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Bolhas

Existe uma série de assuntos que eu adoraria debater até para diminuir um pouco a minha ignorância sobre eles. Quando você vive em uma sociedade branca, num estado branco, sendo de classe média e heterossexual acaba tendo dificuldade para entender as queixas das pessoas que sofrem as consequências por NÃO SEREM como você, as quais não tem a possibilidade de deixar que o fluxo do mainstream as carregue para posições mais privilegiadas. Lembro muito do ativista israelense Miko Peled que, sendo israelense e branco, tinha dificuldades de entender o ponto de vista dos palestinos, pessoas a quem NUNCA via no seu dia-a-dia, e por isso mesmo podiam ser estereotipados e/ou demonizados pela cultura em que estava embebido. Foi apenas o encontro fortuito com palestinos quando moravam em San Diego, nos Estados Unidos (!!!), que o fez acordar para a questão da Palestina, o Nakba, a limpeza étnica e as reivindicações daquele povo.

Miko Peled em seu livro “O Filho do General” agradece de forma comovente a recepção afetiva e compreensiva que teve por parte dos ativistas palestinos, os quais tinham TODAS AS RAZÕES do mundo para odiá-lo, não apenas por ser israelense, mas por ser filho de um general invasor, responsável por boa parte da desgraça afligida ao seu povo. Sem esse carinho e essa fraternidade explícita de pessoas em uma posição aparentemente tão distante, seria muito fácil para Miko manter-se dentro de sua bolha de demonização e ódio ao “inimigo”. Para mim, não foram os argumentos racionais que o convenceram que sua postura estava errada, muito menos os registros históricos a que teve acesso em sua busca pela verdade, mas o afeto e a acolhida amorosa que recebeu daqueles que por muito tempo considerou como adversários e inimigos mortais.

Para as pessoas que tem as mesmas condições que eu é importante serem apresentadas às questões femininas, raciais, de gênero e sociais para que possamos pensar fora de nossa bolha de amizades e relações cotidianas. Sem esse confronto com vivências diversas e sem o contraditório é difícil sair da zona de conforto das nossas convicções e nossas perspectivas. Por isso o confronto de ideias é tão importante.

Infelizmente, em tempos de ódio, isso é cada vez mais difícil. Fiz um comentário na página de uma doula a respeito de uma mensagem que ela postou com um texto assinado por Andrea Dworkin. Disse que o texto (sobre ser lésbica) era sensível e bonito, mas foi escrito por alguém que sofre muito mais criticas do que elogios de dentro do movimento feminista por suas lutas anti-pornografia e acima de tudo por suas atitudes controversas (liberdade para mulheres que mataram maridos abusadores). Ela, por exemplo, era extremamente conservadora e escreveu um livro cujo título era “Right-wing women”. Faleceu aos 58 anos com um quadro avançado de artrite e complicações de obesidade mórbida, mas se estivesse viva estaria ao lado de Trump fazendo campanha por ele e por sua visão de extrema direita.

Meu comentário visava apenas alertar para a origem da mensagem, para não repetir o que o ator José Wilker fez numa reunião de diretores da Globo: um discurso recheado de citações que, depois dos aplausos de todos, avisou serem todas de Adolf Hitler, retiradas do “Mein Kampf”. Infelizmente bastou eu questionar uma autora como esta – mesmo elogiando a visão poética que ela tinha da homossexualidade feminina – para sofrer ataques pessoais. Aí vieram as agressões, ironias, deboches, violências e ataques pessoais que culminaram com um festival de blocks e o fim de qualquer possibilidade de conversa.

Claro, o erro foi meu. Eu não deveria ter feito aquele comentário. Afinal, não é problema meu. Quem quiser que siga, que cite, que admire e que adore. O problema é que isso mantém a bolha e as ilhas de concordância intactas, e não permite que a gente aprenda com o pensamento alheio. Ficamos todos desconectados porque as pessoas não querem debater; querem lutar, destruir opositores, querem “lacrar”, humilhar oponentes, vencer guerras de argumentos, ser o mais irônico possível, ser o super fodão da sua turma (o meme preferido é o negro aquele que é carregado pelo amigos e recebe os óculos escuros da suprema esperteza) e tratar todas as pessoas de quem discordam como inimigos a serem destroçados.

A solução momentânea é se afastar, bloquear, voltar para o seu canto frustrado e esperar que alguém de bom coração se proponha a conversar sem pedras nas mãos. Ter a paciência de aguardar a caridade de alguém sem ódio transbordante e esperar que os ânimos possam arrefecer. Infelizmente, para algumas pessoas, isso nunca vai acontecer, pois as causas são apenas desculpas passageiras para a razão principal que as move: a luta em si e a destruição dos oponentes.

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Bolhas identitárias

O documentário “Minimalist” (que eu gostei muito) que é sobre uma dupla de rapazes que abandonaram seus empregos e carreiras para investir em uma vida mais simples e sem luxos, vivendo com o que consideram necessário e essencial. É um discurso minimalista, como o nome diz, e que prega o desapego às futilidades do dia-a-dia e uma opção pelo que é realmente valioso na vida. O documentário aborda a turnê desses dois jovens pelos Estados Unidos e a venda do livro com suas ideias.

Daí alguém me marca em uma página que critica o filme. Tudo bem, até me interessei, talvez o documentário tenha um erro essencial, uma visão equivocada ou mesmo um paradoxo que eu não tinha me dado conta. Quando comecei a ler percebi que a crítica era porque o filme era “machista“, já que os protagonistas eram homens, e as mulheres deveriam estar presentes em um documentário que aborda este tema.

Eu pergunto: um documentário sobre os Beatles também seria irremediavelmente machista? Stones? O Grêmio? Como esses dois aventureiros e idealistas poderiam fazer um documentário sobre sua jornada de auto transformação e NÃO serem considerados machistas, já que são homens?

A crítica do filme deixa clara a ideia de que o crime inafiançável desses dois rapazes é o fato de serem homens e tentarem construir um caminho diferente para suas vidas.

Eu não suporto mais essas bolhas identitárias. Eu simplesmente não aguento esse discurso pois vejo que ele está destruindo a solidariedade e as próprias esquerdas. Agora não é para o bem de todos, o que vale é “minha bolha primeiro, afinal...” e aí você coloca o discurso pré determinado para defender os interesses do seu grupo em detrimento de todos os outros. Vale mais quem puder ser mais vítima.

O identitarismo é uma ação de direita travestida de movimento por direitos humanos. Ele oferece todas as armas para os fascistas que odeiam igualdade e faz de inimigos pessoas que poderiam estar do mesmo lado. Que tristeza. Passei a ter alergia a qualquer manifestação dessa natureza

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Epílogo

As manifestações violentas dos representantes de sistemas de poder sempre acontecem no epílogo de todos os modelos hegemônicos. Um pouco antes da morte de um paradigma sobrevém o terror, como natural manifestação de desespero. O modelo médico obstétrico está doente e decadente, mas vai levar ainda muitos anos para ser substituído. Enquanto isso não acontece aqueles que o sustentam precisam lançar mão da violência verbal – e corporativa – para contrapor às evidências trazidas à tona pela nova consciência emergente, aquela que vai estruturar o novo paradigma.

A ferocidade dos ataques está, portanto, no script. Ela faz parte do ocaso de qualquer paradigma. Não se incomodem tanto com tais manifestações de ódio; elas são apenas como náufragos se debatendo e se agarrando nas vigas de madeira de um navio que aos poucos afunda.

“A cada dia que passa, e a cada nova descoberta, eu agradeço a Deus por ter me colocado do lado certo da história, mesmo que o preço a ser pago por estas escolhas seja a dor, a tristeza, o exílio e, por fim, o amargo esquecimento”.

Amália Contreras del Arroyo, “El Llanto de las Cascadas” Ed. Footprint, page 135

Amália del Arroyo é uma parteira nascida em Cuzco, no Peru, tendo desempenhado um importante papel na consolidação da parteria em seu país. Escreveu “O Pranto das Cachoeiras” como uma série de histórias e artigos relacionados com a parteria tradicional da cultura andina, em especial do Quíchuas – grupo indígena da região do Chile até a Colômbia e língua falada pelo império Inca. Neste livro ela descreve especificamente da destruição das culturas de parto indígenas pelo modelo tecnocrático e a desnaturalização do nascimento nas culturas ocidentais. Mora em Lima e tem 4 filhos.

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O falso rebelde e a difícil defesa da civilização

Alguém já disse, mas vou repetir: quando Gentili diz “você é minha empregada; eu digo se você fala ou cala a boca” não é o libertário que está com a palavra, mas o garoto mimado, filho do estancieiro, gritando para seu empregado na fazenda. Ele usa o discurso da Casa Grande querendo parecer rebelde, mas não há nenhuma rebeldia em suas atitudes, só fascismo travestido de molecagem.

Acredito ser inaceitável quando rotulam a deputada Maria do Rosário de “defensora de bandido“. Ofensivo e profundamente injusto. Gostaria apenas de lembrar que, apesar de alguns inevitáveis equívocos que ocorrem na vida de qualquer parlamentar, ela desempenha um papel fundamental na garantia do cambaleante Estado Democrático de Direito em que o Brasil vive. Lembrem que Maria do Rosário defende pessoas comuns, como qualquer um de nós, contra o poder esmagador do Estado e do judiciário. Ela representa a luta pelas garantias do sujeito contra o autoritarismo e a violência dos poderosos.

Gente como ela é essencial em tempos de crise. Não fossem por pessoas como ela estaríamos vivendo ainda em uma selva. Se estivéssemos na Segunda Guerra Mundial, Maria do Rosário estaria defendendo os “bandidos” judeus ou os “criminosos” ciganos contra Hitler e todos os “cidadãos de bem” na Alemanha nazista. Se ela vivesse no Mississippi nos anos 50, ela estaria defendendo os “malfeitores e vagabundos” negros dos linchamento e perseguições dos patrióticos senhores brancos da Ku Kux Klan. Dizer que Maria do Rosário “defende bandidos” é colocar-se do lado errado da história e retroceder alguns séculos na questão dos direitos humanos, quando os acusados não tinham defesa e onde o arbítrio das massas estupidificadas era o único juízo a que os cidadãos comuns se submetiam.

Pensem bem antes de criticar quem defende as garantias jurídicas para todos os cidadãos. Quando elas caem e sobrevém a sombra do totalitarismo, quem poderá defender cada um de nós dos abusos e da barbárie?

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Os Frutos

Há muitos anos eu imaginava que a verdadeira revolução na assistência ao parto seria uma modificação da estrutura da sociedade, em seus aspectos mais profundos. As condutas médicas durante o parto nada mais eram do que a ponta final de um processo que emergia das profundezas da estrutura social. A violência obstétrica era, no meu ver, como um osso de dinossauro na superfície do deserto, que tanto nos permitia perceber o gigantismo do animal quanto a tarefa hercúlea de desenterrá-lo.

Muito cedo me dei conta que a tarefa de reescrever a história do nascimento jamais se daria através da simples ampliação da consciência dos profissionais, seja pela alteração nas “práticas médicas” ou pela transformação das estruturas hospitalares. Isso seria reconhecer os poderes instituídos e tão somente suavizar sua opressão. Na época eu chamava este modelo de “sofisticação de tutela”.

Eu sabia que para mudar a forma de nascer precisávamos mudar a sociedade. Essa sociedade, assim consciente dos sentidos profundos do nascer, não mais permitiria que o parto se tornasse um foco disseminador de violência, exclusão e opressão, envolto na dura carapaça da misoginia. Sabia também que as vias de transformação se dariam através da medicina baseada em evidências e da interdisciplinaridade para enfim chegarmos ao pleno protagonismo do parto garantido às mulheres.

Para isso acontecer deveríamos contemplar 4 pontos essenciais:

A sociedade
Os profissionais
A mídia
Os operadores do direito

Nossa luta com junto à sociedade se dá há quase 30 anos, não só pela nossa ONG mais importante – a Rehuna Humanização Do Parto – como por tantos outros organismos surgidos espontaneamente. Citarei a Parto do Princípio e o GAMA como exemplos dessas instituições. Assim a sociedade – em especial as mulheres – sempre foram o foco primordial de nosso ideário. Se uma revolução no nascimento pode acontecer só será se forem as mulheres a conduzi-la.

Os profissionais humanizados se reúnem há mais de 20 anos para debater, questionar, construir um novo paradigma e disseminar sua visão renovadora através de artigos científicos e livros “à mancheia”, mostrando que temos, sim, muito a dizer e oferecer para esta luta. Dos encontros da Fadynha Doula, até os grandes congressos internacionais e o Siaparto, construimos uma rede segura e forte de disseminação de conhecimento embasado em evidências, reunindo profissionais de vários campos nesse debate.

A mídia ao poucos “vira o fio”. Se antes nos tratava como “malucos” ou “românticos” aos poucos reconhece que os partos humanizados são a ponta de lança da atenção qualificada. Os meios de comunicação hoje reconhecem que o combate ao intervencionismo é uma batalha que rompeu todas as fronteiras, que o excesso de medicalização prejudica a saúde da população e que o caminho é pela suavidade, pela “slow medicine” e pelo respeito aos direitos reprodutivos e sexuais. O sucesso de “O Renascimento do Parto”, a espera “angustiante” pela sua continuação e a produção de tantos outros documentários mostram que a visão da mídia sobre nossas palavras está mudando de uma forma bastante positiva.

O último elemento, o qual me motivou a escrever esta resenha, é a participação dos operadores do direito. Hoje a ReHuNa fez-se ouvir na Organização dos Estados Americanos, em Buenos Aires – através da brilhante advogada Ana Lucia Keunecke – que foi levar aos delegados desta instituição a voz dos ativistas do parto do Brasil junto com nossas denúncias de violência obstétrica. Tivemos a oportunidade de mostrar às Américas como se dá a perseguição sórdida protagonizada por corporações contra médicos, enfermeiras obstetras e doulas que lutam por partos mais dignos e menos violentos. Pudemos sensibilizar os delegados de muitos países irmãos para a nossa luta contra a violência institucional aplicada às gestantes, numa violação inaceitável de tratados internacionais dos quais o Brasil é signatário.

Importante também salientar a importância da Artemis como participante das lutas pela dignidade garantida às gestantes, mostrando que nossa paixão invadiu o universo do direito e lançou sementes que aos poucos mostram seus frutos.

Assim, minhas previsões todas estão se cumprindo. Entretanto, erra quem pensar que esta tarefa está próxima de seu término. “Longo é o caminho de quem deseja trazer luz e discernimento“. Humanizar o Nascimento é garantir o protagonismo à mulher e, enquanto nossa missão não for cumprida, haverá sempre razão para continuarmos firmes nesta trajetória.

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Comédia

O desespero do pessoal que chamava o PT de corrupto e que foi para a rua com camisa amarela é tocante. Metade continua afirmando que todas a corrupção e todos os males surgem do PT, o mesmo partido que colocou o Brasil por breves instantes no mapa do mundo. O resto é contra “todos os corruptos”, que “todos vão para a cadeia”, “intervenção militar”, ou “bandido bom é bandido morto” (não é o assunto, mas sempre que podem eles falam isso). A ideia é a despolitização, o surgimento dos “gestores”, o fim dos partidos e, com isso, o fim da corrupção. Essa tese é tão tosca e tão ingênua que só gente fanatizada acredita nisso. Qualquer sujeito que já tenha trabalhado em uma empresa qualquer sabe como é corrupta a iniciativa privada, em qualquer nível.

O problema atual é que este pessoal “verde amarelo”, a turma do “sem partido” (lembram 2013?), se sente traído na confiança que tinham em Aécio, em Temer (“vai melhorar porque não é PT”) e mesmo Dalanhoro (uma mistura do fanático gospel com o Batman de Curitiba), que sofreu a suprema humilhação de levar um tapa de luvas do MPF de Brasília ao denunciar seu amigo Aécio, mesmo que as acusações estivessem na mão de Batman e Robin há mais de dois anos, as quais ficavam escondidas para não criar um climão quando se encontrassem na próxima premiação da Globo.

E eu é que sou comediante…. comédia é insistir que a culpa do Temer é do PT, quando o PT fez o MÁXIMO esforço durante 6 anos para manter Temer escondido no Jaburu com sua bela donzela. Comédia é não observar que a DIREITA BRASILEIRA é representada por todas estas figuras macabras que foram desenjauladas pelo golpe capitaneado por urubus neoliberais como Kataguiri e Rólidei. Agora que Temer, Aécio, Jucá, Padilha et caterva são denunciados tentar empurrar a paternidade para as esquerdas. Esse filho é de vocês!!!!

Comédia é achar que essas provas contra Temer e Aécio são novas, quando são muito velhas e estavam sendo retidas pelos interesseiros de sempre – Gilmarzinho entre eles. Comédia é não se dar conta de que um pedalinho de merda, um sítio do amigo e um apartamento que não é do Lula serviram para TODOS VOCÊS ficarem anestesiados e não perceberem o desmonte da previdência e da CLT enquanto os verdadeiros facínoras agiam.

O constrangimento é porque, enquanto acusavam o PT e imploravam para poder – mais uma vez – lamber bota de milico, uma tropa de malandros operava para “estancar a hemorragia, com o STF, com tudo”, sempre contando com uma Lava Jato que já não conseguia mais esconder o fato de que tinha lado, que tinha partido, que protegia algumas figuras e massacrava outras.

O desmonte se iniciou com o depoimento de Lula que deu um show político no seu depoimento, e que deixou o juiz Moro nocauteado no chão. Todos sabemos que Lula será condenado por Moro, que inclusive já deu sua sentença na Europa (para quem quiser entender), mas o depoimento deixou claro que Moro sempre agiu como um acusador, um Batman que joga no time do Coringa e que tem a vaidade como seu principal motivador.

Comédia é ver essa direita que saiu à rua ladeada por um pato querer dizer que estavam lutando contra a corrupção. Nunca estiveram; queriam apenas manter a Casa Grande cercada e gradeada, e impedir que o nordestino entrasse mais uma vez onde não foi convidado.

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Autofagia

Eu li o pedido de desculpas da professora Elika e não li o texto do ano passado que gerou a celeuma. Entretanto, pela minha própria experiência, nem é preciso ler o texto inicial para saber que a violência contra ela é absurda e desmedida. Eu sei exatamente como estes grupos fazem linchamentos virtuais e por isso me solidarizo com Elika e todas as outras bruxas e bruxos queimados nas fogueiras da intolerância. Apenas deixo claro que o sucesso desses movimentos libertários e por justiça social não se dará apenas pelo enfrentamento com os adversários machistas, misóginos, racistas ou LGBTfóbicos, mas também através da dura tarefa de reconhecer e extirpar das entranhas do próprio movimento os fascistas que militam por estas causas.

Ninguém mais tem dúvidas do racismo e do machismo em nossa sociedade. Não é preciso avisar isso em todo texto como se fosse uma novidade. Não é mais esse o problema, e sim como combater de forma pedagógica e eficiente. O que eu penso é que o combate à estas duas feridas sociais não pode ser com a DESTRUIÇÃO de reputações, patrolando suas biografias e jogando toda uma militância do bem no lixo pela simples escolha errada de palavras. Esta é uma estratégia suicida. Alguém acha que os movimentos feministas, de esquerda ou anti racistas se beneficiaram com a “aposentadoria” da Elika no Facebook? Tenho certeza que nas fileiras adversárias é possível escutar o sorriso dos bolsonetes com a autofagia dos setores progressistas.

Pois vou mais adiante: nós brancos precisamos ser educados para a nova realidade. Sou da época em que era lícito contar piada de negros, claramente racistas, e fui amorosamente educado pelos meus amigos de que isso não tem graça. Quem quer imprimir uma nova realidade precisa entender e ter paciência para a adaptação. Isso não diminui nossa culpa, mas coloca todos os personagens sociais como responsáveis pela mudança.

Tanta gente acha errado espancar crianças quando elas agem errado, mas acham natural triturar publicamente a honra de quem cometeu erros. Lembre que o racismo – assim como o machismo – é tão naturalizado em nossa sociedade que muitas vezes agimos com estes preconceitos sem sequer percebermos. Erramos muitas vezes sem saber, como Elika errou com suas palavras…

Da mesma forma como as crianças erram também…

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Extremismos de Esquerda

Esse para mim é o pior problema: o surgimento de um pelotão de fascistas de esquerda, prontos para atacar com igual ou maior ferocidade do que os seus adversários da direita. Muito triste ver os progressistas se tornando tão nocivos quanto aqueles a quem criticam. Quando vejo jovens militantes de esquerda agredindo ou tentando calar bolsonetes eu sempre penso que um visitante estrangeiro, ao ver tal cena, teria imensas dificuldades em saber qual grupo representa melhor os fascistas.

Ina May Gaskin, ativista americana pelo parto humanizado, foi apenas mais uma vítima desses “pelotões de renegados” capazes de exercer tanta violência quanta aquela a que foram submetidos durante sua vida. É nesses momento que aparece mais luminosa ainda a fala de Paulo Freire:

“Quando a educação não é libertadora o sonho do oprimido é se tornar opressor”.

Paulo Freire

As meninas que atacaram Ina não são da esquerda como a conhecemos no Brasil, mas são lutadoras por equidade racial, um pensamento e uma luta normalmente ligados à esquerda. Entretanto suas armas se tornam iguais às usadas pelos piores fascistas: a destruição da imagem pública de alguém cujas diferenças são infinitamente menores que as semelhanças no discurso e na prática. Isso precisa ser denunciado pelo bem da própria luta contra o racismo. Produzir mais racismo e mais perseguições não poderá trazer nenhum benefício aos negros e nem acabar com a opressão que sofrem. Não se constrói uma sociedade igualitária com violência. O que faltou a estas ativistas é a compreensão de que nós brancos precisamos ser educados para um novo mundo e não destruídos por sermos da cor “moralmente errada“. A insensatez dos ataques demonstra a incapacidade de suplantar o ciclo vicioso de violência. O que elas fizeram com Ina May foi usar a chibata midiática e humilhá-la publicamente, um sofrimento semelhante ao que historicamente tiveram. Que alternativa de mundo elas tem a oferecer se tudo que mostram é rancor e vingança?   O que digo serve para qualquer grupo, seja branco, preto, mulher, homem ou gay: o ódio jamais será ferramenta de transformação positiva. Não se trata de “colocar o negro no seu lugar“, mas colocar a todos nós em um modelo de fraternidade. A única coisa que este tipo de ação agressiva resulta é em atitudes defensivas. Acabamos pensando “ok, então é isso mesmo: seremos nós contra vocês.” Todo o simpatizante da causa negra (ou gay, feminista e indígena) acaba se afastando porque será sempre visto como “o inimigo a ser aniquilado“. Que tolice brutal!!!

Não vou dizer (não ousaria) como as feministas ou as negras ativistas americanas devem agir, mas a forma como agem vai resultar em me considerar aliado ou adversário. No momento, apesar de ser um ferrenho antirracista, me considero mais adversário desse movimento americano do que amigo. Até porque sei que, basta uma vírgula mal colocada, ou diferente da agenda destes grupos para ser literalmente linchado, destruído e jogado ao inferno. Infelizmente é um fato inquestionável de que os ex-aliados são sempre tratados com mais crueldade do que os inimigos declarados. Todavia, apesar das críticas à violência desses grupos, isso em hipótese alguma invalida a justiça da luta contra o racismo, porém nos alerta para que as armas usadas nesta luta não podem ser as mesmas do opressor. No eterno embate das ideias e dos projetos somos pedagogos de nossas propostas e nosso comportamento será sempre um reflexo do que verdadeiramente somos, por mais belas e sublimes que sejam estas propostas.

Minha mãe sempre dizia: “Cuida como vives; talvez sejas o único evangelho que teu irmão lê“. Acatar e absorver como prática a crueldade de nossos adversários apenas nos torna uma cópia mal feita daqueles a quem tanto combatemos.

Menos o surgimento de monstros como Bolsonaro e mais o apoio que recebe de uma imensa parcela idiotizada da população (10%!!!!) se relacionam com a imagem que é vendida à população por estes extremistas que se chamam esquerda, mas cuja postura e atitudes estão mais próximas do fascismo do que das históricas bandeiras de solidariedade e democracia que a esquerda carrega. Quando fui vitima de insultos e boicotes há alguns anos eu estava sozinho nessa luta. Era fácil agredir uma pessoa que pedia moderação e menos violência por parte de grupos historicamente oprimidos. Não acredito no ódio como solução, muito menos a vingança. Esta queixa agora explodiu ao mesmo tempo nos Estados Unidos e no Brasil, com Ina May e Elinka. Estamos cansados de radicalismos e não precisamos mais aguentar fascistas de esquerda que infestam partidos e universidades subvertendo a visão solidária e democrática do socialismo.   Não se trata de calar a voz de nenhum grupo; pelo contrário, é fazer a nossa voz ser respeitada por quem não admite contraditório ou crítica.

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The Pain of the Oppressed

For Ina May Gaskin

I received with surprise an online petition against one of the most important fighters for the humanization of childbirth in the world, Ina May Gaskin, in which the petitioners accuse her of racism. The words they use are harsh, violent and cruel, and offered me the opportunity to reflect on the existence of such cruelty, in life and especially in the virtual world. It was only after talking to some friends that I could understand the context, and combine them with circumstances of the contemporary American political moment—this made a lot of difference in my perspective on the problem.

There is great dissatisfaction with the fact that the birth movement in the United States was created and led by mostly white and middle-class women. From my perspective, nothing could be more natural than this if we take into account the obvious characteristics of this social class: more money, more time to devote to unpaid tasks/volunteer work, more access to cultural advantages, higher education and so many other class and race privileges that we know so well. Add to that the fact that the American black community constitutes no more than 10% of the population in this country, and it is little wonder that the birth movement has been driven primarily by white middle-class women, and that African-American women feel marginalized in the birth movement as well as in the wider society. However, what could be seen as an aid to the privileged people to the unprivileged – and an effort to decrease the distances between them–is instead seen by a group of activists-black feminists as an invasion and an attempt to undermine the protagonism of the disadvantaged non-white women in America. This subject goes back and forth and one needs to understand the whole context to deal with this kind of resentment.

When I read the statements of these activists and compared them to the actual character of my friend Ina May, I was astonished at the absurd moral penalties to which she was subjected. It is like someone stealing a bag of cookies at the grocery store and being sentenced to death. The condemnation of the activists, in turn, was not directed at her ideas, her propositions, her narrative or the phrase – politically incorrect or not – they say she used. No, the penalty is supposed to destroy her morale and her honor, and rewrite her personal history. It is not something like “We disagree with you for your phrase, which can add a further burden to American black women, victims of a racist society.” No, the petition makes it clear that the people who wrote it believe that this person, this long-time pioneer and heroine of the birth movement, is a “racist,” a “white supremacist,” Ku Kux Klan type, and it is because of “people like her” that there is racism in women’s care in the United States.

Yet it would take only five minutes of conversation with Ina May to discover the nonsense of such aggression. As another birth activist said to me, “There is not a single racist bone in her body.” This made it clear to me that the petition says much more about the hatred, frustration, and long-held resentments against white society emanating from these people than from any flaws committed by my friend and activist. It is a tragedy that they have chosen Ina May as their current focal point for revenge.

Immediately I realized that the petition was part of a strategy of attacking historical activists who fought for the humanization of birth. I re-read Ina May’s statement—the one that got her into so much trouble—and I could not perceive any racism in it, but rather a phrase that could be interpreted in a number of different ways. I remembered what my father said about a black guy in Brazil who was becoming a football coach. Said my father, having a coffee with me at the mall: “Against him weighs the fact of being black.” When you take that phrase out of context it seems that your intention was to say that “being black” is a defect for someone who wants to be a football coach. What he meant, however, is that being black would make him suffer many prejudices and encounter tremendous barriers that never occur against whites pursuing the same position. The same sentence can be read in two different ways, according to the desire of the one who reads it; it can be considered racist by people who prefer to attack all who mention race, but can mean the opposite if you understand the context and realize that the phrase was said by a known combatant in the fight against racism.

After my conversations with other birth activists about the petition being circulated against Ina May, I was able to understand that she is the victim of a process that is not happening only now. It is being used by a “race patrol” who tries to attack the movement of humanization for its white and middle-class roots as if the guilt should fall on the few white activists who have decided to bring up the idea of dignifying and spiritualizing birth.

My first reaction was to think “I do not want to argue with fanatics, people who believe in hatred and revenge as elements of positive transformation and who do not mind dividing a movement that is already small and suffering attacks from the powerful forces all the time.

After a few minutes, a little calmer, I thought that there is a huge need to narrow the differences between social classes and races in our society, in America and in my own country, Brazil. Both countries have many disparities and black women are at the bottom of our social strata. The struggle of these black women is fair and noble, and the importance of their ideas cannot be sacrificed because of their misuse by these bitter activists. The fact that they are bearers of hatred and negativity cannot lead me to disregard their struggle – as well as the struggles against chauvinism, oppression, inequity, sexual rights of minorities and many others. If their message seems to me – and many others – to be full of hatred, our response must not be of despair—rather it has to be necessarily guided by respect and consideration for their pains, sorrows and wounds.

The sad reality is that, in fact, drug overuse IS one of the major causes of maternal and infant mortality in the United States among both white women and women of color:

“The biggest killers during and after pregnancy are cardiac problems and overdoses involving prescription opioids and illegal drugs. (“America’s Shocking Maternal Deaths” by the Editorial Board of the New York Times Sunday Review https://nyti.ms/2civjl3)”

“Overdosing is the second-biggest cause of maternal mortality in Texas. Another is racism: In Texas [the state with the highest maternal mortality rate in the US] black women are 11.4% of all pregnant women and a whopping 29% of those who die. Texas is one of 19 states that have refused to expand Medicaid under the Affordable Care Act. . . Help with drug abuse is scarce, as is maternal health care. (Katha Pollitt, “The Story behind the Maternal Mortality Rate in Texas Is Even Sadder Than We Realize”, Sept. 8, 2016, www.thenation.com/login/)”

The important thing is not to blame women who overdose, black or white, which Ina May did not, but rather to understand the racial, social, and economic stratifications that push them into drug abuse to cope with lives often too hard to bear, through no fault of their own.

I am sure that my friend, Ina May Gaskin, does not deserve the unworthy treatment she is now receiving daily. The attacks directed at her affect all those who care about human birth and its repercussions in society. Ina May is an example of woman, mother, grandmother, activist and women’s fighter of any color, religion or social stratum. I will be with her always because she is one of the most enlightened, loving, egalitarian human beings I have ever had the honor of knowing.

Ric Jones
ReHuNa
Brazil

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Cristãos e a opressão

Dos rios dizemos violentos mas não dizemos violentas às margens que os oprimem“. Brecht

Esta é a face mais triste das religiões: transformar os fiéis em cordeiros manipuláveis pela mídia e pelo capital, fazer com que acreditem que a resistência à opressão não é legítima ou digna, tornando cada cidadão em um servo robotizado carregando um crucifixo para que ele mesmo seja, por fim, pendurado. Talvez seja um pagamento justo para sua alienação. Não esqueçam que este Cristo a quem tanto adoram era um revolucionário que deu a vida pela libertação de seu povo, e não um babaca conformista que baixava a cabeça para os poderosos.

Seja cristão e combata a opressão!!! O cristianismo, via de regra, acaba com o senso crítico, a visão política e a cidadania em nome de uma teleologia de direita, alienante, aristocrática e sem uma visão coletiva. Essa é a parte mais triste das religiões: imaginar que a luta pelos direitos deve estar subjugada a uma falsa visão pacífica de Cristo, quando em verdade sua vida foi uma luta constante contra a opressão.

“Não se faz uma revolução com tapinhas nas costas”, como dizia Sheila Kitzinger. Se algumas pioneiras não fossem suficientemente ousadas, quebrassem padrões morais e estéticos e botassem “pra quebrar” as mulheres estariam ainda hoje indo à missa, bordando e conversando sobre receitas.

Alguém aí acha que as conquistas dos trabalhadores surgiram através de abaixo assinados ou conversas amigáveis com os patrões? Claro que não. Direito não se ganha, se conquista. Se tiver que ser incendiando carro que seja. Trabalhadores bem comportados vão para o céu; os corajosos vão à luta!

Apenas para lembrar a necessidade de lutar:

Não precisa lei trabalhista, ora, basta negociar. No circo romano onde estava escrito que era o leão que comia as pessoas? Podia ser o contrário, por que não? Havia espaço para livre negociação, e se esta não ocorria era por culpa do radicalismo das pessoas e não pela força superior ou ferocidade dos felinos“.

A propósito, uma realidade chocante: recente pesquisa nos Estados Unidos (!!) revela que 43% dos entrevistados tem uma visão positiva do socialismo e apenas 32% do capitalismo. É aqui, no centro mundial da ideologia capitalista, onde a queda do sistema será mais ruidosa.

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