Arquivo do mês: abril 2016

Doulas e SUS

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Sobre as leis de doulas que estão surgindo em várias partes do Brasil cabe uma reflexão:

O SUS é universal e gratuito e precisamos protegê-lo. Não cabe cobrança de nenhum profissional. Se doulas começarem a cobrar pelo seu trabalho isso oferece uma fresta perigosa para qualquer profissional também fazer cobranças pelo seu trabalho. Se quisermos manter o SUS gratuito teremos que ser firmes em sua defesa. Os caminhos para a atenção em hospitais públicos do SUS me parecem ser o da incorporação das doulas as equipes de saúde (como funcionarias regidas pela CLT) ou o voluntariado (como já ocorre em alguns hospitais, como o Sofia Feldman). Nos serviços privados a escolha será livre, assim como o pagamento.

Não vejo dificuldade em admitir doulas nos hospitais particulares, como já vem ocorrendo há uns 15 anos ou mais, mas precisamos ter MUITO cuidado com os hospitais públicos. Por isso as leis que garantem o acesso de doulas precisam ser muito bem fundamentadas e cuidadosas, sob pena de criarmos mais dificuldades para a implantação desse modelo do que facilidades para o livre acesso ao trabalho delas.

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Fúria

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Do livro “Adélia e outras histórias” a ser escrito um dia…

“Ele voltou o olhar para ela logo após seu desabafo. Dos olhos dela fugiam faíscas luminescentes de indignação. Não havia nenhum ensejo de paz enquanto seu corpo se projetava à frente e seus lábios cuspiam dor e ressentimento.

Não pensou sequer em dar o abraço que tanto precisava. Naquele momento de dor seus braços seriam os polos magnéticos opostos ao dela. Limitou-se a falar.

– Como poderia eu retirar-lhe o ódio, único alimento possível para sua alma sofrida? A mim não cabe criticá-lo, Adélia, apenas permitir que sua energia se gaste lentamente, como o fogo que se vai quanto mais incandesce. Impedir sua raiva é ignorar o quanto ela ainda lhe protege. Sua cólera cega lhe resguarda do seu maior medo: a culpa. Enquanto você carregar seu ódio com tanto cuidado e tratar dele com tanta ternura, sua culpa se manterá adormecida.

Lançou para Adélia seu derradeiro sorriso, e deixou para ela uma pergunta, da qual se seguiu um silêncio.

– Que direito tenho eu de despertar o monstro da sua culpa? Como permitir que o silêncio dos seus ódios faça acordar o mal que tanto esconde? Como roubar a muleta que lhe sustenta, Adélia?”

Adélia ofereceu apenas o vazio como resposta.”

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Solução

 

 

Foto Oficial Presidenta Dilma Rousseff. Foto: Roberto Stuckert Filho.

 

A solução seria uma nova eleição, em 2018, e não um golpe. Se você não gosta do amiguinho da escola, não fale mais com ele, mas não planeje matá-lo. Se não gosta da Dilma, vote no Aécio (de novo) mas tenha respeito pelos seus 54 milhões de votos. Acho lamentável que pessoas apoiem um golpe manipulados pelas informações de redes de notícias que são ridicularizadas no mundo inteiro. Só no Brasil se desconfia de Lula, e só aqui pedalinhos e barquinhos de lata servem como indícios, que NUNCA se concretizam. Pedir um impedimento por crise política é um escândalo; imagine o que seria o governo FHC…. mas naquela época não havia um Eduardo Cunha para mandar adiante um impeachment por vingança pessoal.

Pedir o afastamento de uma presidente HONESTA (quem disse isso foi FHC, lembram?), sem crime de responsabilidade, apenas porque a Petrobras empobreceu e está em crise como TODO O SISTEMA PETROLÍFERO MUNDIAL, é um descaso sério com os valores da democracia. Se Dilma merecia ser impedida, o que dizer de Alckmin, de Pezão, de Sartori? O que dizer dos 31 decretos de Alckmin, e das pedaladas de 16 governadores? Se desemprego tirasse uma presidente, como Sarney ou FHC puderam, governar? Mas por que NADA se diz desses políticos????

Porque o objetivo é expurgar um partido popular usando a corrupção como DESCULPA, ao estilo de TODOS os golpes de direita, de Hitler, Mussolini ou mesmo os caseiros, como 54 e 64. Uma falsa luta contra a corrupção – na maioria das vezes presumida, como confessam os acusadores (eles “deviam” saber disso…) – e a entrada triunfal de um ideário neoliberal que só chega ao poder SEM VOTO, com GOLPE, sem apoio popular, mas usando de manobras sórdidas e indignação seletiva para se expressar.

Eu é que pergunto: como podem ser cegos e não ver as forças por trás do golpe? Como podem fechar os olhos aos interesses de acabar com a estabilidade no emprego, a CLT, a Petrobras e o nosso valor mais cobiçado – o Pré-sal? Como negar a existência de um desejo americano CLARO e CRISTALINO de acabar as aspirações brasileiras de ser uma potência mundial? Como não ver que nosso desejo de terminar com a dependência do dólar através da união dos BRICS irrita os poderosos, mas pode nos oferecer autonomia e protagonismo no cenário internacional?

Aceitar esse golpe é lastimável e depõe contra os valores republicanos. É triste ver como ainda somos manipulados, e como ainda teremos muita dor. Ganharam os corruptos, os canalhas e os malandros. Eduardo Cunha e todos que saíram às ruas de verde amarelo são a demonstração mais deprimente da incompetência da democracia desse país em se sustentar diante dos dilemas.

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Cusparada

 

Jean cuspindo

 

A cusparada de Jean Wyllys em Bolsonaro no plenário ontem demonstra os limites claros que ele, Jean Wyllys, tem em relação à vida pública. Se é verdade que Bolsonaro é um fascista abjeto, também é verdadeiro que no plenário sua voz amplifica o desejo de milhares de pessoas a quem representa. Cuspir em um parlamentar é desdenhar da representatividade e daqueles que lhe delegaram seu voto. A defesa que Jean divulgou hoje diz que ele cuspiu em Bolsonaro ao ser chamado por ele de “veado”, “boiola” e “queima rosca”. Ora… agora uma agressão torpe e infantil justifica outra? O congresso é uma casa política ou a hora do Recreio de uma escola primária? Jean, neste episódio, apenas demonstra que nao tem preparo para suportar com nobreza estas provocações…

O episódio da visita a Israel e os destemperos contra Bolsonaro apontam para o fato de que as boas intenções, a retórica e a cultura de Jean não são suficientes para o tornar um grande parlamentar. O destaque às suas posturas seria fácil diante da imensa incompetência desse congresso, mas o próprio Jean destrói suas possibilidades.

Cuspir em Bolsonaro exalta a vítima e rebaixa o agressor. Se existem alguns que acham que isso o coloca como um nobre combatente pelas minorias e contra os fascistas eu vejo nisso fragilidade e incapacidade para encarar com serenidade e respeito o contraditório. Tais atitudes rebaixam o debate político e dão um péssimo exemplo de incivilidade, o que é lastimável quando parte de um defensor da democracia e dos direitos das mulheres e gestantes.

Bolsonaro sai engrandecido desse episódio, mais uma vez, ao espertamente provocar as reações histriônicas de Jean Wyllys. Este precisa aprender a não se colocar como escada para que fascistas, racistas e canalhas possam subir perante a opinião pública.

Mas acho curioso esse tipo de defesa que fazem. Aliás, já escrevi e falei muito sobre isso. É aquela antiga tese: um cara matou um sujeito numa discussão. A polícia o prende e tortura. Ou mata. Ou espanca. Ou nega atendimento jurídico. Aí um tolo e legalista como eu diz: “”.

A resposta que sempre recebo: “ahhh, então tem que ser civilizado com um criminoso que matou a sangue frio?“. Outra muito comum: “Mas deveria ter pensado antes de matar. Agora sofra.” Ou então “Esse torturador – do criminoso preso – me representa.” Também se lê “Se fosse eu, faria pior“. Todos que assim atuam igualam-se aos criminosos que condenam.

Isto é: muitos acreditam que a simples vingança (cometer contra o agressor o mesmo crime do qual ele é acusado) é uma forma de justiça. Para mim, quem assim pensa e age, mostra que está muito mais perto do criminoso do que pensa. A diferença, muitas vezes, é apenas circunstância e oportunidade.

Infelizmente muitas pessoas caem na tentação de interpretar a minha crítica à atitude tola e imatura do Jean como um apoio ao facínora do Bolsonaro. Na verdade é o contrário. Percebi que o elogio ao Ustra foi premeditado por ele de forma cuidadosa para provocar os despreparados… e fiquei morrendo de raiva ao perceber que o estratagema (de novo) funcionou.

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Arquivado em Pensamentos, Política

Merecimento

São-joão

 

Caminhava ao seu lado apressando meu passinhos de criança para acompanhar suas pernas compridas. O ano era 1965, o mês novembro. Não contava mais do que cinco anos de idade. Porto Alegre não tinha mais que meio milhão de habitantes. Poucos carros ousavam cruzar suas esquinas e bondes amarelos da Carris ainda riscavam os paralelepípedos das ruas vazias. Os congestionamentos chegariam apenas 20 anos depois.

Andávamos, eu e meu pai, pela Av. Salgado Filho, perto de onde, três décadas depois, eu teria meu consultório. Na frente do Cinema São João passamos por uma banca de jornais onde, além das Revistas Manchete, Fatos & Fotos, Realidade e da fotonovela Sétimo Céu era possível comprar a Folha da Tarde e o Correio do Povo. Além disso podiam-se ver perdurados nas paredes do “stand” os bilhetes da Caixa Econômica Estadual.

Além das bancas, as loterias eram vendidas por ambulantes, que gritavam suas profecias nas esquinas do Centro. “Mil novecentos e quarenta, quem nasceu nesta data?”, gritava o ceguinho com a bengala em uma mão e a tripa de bilhetes na outra. “Olha o bilhete da sorte, gurizada medonha!!” tornou-se o bordão famoso na voz poderosa do vendedor, que perambulava em frente a Casa Slopper, imortalizada na música “Miss Suéter”, de Bosco e Blanc.

Minha atenção dividiu-se entre a mão segura e firme do meu pai e as cartelas coloridas penduradas na banca. A promessa era clara e insofismável: compre um bilhete e fique rico. Um premio que daria acesso a toda as felicidades estampadas nas publicidades que desde cedo caíam sobre minha cabeça de menino.

– Pai, disse eu, por que você não compra um bilhete? Se sair o seu número você pode ficar rico, e se você ficar rico pode comprar tudo, tudo, tudo que tiver no mundo e mais todas as coisas do universo. Compra vai…

– Acho que não, disse ele, sem diminuir o passo e sem desviar a atenção para os bilhetes coloridos.

– Mas pai, se você ganhar podemos ter tudo, comprar tudo.

Somente então ele diminuiu o passo e olhou para mim. Sua resposta foi em uma frase curta e breve.

– Eu acho que nenhum dinheiro tem valor se não for fruto do seu trabalho.

Aquela frase simples, de uma certa forma, selou um destino. Em verdade, nunca podemos saber ao certo o impacto que uma frase, ação ou atitude vai produzir na vida de uma criança. A frase, dita em um despretensioso passeio pela cidade, permaneceu meio século em minha memória. Sua energia sobreviveu por décadas talvez porque ela resumia, de uma forma honesta e concisa, a postura ética que meu pai seguia. Para ele só seria lícito colher o que se plantou, sejam frutos saborosos ou os espinhos que os cercam.

Quando lembro desse evento penso que estas frases soltas em nossa memória são os minúsculos quadriláteros coloridos que compõem o caleidoscópio de nosso mundo psíquico. Somos constituídos por estas pequenas lembranças, cuja força e intensidade moldam nosso caráter.

Por esta singela razão cuide o que diz diante dos pequenos. Talvez suas palavras sejam mais importantes do que você imagina, e são, em verdade, os alicerces para a construção daquela personalidade que aos poucos se constitui.

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