
No sofá do canto da sala, ajeitei meus pés sobre o espaldar e deitei meu corpo sobre o chenille gasto. Apoiei a cabeça sobre a almofada enquanto ouvia no canto oposto a risada tímida e contida de Margareth. Seus olhos verdes e salientes ainda produziam o mesmo contraste com o nariz arrebitado que tanto me encantara. O jeito de rir das piadas, quebrando as palavras em suas sílabas, conjugado com sua vivacidade curiosa sempre me atraíram de forma magnética. Durante anos ela ocupara um lugar central em minhas fantasias, mas as circunstâncias haviam fatalmente nos afastado. Minha posição era, portanto, mais do que desconfortável. Enquanto ainda sorvia seus encantos, seu perfume, sua delicadeza e me banhava nas memórias cálidas de nossas conversas e cafés compartilhados, minha morte recente não me permitia mais do que o deleite solitário de suas qualidades e o brotar de lembranças envolventes.
O sujeito a cortejá-la poderia enganar a qualquer um. Bem-vestido e com cabelo vistoso, com madeixas descoloridas a lhe cair sobre a fronte, parecia um playboy clichê do cinema italiano. A Comissão sabia muito bem de suas intenções e do perigo que representava, e coube a mim a tarefa de estar próximo a Margareth nesse encontro. Nossa amizade e a indisfarçável atração que nutri por ela durante tantos anos me faziam a pessoa adequada para esta tarefa. Mas, por certo, tornavam a missão igualmente ingrata e dolorosa.
Como recém-chegado, eu ainda não tinha pleno domínio das habilidades de convencimento dos encarnados. Para piorar, o curto período de treinamento não era capaz de nos oferecer o talento de encarar nossas próprias fantasias ou de controlar os impulsos eróticos que (surpresa!!) não se desfaziam com a morte. Margareth repousou a mão sobre o joelho e ergueu o queixo em direção ao homem que segurava a pequena caixa adornada com fitas coloridas em suas mãos. Sua postura indicava a frouxidão de suas defesas, o arrebatamento iminente das últimas barreiras. Em questão de minutos, ela estaria sob o domínio completo do homem que a levaria, sem saber, à própria destruição, como já havia feito com tantas outras.
Era o momento de me erguer, sussurrar em seu ouvido as palavras que o instrutor me fizera repetir por tantas vezes e esperar que o gelo da razão fizesse seu coração se acalmar. Se não foi possível dizer tudo o que desejava em vida, que dissesse agora, após morto, o que era preciso.
Lisbeth Ellsworth, “The Spiral of Lust”, ed. Latina, pág. 135
Lisbeth Ellsworth nasceu em Tegucigalpa, filha de pais americanos. Seu pai era pastor da Igreja Presbiteriana de Honduras, mas teve que voltar às pressas para os Estados Unidos durante as rebeliões patrocinadas pela CIA neste país – assim como toda a América latina – nos anos 80. A primeira infância de Lisbeth foi envolvida com atentados, bombas, greves e muito medo. Quando voltou com a família para os Estados Unidos, foi morar em Corpus Christi, no Texas, e estudou na Callalen High School. Ao terminar o highschool, ingressou na Universidade do Texas, onde se graduou em literatura hispânica. Escreveu seu primeiro livro “Streets of Arcieri” ainda na escola secundária, ganhando o prêmio literário júnior ao falar sobre o bairro pobre onde se localizava a Igreja que seu pai comandava. Em “The Spiral of Lust”, Lisbeth narra a história de Everett Cole, um jovem que morre prematuramente e descobre, no além, que pode se alistar na Comissão, uma organização que intervém discretamente na vida dos vivos para impedir tragédias evitáveis. Designado para proteger Margareth, sua paixão não correspondida em vida, das investidas de um sedutor compulsivo que já destruiu várias mulheres, Everett se vê dividido entre o dever profissional e o desejo nunca resolvido de finalmente declarar o que sentia. Escreveu 4 livros de contos além de “The Spiral of Lust”. Hoje mora em Los Angeles, tem dois filhos e é casada com o crítico de cinema Francis Hubbard.
