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Parto e Privacidade

Diante da explosão de emoções suscitadas por um parto me parece justo que a equipe possa descrevê-lo a partir de SUA perspectiva, até porque um parto sempre terá inúmeras interpretações. Sem dúvida que as mais importantes são as “de dentro” e todas as outras “de fora”.

Uma equipe pode falar que um parto foi maravilhoso ou problemático, desde que o descreva do ponto de vista da atenção prestada. Só uma mulher pode falar de como se sentiu ou como digeriu sua experiência de parir.

Para além disso, nem a descrição que a mulher faz do próprio parto pode ser considerada “a definitiva”. Apesar da primazia de suas percepções – já que é a óbvia protagonista – suas expectativas e projeções subjetivas podem obscurecer a realidade dos fatos, fazendo com que muitas vezes ela descreva seu parto de uma forma completamente diferente de outras perspectivas.

Um parto, por ser um evento humano e multifacetado, sempre comportará várias interpretações e vieses. Além disso, é um dos eventos mais complexos da existência humana, que conjuga em sua essência vida, morte e sexualidade. Exatamente por essas características o nascimento será um processo sensível e reservado. As pessoas convidadas a participar dele precisam entender a importância de resguardar sua privacidade. Assim, não faz sentido que aqueles que o testemunham revelem suas particularidades sem a aquiescência da protagonista, e isso deve ser um consenso entre os cuidadores.

Não se trata de determinar a existência de uma única verdade no parto, a perspectiva justa e certa, pois que isso não existe. Parto só pode ser entendido pela paralaxe de múltiplas visões, em que todas completam o todo interpretativo de um evento múltiplo. Porém, as características pessoais de cada nascimento impõem a reserva e o respeito de todos os que dele participam.

Resguardar a sacralidade do parto depende do preparo dos assistentes e da capacidade de entender sua posição subjetiva como auxiliares de um evento cujas repercussões estão muito além da nossa compreensão.

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No meu tempo…

Não peguei a época dos “pau amigo” ou das “amizades coloridas”. Sou do tempo em que algumas instituições ainda se mantinham firmes, mesmo que já fosse perceptível sua insidiosa senescência. Namorar – para só assim poder transar – era uma instituição ainda viva. “Ficar” era manter-se estático em algum lugar. “Tu vais ficar aqui sem se mexer” dizia minha mãe. E para começar a namorar havia também os devidos rituais. Não havia coisas vagas como “a gente tem saído juntos”. Você era namorado(a) ou não, mas para namorar tinha que “pedir em namoro” e, acreditem, não era fácil. Logo depois da menina aceitar podia pegar na mão. Beijar levava algumas semanas. Os tempos, como sempre, eram determinados pelas meninas. Para nós só cabia choramingar “insiste em 0x0 e eu quero 1×1″. Transar com a namorada era um sonho acalentado por meses…

“Ora, direis, quanto atraso”. Quanta interdição para o livre fruir do desejo. Corpos fechados, proibidos, desejos cerceados. Frustração, cafonice, pecado, culpa. Ave Maria…

Hummm… há controvérsias. Para aqueles que supunham que nossa angústia era baseada nas interdições do corpo, na supressão da livre expressão sexual, a distensão foi frustrante. A facilidades abriram as portas do prazer às custas do sufocamento do gozo. Hoje ficar, beijar e transar são fáceis; no meu tempo eram conquistas de caráter épico. Naquele tempo era mais fácil “aprender japonês em braile” do que ela se decidir a dar.. ou não. A dificuldade nos fazia valorizar tais eventos de uma maneira que não vejo mais na descrição que os jovens fazem. Para nós qualquer decote, um vento sorrateiro levantando a saia plissada da escola e um primeiro beijo mereciam narrativas fantasiosas e ricas em detalhes. Hoje valem um post sonolento e banal no Instagram.

Eu sei, é papo de velho, mas para que mais serviriam os velhos senão para emprestar sua perspectiva de mundo e colocar as certezas de hoje em desafio? Se não é mais possível trancafiar os corpos como outrora resta-nos entender que sua abertura e o romper das amarras não nos livrou da angústia e nem nos levou ao Nirvana.

Ave Maria…

PS: Nem me dei conta do perigo de publicar esta crônica no contexto da abstinência sexual promovida pela ministra Damares. Mas, como eu mesmo disse, voltar a fechar os corpos é impossível. Se a aventura libertária do sexo não nos deu o paraíso imaginado, seu fechamento trará apenas drama, dor e culpa. A ideia de promover a abstinência entre os jovens nos dias de hoje é absurda do ponto de vista de saúde pública. A política desse governo se mostra insensata e moralista e apenas reproduz o culto à ignorância. A fantasia do retorno a um passado de “respeito” e “contenção” é um suicídio social e uma tragédia para a juventude.

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A mais bonita

Em verdade, apesar do natural estranhamento causado por esta afirmação, não existe momento mais pleno de sexualidade do que o parto. Lembro de Ferdinand Celine, médico e polêmico escritor francês, escrevendo “Querem sexualidade de verdade? Procurem no parto“. Quem não concorda, tudo bem.

Vi algumas mulheres defendendo maquiagem e tratamentos para o cabelo para o momento das fotos na maternidade. Não me meto nesses assuntos e acho que cada um faz como quer, mas me incomodou a justificativa: seria para que ela ficasse “mais bonita” quando fosse gravar o momento em imagens.

Acho isso muito estranho, e posso dizer que não há nada mais belo do que a imensa balbúrdia de suores, gemidos, cabelos desgrenhados, lábios inchados e olhos molhados que testemunhamos no momento em que um bebê nasce. Não discuto os diversos conceitos de beleza, que precisam de poses, ângulos, iluminação e acessórios, mas repito que esta beleza crua e selvagem desse momento é muito mais significativa na construção de nossa própria sexualidade.

Bonita para receber seu filho“? Acham mesmo que um bebê vai se importar com a tonalidade do batom? Ou os presentes vão levar isso em consideração? Eu creio que o belo da cena está na superação e na própria vida que se revigora. Claro, uma forma mais sutil de beleza.

Na perspectiva do ser que nasce, inseguro e incompleto, desalojado de sua casa de idílio absoluto, a fagulha de esperança que lhe acalenta é o brilho das duas estrelas que, ao se aproximarem de seu rosto, informam que a única alternativa é o amor. Estas estrelas são os olhos brilhantes e úmidos de sua mãe.

O resto é comércio.

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Primeira ação

Edward Goldberg, do catalysta.net, me pergunta – e solicita uma videoresposta: “qual a atitude que seria recomendável a profissionais e estudantes para melhorar rapidamente a assistência ao parto?

Minha resposta é a mesma há 20 anos. Como sabemos, o parto foi expropriado da cultura, sequestrado pelos médicos e escondido em hospitais. Sua estética foi separada do mundo e modificada por aqueles que o controlam. Para isso, instituiu-se um sistema baseado no medo e na desconfiança das capacidades intrínsecas femininas de gestar e parir com segurança. Como diria Max, “o parto hospitalar é como um mapa cujo percurso verdadeiro a quase ninguém é permitido percorrer. Nossa informação não é mais obtida pela experiência concreta dos relevos, aclives, declives e barreiras naturais, mas apenas por sua tosca representação bidimensional num pedaço de papel.

O nascimento, assim controlado, tem sua força transformadora cerceada e tolhida em nome da vigília sobre os corpos dóceis de que se ocupa a reprodução. Sem sua espontaneidade livre, crítica e eminentemente sexual, o nascimento é amansado, domesticado e contido.

Minha receita para os estudantes e profissionais é simples e segue o caminho que Marsden me contou – e que eu mesmo vivi na pele. Para permitir que o parto impregne de sentidos a mente de um jovem médico permitam que ele se apresente livre, sem enfeites e maquiagens. Desfaçam as amarras do autoritarismo e cortem-lhe os grilhões do medo que o aprisionam. Libertem os corpos das mulheres para que elas possam parir em liberdade. FREE BIRTH!!!

Estimular jovens profissionais a assistir partos planejados fora do ambiente hospitalar seria a ação mais rápida, mais desafiafora, mais inteligente e mais gratificante de todas possíveis. Confrontar a estética puramente sexual de um nascimento, com seu espírito selvagem e indômito, apresentaria aos jovens cuidadores a face mais verdadeira de uma mulher, a qual ficaria marcada para sempre em suas retinas, moldando a forma como as tratariam pelo resto de suas vidas. Esta atitude simples não apenas os tornaria obstetras mais respeitosos e delicados, mas também seres humanos mais justos e dignos.

Ensinar partos aos estudantes apresentando seu fac-símile hospitalar é o mesmo que orientar a sexualidade de adolescentes através da apornografia”

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Arquiteturas sexuais

Respeitosamente discordo.

Na minha modesta opinião o erro está em parear a sexualidade masculina com a feminina sem levar em consideração a arquitetura ancestral de suas construções. Sendo uma sexualidade objetual e a outra narcísica é de suas específicas naturezas que se expressem de forma absolutamente diversa: uma para fora e outra para dentro.

Uma expressão sexual masculina narcísica (como na foto) se choca contra a estrutura íntima da sexualidade masculina, por isso parece ridícula. Já a estrutura feminina essencial (portanto não cultural) se adapta a essa exposição do corpo como artefato de desejo. Além disso eu concordo com algumas feministas de que não se trata de uma objetualização (apesar da apresentação como objeto de desejo) mas de um reforço do poder feminino que não deveria ser desprezado. Por que haveriam as mulheres de desprezar o imenso poder que exercem na cultura como guardiãs do prazer?

Não há nada de errado ou sexista no corpo feminino como objeto de desejo (que ele felizmente é) mas na REDUÇÃO da mulher a APENAS um corpo sem alma e sem autonomia. No meu modesto ver é possível glorificar e desejar as mulheres e suas formas sem reduzi-las a isso e admirá-las por todas as suas qualidades humanas.

Porém, subverter a arquitetura da sexualidade humana em nome de uma igualdade forçada me parece errado. Talvez, se o tema fosse mostrar sexo para vender produtos (como uma motocicleta), eu concordaria, mas o texto escrever a à foto como sexista (por ser normalmente com uma mulher) e não imoral ou indecente (por vincular sexo com consumo).

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Sociedade e Espetáculos

Uma atriz famosa declara algumas particularidades de sua vida sexual íntima. Recebe críticas e elogios, seja por sua “imoralidade”, seja pela coragem de falar de suas fantasias íntimas.

Talvez a discussão esteja trocada. Não se trata de debater com quantas pessoas ela transou ao mesmo tempo. Esta é, concordo, uma discussão moralista e sem sentido. O desejo de cada um é patrimônio pessoal sobre o qual não podemos estabelecer critérios ou julgamentos. Usando sua própria lógica: “Quem não fantasiou? Quem podendo não faria?”

Por outro lado, o que eu considero digno de debater é a necessidade tipicamente pós moderna de expor publicamente assuntos absolutamente pessoais. O que veste por baixo da roupa, o que come, suas fantasias e com quem faz (ou fez) sexo. Parece que o mundo cibernético rompeu com todas as barreiras da privacidade.

Vejam que não se trata de IMPEDIR que seu mundo privado e íntimo seja publicizado. Nesse terreno é impossível adentrar sem igualmente invadir a liberdade do outro. Entretanto, caberia perguntar as razões pelas quais as sociedades contemporâneas desprezam tanto a intimidade e a privacidade.

A sociedade do espetáculo conseguirá, por fim, transformar cada sujeito em um performático de sua própria existência?

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Desprezo

Mulher braba

Escrevi um enorme texto e apaguei…

Guardei apenas a última frase: “Nunca despreze a violência de uma mulher que se sentiu desprezada por um homem”. A violência dos homens na mesma situação bem a conhecemos, e ela é trágica. Mas a das mulheres as vezes pode passar despercebida…

A violência de um homem desprezado bem a conhecemos, e ela é trágica. E para essas mulheres já existem sistemas de suporte. Minha frase se referia apenas ao fato de que é natural um homem ser desprezado por uma mulher em um baile, num pedido para sair, numa abordagem qualquer. Para um homem comum isso não é uma desonra. Levar um “não”, “estou cansada”, “sai pirralho”, “vai te criar”, “estou conversando com minhas amigas”, etc… é natural. A imensa e gigantesca maioria dos homens civilizados bota isso na conta da ousadia. “Se colar, colou. Se não der certo, vamos para a próxima“.

Entretanto, as mulheres não tem esse treinamento de milênios oferecido pelo modelo patriarcal. Eles não sabem levar “não”. Ficam contidas e se sentem humilhadas. O problema é que a revolução feminina colocou no “mercado” milhões de mulheres que acham que tem o (justo) direito de tomar a iniciativa. Tiram para dançar e até se oferecem sexualmente. Todavia, não estão ainda preparadas (como nós) a receber um rechaço por suas investidas. Ficam indignadas e, primeira atitude, desqualificam o sujeito. “Bixa“, “frouxo“, “fraco“, etc. Maior ainda é a maledicência sutil e insidiosa que vai ocorrer depois. As mulheres, se quiserem ser livres a ponto de se tornarem “caçadoras”, precisam se adaptar ao fato de que nem sempre a flecha atinge o alvo.

E a culpa não é do alvo.

PS: Eu sei que homens matam mulheres por serem desprezados, por ciúmes, por se sentirem abandonados. Sei que esse problema é muito maior. Entretanto, o fato de haver uma guerra na Síria não me impede de questionar o aumento no preço da farinha de rosca. Até porque um fato não invalida o outro.

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Defesa da própria cesariana

Cesariana

“A defesa da cesariana pelas mulheres que se submeteram a ela nada mais representa do que a proteção que estas fazem do sentido último da sua sexualidade. Por isso esta defesa frequentemente oscila entre a paranoia e a fúria.”

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Parto e Sexualidade

Tais

Há algum tempo uma pessoa me perguntou “afinal, qual a diferença entre parir em um hospital e em casa“, querendo me dizer que não havia razão para ter um filho na segurança de um domicílio já que os hospitais poderiam proporcionar o mesmo cuidado ali prestado associado ao uso de tecnologia mais sofisticada.

Diante dessa pergunta eu respondi: “E difícil explicar esta questão sem uma compreensão mais ampla da transcendência desse evento, que em muito ultrapassa os valores físicos, biológicos, mecânicos e hormonais. Para usar uma comparação grosseira, a diferença entre estas duas experiência seria semelhante àquela de ter uma relação sexual com uma desconhecida e fazer amor com o grande amor da sua vida. Do ponto de vista biológico, hormonal e mecânico os dois eventos são parecidos, para não dizer iguais. Movimentos semelhantes, alterações hormonais, excitação, orgasmo e período refratário. Entretanto, qualquer pessoa que não seja absolutamente desprovida de sentimentos percebe a distância abissal entre estes dois eventos”.

Sem a dimensão do amor, da paixão e da espiritualidade (num sentido amplo) não há como a ciência contemplar os significados infinitos de um nascimento em paz. Tentar traduzir matematicamente um parto, imaginando esgotar-lhe as possibilidades de entendimento, é perder a essência e a magia incomensurável do que significa ser humano.

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