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Ética

“Eu me acostumei a ouvir essa acusação de “radical” por muitos anos. Na verdade este radicalismo que tanto eu ouvia se resumia apenas a… cumprir a lei. Chamar de radical é uma forma usual de acusar o outro para desobrigar-se de fazer o que é certo. Tipo, quando você acha uma carteira na rua e se esforça para achar o dono e alguém lhe diz, constrangido pela sua atitude: “Ora, não precisa ser tão radical; achado não é roubado”.

É sim; não existe “meia-ética”, e muito menos será abusivo tratar com respeito aqueles com quem se divide essa estrada curta chamada vida.”

Mary Lemont Ashcroft, “Pictures in Exhibition”, Ed. ELP, pág. 135

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A Força do Silêncio

Nikolai acordou quando uma lâmina de luz invadiu sorrateiramente a cela lambendo seu corpo encolhido. Abriu os olhos com sofreguidão, afastando as pálpebras e permitindo que o sol esquentasse sua cara amassada e pálida.  O brilho luminoso que tocava seus cabelos loiros e revoltos parecia produzir uma chama em sua cabeça. Resmungou um pouco e reclamou da hora. Não era fácil dormir durante a noite ao som dos gritos, os barulhos dos ratos, a conversa dos carcereiros e os sons variados da noite, os cães, os gatos, as corujas e os camburões que chegavam ao portão central trazendo novos hóspedes. Tudo isso fazia sua cela solitária ser invadida por milhões de pequenos pacotes de som, muitos deles misturados e sem distinção, enquanto alguns chegavam solitários e nítidos. A noite na prisão era cheia de vazios preenchidos por angústias e medo. Ergueu seu corpo esquálido e resolveu se refugiar do calor do sol, deu dois passos e colocou-se na face oposta da pequena cela, onde a sombra ainda cobria de penumbra a parede descascada. Ajustou suas costas nuas no vão entre a parede e um ressalto da viga e sentiu o vinco do concreto a lhe machucar as costelas. Apesar de passar horas durante o dia encostado naquela parede, nunca havia sentido o vinco do ressalto a lhe incomodar. Afastou-se por momentos da parede e olhou para o pequeno vão atrás de si para entender porque seu corpo parecia não caber mais naquele espaço.

Anos já se haviam passado desde que se pela primeira vez foi colocado na pequena cela solitária. Não havia engordado, por certo. Sua perda de peso já contava mais de 20 quilos desde que ali chegara. Como poderia então seu corpo subitamente não caber mais num espaço que sempre foi usado para fugir do sol impiedoso que lhe castigava nas manhãs de verão?

Olhou mais uma vez para o pequeno vão entre a viga e a parede branca. De súbito fechou os olhos, girou a cabeça em direção à porta enferrujada e suja da cela e, depois de alguns instantes puxando pela memória, tentou recordar as imagens que deveria estar vendo. Descreveu mentalmente a porta de ferro verde, a portinhola de baixo por onde lhe chegava o pão duro e a sopa de peixes, o grunhido que faz ao abrir, os sapatos dos carcereiros, o ar que entra quando ela eventualmente é aberta, o vaso sanitário imundo que está no canto contíguo e o sol colorindo com sua luz o chão poeirento.

Depois do exercício, abriu os olhos e se assustou com as imagens que viu sobrepostas à sua lembrança. Tudo em sua mente estava levemente diferente. Em pânico se ergue, empurra suas costas contra a parede e decide contar os passos até a porta da cela. Menos de quatro passos. Muito impreciso. Prefere, então, contar com os pés. Equilibra-se como um bailarino de corda bamba e coloca pé disforme e sujo depois do outro, cutucando seu calcanhar cascurrento com a unha do dedão. Contou catorze pés e mais 4 dedos da mão.

O sentimento era de assombro e pânico. Pensou por alguns instantes estar alucinando, mas resolveu olhar os rabiscos na porta de ferro, feitos com o cabo de seu garfo, nos primeiros dias em que ali havia chegado. Leu seu nome “Nikolai” arranhado na porta, com a letra trêmula que lhe sobrou após uma noite de espancamentos.

Não havia em sua mente mais nenhuma dúvida, e um frio gelado percorreu o estreito espaço de sua coluna. Aquela era a sua velha cela imunda, e ela estava encolhendo.

Nikolai Kuznetzov, “Сила молчания” (A Força do Silêncio), Ed Dubrov, pag 135.

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Os Tempos e as Dores

Certo que perdemos muito tempo antes de empreender um tratamento para nossos dramas psíquicos. Certo também que sempre lamentamos não ter começado a resolvê-los antes de se agravarem. Não há como fugir dessa culpa. Todavia, todo aquele que consegue resolver seus problemas numa roda de cerveja é porque realmente não estava “pronto” para procurar uma psicóloga para auxiliá-lo na busca das origens profundas de suas angústias.

A mesma lógica eu usaria para o sujeito que quer colocar um quadro na parede ou fazer uma mudança na casa que se limitava a trocar os móveis de posição. Nesse caso não era necessário um arquiteto ou engenheiro. Pela simplicidade do problemas, soluções simples. Posso oferecer mil exemplos com médicos, advogados, cozinheiros e decoradores com este mesmo raciocínio.

Minha tese é que para procurar uma analista – e vou me deter na análise – é necessário ter passado por estes passos intermediários sem sucesso, como um processo lento de maturação. Comprar roupas, trocar de namorado(a), rezar, viajar, emagrecer, fazer cirurgia plástica, mudar de emprego etc. são ações que podem aplacar a sua angústia, caso esta seja superficial e conjuntural. Entretanto, depois que todas estas atitudes foram tomadas e o vácuo na alma ainda estiver presente e a dor ainda persistir, somente aí teremos o momento adequado de procurar uma análise. Antes disso o sofrimento imposto pelo tratamento psicanalítico será muito penoso e provavelmente intolerável.

Assim sendo, não há como procurar tais recursos sem um quinhão adequado de neurose. A curiosidade ou a “vontade de resolver alguns problemas” não são motivações suficientemente fortes para empreender tal aventura nos domínios do inconsciente.

” And,of course, there’s the financial problem of people who really need and want a psychological help but that such a thing is not available, or is too expensive so that the regular person cannot afford it. Certainly, millions would get relief for their pains and suffering if we offer them adequate psychological treatment instead of giving the false idea that consumerism is the ultimate path to happiness.”

Portanto, não se culpe por ter retardado por tanto tempo sua procura por uma ajuda mais profunda. As borboletas nos ensinam que sair do casulo demanda uma espera para secar as asas. Se ela se apressar, cai sob o peso das asas molhadas. Para nós, o tempo para amadurecer o mergulho no inconsciente é o exato tempo de aceitar a dor como ferramenta de crescimento.

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