Robbie, em verdade, matou a charada da intervenção sobre o corpo feminino ao vincular o surgimento da ginecologia com a necessária ideologia misógina e patriarcal. Antes de criar a especialidade médica que se ocupa das mulheres era fundamental entender o corpo delas como falho, insuficiente e defectivoem essência. Só assim entendido seria possível tratar sua própria naturalidade, sua fisiologia e seu curso normal. Enquanto lançamos um olhar condenatório para qualquer função feminina natural, como menstruar, parir, amamentar ou entrar na menopausa, NENHUM evento fisiológico masculino é tratado como doença pela medicina. A razão para essa diferença repousa no conceito profundo da incompetência feminina. Seus corpos são arremedos, vaginas perigosas, mamas suspeitas, abdomens misteriosos e traiçoeiros. A fisiologia feminina é patologizada ao extremo, a ponto de que os eventos naturais desaparecerem de nossa visão tamanho o encobrimento que recebem com camadas de patologias sobrepostas umas sobre as outras.
A ideologia oficial é a “segurança”, mas os valores subjacentes apontam para um modelo que – acima de tudo – pretende controlar os eventos da sexualidade feminina: sexo, parto, maternagem, amamentação e menopausa. É da essência do patriarcado manter a sexualidade feminina sob estrito controle, pois que a reprodução controlada está no coração da “domesticação das espécies”.
A forma como a medicina se expressa não poderia ser afastada do modelo que regula as sociedades contemporâneas, até porque ela nada mais é do que um reflexo dos valores que esta mesma sociedade exalta e protege. Desta maneira, os médicos são guardiões de um modelo patriarcal que, embora decadente, ainda controla as relações de poder na sociedade. A função última – e inconsciente – desses profissionais é a manutenção, proteção e disseminação desses valores.
Como Maximilian costumava me dizer, se mulheres tivessem barba haveria tratamentos e cirurgias para a “excrescência pilosa facial”.
Não existe uma justiça essencial e natural; ela é uma construção humana, dinâmica e constituída pelo tensionamento das forças políticas. O que é legal e aparentemente justo hoje pode não o ser amanhã. O que é ilegal também. As forças conservadoras patriarcais reagem às mudanças que observamos na realidade do parto, e respondem com a mesma intensidade com que se sentem pressionados ou ameaçados. O rechaço ao direito de fazer escolhas informadas – entre elas o local de parto – desnuda o desconforto da corporação com qualquer discurso ou ação por parte das mulheres que desafie uma onipotência duramente conquistada. Somente a pressão das mulheres pelos seus direitos e por sua autonomia poderá fazer a mudança na forma como a sociedade julga estas ações.
Minhas 10 razões pessoais para acreditar que a paternidade é uma bênção, mesmo quando chega de forma inesperada…
Um filho lhe dá a garantia que a linha da vida que lhe foi confiada não terminou em você.
Um filho lhe dá a esperança de que vai fazer o que você não foi capaz de realizar ou conquistar.
Um filho lhe oferece a oportunidade de entender e perdoar seu próprio pai.
Um filho lhe ajuda a olhar o mundo por outra perspectiva, muito mais ampla e complexa.
Um filho lhe ajuda a rever pontos obscuros da sua própria infância e colocá-los em perspectiva.
Uma filha (aqui o gênero faz sentido) lhe ensina muito mais sobre a alma feminina do que qualquer outra mulher da sua vida, mesmo sua mãe, irmã ou sua esposa.
Um filho é um pedaço de você que lhe será apresentado em capítulos durante décadas, de forma sempre surpreendente.
Um filho é a esperança de que sua vida, por pior que tenha sido, terá valido a pena.
Um filho é alguém que lhe faz acreditar que o mundo faz sentido.
Um filho lhe ajuda a suportar a vida quando a desilusão chegar.
Hoje o Sindicato Médico do meu estado estará se reunindo para debater a seguinte pauta: Parto Seguro X Parto “dito” Humanizado. Além disso discutirão as responsabilidades de médicos que trabalham em lugares onde partos são atendidos por enfermeiras.
Evidentemente que a convocatória, contrapondo os partos “dito” humanizados com os “partos seguros” já demonstra um preconceito inquestionável. Mais do que isso: é uma provocação contra um movimento que vai se enraizando na cultura brasileira a partir de iniciativas bem evidentes e consistentes. Negar a importância desse movimento social é o grande risco que os médicos podem incorrer se negligenciarem os fatos que se acumulam há mais de 20 anos nessa direção. Cronologicamente podemos citar:
A criação da ReHuNa (1993) – Rede pela Humanização do Parto e Nascimento – que já tem 22 anos de existência, de luta e de desafios em nome da humanização, com grande influência na elaboração de políticas para o parto no Brasil, além de conexões com instituições do mundo inteiro.
Congressos Internacionais cada 5 anos no Rio e em Brasília, patrocinados pela OMS, OPAS, Ministério da Saúde, JICA e a própria ReHuNa, com milhares de participantes.
Congressos anuais de humanização no Rio de Janeiro (Parto Consciente, Ecologia do Parto) e em São Paulo (Enapartu e Siaparto)
Criação do curso de Obstetrícia na EACH da USP
Lei do Acompanhante, com a garantia em lei para acompanhantes em hospitais públicos e privados em todo o território nacional
Casas de Parto em várias localidades brasileiras, depois de lutas intensas pela garantia desse atendimento
Capacitações de Doulas se multiplicando pelo país, levando às pacientes informações atualizadas sobre protagonismo e boas práticas nos cuidados com as gestantes durante o parto
Um avanço da Medicina Baseada em Evidências como prática e discurso, deixando muitas “mitologias médicas” (Kristeller e episiotomia rotineiras, excesso de cesarianas, tricotomias e enemas, etc.) defasadas e com uma visível diminuição de sua utilização.
Filmes e documentários (Orgasmic Birth, The Business of Being Born, O Renascimento do Parto, Le Premier Cri, Microbirth, etc) para o grande público mostrando a realidade do nascimento no Brasil e no resto do mundo.
Participação inédita das mulheres nos movimentos sociais pelo parto normal no Brasil a partir de meados de 2012 com a “Marcha do Parto em Casa”, com mais de 5 mil participantes e 31 cidades, no Brasil e no exterior. Participação imensa dos debates sobre parto normal e cesariana nas redes sociais, com grupos de discussão, comunidades no Facebook e demais formas de participação. Criação de grupos como Amigas do Parto, Parto do Princípio, Nascer Sorrindo, Parto Alegre, Rodas de Gestantes, e tantos outros por todo o país
Livros (nacionais e estrangeiros), congressos, seminários, cursos e simpósios. Por todo o lado, no Brasil e em todo o mundo.
Participação do governo federal na luta contra as cesarianas desnecessárias, assim como a entrada da ANS no debate para limitar a taxa na saúde suplementar. Criação da Rede Cegonha como projeto de humanização da assistência ao parto.
Assim sendo o que vemos hoje é a culminância de uma trajetória de pelo menos 20 anos de questionamentos e críticas ao modelo assistencial ao parto, e não uma ação oportunista de grupos radicais. Não se trata de uma visão romântica ou superficial, mas uma postura engajada na autonomia feminina. Baseia-se na garantia do protagonismo à mulher no parto, na visão integrativa e interdisciplinar do evento e na ligação inexorável com a Saúde Baseada em Evidências. Portanto, o que se debate e se observa hoje em dia está sendo gestado há mais de duas décadas, e não se trata de uma aventura inconsequente sobre a assistência ao parto. Pelo contrário: trata-se de um lento amadurecimento de propostas, visões, experiências de sucesso e propostas.
Evidente que não é do nosso interesse pautar as discussões médicas, mas apenas solicitar que uma questão séria como são os projetos de humanização não seja tratada de forma desrespeitosa, irônica ou debochada. O risco que a categoria médica corre nestas situações é – mais uma vez – ficar à reboque da história, vendo os movimentos sociais promoverem mudanças sem perceber que o mundo mudou, alheios ao fato de que as mulheres estão diferentes e que as demandas por partos mais dignos e participativos estão na ordem do dia em diversos lugares do mundo.
Não faz sentido que o mundo se esforce por mudança enquanto os obstetras ficam cegos às demandas das gestantes. É preciso respeitar a voz que emerge de forma espontânea de pacientes que exigem respeito e segurança no momento central da feminilidade. Não há motivo – ou vantagem – em desmerecer esse movimento como se fosse desprezível ou fantasioso. Ele não é, e os governos do mundo inteiro se preocupam com esta questão de forma prioritária, pois se refere aos direitos humanos, reprodutivos e sexuais, para além das questões técnicas, corporativas e médicas.
Quando leio esta nota eu sempre me lembro de um fato ocorrido durante a última campanha eleitoral aqui mesmo no Rio Grande do Sul. Para um determinado setor (as elites) qualquer contraponto ao poder hegemônico “não presta“. Segundo o deputado Heiz (representante dos ruralistas): “É ali que estão aninhados quilombolas, índios, gays, lésbicas; tudo que não presta ali está alinhado.“
Talvez o sindicato esteja dizendo algo parecido. “É ali que estão aninhados médicos que atendem partos normais, doulas, ANS, governo federal, enfermeiras obstetras; tudo que não presta ali está alinhado.“
Quando é que nós médicos vamos perceber que esses atores na atenção ao parto tem o direito (como em qualquer democracia europeia) de participar dos debates e da assistência às gestantes e ao parto? O discurso retrógrado só poderá aprofundar o fosso que separa as demandas das mulheres do pensamento obstétrico hegemônico. E isso é ruim para TODOS, em especial o objeto de nossa atenção: mães e bebês.
Nesse rico momento de agitação é importante que os profissionais se unam às gestantes para que juntos possamos encontrar soluções para os dilemas da assistência. Se de um lado precisamos oferecer segurança às grávidas e seus bebês, por outro lado a autonomia e a liberdade são valores inquestionáveis que devem permear qualquer relação de assistência. Além disso, se as pacientes precisam ter seus direitos resguardados em nome da autonomia e da garantia do protagonismo sobre seus corpos, também os profissionais que prezam o bem-estar de suas clientes necessitam ser protegidos profissionalmente, para que possam usar sua arte e sabedoria com liberdade.
Espero que os colegas que participarem dessa reunião tenham como foco, acima de tudo, a descoberta de caminhos para garantir as conquistas da modernidade com os direitos humanos que devem ser garantidos às gestantes. Como dizia Willhelm Reich, “A civilização vai começar no dia em que o bem-estar dos recém-nascidos prevalecer sobre qualquer outra consideração“.
Hoje eu li que o Papa Francisco disse que o “inferno não é quente e que Adão e Eva não são figuras reais“. Se até a Santa Sé se moderniza e se adapta à ciência e aos costumes, porque a medicina insiste em se ensurdecer aos clamores por mais liberdade, autonomia, segurança, dignidade e protagonismo?
Espero que na reunião impere o bom senso e a visão sensata sobre o futuro da assistência ao parto.
Na verdade a banda estava afundando. Desavenças internas, disputas de beleza, vaidades, mulheres e drogas. A tensão era insuportável. Com tantas brigas muitos shows acabavam em bebedeiras e discussões e muitos contratos estavam sendo cancelados. Dick Chertok, empresário da banda, aconselhou a dissolução e que Jake Leopard, vocalista da banda (que é surdo, por isso a banda se chama Deaf Leopard – “leopardo surdo”) seguisse a carreira solo.
A partir desse conselho, Jake cheirou uma carreira inteira sozinho e convocou um reunião da banda. Era importante que todos soubessem o que viria pela frente. Vieram todos, menos o empresário, que foi buscar Coca no super e ficou preso no tráfico.
“A banda vai acabar, já sabemos”, disse Aaron, o baixista, mas Jake não o escutava. Jake é surdo do ouvido esquerdo, e o direito nunca se desenvolveu. Jake então pediu a palavra e falou:
“Vocês não sabem ainda, mas a banda vai acabar. Não há como pagar os custos. Gente demais, música de menos”. Disse isso e olhou para Martin, o tecladista, que era seu colega de escola e fundador da banda junto consigo. De uma certa forma eram parentes, pois Martin teve um caso com sua mãe que precisou ser resolvido na polícia e com a supervisão de um advogado de família.
Jake continuou: “Temos na banda um sujeito que toca triângulo e esse som aparece por 3 segundos em apenas uma de nossas músicas, mas ele viaja nas turnês sempre. Isso me parece absurdo e caro demais.”
Jerry, o trianguleiro, tenta reclamar. “Nunca me deixaram fazer um solo”, mas os outros o calam. “Cale a sua boca, Jerry!”
“Além disso, sinto informar, mas nossa música está ultrapassada, pois o roque morreu.”
Todos ficam em silêncio em respeito ao Roque, que tocava tuba na banda e saiu para excursionar com os alunos do colégio Maria Imaculada. “Não recebo o reconhecimento que mereço nesta banda”, disse ele ao abandonar o grupo”.
“O Roque errou, mas ele vai viver para sempre nos nossos corações”
“A banda acabou. Vamos encarar os fatos. O “Leopardo Surdo” não tem mais o que dizer ou cantar. Voltem para suas casas.”
Alguns ainda tentaram argumentar, mas Christian, o baterista, deixou claro que nada mais havia a fazer.
“Sertanejo universitário é o que toca agora. Recomendo a todos que façam cursinho e passem no vestibular. É a única chance que temos.“
Todos baixaram a cabeça, menos Jake, que disse: “Sertanejo universitário é o que mais toca, e…“, mas todos continuaram a sair cabisbaixos, sem dizer uma palavra.
Sonhei que, após uma briga terrível com Freud por causa da cor das polainas do mestre, Jung teria voltado para casa, feito suas malas e apagado todos os selfies que tirara com seu ídolo. Feito isso, resolveu sair da cidade. “Espairecer, é o que preciso”, pensou ele.
Dirigiu-se à estação de ônibus e pediu um bilhete para a cidade em que morava sua mãe, Nova Hartz. Precisava de um carinho materno, colo, doce de figo e alguém que lavasse três malas de roupa suja que ele trazia consigo.
Mal entrou no ônibus (Ouro e Prata, semi-leito) olhou para a janela e viu sua cidade apequenar-se no horizonte, à medida em que se lembrava das circunstâncias de sua briga com Freud, ainda recordando, palavra por palavra, sua última desavença com ele: “O uso de polainas salmão com calças pretas não era algo simplesmente derivado de uma predileção ou um fato aleatório. Não, Siggy, não! Não há coincidências!! É preciso haver uma conexão com algo maior, algo que extrapole a própria subjetividade, que seja resgatado de um poço de desejos e imagens, significantes e mitos, algo como… como um arquivo onde todos colocassem valores que circulam de forma não-sabida, em um campo simbólico, onde eles volitam até que alguém deles se aposse momentaneamente, e volte a colocá-los em circuito. Eles existem e nos governam, sem que possamos ter sobre eles consciência. Poderia chamar este lugar de… agora me foge o termo.”
Jung irritou-se com a impossibilidade de encontrar o termo adequado para a sua teoria, que parecia fazer todo o sentido. Freud, por sua vez, apenas acendeu seu charuto e respondeu: “Não creio que o inconsciente esteja preocupado com minhas polainas, Karl. Muitas vezes uma polaina é apenas uma polaina para esquentar as canelas. Faz frio nesse bairro, por Deus! Pare de buscar explicações que não existem para satisfazer suas teorias tolas!”
O mestre ainda teve tempo de dar uma baforada em seu charuto, visivelmente bravo e com seu nariz avermelhado pelo frio. Freud somente o chamava de Karl quando estava profundamente irritado, do contrário Gustav era o nome mais carinhoso. Jung não esperou que seu mentor completasse sua lista de ofensas prediletas. “Suiço comedor de queijo”, era uma das mais infames. Pegou seu chapéu de feltro com fita vermelha e saiu porta afora, não sem antes gritar: “Não me chame pelo whatsapp, Siggy. Você está definitivamente BLOQUEADO!“
Dentro do ônibus, mareado um pouco pelas curvas, Karl mordeu o lábio ainda remoendo angustiosamente a raiva pelo acontecido. “Por que desprezar minha ideia? Por que ele sempre faz isso comigo? Por que insiste em me humilhar quando Sándor Ferenczi está por perto? E por que insiste em chamá-lo de “Sandy” na minha frente?”
O ônibus sacoleja quando sai da BR 116 e entra em direção a Taquara. Seus pensamentos estão cheios de mágoa, mas não consegue esquecer que a razão fundamental para esta briga estava alicerçada em uma disputa fálica: o mestre que jamais admitiria ver seu pupilo oferecer uma ideia inovadora. O filho que ousa desafiar o pai; o lobo velho que resiste e luta até sangrar e, por fim, morre. Porque precisa ser assim? Qual a razão de desprezarmos tanto o amor. Sim, o amor…
Subitamente um estrondo. O guincho estridente dos pneus é seguido de uma batida seca, o que faz tudo escurecer. O ônibus, ao desviar de uma vaca perdida, freia de forma brusca. A ação rápida do motorista salva o animal, mas faz o “Ouro e Prata” girar sobre si mesmo e cair na ribanceira que se estende ao lado da pista. Depois apenas o silêncio e breu…
Karl Gustav acorda com um policial rodoviário a lhe bater levemente no rosto. Sua face encovada e seus lábios finos estão ainda mais descorados. O quepe cor de cáqui do oficial quase lhe bate na testa. “Senhor Karl, senhor Karl, por favor, diga algo. O senhor está bem?”
Jung estava confuso. Lembrava da conversa na noite anterior no bairro do Bom Fim com Freud, e sabia que haviam brigado. “O que aconteceu depois? Onde estou? O que houve?”
“O ônibus caiu no barranco, senhor Karl. Foi muita sorte terem escapado com vida. O senhor esteve inconsciente no coletivo este tempo todo. Estamos aqui para lhe resgatar”.
“Ah, estive inconsciente… no coletivo? Inconsciente … coletivo?”
Jung ficou subitamente alerta. Foi tomado de uma espécie de euforia, que poderia ser traduzida pelos policiais que o cercavam como um surto de loucura. Arregalou seus olhos azuis helvécios e exclamou:
“É isso, é isso!! Preciso escrever, escrever!! Onde posso arranjar uma caneta BIC?”
O som dos passarinhos agride meus tímpanos em repouso e acordo com o alarme do celular. Olho para a mesa de cabeceira e vejo “Memórias, Sonhos e Reflexões”, de K. G. Jung.
É importante que alguns termos normalmente usados sejam esclarecidos para que qualquer debate seja mais produtivo e claro:
Parto normal: parto pela “norma” fisiológica, isto é, via vaginal.
Parto natural: parto em que a natureza comanda o processo, sem intervenção técnica ou de linguagem.
Parto humanizado: partos que ocorrem em uma espécie de mamíferos dotados de razão e linguagem: homo sapiens sapiens. É composto de 3 elementos constitutivos:
Protagonismo garantido à mulher, sem o qual teremos apenas sofisticação da tutela patriarcal
Uma visão interdisciplinar, portanto, aberta e abrangente, para analisar e assistir um evento humano e fisiológico, e…
Vinculação visceral e inquestionável com a Saúde Baseada em Evidências
Portanto a VIA DE PARTO é fundamental, pois é um caminho constitutivo da mãe e do bebê. No dizer de Bárbara Katz Rothman, “Partos não servem apenas para fazer bebês, mas para construir mães fortes e capazes de lidar com os desafios da maternagem.” O parto humanizado é, portanto, um grande capacitador materno, oferecendo à mulher as melhores ferramentas para seu posterior desempenho como mãe.
É importante não confundir esses termos, assim como é fundamental perceber que o fato de mães e bebês terem sobrevivido NÃO É o único valor significativo. Existem muitos elementos importantes no nascimento de um bebê além da simples sobrevivência dele e de sua mãe.
Se é certo que o mais importante é sobreviver – e bem – também é correto dizer que parto NÃO é tão somente “meio”. O que se percebe é que o parto é fundamental para a construção de ambos os sujeitos: o bebê que nasce e a mãe que ressurge. Como um filho adolescente que vai a um show de Rock. Claro que voltar vivo é o mais importante, mas eu certamente perguntaria se o show foi bom, porque existe mais em um show de música do que simplesmente sobreviver a ele.
Experiências humanas podem ser comparadas a um “show”, claro. Um show tem desejo, alegria, gozo, tristeza, começo e fim. E tem morbidade e mortalidade. Uma excelente metáfora. Aliás, o “Show da Vida” não nos lembra algo? Pois é… a abertura era um nascimento. Parto é SIM espetáculo…
Partos recheados de violência são eventos que TODOS deploramos. Dizer que uma cesariana é melhor que “isso” pode ser até verdade (mas ela é sempre subjetiva nos pacientes), mas não pode nos levar a ter um olhar mais condescendente com a abordagem cirúrgica (que tem sabidamente uma morbimortalidade muito maior). Partos violentos devem, pelo contrário, nos fazer combater práticas defasadas e violências institucionalizadas que ainda são a regra na atenção ao parto. “Terceira via” é a solução !!!! Nem cesariana, nem parto violento. Queremos parto de princesa!!!
Quanto à atenção é bom estar atento para o fato de que o médico NÃO faz NADA, preferencialmente, no espetáculo do parto. O parteiro (médico ou obstetriz) PERMITE que o SHOW aconteça no corpo alheio, conforme as determinações fisiológicas escritas há milênios no nosso código genético, agindo APENAS quando a rota do parto se afasta da fisiologia e entra no terreno espinhoso da patologia. Nesse momento, altera-se o protagonismo, e o médico pode fazer seu show (sua arte, suas aptidões) e garantir o bem-estar de mães e bebês. Não se trata, portanto, de excluir as habilidades e capacidades médicas, mas colocá-las apenas a serviço do binômio mãe-bebê, sem uma interferência exagerada e danosa ocasionada pelo exagero de aporte tecnológico.