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Miko

Não resta dúvida que para as esquerdas é fundamental nos aprofundarmos na luta anti racista, na luta por direitos humanos reprodutivos e sexuais (incluindo aí a luta pelo parto humanizado), na conquista da autonomia de corpos, na proteção aos grupos vulneráveis, etc. Modelos sectários baseados em identidades não cabem mais na nossa sociedade e não podem mais ser confundidos com as bandeiras históricas que defendemos.

Meu paradigma nessa história se chama Miko Peled, que provavelmente poucos conhecem. Israelense, por volta dos 50 anos, judeu. É filho de um famoso general de Israelense, herói da guerra do Yom Kipur, Matti Peled, já falecido. Quando jovem, ainda vivendo em Jerusalém, Miko viu sua sobrinha morrer em um ataque suicida causado por um homem bomba do Fatah. No dia seguinte políticos e jornais israelenses clamavam por vingança e retaliação contra os terroristas árabes. Diante das câmeras a irmã de Miko, mãe da menina morta e uma conhecida professora judia israelense, disse em lágrimas para os jornalistas: “A culpa dessa morte é do governo de Israel, que nunca deu aos palestinos qualquer alternativa para além do terror. Não aceito nenhuma retaliação em meu nome ou de minha família, porque jamais aceitarei que uma mãe Palestina sofra a dor que agora estou sentindo”.

Miko, alguns anos depois e já morando nos Estados Unidos, conheceu na Universidade um grupo de ativistas palestinos e, apesar da desconfiança, aceitou escutá-los. Ao inteirar-se pela primeira vez da narrativa dos “inimigos”, dos “terroristas”, dos “bárbaros árabes” com mais de 30 anos de idade ele viu seu mundo de crenças sionistas desabar.

Sim, eles eram os terroristas, não os palestinos. Pela primeira vez entendeu o Nakba, a expulsão, os massacres, o êxodo e o exílio palestinos. A partir de então escreveu um livro chamado “O Filho do General” e iniciou sua trajetória como palestrante, ativista, defensor dos palestinos, da paz, de uma solução desarmada, pelo BDS e por uma consciência mundial sobre o regime de Apartheid de Israel.Conto essa história porque Miko não é palestino árabe. Nunca sofreu diretamente na pele a dor de ser estrangeiro em sua própria terra. Não teve sua família morta pelo exército de ocupação e nem foi preso por jogar pedras em quem matou seus vizinhos e primos. Porém, Miko foi convencido por amor e não por oposição.

Um palestino “identitário” o veria como um inimigo de sua identidade árabe, por não ter sua língua e sua pele escura. Por ser judeu jamais seria aceito, e suas palavras seriam bloqueadas com o silenciamento do “lugar de fala”. Ora, “como você ousa falar da Palestina seu judeu opressor?”, poderia ser a reação dos que não enxergam nele a identidade Palestina, a única que lhe garantiria direito de falar.

Entretanto, Miko sabe que a Palestina é o seu lar também e por isso mesmo não aceitou jamais ser calado. Ao lado de outros ativistas, árabes e judeus, debate abertamente uma solução para a Palestina. Ousa discordar em alguns temas com o direito que a paixão pela Palestina lhe confere.

Da mesma forma muitos homens brancos sabem que um mundo que oprime mulheres, gays, trans e que despreza negros também é o seu mundo e por esta razão desejam falar de sua inconformidade e lutar contra estas injustiças. Porém, muitos são silenciados por um identitarismo sectário que se move por ressentimentos e preconceitos, que apenas afastam muitos dos possíveis aliados.

Precisamos de um mundo com mais Miko Peled e menos revanchismos estéreis.

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Break the Silence!!!

caetano-roger-waters

Em recente artigo escrito para a Folha de São Paulo,  Caetano Veloso faz uma espécie de “mea culpa” pela sua ida com Gilberto Gil para Israel para a apresentação de shows comemorativos da longa parceria entre ambos. O que resta da leitura do seu texto é um constrangedor “puxa, eu não sabia“. Eu esperava mais de um ícone da cultura brasileira, cuja trajetória também foi marcada pela dor de um exílio e pela arbitrariedade de um governo perverso.

Ora, não se pode perdoar Caetano quando ele usa desculpa furada de não conhecer os massacres contra os Palestinos que ocorrem de forma sistemática há décadas. Caetano foi amplamente avisado, orientado – conclamado até – para conhecer a brutal violação de direitos humanos patrocinada por Israel. Mas, por medo, falta de firmeza e brio… calou-se. Mesmo depois de conhecer a realidade “in loco”, e ter a oportunidade de gritar “Break the Silence!!!” e expor publicamente sua solidariedade ao povo massacrado da Palestina, preferiu se calar.

A atitude pusilânime de Caetano – quando poderia ter feito a diferença – é o que expõe a distância entre um artista de qualidade e uma grande personalidade. Essa é a diferença entre Caetano e Roger Waters. O músico genial do Pink Floyd não se calou e tampouco usou a desculpa esfarrapada de que “não sabia como era“. Não. Munido de informações Roger postou-se com bravura contra a barbárie e lidera o mundo da arte contra o Apartheid israelense. O que sobra em Roger Waters, falta em Caetano: coragem e postura.

A velha retórica de chamar os opositores de “furiosos”, e a crítica quase infantil contra Miko Peled, o filho do general, mostram que Caetano ainda acha – em pleno século XXI – que existe espaço para um país cuja política racista e excludente destrói as esperanças de um povo e uma pátria ocupada. Não é o que a civilização e a justiça determinam, Caetano. Embora a sua tímida retratação, você continuará representando para mim um artista de segundo nível, abaixo de Luan Santana (pela sua negativa de apresentar shows no MS até acabar o massacre Kaiowá) em termos de atitude pública diante das barbáries contemporâneas.

Suas palavras ensaiando uma retratação, mesmo diante do frágil “acho que não volto mais” ao menos sinalizam que ele percebeu o quanto sua atitude fraca prejudicou o esforço mundial de bloquear Israel em sua política de limpeza étnica. A ideia de buscar informações e pesquisar vídeos explicativos sobre a Palestina no YouTube (só agora???) pode ser interpretada como uma tentativa de resgate de sua própria coerência.

Entretanto, o texto deixa a desejar quando se busca em suas palavras a solidez e a firmeza contra os abusos de Israel. Não vi solidariedade expressa e nem a adoção de uma postura de peito aberto. O que vi foi uma série de desculpas quase infantis sobre a razão de ver uma grande oportunidade passar na sua frente e ter se calado.

Penso ser inaceitável que Caetano use sua ignorância como desculpa. É como se em meados do século XIX o filho de um lorde inglês precisasse vir ao Brasil para descobrir que havia escravidão e, aqui chegando, se desculpasse dizendo “eu não fazia ideia que era assim“. Você foi avisado, Caetano, por Roger Waters e por centenas de ativistas. Foi porque quis, ganhou seu rico dinheirinho e agora se faz de “menino assustado”.

Você provavelmente tem vergonha de ter sido enganado por Israel. Eu também fui. Sartre e Jorge Amado foram enganados pelo comunismo real soviético. Todavia, seria nobre da sua parte reconhecer que a “democracia” israelense é uma FRAUDE, que a Palestina foi roubada em 1948 com terror e massacres, que o povo palestino vive em uma prisão a céu aberto e que Israel jamais pensou em um país plural, e sua perspectiva sempre foi a da limpeza étnica e da aniquilação lenta e sistemática do povo palestino.

Espero que seus fãs possam lhe perdoar, mas não acredito que os palestinos – que podiam ter recebido sua ajuda – sejam tão condescendentes com a sua fraqueza de espírito. Reconhecer seu engano, a postura preconceituosa com o mundo árabe e o islã e o entusiasmo com a falsa “modernidade” de Israel seria um excelente começo. Mas você preferiu agir como um menino medroso, e quando o mundo pedia uma voz de solidariedade a um povo que lentamente agoniza você se calou.

Por medo.

Você foi cúmplice de um massacre e um crime contra a humanidade. “O show falou por si” é uma mentira que tenta encobrir sua covardia. Podia ter falado, gritado, esbravejado mas preferiu o silêncio. E isso ficará marcado em sua trajetória. Você viveu no tempo do Apartheid israelense mas quando teve a grande oportunidade de se posicionar, foi fraco. Que Deus se apiede de sua alma.

É fácil falar quando se está distante da dor que esmaga o peito do outro.

Pense em Gaza, Caetano.
Gaza é aqui.

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