Arquivo da categoria: Ativismo

Nomear e Apoiar

Creio que um dos principais problemas que permeia os debates sobre parto é confundir nomeação e suporte. Muitas mulheres e homens – e boa parte dos ativistas – ainda não entenderam que existem dois temas envolvidos nessa discussão e insistem em confundi-los.

É fundamental a importância de NOMEAR uma cirurgia abdominal, como uma cesariana, para conter seus abusos e combater sua banalização, que tantas vidas ainda coloca em risco e tantas frustrações gera nas mulheres. Por outro lado, e de forma concomitante, há a necessidade de APOIAR as puérperas em qualquer circunstância. Estas etapas são INDEPENDENTES, mas criamos a ilusão de que são uma só.

Infelizmente acreditamos que mentir – para mulheres ou crianças – é uma forma de acolhimento e carinho.

Assim sendo, podemos (devemos) nomear com precisão o que aconteceu com uma mulher que pariu e ao mesmo tempo lhe oferecer apoio empático e incondicional. Podemos usar a correta nomeação seguida de apoio, como em: “Você teve infelizmente uma cesariana mas lutou bravamente por dar o melhor ao seu filho”. Alternativamente você pode não nomear e apoiar, mas isso permite facilmente cair na banalização, como em “Tanto faz a via de parto o importante é mãe e bebê estarem bem.” Sabemos como isso é usado por cesaristas. Outra possibilidade é nomear e não apoiar, como em: “Você teve cesariana e nenhuma mulher é verdadeiramente mãe se não passou por um parto”, e sabemos o quanto de crueldade esta afirmação carrega. Finalmente, você pode não nomear e não oferecer apoio, de maneira igualmente cruel e infantilizante, como em: “Não importa como foi o parto, nada justifica toda essa sua manha”.

Continuar a confundir estas etapas não ajuda em nada nos debates, além de atrapalhar demais a discussão sobre os caminhos a seguir. Desconsiderar a importância da VERDADE e do SUPORTE – que NÃO SÃO excludentes – é grave e continua produzindo tristeza e rancor, cobertos por uma grossa camada de culpa. Tratar as mulheres como adultas já não é mais uma “opção”, mas um dever de todos nós.

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo, Parto

Consciência e mudança

Por debaixo de um ato qualquer existe uma construção social e inconsciente que nos impele às ações. Mesmo quando o ato nos parece incongruente existe uma lógica que o sustenta além da nossa rasa compreensão. O que os torna fortes e longevos é sua conexão com o desejo, e não com a razão.

A episiotomia ocupa um lugar no próprio imaginário feminino, que aceita tais mutilações como o “preço a pagar” por ser mulher e trazer seu filho ao mundo com segurança. O mesmo ocorre com as mutilações genitais na África, onde as próprias mulheres ainda aceitam esse destino como justo, talvez como culpa ancestral pela própria condição feminina, sempre ligada ao pecado e ao erro.

Na China nenhuma das alunas enfermeiras obstetras de diversas províncias chinesas realizava episiotomia de rotina. Ficaram escandalizadas quando falei da nossa taxa global de 56% (e de estados do centro-oeste com 70% de taxa de episiotomia). E isso em um país em que quase todos os partos são em litotomia. Para elas episiotomia é uma conduta estranha e violenta. Conseguiram manter a ideia de um períneo intocado mas infelizmente sucumbiram aos modismos ocidentais como parto deitado, máscara, esterilização, separação mãebebê, hospitalização, etc.

Mudar essa condição será possível quando trouxermos tal construção histórica à luz. A simples evidência de sua inutilidade e malefício (cujos estudos comprobatórios já contam mais de 30 anos) não é suficiente para erradicar uma prática violenta, por mais evidências apontadas. É preciso mais do que razão; é necessário consciência política e organização social para pressionar pela extinção das más práticas.

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo, Parto

Rotinas hospitalares

As rotinas hospitalares são usadas, no dizer de Robbie Davis-Floyd e Brigitte Jordan como “tecnologias de separação“. Se existem raros casos em que esta distância e o confinamento de recém-nascidos são necessários o uso alastrado dessa prática tem muito mais significado pelo que carrega de forma invisível e simbólica. Esse afastamento manifesta uma atitude autoritária dos poderes delegados do Estado contra a autonomia da mulher sobre seu filho. O objetivo inconsciente destas condutas e rotinas é despojar a mulher do controle sobre seu filho, estabelecendo uma tirania da técnica e do conhecimento sobre a conexão mãe-bebê que recém se estabelece. Nesse momento especial é lançada a pedra fundamental para a construção de um sujeito subserviente ao Poder.

Nesses momentos sempre lembro a frase da minha amiga Mary, parteira da Holanda: “Você quer que seu filho nasça como paciente ou como cidadão?”

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo, Parto

Profissionalização

Creio que um dos principais problemas que permeia os debates sobre parto é confundir nomeação e suporte. Muitas mulheres e homens – e boa parte dos ativistas – ainda não entenderam que existem dois temas envolvidos nessa discussão e insistem em confundi-los.

É fundamental a importância de NOMEAR uma cirurgia abdominal, como uma cesariana, para conter seus abusos e combater sua banalização, que tantas vidas ainda coloca em risco e tantas frustrações gera nas mulheres. Por outro lado, e de forma concomitante, há a necessidade de APOIAR as puérperas em qualquer circunstância. Estas etapas são INDEPENDENTES, mas criamos a ilusão de que são uma só.

Infelizmente acreditamos que mentir – para mulheres ou crianças – é uma forma de acolhimento e carinho.

Assim sendo, podemos (devemos) nomear com precisão o que aconteceu com uma mulher que pariu e ao mesmo tempo lhe oferecer apoio empático e incondicional. Podemos usar a correta nomeação seguida de apoio, como em: “Você teve infelizmente uma cesariana mas lutou bravamente por dar o melhor ao seu filho”. Alternativamente você pode não nomear e apoiar, mas isso permite facilmente cair na banalização, como em “Tanto faz a via de parto o importante é mãe e bebê estarem bem.” Sabemos como isso é usado por cesaristas. Outra possibilidade é nomear e não apoiar, como em: “Você teve cesariana e nenhuma mulher é verdadeiramente mãe se não passou por um parto”, e sabemos o quanto de crueldade esta afirmação carrega. Finalmente, você pode não nomear e não oferecer apoio, de maneira igualmente cruel e infantilizante, como em: “Não importa como foi o parto, nada justifica toda essa sua manha”.

Continuar a confundir estas etapas não ajuda em nada nos debates, além de atrapalhar demais a discussão sobre os caminhos a seguir. Desconsiderar a importância da VERDADE e do SUPORTE – que NÃO SÃO excludentes – é grave e continua produzindo tristeza e rancor, cobertos por uma grossa camada de culpa. Tratar as mulheres como adultas já não é mais uma “opção”, mas um dever de todos nós.

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo, Parto

Esperança

“Não esmoreça. Passe pela vida e deixe seu testemunho. A vida é curta demais para covardias e vaidades. Faça esse tempo curto de convívio conosco valer a pena. Deixe seu tijolo para a construção de um mundo melhor e permita que sua consciência e sua ética guiem seus passos em meio à artilharia pesada das forças do atraso. Siga em frente de peito aberto. Não se iluda: muitos acompanham teus passos em silêncio e seguem teu exemplo.”

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo, Pensamentos

Dos nojos contemporâneos

Cada vez que vejo gestantes que passaram muitas horas em trabalho de parto e foram incapazes de ultrapassar asp dilatações mais iniciais fico a questionar o quanto a sociedade contemporânea contribui para este bloqueio . A razão para esse “rechaço” à parturição – potente porque inconsciente – é um mistério, mas acredito que se trata de algo do inconsciente relacionado fortemente à cultura contemporânea. O que aconteceria com essas mulheres no século XVI? Bem….provavelmente as mulheres deste tempo estavam inseridas em um conjunto de valores e experiências do seu tempo, radicalmente diferentes das experiências pelas quais passam na pós-modernidade.

Por certo que não há sociedade sem sujeito e não existe sujeito sem sociedade.

Quando conversei com parteiras do Tibet – que atendem mulheres pobres do campo – cuja Casa de Parto tem 1% de transferências hospitalares e uma taxa de mortalidade neonatal baixíssima, me dei conta que elas estão submetidas à uma sociedade “pré-moderna” que, ao mesmo tempo em que lhes sonega as benesses da modernidade, da liberdade, da autonomia, do acesso ao conhecimento e instrução, lhes retira também uma conexão mais plena e completa com seus corpos e seus ciclos.

Claro que nem toda mulher dilata, mas o que eu pergunto é: por que as tibetanas “dilatam” e tem filhos com facilidade, enquanto as ocidentais tem tanta dificuldade? Não é uma diferença física, por certo. Ninguém vai conseguir me provar que as pelves, músculos e demais tecidos moles das tibetanas são diferentes daqueles de uma brasileira ou americana. Portanto, a diferença BRUTAL precisa ser algo ligado à cultura, aos valores e à própria expressão da sexualidade.

Não se trata de uma crítica à atenção obstétrica como a conhecemos mesmo sabendo que essas coisas acontecem. Todavia, para estas existe em causa explicável e objetiva. Minha busca está para as situações cotidianas em que o trabalho de parto não anda, estanca e fica interrompido sem que para isso haja qualquer razão evidente. São aquelas situações corriqueiras em que os médicos dizem “ela não houve dilatação”. Por outro lado se reforça a constatação de que a mulher contemporânea burguesa, inserida nessa cultura tecnológica e cosmopolita, acaba se comportando de forma diferente e com dificuldades e impedimentos no parto que antes eram raros ou desconhecidos.

Esta sociedade atual se tornou cheia de nojos e de bloqueios. As mesmas mulheres que cortam seus pelos pubianos, rechaçam os gritos do parto e não suportam odores e fluidos orgânicos são as que também vão rechaçar o parto e toda a sua sexualidade animal, profunda e primitiva.

Criamos uma sexualidade estéril em todos os sentidos, bacterianos e emocionais.

Costumamos procura as respostas a estas perguntas onde elas normalmente não estão. O que comanda o parto – e todos os aspectos da sexualidade – é o mundo das sombras, do breu, do inconsciente. Lá, onde guardamos nossas lembranças mais primitivas, é onde se escondem as forças que nos impulsionam.

O patriarcado (não confundir com “os homens”) não suporta um modelo que questiona as bases constitutivas do seu sistema de poder. Parir com autonomia tem o mesmo efeito perturbador – e potencialmente devastador – de fazer sexo com total liberdade. Por isso as instituições poderosas como igreja, medicina e política sempre que possível tentam impedir a expressão da potencialidade sexual humana.

Meu questionamento sincero é: como ajudar as mulheres a redescobrir – resgatar, despertar – suas capacidades inatas e ancestrais de parir com tranquilidade e suavidade SEM retroceder nas conquistas de autonomia e liberdade, as quais foram duramente conquistadas nos últimos dois séculos? Mais ainda: como fazer que isso seja acessível a todas as mulheres e não apenas àquelas pertencentes a uma determinada casta social?

Outra possibilidade é admitir que a sociedade tecnológica fechou as portas para a vivência plena da sexualidade – pelo menos a feminina, mais complexa e delicada. Pergunto: Haverá como compatibilizar partos tranquilos e suaves com uma vida burguesa moderna? Sim ou não?

Se a resposta for negativa, valeu a pena o IPhone, a isonomia salarial, as famílias pequenas e a TV de plasma?

Se, ao contrário for positiva, qual a solução para recuperarmos os partos perdidos?

Os anos vindouros talvez nos mostrem uma síntese dos paradigmas digladiantes, onde será possível garantir os ganhos de autonomia para as mulheres sem que elas precisem perder a vivência com o sagrado de seus corpos, seus ciclos, seus partos e seus mistérios.

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo, Parto

Bolhas

Existe uma série de assuntos que eu adoraria debater até para diminuir um pouco a minha ignorância sobre eles. Quando você vive em uma sociedade branca, num estado branco, sendo de classe média e heterossexual acaba tendo dificuldade para entender as queixas das pessoas que sofrem as consequências por NÃO SEREM como você, as quais não tem a possibilidade de deixar que o fluxo do mainstream as carregue para posições mais privilegiadas. Lembro muito do ativista israelense Miko Peled que, sendo israelense e branco, tinha dificuldades de entender o ponto de vista dos palestinos, pessoas a quem NUNCA via no seu dia-a-dia, e por isso mesmo podiam ser estereotipados e/ou demonizados pela cultura em que estava embebido. Foi apenas o encontro fortuito com palestinos quando moravam em San Diego, nos Estados Unidos (!!!), que o fez acordar para a questão da Palestina, o Nakba, a limpeza étnica e as reivindicações daquele povo.

Miko Peled em seu livro “O Filho do General” agradece de forma comovente a recepção afetiva e compreensiva que teve por parte dos ativistas palestinos, os quais tinham TODAS AS RAZÕES do mundo para odiá-lo, não apenas por ser israelense, mas por ser filho de um general invasor, responsável por boa parte da desgraça afligida ao seu povo. Sem esse carinho e essa fraternidade explícita de pessoas em uma posição aparentemente tão distante, seria muito fácil para Miko manter-se dentro de sua bolha de demonização e ódio ao “inimigo”. Para mim, não foram os argumentos racionais que o convenceram que sua postura estava errada, muito menos os registros históricos a que teve acesso em sua busca pela verdade, mas o afeto e a acolhida amorosa que recebeu daqueles que por muito tempo considerou como adversários e inimigos mortais.

Para as pessoas que tem as mesmas condições que eu é importante serem apresentadas às questões femininas, raciais, de gênero e sociais para que possamos pensar fora de nossa bolha de amizades e relações cotidianas. Sem esse confronto com vivências diversas e sem o contraditório é difícil sair da zona de conforto das nossas convicções e nossas perspectivas. Por isso o confronto de ideias é tão importante.

Infelizmente, em tempos de ódio, isso é cada vez mais difícil. Fiz um comentário na página de uma doula a respeito de uma mensagem que ela postou com um texto assinado por Andrea Dworkin. Disse que o texto (sobre ser lésbica) era sensível e bonito, mas foi escrito por alguém que sofre muito mais criticas do que elogios de dentro do movimento feminista por suas lutas anti-pornografia e acima de tudo por suas atitudes controversas (liberdade para mulheres que mataram maridos abusadores). Ela, por exemplo, era extremamente conservadora e escreveu um livro cujo título era “Right-wing women”. Faleceu aos 58 anos com um quadro avançado de artrite e complicações de obesidade mórbida, mas se estivesse viva estaria ao lado de Trump fazendo campanha por ele e por sua visão de extrema direita.

Meu comentário visava apenas alertar para a origem da mensagem, para não repetir o que o ator José Wilker fez numa reunião de diretores da Globo: um discurso recheado de citações que, depois dos aplausos de todos, avisou serem todas de Adolf Hitler, retiradas do “Mein Kampf”. Infelizmente bastou eu questionar uma autora como esta – mesmo elogiando a visão poética que ela tinha da homossexualidade feminina – para sofrer ataques pessoais. Aí vieram as agressões, ironias, deboches, violências e ataques pessoais que culminaram com um festival de blocks e o fim de qualquer possibilidade de conversa.

Claro, o erro foi meu. Eu não deveria ter feito aquele comentário. Afinal, não é problema meu. Quem quiser que siga, que cite, que admire e que adore. O problema é que isso mantém a bolha e as ilhas de concordância intactas, e não permite que a gente aprenda com o pensamento alheio. Ficamos todos desconectados porque as pessoas não querem debater; querem lutar, destruir opositores, querem “lacrar”, humilhar oponentes, vencer guerras de argumentos, ser o mais irônico possível, ser o super fodão da sua turma (o meme preferido é o negro aquele que é carregado pelo amigos e recebe os óculos escuros da suprema esperteza) e tratar todas as pessoas de quem discordam como inimigos a serem destroçados.

A solução momentânea é se afastar, bloquear, voltar para o seu canto frustrado e esperar que alguém de bom coração se proponha a conversar sem pedras nas mãos. Ter a paciência de aguardar a caridade de alguém sem ódio transbordante e esperar que os ânimos possam arrefecer. Infelizmente, para algumas pessoas, isso nunca vai acontecer, pois as causas são apenas desculpas passageiras para a razão principal que as move: a luta em si e a destruição dos oponentes.

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo, Pensamentos

Bolhas identitárias

O documentário “Minimalist” (que eu gostei muito) que é sobre uma dupla de rapazes que abandonaram seus empregos e carreiras para investir em uma vida mais simples e sem luxos, vivendo com o que consideram necessário e essencial. É um discurso minimalista, como o nome diz, e que prega o desapego às futilidades do dia-a-dia e uma opção pelo que é realmente valioso na vida. O documentário aborda a turnê desses dois jovens pelos Estados Unidos e a venda do livro com suas ideias.

Daí alguém me marca em uma página que critica o filme. Tudo bem, até me interessei, talvez o documentário tenha um erro essencial, uma visão equivocada ou mesmo um paradoxo que eu não tinha me dado conta. Quando comecei a ler percebi que a crítica era porque o filme era “machista“, já que os protagonistas eram homens, e as mulheres deveriam estar presentes em um documentário que aborda este tema.

Eu pergunto: um documentário sobre os Beatles também seria irremediavelmente machista? Stones? O Grêmio? Como esses dois aventureiros e idealistas poderiam fazer um documentário sobre sua jornada de auto transformação e NÃO serem considerados machistas, já que são homens?

A crítica do filme deixa clara a ideia de que o crime inafiançável desses dois rapazes é o fato de serem homens e tentarem construir um caminho diferente para suas vidas.

Eu não suporto mais essas bolhas identitárias. Eu simplesmente não aguento esse discurso pois vejo que ele está destruindo a solidariedade e as próprias esquerdas. Agora não é para o bem de todos, o que vale é “minha bolha primeiro, afinal...” e aí você coloca o discurso pré determinado para defender os interesses do seu grupo em detrimento de todos os outros. Vale mais quem puder ser mais vítima.

O identitarismo é uma ação de direita travestida de movimento por direitos humanos. Ele oferece todas as armas para os fascistas que odeiam igualdade e faz de inimigos pessoas que poderiam estar do mesmo lado. Que tristeza. Passei a ter alergia a qualquer manifestação dessa natureza

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo, Pensamentos

Epílogo

As manifestações violentas dos representantes de sistemas de poder sempre acontecem no epílogo de todos os modelos hegemônicos. Um pouco antes da morte de um paradigma sobrevém o terror, como natural manifestação de desespero. O modelo médico obstétrico está doente e decadente, mas vai levar ainda muitos anos para ser substituído. Enquanto isso não acontece aqueles que o sustentam precisam lançar mão da violência verbal – e corporativa – para contrapor às evidências trazidas à tona pela nova consciência emergente, aquela que vai estruturar o novo paradigma.

A ferocidade dos ataques está, portanto, no script. Ela faz parte do ocaso de qualquer paradigma. Não se incomodem tanto com tais manifestações de ódio; elas são apenas como náufragos se debatendo e se agarrando nas vigas de madeira de um navio que aos poucos afunda.

“A cada dia que passa, e a cada nova descoberta, eu agradeço a Deus por ter me colocado do lado certo da história, mesmo que o preço a ser pago por estas escolhas seja a dor, a tristeza, o exílio e, por fim, o amargo esquecimento”.

Amália Contreras del Arroyo, “El Llanto de las Cascadas” Ed. Footprint, page 135

Amália del Arroyo é uma parteira nascida em Cuzco, no Peru, tendo desempenhado um importante papel na consolidação da parteria em seu país. Escreveu “O Pranto das Cachoeiras” como uma série de histórias e artigos relacionados com a parteria tradicional da cultura andina, em especial do Quíchuas – grupo indígena da região do Chile até a Colômbia e língua falada pelo império Inca. Neste livro ela descreve especificamente da destruição das culturas de parto indígenas pelo modelo tecnocrático e a desnaturalização do nascimento nas culturas ocidentais. Mora em Lima e tem 4 filhos.

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo, Citações, Parto

O falso rebelde e a difícil defesa da civilização

Alguém já disse, mas vou repetir: quando Gentili diz “você é minha empregada; eu digo se você fala ou cala a boca” não é o libertário que está com a palavra, mas o garoto mimado, filho do estancieiro, gritando para seu empregado na fazenda. Ele usa o discurso da Casa Grande querendo parecer rebelde, mas não há nenhuma rebeldia em suas atitudes, só fascismo travestido de molecagem.

Acredito ser inaceitável quando rotulam a deputada Maria do Rosário de “defensora de bandido“. Ofensivo e profundamente injusto. Gostaria apenas de lembrar que, apesar de alguns inevitáveis equívocos que ocorrem na vida de qualquer parlamentar, ela desempenha um papel fundamental na garantia do cambaleante Estado Democrático de Direito em que o Brasil vive. Lembrem que Maria do Rosário defende pessoas comuns, como qualquer um de nós, contra o poder esmagador do Estado e do judiciário. Ela representa a luta pelas garantias do sujeito contra o autoritarismo e a violência dos poderosos.

Gente como ela é essencial em tempos de crise. Não fossem por pessoas como ela estaríamos vivendo ainda em uma selva. Se estivéssemos na Segunda Guerra Mundial, Maria do Rosário estaria defendendo os “bandidos” judeus ou os “criminosos” ciganos contra Hitler e todos os “cidadãos de bem” na Alemanha nazista. Se ela vivesse no Mississippi nos anos 50, ela estaria defendendo os “malfeitores e vagabundos” negros dos linchamento e perseguições dos patrióticos senhores brancos da Ku Kux Klan. Dizer que Maria do Rosário “defende bandidos” é colocar-se do lado errado da história e retroceder alguns séculos na questão dos direitos humanos, quando os acusados não tinham defesa e onde o arbítrio das massas estupidificadas era o único juízo a que os cidadãos comuns se submetiam.

Pensem bem antes de criticar quem defende as garantias jurídicas para todos os cidadãos. Quando elas caem e sobrevém a sombra do totalitarismo, quem poderá defender cada um de nós dos abusos e da barbárie?

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo, Política