Arquivo do mês: junho 2018

Sobre a natureza das doulas

Não vejo nenhum problema que essa função social, ou este papel, seja desempenhado de forma a garantir retorno financeiro às doulas. Pode-se cobrar de zero (de quem não tem condições de pagar) a muito (de quem valoriza este trabalho). Minha questão não se refere à cobrança – seja ela como for – e também não gosto de debate sobre “mercantilização”. Acho isso muito “cristão culposo”, pois dá a entender que cobrar pelo seu trabalho, tempo e disposição é errado.

O que me angustia é muito mais profundo do que o debate de “quantos dinheiros vale este trabalho”. Também não me incomoda a natural disputa sobre “nichos de mercado” pois o tempo ajusta isso. Em verdade, se a formação de doulas se tornar este curso de quase 200 horas e a este valor cobrado pela formação teremos não apenas a “gentrificação da doulagem”, mas sua nefasta medicalização e a perda de sua essência, que se fundou no carinho, proximidade, afeto e apoio incondicional.

Doulas cobram por seu tempo e arte, não pelo conhecimento acadêmico e elaborado de fisiologia, anatomia ou técnicas sofisticadas de posicionamento fetal.

Se as coisas continuarem assim em pouco tempo o futuro COFOULA – Conselho Federal das Doulas – lançará uma nota exigindo que também elas sejam chamadas de “doutoras”.

As leis que forem criadas exigindo formações longas e custosas para doulas são quimeras, engodos, truques para implodir o movimento, e devem ser combatidas e eliminadas. Adaptar-se a elas é fazer o jogo de quem odeia doulas.

Entre as propostas que escutei no Conadoula estavam aulas de gênero, raça, associativismo. Eu pergunto: e a doula da favela, também ela moradora da comunidade e praticamente sem instrução? E se uma doula não quiser tratar de racismo? E se uma doula for evangélica, a favor da cura gay e totalmente carola? Temos que obrigar doulas a seguir agendas feministas e “progressistas”? Por quê?

Lembro bem de uma paciente xiita que veio ao meu consultório de burca. Não admitia ser atendida por homens e veio com o seu marido para garantir isso. Por sorte Zeza fez o exame, mas eu teria o direito de doutriná-la pelos meus valores ocidentais igualitários? Não seria melhor se ela tivesse uma doula muçulmana que pudesse entender sua realidade e respeitá-la em sua singularidade? A quem serve esse currículo sofisticado que foi apresentado?

Fui convidado a não se meter na questão das doulas, mesmo tendo apoiado esse movimento desde o dia 1 do seu surgimento no Brasil. Entretanto não posso me furtar de opinar (mais uma vez) que o surgimento dos “Mega Cursos” de Doulas, caros e com 180 horas de aula (!!!!) significam o fim do movimento de doulas como o conhecemos e como surgiu há 15 anos no Brasil. Sim, eu sei que as doulas farão o que quiserem e são donas do seu destino, e que eu sou velho e não tenho que me meter no assunto alheio. Ok, então que assim seja. Todavia, eu concordo com a ideia de que a criação das “super-doulas” vai acabar com a percepção que tínhamos do seu trabalho e que foi o sustentáculo de sua importância na última década e meia.

Eu creio que, mesmo que crie esta profissão com cursos sofisticados e caros, no fim das contas as mulheres vão acabar contratando uma amiga – até sem curso algum – mas que fará o que se espera de uma acompanhante cálida e amorosa. Teremos que recriar a essência da doulas originais, aquilo que um dia atraiu a atenção de Klaus e Kennell e que revolucionou o universo do nascimento.

Talvez seja necessária uma aventura tecnológica para depois voltarmos à simplicidade.

Como na medicina….

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A real natureza das doulas

Um dos aspectos mais transformadores e radicais na ação das doulas é muito pouco comentado. Em verdade, nunca vi ninguém falar isso abertamente como um elemento central do trabalho delas. Vou contar uma história que me marcou na vida como estudante e espero que auxilie a aclarar meu ponto de vista.

Nos primórdios da década de 80 estava eu atendendo um pós-parto no hospital como estudante, doutorando provavelmente. Enquanto avaliava a puérpera sob meus cuidados adentrou a sala um professor Tubarão cercado pelos seus alunos-rêmoras para atender uma paciente do outro lado da sala. Falaram com ela durante cinco minutos e depois saíram da sala com seus aventais esvoaçantes, suas canetas Parker e seus estetoscópio estrategicamente pendurados no pescoço, como correntes prateadas de periferia.

Na sala permanecemos eu com minha paciente, a moça atendida pela equipe e uma jovem senhora da limpeza. Logo após a saída da equipe a moça examinada tinha o semblante preocupado e estava quase chorando. Olhei de relance para ela tentando não ser intrusivo, enquanto anotava dados da minha paciente. O que se seguiu a este meu olhar dirigido a ela foi revelador.

A moça angustiada chamou a jovem senhora da limpeza e disse: “Dona Juraci (já deviam se conhecer de outro dia), eles disseram que é melhor eu me operar. Estou com medo. O que a senhora acha?”

Naquele instante me subiu um arrepio pela espinha dorsal. “O que a senhora acha?”. Ela era a MULHER DA LIMPEZA!!!! Como ousava perguntar isso a uma empregada dentro de um hospital e na frente de um médico (ok… eu nem parecia com isso nessa época, nem com estetoscópio no pescoço). Achei a cena absurda, quase ofensiva. Desrespeitosa, por certo. Como ousa!!!!

Precisou bastante autocrítica e análise para entender a cena que eu testemunhara. E levou tempo.

Em verdade a moça examinada pela equipe fez a pergunta para a única pessoa que compartilhava com ela valores, experiências, temores e vivências. Ela fez um pedido de ajuda para uma igual, alguém que falava seu idioma, que poderia entender suas dúvidas e que tinha sintonia consigo. Perguntou para a única pessoa com quem teria liberdade para expressar suas angústias sem ser desprezada.

A equipe médica era ameaçante, como sempre é a medicina. Seu higienismo, sua objetualização dos corpos, seus valores burgueses, seus preconceitos com pobres, seus jargões, seu palavreado empolado e difícil, suas regras e imposições são sempre uma ameaça aos doentes. Médicos inspiram medo, como pais severos. A senhora da limpeza era um porto seguro com quem podia “se abrir”, falar dos seus medos, seus temores e ansiedades sem ser julgada ou reprimida.

Pouca gente fala que a doula é valorosa exatamente por ser tão mulher quanto suas clientes. O fato de não ser uma profissional da saúde é uma VANTAGEM SUBJETIVA que as doulas carregam. Elas podem ser parceiras em condições de igualdade. Se fosse possível a moça diria a equipe “Ok, eu deixo vocês me operarem, desde que a Juraci possa entrar comigo. Ela vai defender meus direitos a partir da MINHA PERSPECTIVA DE MUNDO, e não dos saberes técnicos que os senhores apresentam. Quero comigo alguém que possa entender minha doença (ilness) na perspectiva única do paciente, e não pelos olhos de médicos que tratam apenas da objetividade destas doenças (diseases).”

Foi um momento grandioso para um jovem estudante que teve a oportunidade de aprender o que é adoecer na perspectiva de quem sofre o mal, e não apenas de quem o observa objetivamente.

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Concessões

Uma lição de gente mais velha: nunca comemore as concessões dos opressores. Não existe avanço sem conquista e não existe conquista sem luta. Dádivas são efêmeras e dependem do outro; já as vitórias só se constroem com sacrifício e coragem.

Bertrand Huffington, “Maximus”, Ed. Principle, pag. 135

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Heroes

The acknowledgement of the importance of male partners in the struggle for better births is essential exactly because we all live in patriarchal societies. It’s natural for women in this kind of society to know their own strength, but it is unusual for men in a chauvinistic culture to see – thru the mist of male dominance – the pure and amazing power women have during childbirth.

In other words, it is much easier for women to see that reality than for a male obstetrician, in a masculine and interventionist profession, inside a male and chauvinistic culture and against the opinions of his colleagues, professors and even the women he assists. Instead of criticizing the attention that these rebels receive from the humanistic field women activist should welcome their decision in choosing the women’s perspective in childbirth. All male obstetricians I know face prejudice and explicit attacks from their peers, and some – like me – lose their licenses to practice because of their willingness to honor women’s full autonomy in birth.

These guys all over the world have a hard time with the medical Mafia and the cesarean industry, but continue to fight for the right for every woman to have a doula and a midwife at their side. Even thou we should honor and embrace all women around the world, which help other women to give birth for thousands of years, it is important to recognize the “good guys” that fight the system from inside.

It is sad to read women writing “men are inferior creatures”. My question is “do women actually say that to their boys”?

It is also sad to see women doing the same mistakes and using the same prejudices in their words that we men did for centuries.


O reconhecimento da importância dos parceiros masculinos na luta por melhores nascimentos é essencial, exatamente porque todos nós vivemos em sociedades patriarcais. É natural que as mulheres neste tipo de sociedade conheçam suas próprias forças, mas é incomum que os homens em uma cultura machista vejam – através do olhar do domínio masculino – o poder puro e surpreendente que as mulheres têm durante o parto.

Em outras palavras, é muito mais fácil para as mulheres ver essa realidade do que para um obstetra homem, numa profissão masculina e intervencionista, dentro de uma cultura machista e contra as opiniões de seus próprios colegas, professores e até mesmo das mulheres que ele ajuda. Em vez de criticar a atenção que esses rebeldes recebem do campo humanista, as ativistas do parto deveriam acolher sua decisão pela escolha da perspectiva das mulheres no parto. Todos os obstetras homens que conheço enfrentam preconceitos e ataques explícitos de seus pares, e alguns – como eu – perdem suas licenças para praticar por causa de sua disposição de honrar a plena autonomia das mulheres no nascimento.

Esses médicos em todo o mundo têm dificuldades com a máfia médica e a indústria das cesarianas, mas continuam a lutar pelo direito de toda mulher ter uma doula e uma parteira ao seu lado. É certo que deveríamos honrar e abraçar todas as mulheres ao redor do mundo que ajudam outras mulheres a parir – por milhares de anos – mas é igualmente importante reconhecer os “mocinhos” que lutam contra o sistema por dentro.

É muito triste ler as mulheres escrevendo que “os homens são criaturas inferiores”. Minha pergunta é “as mulheres realmente dizem isso aos seus meninos”?

É triste ver mulheres cometendo os mesmos erros e usando os mesmos preconceitos em suas palavras que nós homens fizemos durante séculos.

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Definições Simples

Se um médico, enfermeira ou outro profissional do parto não consegue explicar para uma criança de 5 anos o que significam “humanização do nascimento”, “autonomia” e “livre escolha” é porque ainda não entendeu estes conceitos. Se tais conceitos (que são, em verdade, simples) não forem entendidos claramente eles não serão aplicados na prática. Se não podem ser praticados efetivamente, procurem alguém que os compreenda e os use.

Foto: introdução do livro “Carta aberta de Woody Allen para Platão” de Juan António Rivera

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Tecnologias Sedutoras

Lembro de escrever sobre os estudos apontando a alteração de lateralidade produzida pelas ultrassonografias há mais de 10 anos. Havia uma real preocupação com o exagero deste exame desde sua própria criação por um obstetra escocês. Alguns iam mais longe e perguntavam: “Será a ultrassonografia na gestação a Talidomida do século XXI?”. Outros estudos foram feitos trazendo outras perguntas sobre segurança, mas a força do mercado extraordinário que se abria e o paradigma da “gestação como espetáculo” venceram esta batalha até agora.

Há alguns dias fiz um comentário sobre ecografias de rotina durante a gravidez num grupo de gestantes de Sorocaba, do qual eu fazia parte sem saber. Disse que não havia nenhuma evidência de que as ecografias rotineiras em gestações de baixo risco produziam benefícios para mães ou bebês. “Ecografias de rotina não tem nenhum impacto no resultado das gestações“. Algumas mães mais exaltadas me xingaram com frases “onde você fez curso de medicina?”, ou com afirmações do tipo “as ecografias são fundamentais para acompanhar o peso e o desenvolvimento do bebê” e “não há como fazer pré-natal sem o uso de ultrassom“. As menos exaltadas apenas confessavam que “gostavam de ver o bebê na barriga”. Percebi que o “show da vida” havia vencido a ciência e o bom senso. As imagens venceram as ideias e as sensações maternas, que guiaram nossa percepção do mundo fetal, sucumbiram diante dos chuviscos impressos em papel encerado.

Talvez ainda tenhamos que esperar que este paradigma chegue ao seu ápice e que mais evidências surjam mostrando riscos da invasão sobre o claustro materno antes de vermos a restrição progressiva de seus abusos. Quando tantos lucram às custas de imagens de bebês é muito difícil questionar sua validade e avaliar riscos e malefícios.

O que me propus a fazer até o último dia foi oferecer orientação para todos para que suas decisões sobre este exame fossem tomadas com o máximo de informação e responsabilidade. Mesmo correndo o risco (que dúvida?) de ser o chato de sempre.

Essa situação acaba gerando um ciclo vicioso, como nas cesarianas e partos. Médicos ficam seduzidos pela facilidade e proteção jurídica das cesarianas e perdem as habilidades e a paciência para atender partos, da mesma forma como se encantam pelas imagens e informações das ecografias – muitas delas inúteis e confusas – e perdem a capacidade de tocar na barriga de uma gestante.

Na minha época de escola médica o debate era sobre o RX e a ausculta pulmonar. Hoje em dia os médicos perderam muito da habilidade em escutar sibilos e roncos. A história se repete em várias outras áreas, produzindo um empobrecimento da arte médica. Infelizmente muitas parteiras se deixam hipnotizar pela tecnologia e se associam aos médicos na trilha sedutora da tecnocracia.

Outro estudo, mais recente, confirmando os achados anteriores do início do século. Lembrando: o fato de ser canhoto (left handed) não é o mais relevante, mas é preocupante imaginar que mais poderá ter sido modificado no cérebro dessa criança, e que está distante da nossa análise superficial. Alzheimer? Câncer? Esquizofrenia? Diabete? Muitas (como no caso do Dietilbestrol) só descobrimos 15 a 20 anos depois…

Para entender melhor, pense assim: você conhece um garoto na balada. Depois de uns amassos ele diz que votará em um fascista. A escolha do candidato é o menos importante; muito mais grave é descobrir que outros valores um genocida, racista e homofóbico compartilha com seu crush, sacou?

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Abayomi

Passei por uma experiência interessante e gratificante proporcionada por minha querida amiga Lucia Scalco. Resolvemos conversar com uma antiga “apanhadeira de bebês“, Dona Catarina (nome fictício), uma parteira tradicional urbana de 82 anos que trabalhou durante 38 anos num dos conhecidos bolsões de pobreza de Porto Alegre – RS. Atendeu seu último parto há 8 anos.

Catarina nos informou que sua formação veio pelo aprendizado com outra parteira que lhe cobrou (muito dinheiro, segundo ela) para a acompanhar e conhecer suas técnicas. Durante anos foi acompanhante desta sua “mestra” e depois seguiu em “carreira solo”. Não sabe quantos bebês nasceram sob seus cuidados, porque nunca se deteve a anotar ou contar, e não sobrou nenhum registro do seu trabalho. Vive em uma casa pobre com um parente que a ajuda, no coração da vila onde mora há mais de 4 décadas.

A entrevista foi valiosa por vários aspectos, em especial pela possibilidade de observar os ângulos mais sombrios da parteria. Ao invés de escutar um relato glamoroso e cheio de encantamentos e emoções, testemunhamos uma história de ressentimentos, dramas, dores e mágoas. Dona Catarina diz que seu ofício nunca foi recompensado, e que as pessoas a quem atendeu eram profundamente ingratas com seu trabalho. “Nem um muito obrigado elas me diziam. Viravam a cara quando me encontravam na rua“. Perguntada porque não era paga ela respondeu “Pagar com o que? Eram todos muito pobres. Tinham seus filhos em casa porque não podiam pagar um táxi para o hospital“. Perguntei se havia pagamentos simbólicos, como frutas, pães, galinhas, ovos, roupas ou mesmo um reconhecimento social, como é muito comum em comunidades do interior e ela negou. “Não me davam nada. Nunca ganhei para atender as pessoas“, disse.

Dona Catarina é pobre. Mora em uma casa de esquina no centro geográfico da vila, e sua história é cheia de pequenas e grandes tragédias. Ter seu trabalho explorado e não reconhecido é apenas uma delas, e das mais leves. Alguns de seus filhos se envolveram com drogas e chegaram a ser moradores de rua. O tempo inteiro se referiu a eles sem qualquer carinho, saudade ou doçura. É uma mulher pequena, miúda, aparentemente frágil, mas conta inúmeras histórias de lutas físicas contra agressores. Fala de uma briga em que enfrentou um vizinho alcoolizado de facão em punho, tendo lhe infligido um corte profundo no braço. Quando mais jovem levou um agressor ao hospital com golpes de madeira. Segundo ela, ficou um mês na UTI e veio a falecer. Conta a história sem qualquer remorso ou arrependimento. “Ela é uma fera, doutor. É pequena, mas muito brava.” Olha para ela e diz “Jesus manda perdoar também, viu?“, mas ela responde com um muxoxo.

Dona Catarina seguiu os passos de um contingente crescente da população de periferia no Brasil tendo se convertido a uma das inúmeras vertentes evangélicas que proliferam em sua comunidade. Agora diz-se “cristã”, mesmo tendo sido católica a vida inteira. Rompeu relacionamento com parentes e em especial com seus próprios filhos, alguns deles ligados a religiões de matriz africana. “Não existem duas águas boas para beber, só uma“, e esta sua visão de mundo é compartilhada pelo rapaz que nos acompanha na conversa, único parente que vive com ela. A Bíblia aberta sobre a mesa – ao lado do velho aparelho de som que toca música Gospel insistentemente – confirma suas palavras. “(Meus filhos) são batuqueiros do demônio. Quero distância deles“.

Quando perguntada sobre as mudanças que presenciou nos últimos anos em sua vila expressa a vontade de sair. “Vou vender o que tenho e ir embora daqui. Aqui só tem maconheiro, ladrão.” Parece profundamente consumida por ressentimentos e desconfianças.

Em relação ao seu trabalho dizia que usava luvas, cordão, tesoura e álcool. Nada de balanças/ “Eles iam pesar depois no armazém, mas já atendi muito bebê de mais de 5 kg“. Descreve suas habilidades com toques ginecológicos e repete mitos populares de “pentes fechados”, “bebês cansados”, “ossos que impedem o parto”, “bebês que engolem água do parto”. Conta um segredo: bafo de erva de chimarrão para facilitar os partos. A tudo termina com uma gargalhada, num sorriso em que nenhum dente sobrou para deixar testemunho.

Dona Catarina durante décadas era chamada a atender nas madrugadas, no frio, em lugares miseráveis e insalubres. Barro, sujeira, chuva, esgoto a céu aberto. Refere-se aos pobres da vila de invasões próxima de onde estávamos como “preguiçosos, vagabundos e acomodados”, para em seguida listar tudo o que conseguiu conquistar com seu esforço e determinação. Mesmo sendo muito pobre percebia nitidamente a diferença que a afastava destes outros, mais necessitados e despossuídos. Repetia um claro discurso meritocrático que coloca a pobreza como resultado da preguiça e da falta de vontade, uma fala muito usada pelos setores mais conservadores da sociedade, inclusive pela igrejas evangélicas.

Bradava sua independência como um grande valor pessoal. “Não preciso de homem nenhum, pra comida, pro serviço ou pra cama“. Vive de sua aposentadoria e refere o medo de que as pessoas que a cercam se aproveitem de si.

Dona Catarina sentir-se confiante com a nossa presença e por isso permitiu-se abrir o seu coração para a dor que acumulou durante tantos anos. Onde eu imaginava encontrar um anjo de doçura e transcendência encontrei uma mulher brava e indócil, que sobreviveu a um ambiente duro e violento usando as armas que lhe foram possíveis. Os nascimentos eram parte de sua tarefa, mas não como elemento de elevação espiritual ou como um “sacro ofício”. Não havia nada de sagrado ou superior nos partos que atendia, apenas uma tarefa “nem dura, nem fácil, mas para a qual era necessário ter conhecimento, para não ser como essas ‘parteiras facāo’ que estragam as mães e os bebês”.

Terminou nossa conversa dizendo que “parto não tem nada de bonito. É muita nojeira e sangue, mas não pode ter nojo e nem ter crise de nervos. Precisa coragem e se manter fria”.

Tomamos nosso café e nos abraçamos, mas ficou no meu coração o desejo de escutar por mais tempo a riqueza impressionante das histórias de dor e martírio de uma guerreira de partos, uma heroína tipicamente humana, com todos os defeitos e virtudes que compõem os nossos heróis.

Foto: Bonecas Abayomi. A palavra Abayomi significa “encontro precioso”, aquele que traz felicidade e alegria. Quando os negros vieram de África para o Brasil em navios Negreiros atravessavam o oceano Atlântico numa viagem penosa. As crianças choravam assustadas porque viam a dor e o desespero dos adultos. As mães negras, para acalentar suas crianças, rasgavam tiras de pano de suas saias para fazer bonecas para elas brincarem. Essas bonecas são chamadas de Abayomi. Quando você dá uma dessas bonecas a alguém significa que você está dando o melhor de você para essa pessoa. Este foi o presente que ganhei da comunidade que visitei.

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