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Copos limpos

“Humanização pode parecer um “plus a mais” quando em verdade deveria ser a condição “sine qua non” de qualquer atendimento à saúde.”

“Não confundir autonomia com protagonismo. Autonomia é decidir ter um filho por cesariana. Protagonismo é usar o bisturi para isso.”

 


 

Isso me lembra a história (fictícia ou não) que meu amigo Daniel Grassi me contou de uma aventura sua num restaurante na Índia.

Sabendo das condições não muito higiênicas do local um ocidental se aproxima do garçom e lhe diz:

– Traga para nós o menu e copos com leite. Mas, por favor, copos limpos!!

O garçom gira nos calcanhares e volta alguns minutos depois com os menus e uma bandeja de copos com leite. Coloca os menus na mesa e fala ao grupo:

– Aqui está o seu leite senhores. O copo limpo era para quem mesmo?

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Carros de duas rodas

Uma cesariana depois de um tremendo esforço, luta, dedicação, orientação e uma atitude de respeito pelos profissionais CONTINUA SENDO UMA CESARIANA. E não tem nada de errado em ser assim. Mas uma cesariana é um ato médico que tem esse profissional como protagonista. Acredito que devemos parar de chamar de “cesariana humanizada” apenas porque foi bem indicada, porque se não for bem indicada ela é apenas ABUSIVA.

Nessa definição que utilizamos, para um evento ser humanizado ele precisa ter o protagonismo do sujeito, o que é impossível numa cesariana. Só isso. Isso não torna o nascimento menos importante ou menos bonito, apenas define o que ele é. Acima de tudo, sabemos o quanto temos progredido nos projetos de humanização no mundo inteiro e na luta contra as cesarianas abusivas. O uso da expressão “cesariana humanizada” é UM TRUQUE dos cesarianas para entrar no clube da fisiologia e do respeito ao corpo pela porta dos fundos. É uma margarina que se finge de manteiga, um leite que se finge de materno, uma geleia com sabor artificial de morango.

Não caiam nesse discurso que quer vender cesariana como se fosse a última flor da humanização.

Outra coisa, precisamos parar de tratar mulheres como crianças, dourando a pílula das cesarianas. Não há porque usar artifícios de linguagem para “proteger”  mulheres do fato de que a cesariana é uma cirurgia, e que um parto é um processo completamente diferente. As mulheres são fortes e maduras o suficiente para suportarem a frustração de um não-parto.

“Venha comprar um automóvel de duas rodas e ganhe um capacete de brinde”

– Mas não é uma motocicleta?”

– A gente chama de automóvel de duas rodas para o proprietário não se sentir chateado por não ter um carro. Afinal, auto + móvel, ora… por que não?

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Cesarianas humanizadas

Não…. eu não acredito em “cesarianas humanizadas”. Esse é um termo historicamente utilizado para trazer a cesariana para próximo da seara da humanização. É uma mensagem para o inconsciente: “Tanto faz se for cesariana ou parto normal, o importante é ser humanizado”. O objetivo é retirar o peso da cesariana e equalizar as experiências humanas de dois processos absolutamente diferentes e que só tem como ponto em comum o nascimento de uma criança. Para justificar minha recusa ao termo apresento meu conceito de humanização, que consiste de 3 pontos fundamentais:

1- Garantir o pleno protagonismo à mulher
2- Visão interdisciplinar (o parto não é um evento médico, mas humano)
3- Conexão com a SBE – Saúde Baseada em Evidências

Como se pode ver uma cesariana retira o protagonismo da mulher e o coloca nas mãos do profissional. Ela não tem o controle do parto; mais ainda, ele deixa de existir sendo transformado em um evento cirúrgico. Assim a expressão “cesariana humanizada” carece do elemento fundamental que sustenta as propostas de humanização: o protagonismo garantido à mulher em suas escolhas.

No meu modesto ver as pacientes submetidas a uma cesariana serão sempre objetos do procedimento, jamais sujeitos. Podem ser sujeitos da escolha, mas não do ato cirúrgico, que é médico. Não vejo, porém, erro algum em ser objeto de intervenção médica quando necessário, desde que haja boas razões para que esse protagonismo seja confiscado. Repetindo: cesarianas salvam vidas, mas seu abuso as retira. Não é demérito algum para uma mulher que precisa de uma cirurgia, mas uma perda enorme para aquelas que, sem verdadeiramente precisar, acabam sendo a ela submetidas.

Uma cesariana pode ser “humana” no sentido de gentil, cuidadosa, adequada e justa. Deve ser, acima de tudo, bem indicada, apenas como última alternativa a um parto fisiológico – quando todas as outras alternativas para o sucesso de um parto vaginal falharam. Entretanto, não pode ser “humanizada” por não oferecer a característica mais essencial da humanização, qual seja, o protagonismo feminino no processo.

Sei que debatemos semântica, mas sei também o que existe por trás dessa confusão. O mesmo truque de palavras se usa com a “amamentação artificial”, cuja propaganda procura produzir confusão com o verdadeiro leite, aquele de quem usa a “mama”. Assim como a indústria do “leite artificial”, a indústria da cesariana usa o termo “humanizada” para qualificá-la e aproximá-la do parto normal, com o mesmo objetivo de dissimular a diferença brutal entre o processo fisiológico e o artificial que observamos em todos os aspectos envolvidos: segurança, (re)adaptação, conexão com o bebê, fisiologia respeitada, perda sanguínea, amamentação, etc.

É exatamente para fugir desde tipo de confusão linguística proposital que procuramos alertar sempre que tal expressão aparece.

Protagonismo é uma palavra grega que se compõe de dois elementos: proto (primeiro) e agonistes (ator, lutador). O protagonista é o ator primeiro, principal. Em uma cesariana este ator é o médico, não mais a paciente. Protagonismo é ter autonomia para tomar decisões. Numa cesariana a paciente não pode mais “fazer seu parto”; o médico é quem tem essa tarefa. Portanto, se brigamos tanto pelo protagonismo – sem o qual teremos apenas sofisticação da tutela – a cesariana jamais será algo de pleno protagonismo, já que a paciente é objeto da arte do profissional que a opera, e não o sujeito de suas ações.

Mas, por favor, percebam o que se esconde por detrás do meramente manifesto. Ao dizermos “cesariana humanizada” existe um conceito escondido que não se atreve a aparecer. É dessa dissimulação que falo. Nada disso impede que ela faça escolhas conscientes. Pode até escolher, sem nenhuma justificativa médica, fazer uma cesariana. Considero essa uma opção válida, mesmo que mais arriscada para a mulher e seu bebê. Só não pode – no meu modesto ver – qualificá-la como humanizada.

Cesarianas, por serem atos médicos, não podem ser protagonizadas pelas mulheres. Assim sendo, e se acreditamos que o protagonismo está na essência da humanização, uma cesariana será sempre uma cirurgia que, mesmo quando justa e delicada, não pude ser “humanizada”. Estou debatendo o TERMO e não a qualidade de partos e cesarianas. Não posso admitir a utilização equivocada e oportunista de um termo que nos é muito caro.

Recordem apenas que esse termo era ODIADO pelo stablishment médico até poucos anos, com a tosca argumentação de que era redundante, já que o parto era feito em humanos e, portanto, era impossível não ser “humanizado”. Argumentação chula de quem nunca entendeu que a expressão se relacionava ao movimento humanista do século XVIII, e não ao fato de sermos do gênero humano. Pois agora, passada a rejeição, advém a “apropriação indébita” da expressão por nós construída, para confundir as intervenções (mesmo justificadas) com o processo fisiológico em que a paciente é a protagonista. Isso eu não vou aceitar.

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Moedor de Carne

Robbie falou dessa questão no seu famoso artigo “Medical training as a Rite of Passage“. Eu chamei de “moedor de carne” no “Memórias de um Homem de Vidro”, mas a verdade é que, por razões históricas, a corporação médica se transformou atualmente em um monstrengo violento, amedrontado e acuado. Quando mais o velho padrão obstétrico centrado no cirurgião e na intervenção encara a sua obsolescência mais agressivo se torna; uma violência reativa que denuncia a morte de um paradigma e o surgimento de um novo modelo, baseado na garantia ao protagonismo da mulher, na visão humanística e interdisciplinar e na Saúde Baseada em Evidências.

Texto abaixo de Ana Cristina Duarte

“As pessoas estão com raiva do tal Cassius ou da estudante tosquinha, mas a verdade é que esse pensamento de superioridade do médico começa a ser imposto aos estudantes na faculdade, no primeiro dia de aula. Uma casta superior, com poderes superiores. Sair desse rolo compressor, a lavagem cerebral da graduação, não é para os de cabeça fraca. Tem que ter berço, educação em casa, leitura, bons exemplos, cultura, noção de cidadania, coisas que o brasileiro médio não acessa na sua infância/juventude. Não é à toa que os médicos que se dedicam à causa da humanização são tão poucos e são tão perseguidos!! E é essa diferença que faz deles pessoas tão especiais. Força aos queridos amigos médicos, que estão lidando com o pior da raça humana nesses dias trevosos.”

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A Neurose Necessária

Eu sempre falei aos colegas que tentavam se aproximar da humanização do nascimento que a “curiosidade” não é uma motivação suficiente, realizar partos vaginais é muito pouco e seguir protocolos mais sensatos e embasados em evidencias, também. É necessário mais do que este desejo, mesmo sendo justo e correto; é preciso buscar uma mudança tão profunda quanto dolorosa e radical. É fundamental inserir o parto nos direitos reprodutivos essenciais das mulheres e garantir a elas o protagonismo pleno do seu exercício. Sem isso teremos apenas médicos curiosos e simpáticos, cujos esforços se limitam a sofisticar a tutela sem que jamais atinjam a profundidade de sua missão. É por isso, e por nada mais, que essa tarefa é tão complexa e difícil.

“Certa vez, eu queria interromper minha análise e perguntei a Lacan porque era tão duro iluminar nosso inconsciente. A resposta dele pode ser resumida assim: a verdade é sempre incômoda, e a psicanálise nos mostra o que preferimos ignorar. Quanto mais nos aproximamos de nossa verdade mais temos vontade de ignorá-la. Por isso mesmo ele desencorajava aqueles que o procuravam para se conhecer melhor. Isso não é o suficiente. É preciso que algo nos atrapalhe e no interrogue para sobreviver ao longo das sessões. É preciso almejar uma mudança radical.” (Gérard Miller)

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Vanguarda do Atraso

Existe uma cidade nos Estados Unidos que fica no meio de uma região muito careta, mas o que a salva é ser um polo universitário muito grande, o que traz estudantes do mundo inteiro que oferecem a diversidade e a pluralidade de gostos, jeitos, caras, cheiros e idiomas que se entrelaçam na malha social. Estou falando de Austin, Texas.

Pois esta cidade tem um “bumper stick”, um adesivo famoso e que se vê em muitos lugares: automóveis, jornais, lojas e até nas casas. Nele se lê: “Keep Austin Weird” – Mantenham Austin Bizarra – normalmente acompanhado de uma foto de algo muito estranho que ocorre na cidade, como uma corrida de gente pelada, festival de tatuados, galerias de arte com amostras curiosas, arte e eventos LGBT, gente jovem de qualquer combinação de gêneros se beijando, etc. Para os moradores de Austin, ser “weird” significa ser diferente, ser progressista, desafiar os limites e enfrentar corajosamente as mentes mais atrasadas que se recusam a avançar. Ser bizarro é um orgulho para seus moradores, e algo pelo que querem ser conhecidos.

Quando vejo isso fico pensando nas mentes atrasadas e estúpidas que regulam nossa sociedade. Somos comandados pela vanguarda do atraso do Brasil, e não é à toa que a nossa obstetrícia obedece ao mesmo padrão de caretice e anacronismo. Mesmo quando o mundo inteiro já tiver se dado conta da imperiosa necessidade de trocar o modelo obstétrico baseado em cirurgiões – que falhou no mundo inteiro – por um controlado por parteiras profissionais, o Rio Grande do Sul se manterá atrelado aos sistemas de poderes que oferecem supremacia para uma corporação, mesmo em detrimento do bem-estar de mães e bebês. Aqui o atraso é chique, a abertura das mentes uma dor insuportável, e a perseguição aos dissidentes um ato de desespero que se dissimula como “defesa da família” ou “práticas consagradas”.

O que testemunhamos hoje em dia é uma brutal humilhação para quem conheceu uma Porto Alegre que prometia a pluralidade, a diversidade e o sonho de “um mundo novo possível”. O que acontece agora, esse salto para trás, é muito triste e deprimente, mas tem tudo a ver com um estado que sempre se orgulhou de seus fracassos.

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Fogo amigo

“Algumas pessoas que aparentemente se situam no espectro da humanização divulgam – com especial ênfase e alarde – notícias de punições a parteiras por erros cometidos. Eu posso entender a importância da autocrítica dentro de qualquer movimento social, do combate ao racismo ao feminismo, passando pela defesa LGTB e pela humanização do nascimento. O que eu tenho dificuldade de entender é o sentido de engrossar o coro das forças conservadoras que procuram qualquer brecha para destruir um movimento frágil e iniciante como o nosso. Certamente que a motivação é pessoal, mas ainda assim eu me assombro com a intensidade e a crueldade que testemunho em algumas manifestações.

Dos cesarianas eu posso entender a violência, mas o “fogo amigo” sempre me pega de surpresa.”

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Minha outra vida

Minha carteirinha do “hebdo” em Paris, 1998. Essa foi a primeira etapa da minha vida, o que eu poderia chamar de “minha vida passada”. Até esta data eu não havia conhecido pessoalmente nenhum profissional do parto que fosse minimamente humanizado. Havia um professor da faculdade de medicina que se auto proclamava assim, mas hoje ele seria descrito como um “tecnocrata envergonhado”, mas jamais um verdadeiro entusiasta da humanização. Este tipo de profissional é também chamado (por Marsden Wagner, em especial) de “liberal”. Em geral não desprezam suas ideias e nem calam suas palavras, pelo contrário, eles até lhe escutam.

“Eu também acho um horror esse excesso de cesarianas, mas veja que nosso hospital é de referência“, dizem. “Também tenho pensado em diminuir episiotomias, e hoje só as faço quando vejo que o períneo está para romper“, explicam. “Todos aqui sabem que sou a favor do parto normal, claro”, gabam-se. “Sou a favor da humanização, mas cada um na sua função. Não acho certo enfermeiras atendendo parto no século XXI“, esclarecem eles. Esse professor atendeu o parto de uma familiar próxima e tudo o que fez foi repetir o padrão que por tantas vezes o vi, timidamente, criticar: ocitocina, litotomia, episiotomia, fórceps de “alívio”, corte prematuro, afastamento do RN. Um perfeito liberal…

Levou muito tempo para que eu percebesse que a grande barreira a vencer são as muralhas do ego. O drama que o “tecnocrata bem intencionado” tem pela frente é abandonar o suporte que o olhar dos seus iguais lhe oferece. Poucas tarefas são mais difíceis na vida de um médico do que questionar os valores de seus mestres. Como São Francisco saindo nu da Igreja, para suplantar estes desafios é preciso mergulhar no inferno de si mesmo e suportar a solidão que inexoravelmente virá. Meu olhar nessa foto é o retrato fiel de uma arrogância juvenil misturada com ingenuidade e esperança, marcas que eu ainda carregava na alma. Minha mais tola característica era acreditar que a verdade, por si só, seria capaz de mudar o mundo. Não…. ela é a base para essa transformação, mas só poderemos enxergar sua face brilhante se permitirmos que a névoa dos interesses se dissipe e seu sorriso apareça em todo seu fulgor.

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Campanhas

No Brasil as campanhas que criticam a atuação de parteiras e doulas tem um endereço evidente: renovar a crença preconceituosa de que enfermeiras e obstetrizes oferecem uma assistência de “segunda classe”, aumentar o poder médico e deixar o campo livre para as cesarianas abusivas. Dá até para escutar alguns médicos dizendo às pacientes: “Vai querer mesmo arriscar ser abusada durante o parto ou quer marcar uma cesariana já?“

O modelo atual deixa a cesariana absolutamente impune, enquanto o parto normal um pode significar um risco grave para o médico ou a parteira. Com um bisturi na mão os profissionais são intocáveis; com as mãos nuas estão desprotegidos.

A culpa não está em um lugar apenas; está disseminada na cultura e atinge pacientes e cuidadores. O signo é o medo e a cesariana um refúgio para as agressões. Cesarianas em alta significam o acionamento de uma cascata de eventos, que transitam da morbimortalidade materna e neonatal aumentadas até o desmame precoce. Por outro lado o respeito aos estudos que apontam o parto normal como superior podem ameaçar o bem estar e a própria continuidade do trabalho dos atendentes de parto.

É preciso entender o que este tipo de campanha significa e onde pode nos levar.

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Parteiros Infalíveis

Uma revista de grande circulação publicou matéria sobre uma famosa parteira nordestina e seu trabalho de várias décadas na atenção ao parto. A revista prestava uma homenagem oportuna e justa, mas não foi para mim nenhuma surpresa o fato de terem informado um número exagerado de partos atendidos por ela (6 mil) além de terem acrescentado uma fala que merece uma análise mais aprofundada: “Nunca perdi um bebê“, disse ela.

Fiz um comentário discreto aqui em casa a respeito da matéria, mesmo porque sabemos que é politicamente incorreto questionar um mito muito antigo da obstetrícia: o número de partos atendidos por parteiras e médicos. Nesse terreno podemos afirmar sem medo que todos mentem sobre os famosos “múltiplos de mil” (menos eu, que anotei todos os quase dois mil que atendi na minha carreira de 30 anos).

Ora, cabe uma consideração sobre os seis mil partos que a parteira informa ter atendido durante sua carreira, sem que tenha ocorrido nenhum óbito neonatal. É importante salientar que os melhores serviços europeus de obstetrícia têm mortalidade neonatal ao redor de 4/1000 nascidos. Uma parteira que tenha atendido por volta de 6 mil partos (número obviamente inflacionado) teria o direito de perder 24 bebês. Sim …. 24!! Este é um número maravilhoso para qualquer serviço de excelência neonatal do mundo!! Portanto, essa ausência de óbitos parece deveras estranha, mas sabemos o quanto é tabu questionar tais números.

O pior cenário é quando criamos uma redoma em volta dos eleitos e recebemos uma chuva de críticas pelo que consideram “ataques aos símbolos de um movimento”. Nesse momento chamam as Deusas para acusá-lo de não respeitar “as mãos  sagradas que apanharam tantos bebês”.

Pensem bem sobre o significado em longo prazo dessas declarações. Agora mesmo eu recebi uma homenagem da Assembleia Legislativa de SC. Imaginem o que teria de repercussão se eu recebendo a homenagem declarasse: “Eu agradeço as homenagens e espero que mais nenhum bebê venha a morrer enrolado no cordão ou porque passou da hora“.

Seria justo silenciar nessa hora só porque algumas pessoas do movimento de humanização gostam de mim ou para não “estragar” uma homenagem? Estou exagerando, por certo, pois esse estrago seria muito maior do que um simples número falacioso, mas é apenas para ficar claro que jamais será justo silenciar diante dos erros.

Um episódio me marcou muito nesse aspecto. Quando eu era residente houve uma homenagem no hospital pela passagem do dia da enfermagem. Falaram enfermeiras, médicos, administradores e por fim um político, presidente da assembleia. Ele teceu uma série de elogios óbvios e previsíveis e terminou com um espetacular “afinal vocês são nossos anjos de branco”.

Resultado: vaias da galera das enfermeiras. Mas como vaiar uma homenagem???? A razão, que eu concordei quando falei com elas depois, era afastar de forma veemente o estigma desprofissionalizante das “abnegadas serviçais angelicais”. Elas me diziam “nem vem com esse papo de anjo porque anjo não tem sexo e não ganha salário“.

Veja bem…. até eu achei exagerada e grosseira a vaia a uma homenagem, mas depois entendi perfeitamente e concordei com a manifestação pois ela levava em consideração o FUTURO da enfermagem como profissão, e não uma homenagem passageira. Respeitei o ato por ele significar o cuidado com o porvir profissional de meninas que sequer estavam ali, mas que seriam as futuras enfermeiras.

Nesse caso vejo da mesma forma. Acho que se a dona Prazeres é tudo isso que falam (e eu acredito) ela vai entender a correção que nós prontamente fizemos dos números irreais. Ela deixou um legado que ninguém tira, mas corrigir estas estatísticas serve para proteger as enfermeiras que labutam e enfrentam a inevitabilidade da morte todos os dias.

Não há dúvida que este é um problema recorrente: a mitificação e a idolatria. Por está razão eu falo há tanto tempo do risco de eleger – em qualquer setor da sociedade – elementos acima do “bem e do mal” para nos representar. Dona Prazeres merece todo nosso respeito e consideração, carinho e afeto, mas ela não está acima das Deusas da Probabilidade e nem dos Deuses da Estatística. Ela é uma pessoa apenas, devotada ao seu trabalho e à sua paixão, e não um ser divino que suplantou as leis da vida e da morte.

Aprender a aceitar críticas e reparos aos nossos ídolos – de Jesus a Lula, passando lá no meio por tantas parteiras e dona Prazeres – faz parte do nosso amadurecimento. Quem deseja fazer grandes transformações terá pela frente a tarefa de remexer em solo rígido, por muitos pisoteado, e isso nunca é feito sem críticas e ataques.

O grande problema dessas fantasias disseminadas no universo dos obstetras e parteiras é desnaturalizar a morte neonatal, como se a sobrevivência dos bebês dependesse unicamente da nossa capacidade, abnegação e compaixão. Essa perspectiva irreal torna toda morte neonatal uma tragédia, fazendo a culpa recair sobre o cuidador, que será visto como negligente e incompetente.

“Babies die and shit happens“, já nos avisava Marsden Wagner, chefe do serviço Materno-Infantil da OMS para o leste europeu. Criar essa ilusão de excelência é péssimo para o trabalho de parteiras e médicos. A ilusão da infalibilidade é deletéria e produz efeitos nocivos. Criar uma aura de “erro zero” para os profissionais que atendem o parto pode produzir uma expectativa irreal sobre este trabalho, e a conta será inevitavelmente cobrada depois. Sem dó.

“A tolerância exagerada com nossos equívocos gera descrédito. Credibilidade é algo que se constrói em anos e se perde em 5 minutos”.

Essa postura onipotente poderá ter um preço muito alto. Uma vez vi o filho de uma paciente que havia falecido dizer para um colega médico a respeito do óbito de sua mãe: “Como assim morreu? Hoje em dia a medicina está tão avançada; como não houve cura para ela?“.

“Quem brinca de Deus será odiado pelos desastres naturais“, como também dizia o mestre Marsden.

Aqui na província um velho professor (que não fazia plantões há mais de 30 anos) disse durante uma entrevista na TV local que atendeu “mais de 30 mil partos“, e disse essa baboseira com a cara mais impávida e serena. Não passa de um mentiroso e embusteiro. Quem trabalhou nessa área sabe que número de partos é tamanho de falo, com o perdão pela comparação grosseira. Todo garoto descreve proporções exageradas de si mesmo – sempre acima da realidade – mesmo porque poucos estão interessados em ver os “documentos comprobatórios”.

Todavia, é interessante notar que essa “ilusão de excelência” surgiu quando da confrontação do trabalho milenar das parteiras com o modelo médico hegemônico que se estabelecia, onde a morte se tornou palavra maldita e considerada uma falha. As parteiras, para quem a morte tinha outro significado, acabaram por adotar o paradigma da “morte-fracasso” que os médicos instituíram, o que é uma pena; lidar com a morte com mais naturalidade seria melhor para todos. Evidentemente que “encarar a morte como parte da existência” não significa abdicar da luta para manter a vida através da arte e da competência, usando de todos os meios para mantê-la, mas significa reconhecer que ela é nossa única certeza e nosso fim inequívoco.

Por mais que tentemos evitar sua presença obscura, a morte faz parte do nosso cotidiano e dos nossos pesadelos mais sombrios. Porém, só os tolos disfarçam o medo que dela sentem ou afastam dos olhos sua miragem. Um bom obstetra ou parteira sabe o gosto que a morte tem e já sentiu seu hálito gelado a lhe trespassar a pele e congelar os ossos.

“A idolatria faz mais vítimas que o ódio explícito. Aquela é cega para os defeitos, enquanto este para as virtudes. Entretanto, ainda é melhor um defeito exagerado do que uma perversão dissimulada. Quanto às virtudes, elas aparecem, mais cedo ou mais tarde.” (Eleanor Sinclair, “Just above the Rainbow”, Ed. Aleph, pág 135.)

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