talvez Milan seja “menos” anticomunista do que os francamente direitistas, como Soljenítsin ou Vargas Llosa, ou quem sabe nunca saberemos ao certo até onde o seu anticomunismo poderia chegar. Como saber?

Aliás, sabe o que mais choca as pessoas quando lembram do “A insustentável leveza ser”? O fato de um médico ter se tornado um mísero limpador de vidros. Acho que essa é a ideia central do autor: como pode haver uma subversão de classes a ponto de um médico, alguém que representa os valores das classes superiores, ter se tornado um simples operário. Para a burguesia é um horror imaginar que alguém da “nobreza capitalista” seja “reduzido” a um mero proletário. Todo o livro de Milan é recheado por esse pânico burguês de imaginar um mundo sem classes, onde limpadores e cirurgiões podem sentar na mesma mesa.

Mas, como eu já disse, os reacionários podem ser grandes literatos. Ferdinand Céline, um dos maiores escritores frances do século XX, era nazista, mas foi ele quem escreveu a melhor e mais bela biografia de Ignaz Phillop Semmelweis. Não posso cobrar dele que seja como eu quero. Milan escreveu maravilhosas obras, mas seu reacionarismo não pode passar em brancas nuvens.

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Escrever

Eu as vezes leio artigos escritos por jornalistas, escritores, acadêmicos e simples escrevinhadores como eu e me surpreendo com a qualidade da escrita, seja pelo estilo, pela organização das ideias, pela capacidade de síntese, pela clareza, pela profundidade, pela relevância e pela erudição. Sou possuído pela sensação bastante comum de “puxa, gostaria de escrever assim!“.

Eu não aprendi a escrever direito, mas depois de passar 25 anos escrevendo num ritmo diário eu cheguei à conclusão que a única forma consistente de aprender esse ofício e essa arte é… escrever sempre, verter a vida em letras, condensar as ideias em tinta, massacrar o papel com os sulcos do pensamentos.

Como em muitas outras áreas, o exercício da escrita se faz na experiência diária da transmutação das ideias embaralhadas, na revivescência de lembranças enoveladas e nas propostas misturadas para a linearidade do texto, permitindo ao leitor que capte o fio do seu pensar e o utilize como assim o desejar.

Se pudesse dar a mim mesmo um conselho diria para ter escrito minhas histórias desde a adolescência, porque isso teria sido muito mais útil do que se pode imaginar.

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Escritores

Eu sempre achei que o bom cronista deveria se irritar com os elogios. Não à forma, sua escrita ou ao seu estilo, mas ao próprio conteúdo. Aceitá-los é a rota mais segura em direção ao fracasso. Claro que a todos é sedutora a sintonia da nossa perspectiva com as linhas à frente, e por certo que desperta alegria ver nossa face no espelho de um texto. Muitas vezes nos entusiasma e emociona ver um articulista fazer eco com as nossas ideias, a ponto de sermos capazes de terminar as frases em pensamento, tamanha a identidade que com elas criamos.

Entretanto, essa é a paz do escritor, uma praga entre aqueles que escrevem, e o homem de ideias jamais deveria se contentar com ela. A escrita deveria ser sua espada, para ferir e separar; cortar e destruir. O homem das palavras nunca poderia se deixar seduzir pela glória fugaz das concordâncias. Deveria, isto sim, por um ato de fé, fugir dos elogios e das palavras de estímulo. Em verdade, deveria se esconder de quem o segue e admira.

Criar é ferir. Quem produz ideias não pode esperar que aqueles, acostumados com os padrões, aceitem pacificamente o sopro da mudança. Se há algo de transformador em um pensamento feito letra é o seu espírito de destruição.

Escrever é afrontar. Quem escreve pretendendo ser aceito desperdiça o que existe de melhor em sua arte.

Juan Irigaray, “Cien Díaz para Entenderte”, ed. Solimar, pág. 135

Juan Rodriguez de Irigaray é um escritor cubano, nascido em Matanzas em 1935. Participou da primeira investida guerrilheira na ilha no “Assalto ao quartel de Moncada” em 1953 e acabou preso junto com seus parceiros de luta. Foi companheiro de cela de Fidel Castro e junto com ele foi para o México quando da anistia oferecida aos revolucionários pelo presidente recém reeleito Fulgêncio Batista. Escreveu na prisão um livro de “poesias de guerra” chamado “Se eu morrer chamem Amália”. Participou da tomada de Havana em 1o de janeiro de 1959 e depois foi auxiliar na construção do sistema público educacional do governo revolucionário. Casou-se com Maria Teresa Barrios, uma grande dama da música cubana. Escreveu vários livros de contos e um romance ambientado na guerrilha da revolução cubana chamado “Lágrimas sobre Havana”. Morreu em 2005 de causas naturais.

* Na foto, especula-se que Juan Irigaray seja o de pé à esquerda, marcado com um “X”

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