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Carma

O ano era 1937. Na sala de estar da casa de paredes altas, o tempo parecia correr mais devagar, ditado pelo tique-taque do relógio e pelo chiado baixo de uma vitrola antiga. Alheia à severidade do pequeno busto de gesso de Beethoven que a observava de cima de um móvel, uma menina de apenas quatro anos esticou o braço por baixo do sofá. Buscava um brinquedo — talvez uma boneca de louça, talvez uma bola de couro. Ao recolher o membro com o objeto em mãos, o antebraço trancou-se contra a madeira maciça do móvel. O peso do próprio corpo forçou a articulação. Houve um estalido seco.

A menina não deu muita importância na hora. Voltou a brincar, ignorando a pontada incipiente. Mas a dor, silenciosa e persistente, fincou raízes. Dias depois, o braço começou a mudar de cor e a inchar de forma alarmante. O choro, antes contido, tornou-se evidente. Diante do inchaço crescente, seu pai, meu avô Olinto Blum, tomou uma decisão difícil. Naquela década, uma visita ao médico era um evento raro para um cidadão comum, um luxo ou um sinal de extrema gravidade.

Aflito, meu avô levou a filha até o Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre. O diagnóstico dos médicos foi um golpe brutal: uma infecção profunda no osso — o que hoje a medicina presumiria ser uma osteomielite severa. Na era pré-antibiótica, sem a existência da penicilina para combater as bactérias, a infecção era uma sentença de morte por sepse. A única solução apresentada para salvar a vida da menina era a amputação imediata do braço esquerdo.

Arrasado e sem chão, Olinto deixou o quarto de hospital. Sentia-se esmagado pela culpa e pela impotência. Caminhou mecanicamente até a cafeteria da instituição, desabou em uma cadeira e ali ficou, tentando colocar os pensamentos em ordem enquanto o mundo desmoronava ao seu redor.

Foi quando um jovem médico, percebendo o sofrimento profundo daquele homem, aproximou-se. Com um gesto simples de empatia, convidou Olinto para tomar um café. No calor daquela mesa, o pai abriu o coração e relatou a tragédia iminente. O jovem doutor ouviu com atenção e se apresentou. Ele acabara de retornar do exterior, onde testemunhara o uso de uma técnica médica experimental na Europa: uma raspagem minuciosa do osso infectado combinada com a aplicação de substâncias antissépticas recém-descobertas. É provável que se tratassem das sulfonamidas, recém descobertas. Era uma aposta arriscada, dolorosa e cara, mas era a única esperança de manter o braço da menina. Olinto aceitou imediatamente. O tratamento esvaziou as poucas economias da família, mas funcionou. A menina preservou o membro, carregando para o resto da vida uma cicatriz vistosa no antebraço.

Anos mais tarde, já adulta, aquela menina explicava o infortúnio sob uma ótica espiritual profunda. Dizia que estava traçado que ela deveria perder o braço devido ao seu carma. Em existências passadas, em campos de guerra esquecidos pelo tempo, usara aquele mesmo braço para cometer atos condenáveis. Essas ações haviam gerado um escurecimento magnético, uma falha e uma fragilidade em seu envoltório perispiritual que se manifestaram fisicamente naquele acidente de 1935.

Contudo, ela sempre enfatizava: o carma não é um destino imutável, mas uma dívida. E a dívida pode ser amortizada. Pelas boas ações, pelos pensamentos elevados e pelos sacrifícios diários ao longo da vida, aquele resgate severo que exigia a perda de um membro foi sendo suavizado pelas leis maiores, transformando-se em uma infecção curada e em uma cicatriz vistosa.

Mas existe mais um elemento extra nessa história: como eu interpretei o acidente e sua explicação para ele. Pelo relato da minha mãe eu sempre achei que ter a mim como filho foi uma forma de saldar essa conta. Assim, minha mãe deve a mim a chance que teve de terminar seus dias com os dois braços. Minha existência em sua vida – arteiro e contestador – foi o peso que ela teve que suportar para amortizar sua dívida.

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Determinismo

Creio ser importante ressaltar que o debate é mais profundo do que parece. A questão que se coloca nesse quadrinho é estabelecer a contraposição de duas propostas espíritas. De um lado, a ideia do ACASO: uma mulher atacada por acaso por um estuprador, sem nada ter feito para isso; uma ocorrência de puro azar. Esta visão se contrapõe à proposta DETERMINISTA, que afirma que todos os fatos de hoje – das punições aos benefícios – são decorrência de algo do passado, de uma vida anterior onde houve falhas a serem purgadas na vida atual ou créditos a serem resgatados. Aliás, é daí que vem uma conhecida expressão brasileira “Eu devo ter atirado muita pedra na cruz para ter que passar por isso”.

Para quem aceita a hipótese determinista, todo o sofrimento presente estaria relacionado a um fato do passado, seja uma dívida ou um talento. O problema para aqueles que creem no determinismo – não cai uma folha da árvore sem que Deus tenha conhecimento – é que essa perspectiva os levaria a aceitar uma vida absolutamente controlada pelo destino, pelos “espíritos superiores”, pelas rígidas leis de causa e efeito (sucedânea da Lei de Talião) ou por Deus, sem que haja qualquer protagonismo de sua parte. Se tudo já estava previamente escrito, de que adiantaria mudar suas condutas? Já para aqueles que acreditam no acaso – ou na ocorrência de fatos dramáticos sem uma causalidade moral anterior – é necessário aceitar que o aprendizado não precisa necessariamente ocorrer pelas punições. Em verdade, a concepção determinista do mundo espiritual é um espelho de nossas próprias convicções punitivistas, que acreditam no poder transformador das penas, das punições, das cadeias e dos castigos. Essa é a visão mais direitista, que acredita que as prisões e penas poderiam produzir algum benefício nas sociedades, algo que se contrapõe à materialidade dos fatos.

Alguns poderiam dizer que não é preciso vasculhar outras existências para explicar as dores desta; muitas vezes colhemos aqui mesmo o que foi plantado nesta vida.  Entretanto, essa proposta apenas traz o limite do debate mais para perto (nesta vida, não necessariamente em outras), mas mantém o dilema principal: é preciso ter feito algo de mal para ser vítima de uma tragédia? Não podemos ser vítimas do acaso? Se você é determinista, dirá que todo efeito necessariamente tem uma causa; as dores serão sempre a decorrência de malfeitos e culpas. Já se você acreditar na possibilidade do aleatório, aceitará que muitas vezes o sofrimento não foi produzido por nenhum fato anterior, mas que ainda assim pode ser fonte de aprendizado.

Além disso, creio que o quadrinho carrega uma falácia lógica, chamada de “non sequitur”, na qual a conclusão, que encerra as ponderações, não decorre das premissas apresentadas. Quando um espírita “determinista” fala de “pecados do passado”, ele não está justificando o crime, mas tentando entendê-lo numa perspectiva maior, mais abrangente, que englobe as vidas passadas e a lei de causa e efeito – também chamada de “lei do carma”. Portanto, é possível a ele dizer que o abuso é “horrível, injustificável, monstruoso e que merece punição, como forma de proteger a sociedade”, enquanto, ao mesmo tempo, tenta entender porque aquela específica mulher passou por tamanha provação e dor. Como eu disse anteriormente, não concordo com a visão determinista admitida pela maioria dos espíritas que procuram causalidades morais em cada tragédia, mas, por uma questão de justiça, creio que esta visão não transfere a culpa para a vítima, apenas tenta entender, dentro desta específica lógica, o que estes sofrimentos poderiam ter como causa.

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Sexo

Há pouco li um texto curioso sobre as consequências do “sexo casual”. Não está bem explicado no texto, mas creio que foi definido como um encontro onde o sexo ocorre sem que exista uma conexão afetiva mais profunda e consequente. Ou seja: dois “ficantes” que resolvem usufruir dos prazeres sexuais sem que haja um compromisso formal, apenas pelo prazer que oferecem reciprocamente.

O texto descrevia os inúmeros problemas decorrentes desse tipo de encontro, usando como argumento teses pouco ortodoxas. Entre elas a ideia de que as “auras se fundem” durante o sexo, e que essa energia “permanece com você” por no mínimo 5 anos (como mensuraram essa impregnação?). Aponta para que, ao se relacionar sexualmente com alguém, você agrega parte da energia da pessoa com quem compartilhou a cama. Se ela for densa, instável, “carente de luz e amor” você incorpora essas características em sua própria aura. Pode inclusive tomar para si o carma de outra pessoa, caso ele(a) esteja carregado de “energias ruins”. Aqui se expressa, sem máscaras, a face mais moralista e conservadora do espiritualismo, usando de teorias sem evidências para criminalizar a livre expressão sexual. Este texto poderia ter sido escrito nos anos 30, e distribuído como um “manual para moças de família”. Por sorte o mundo mudou, e hoje este tipo de discurso não tem tanta popularidade quanto na minha juventude, quando a virgindade ainda era um tema frequentemente debatido. Essa perspectiva conservadora sobre o sexo – usado apenas como fonte de prazer – está fortemente arraigada na sociedade patriarcal, e para justificar esse preconceito criam-se teorias estapafúrdias como a impregnação de “energias” de outros parceiros e a “contaminação espiritual”.

Tais teorias em tudo mimetizam o furor microbiológico do final do século XIX onde todas as enfermidades eram explicadas pelas bactérias e pelas contaminações, fazendo do outro uma fonte de sujeira e de máculas físicas, geradoras de doença. O mesmo ocorre hoje, mas com elementos mais sutis; ao invés de bactérias, fungos e protozoários, agora falamos de energias sutis e carma. Tudo muito cafona, como, aliás, é típico do espiritualismo cristão, que herdou do catolicismo toda essa cultura de pecado e essa carga imensa de culpa. Fica evidente que a sexualidade com sua poderosa força criativa ainda vai receber por muito tempo a censura de conservadores, pelo medo do que possa ocorrer com uma sociedade onde o sexo seja livre. Não é à toa que o parto, elemento especial de expressão da sexualidade, continua sendo tolhido, amordaçado, cerceado, contido, controlado e domesticado, para jamais ocorrer sem o olhar controlador e censurador da sociedade.

Ainda vai demorar um bom tempo até que as pessoas possam parir e transar em paz, sem culpas e sem medos artificiais!!!

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Arquivado em Causa Operária, Pensamentos