Arquivo da categoria: Ativismo

Profissionalização

Creio que um dos principais problemas que permeia os debates sobre parto é confundir nomeação e suporte. Muitas mulheres e homens – e boa parte dos ativistas – ainda não entenderam que existem dois temas envolvidos nessa discussão e insistem em confundi-los.

É fundamental a importância de NOMEAR uma cirurgia abdominal, como uma cesariana, para conter seus abusos e combater sua banalização, que tantas vidas ainda coloca em risco e tantas frustrações gera nas mulheres. Por outro lado, e de forma concomitante, há a necessidade de APOIAR as puérperas em qualquer circunstância. Estas etapas são INDEPENDENTES, mas criamos a ilusão de que são uma só.

Infelizmente acreditamos que mentir – para mulheres ou crianças – é uma forma de acolhimento e carinho.

Assim sendo, podemos (devemos) nomear com precisão o que aconteceu com uma mulher que pariu e ao mesmo tempo lhe oferecer apoio empático e incondicional. Podemos usar a correta nomeação seguida de apoio, como em: “Você teve infelizmente uma cesariana mas lutou bravamente por dar o melhor ao seu filho”. Alternativamente você pode não nomear e apoiar, mas isso permite facilmente cair na banalização, como em “Tanto faz a via de parto o importante é mãe e bebê estarem bem.” Sabemos como isso é usado por cesaristas. Outra possibilidade é nomear e não apoiar, como em: “Você teve cesariana e nenhuma mulher é verdadeiramente mãe se não passou por um parto”, e sabemos o quanto de crueldade esta afirmação carrega. Finalmente, você pode não nomear e não oferecer apoio, de maneira igualmente cruel e infantilizante, como em: “Não importa como foi o parto, nada justifica toda essa sua manha”.

Continuar a confundir estas etapas não ajuda em nada nos debates, além de atrapalhar demais a discussão sobre os caminhos a seguir. Desconsiderar a importância da VERDADE e do SUPORTE – que NÃO SÃO excludentes – é grave e continua produzindo tristeza e rancor, cobertos por uma grossa camada de culpa. Tratar as mulheres como adultas já não é mais uma “opção”, mas um dever de todos nós.

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Esperança

“Não esmoreça. Passe pela vida e deixe seu testemunho. A vida é curta demais para covardias e vaidades. Faça esse tempo curto de convívio conosco valer a pena. Deixe seu tijolo para a construção de um mundo melhor e permita que sua consciência e sua ética guiem seus passos em meio à artilharia pesada das forças do atraso. Siga em frente de peito aberto. Não se iluda: muitos acompanham teus passos em silêncio e seguem teu exemplo.”

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Dos nojos contemporâneos

Cada vez que vejo gestantes que passaram muitas horas em trabalho de parto e foram incapazes de ultrapassar asp dilatações mais iniciais fico a questionar o quanto a sociedade contemporânea contribui para este bloqueio . A razão para esse “rechaço” à parturição – potente porque inconsciente – é um mistério, mas acredito que se trata de algo do inconsciente relacionado fortemente à cultura contemporânea. O que aconteceria com essas mulheres no século XVI? Bem….provavelmente as mulheres deste tempo estavam inseridas em um conjunto de valores e experiências do seu tempo, radicalmente diferentes das experiências pelas quais passam na pós-modernidade.

Por certo que não há sociedade sem sujeito e não existe sujeito sem sociedade.

Quando conversei com parteiras do Tibet – que atendem mulheres pobres do campo – cuja Casa de Parto tem 1% de transferências hospitalares e uma taxa de mortalidade neonatal baixíssima, me dei conta que elas estão submetidas à uma sociedade “pré-moderna” que, ao mesmo tempo em que lhes sonega as benesses da modernidade, da liberdade, da autonomia, do acesso ao conhecimento e instrução, lhes retira também uma conexão mais plena e completa com seus corpos e seus ciclos.

Claro que nem toda mulher dilata, mas o que eu pergunto é: por que as tibetanas “dilatam” e tem filhos com facilidade, enquanto as ocidentais tem tanta dificuldade? Não é uma diferença física, por certo. Ninguém vai conseguir me provar que as pelves, músculos e demais tecidos moles das tibetanas são diferentes daqueles de uma brasileira ou americana. Portanto, a diferença BRUTAL precisa ser algo ligado à cultura, aos valores e à própria expressão da sexualidade.

Não se trata de uma crítica à atenção obstétrica como a conhecemos mesmo sabendo que essas coisas acontecem. Todavia, para estas existe em causa explicável e objetiva. Minha busca está para as situações cotidianas em que o trabalho de parto não anda, estanca e fica interrompido sem que para isso haja qualquer razão evidente. São aquelas situações corriqueiras em que os médicos dizem “ela não houve dilatação”. Por outro lado se reforça a constatação de que a mulher contemporânea burguesa, inserida nessa cultura tecnológica e cosmopolita, acaba se comportando de forma diferente e com dificuldades e impedimentos no parto que antes eram raros ou desconhecidos.

Esta sociedade atual se tornou cheia de nojos e de bloqueios. As mesmas mulheres que cortam seus pelos pubianos, rechaçam os gritos do parto e não suportam odores e fluidos orgânicos são as que também vão rechaçar o parto e toda a sua sexualidade animal, profunda e primitiva.

Criamos uma sexualidade estéril em todos os sentidos, bacterianos e emocionais.

Costumamos procura as respostas a estas perguntas onde elas normalmente não estão. O que comanda o parto – e todos os aspectos da sexualidade – é o mundo das sombras, do breu, do inconsciente. Lá, onde guardamos nossas lembranças mais primitivas, é onde se escondem as forças que nos impulsionam.

O patriarcado (não confundir com “os homens”) não suporta um modelo que questiona as bases constitutivas do seu sistema de poder. Parir com autonomia tem o mesmo efeito perturbador – e potencialmente devastador – de fazer sexo com total liberdade. Por isso as instituições poderosas como igreja, medicina e política sempre que possível tentam impedir a expressão da potencialidade sexual humana.

Meu questionamento sincero é: como ajudar as mulheres a redescobrir – resgatar, despertar – suas capacidades inatas e ancestrais de parir com tranquilidade e suavidade SEM retroceder nas conquistas de autonomia e liberdade, as quais foram duramente conquistadas nos últimos dois séculos? Mais ainda: como fazer que isso seja acessível a todas as mulheres e não apenas àquelas pertencentes a uma determinada casta social?

Outra possibilidade é admitir que a sociedade tecnológica fechou as portas para a vivência plena da sexualidade – pelo menos a feminina, mais complexa e delicada. Pergunto: Haverá como compatibilizar partos tranquilos e suaves com uma vida burguesa moderna? Sim ou não?

Se a resposta for negativa, valeu a pena o IPhone, a isonomia salarial, as famílias pequenas e a TV de plasma?

Se, ao contrário for positiva, qual a solução para recuperarmos os partos perdidos?

Os anos vindouros talvez nos mostrem uma síntese dos paradigmas digladiantes, onde será possível garantir os ganhos de autonomia para as mulheres sem que elas precisem perder a vivência com o sagrado de seus corpos, seus ciclos, seus partos e seus mistérios.

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Bolhas

Existe uma série de assuntos que eu adoraria debater até para diminuir um pouco a minha ignorância sobre eles. Quando você vive em uma sociedade branca, num estado branco, sendo de classe média e heterossexual acaba tendo dificuldade para entender as queixas das pessoas que sofrem as consequências por NÃO SEREM como você, as quais não tem a possibilidade de deixar que o fluxo do mainstream as carregue para posições mais privilegiadas. Lembro muito do ativista israelense Miko Peled que, sendo israelense e branco, tinha dificuldades de entender o ponto de vista dos palestinos, pessoas a quem NUNCA via no seu dia-a-dia, e por isso mesmo podiam ser estereotipados e/ou demonizados pela cultura em que estava embebido. Foi apenas o encontro fortuito com palestinos quando moravam em San Diego, nos Estados Unidos (!!!), que o fez acordar para a questão da Palestina, o Nakba, a limpeza étnica e as reivindicações daquele povo.

Miko Peled em seu livro “O Filho do General” agradece de forma comovente a recepção afetiva e compreensiva que teve por parte dos ativistas palestinos, os quais tinham TODAS AS RAZÕES do mundo para odiá-lo, não apenas por ser israelense, mas por ser filho de um general invasor, responsável por boa parte da desgraça afligida ao seu povo. Sem esse carinho e essa fraternidade explícita de pessoas em uma posição aparentemente tão distante, seria muito fácil para Miko manter-se dentro de sua bolha de demonização e ódio ao “inimigo”. Para mim, não foram os argumentos racionais que o convenceram que sua postura estava errada, muito menos os registros históricos a que teve acesso em sua busca pela verdade, mas o afeto e a acolhida amorosa que recebeu daqueles que por muito tempo considerou como adversários e inimigos mortais.

Para as pessoas que tem as mesmas condições que eu é importante serem apresentadas às questões femininas, raciais, de gênero e sociais para que possamos pensar fora de nossa bolha de amizades e relações cotidianas. Sem esse confronto com vivências diversas e sem o contraditório é difícil sair da zona de conforto das nossas convicções e nossas perspectivas. Por isso o confronto de ideias é tão importante.

Infelizmente, em tempos de ódio, isso é cada vez mais difícil. Fiz um comentário na página de uma doula a respeito de uma mensagem que ela postou com um texto assinado por Andrea Dworkin. Disse que o texto (sobre ser lésbica) era sensível e bonito, mas foi escrito por alguém que sofre muito mais criticas do que elogios de dentro do movimento feminista por suas lutas anti-pornografia e acima de tudo por suas atitudes controversas (liberdade para mulheres que mataram maridos abusadores). Ela, por exemplo, era extremamente conservadora e escreveu um livro cujo título era “Right-wing women”. Faleceu aos 58 anos com um quadro avançado de artrite e complicações de obesidade mórbida, mas se estivesse viva estaria ao lado de Trump fazendo campanha por ele e por sua visão de extrema direita.

Meu comentário visava apenas alertar para a origem da mensagem, para não repetir o que o ator José Wilker fez numa reunião de diretores da Globo: um discurso recheado de citações que, depois dos aplausos de todos, avisou serem todas de Adolf Hitler, retiradas do “Mein Kampf”. Infelizmente bastou eu questionar uma autora como esta – mesmo elogiando a visão poética que ela tinha da homossexualidade feminina – para sofrer ataques pessoais. Aí vieram as agressões, ironias, deboches, violências e ataques pessoais que culminaram com um festival de blocks e o fim de qualquer possibilidade de conversa.

Claro, o erro foi meu. Eu não deveria ter feito aquele comentário. Afinal, não é problema meu. Quem quiser que siga, que cite, que admire e que adore. O problema é que isso mantém a bolha e as ilhas de concordância intactas, e não permite que a gente aprenda com o pensamento alheio. Ficamos todos desconectados porque as pessoas não querem debater; querem lutar, destruir opositores, querem “lacrar”, humilhar oponentes, vencer guerras de argumentos, ser o mais irônico possível, ser o super fodão da sua turma (o meme preferido é o negro aquele que é carregado pelo amigos e recebe os óculos escuros da suprema esperteza) e tratar todas as pessoas de quem discordam como inimigos a serem destroçados.

A solução momentânea é se afastar, bloquear, voltar para o seu canto frustrado e esperar que alguém de bom coração se proponha a conversar sem pedras nas mãos. Ter a paciência de aguardar a caridade de alguém sem ódio transbordante e esperar que os ânimos possam arrefecer. Infelizmente, para algumas pessoas, isso nunca vai acontecer, pois as causas são apenas desculpas passageiras para a razão principal que as move: a luta em si e a destruição dos oponentes.

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Bolhas identitárias

O documentário “Minimalist” (que eu gostei muito) que é sobre uma dupla de rapazes que abandonaram seus empregos e carreiras para investir em uma vida mais simples e sem luxos, vivendo com o que consideram necessário e essencial. É um discurso minimalista, como o nome diz, e que prega o desapego às futilidades do dia-a-dia e uma opção pelo que é realmente valioso na vida. O documentário aborda a turnê desses dois jovens pelos Estados Unidos e a venda do livro com suas ideias.

Daí alguém me marca em uma página que critica o filme. Tudo bem, até me interessei, talvez o documentário tenha um erro essencial, uma visão equivocada ou mesmo um paradoxo que eu não tinha me dado conta. Quando comecei a ler percebi que a crítica era porque o filme era “machista“, já que os protagonistas eram homens, e as mulheres deveriam estar presentes em um documentário que aborda este tema.

Eu pergunto: um documentário sobre os Beatles também seria irremediavelmente machista? Stones? O Grêmio? Como esses dois aventureiros e idealistas poderiam fazer um documentário sobre sua jornada de auto transformação e NÃO serem considerados machistas, já que são homens?

A crítica do filme deixa clara a ideia de que o crime inafiançável desses dois rapazes é o fato de serem homens e tentarem construir um caminho diferente para suas vidas.

Eu não suporto mais essas bolhas identitárias. Eu simplesmente não aguento esse discurso pois vejo que ele está destruindo a solidariedade e as próprias esquerdas. Agora não é para o bem de todos, o que vale é “minha bolha primeiro, afinal...” e aí você coloca o discurso pré determinado para defender os interesses do seu grupo em detrimento de todos os outros. Vale mais quem puder ser mais vítima.

O identitarismo é uma ação de direita travestida de movimento por direitos humanos. Ele oferece todas as armas para os fascistas que odeiam igualdade e faz de inimigos pessoas que poderiam estar do mesmo lado. Que tristeza. Passei a ter alergia a qualquer manifestação dessa natureza

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Epílogo

As manifestações violentas dos representantes de sistemas de poder sempre acontecem no epílogo de todos os modelos hegemônicos. Um pouco antes da morte de um paradigma sobrevém o terror, como natural manifestação de desespero. O modelo médico obstétrico está doente e decadente, mas vai levar ainda muitos anos para ser substituído. Enquanto isso não acontece aqueles que o sustentam precisam lançar mão da violência verbal – e corporativa – para contrapor às evidências trazidas à tona pela nova consciência emergente, aquela que vai estruturar o novo paradigma.

A ferocidade dos ataques está, portanto, no script. Ela faz parte do ocaso de qualquer paradigma. Não se incomodem tanto com tais manifestações de ódio; elas são apenas como náufragos se debatendo e se agarrando nas vigas de madeira de um navio que aos poucos afunda.

“A cada dia que passa, e a cada nova descoberta, eu agradeço a Deus por ter me colocado do lado certo da história, mesmo que o preço a ser pago por estas escolhas seja a dor, a tristeza, o exílio e, por fim, o amargo esquecimento”.

Amália Contreras del Arroyo, “El Llanto de las Cascadas” Ed. Footprint, page 135

Amália del Arroyo é uma parteira nascida em Cuzco, no Peru, tendo desempenhado um importante papel na consolidação da parteria em seu país. Escreveu “O Pranto das Cachoeiras” como uma série de histórias e artigos relacionados com a parteria tradicional da cultura andina, em especial do Quíchuas – grupo indígena da região do Chile até a Colômbia e língua falada pelo império Inca. Neste livro ela descreve especificamente da destruição das culturas de parto indígenas pelo modelo tecnocrático e a desnaturalização do nascimento nas culturas ocidentais. Mora em Lima e tem 4 filhos.

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O falso rebelde e a difícil defesa da civilização

Alguém já disse, mas vou repetir: quando Gentili diz “você é minha empregada; eu digo se você fala ou cala a boca” não é o libertário que está com a palavra, mas o garoto mimado, filho do estancieiro, gritando para seu empregado na fazenda. Ele usa o discurso da Casa Grande querendo parecer rebelde, mas não há nenhuma rebeldia em suas atitudes, só fascismo travestido de molecagem.

Acredito ser inaceitável quando rotulam a deputada Maria do Rosário de “defensora de bandido“. Ofensivo e profundamente injusto. Gostaria apenas de lembrar que, apesar de alguns inevitáveis equívocos que ocorrem na vida de qualquer parlamentar, ela desempenha um papel fundamental na garantia do cambaleante Estado Democrático de Direito em que o Brasil vive. Lembrem que Maria do Rosário defende pessoas comuns, como qualquer um de nós, contra o poder esmagador do Estado e do judiciário. Ela representa a luta pelas garantias do sujeito contra o autoritarismo e a violência dos poderosos.

Gente como ela é essencial em tempos de crise. Não fossem por pessoas como ela estaríamos vivendo ainda em uma selva. Se estivéssemos na Segunda Guerra Mundial, Maria do Rosário estaria defendendo os “bandidos” judeus ou os “criminosos” ciganos contra Hitler e todos os “cidadãos de bem” na Alemanha nazista. Se ela vivesse no Mississippi nos anos 50, ela estaria defendendo os “malfeitores e vagabundos” negros dos linchamento e perseguições dos patrióticos senhores brancos da Ku Kux Klan. Dizer que Maria do Rosário “defende bandidos” é colocar-se do lado errado da história e retroceder alguns séculos na questão dos direitos humanos, quando os acusados não tinham defesa e onde o arbítrio das massas estupidificadas era o único juízo a que os cidadãos comuns se submetiam.

Pensem bem antes de criticar quem defende as garantias jurídicas para todos os cidadãos. Quando elas caem e sobrevém a sombra do totalitarismo, quem poderá defender cada um de nós dos abusos e da barbárie?

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Os Frutos

Há muitos anos eu imaginava que a verdadeira revolução na assistência ao parto seria uma modificação da estrutura da sociedade, em seus aspectos mais profundos. As condutas médicas durante o parto nada mais eram do que a ponta final de um processo que emergia das profundezas da estrutura social. A violência obstétrica era, no meu ver, como um osso de dinossauro na superfície do deserto, que tanto nos permitia perceber o gigantismo do animal quanto a tarefa hercúlea de desenterrá-lo.

Muito cedo me dei conta que a tarefa de reescrever a história do nascimento jamais se daria através da simples ampliação da consciência dos profissionais, seja pela alteração nas “práticas médicas” ou pela transformação das estruturas hospitalares. Isso seria reconhecer os poderes instituídos e tão somente suavizar sua opressão. Na época eu chamava este modelo de “sofisticação de tutela”.

Eu sabia que para mudar a forma de nascer precisávamos mudar a sociedade. Essa sociedade, assim consciente dos sentidos profundos do nascer, não mais permitiria que o parto se tornasse um foco disseminador de violência, exclusão e opressão, envolto na dura carapaça da misoginia. Sabia também que as vias de transformação se dariam através da medicina baseada em evidências e da interdisciplinaridade para enfim chegarmos ao pleno protagonismo do parto garantido às mulheres.

Para isso acontecer deveríamos contemplar 4 pontos essenciais:

A sociedade
Os profissionais
A mídia
Os operadores do direito

Nossa luta com junto à sociedade se dá há quase 30 anos, não só pela nossa ONG mais importante – a Rehuna Humanização Do Parto – como por tantos outros organismos surgidos espontaneamente. Citarei a Parto do Princípio e o GAMA como exemplos dessas instituições. Assim a sociedade – em especial as mulheres – sempre foram o foco primordial de nosso ideário. Se uma revolução no nascimento pode acontecer só será se forem as mulheres a conduzi-la.

Os profissionais humanizados se reúnem há mais de 20 anos para debater, questionar, construir um novo paradigma e disseminar sua visão renovadora através de artigos científicos e livros “à mancheia”, mostrando que temos, sim, muito a dizer e oferecer para esta luta. Dos encontros da Fadynha Doula, até os grandes congressos internacionais e o Siaparto, construimos uma rede segura e forte de disseminação de conhecimento embasado em evidências, reunindo profissionais de vários campos nesse debate.

A mídia ao poucos “vira o fio”. Se antes nos tratava como “malucos” ou “românticos” aos poucos reconhece que os partos humanizados são a ponta de lança da atenção qualificada. Os meios de comunicação hoje reconhecem que o combate ao intervencionismo é uma batalha que rompeu todas as fronteiras, que o excesso de medicalização prejudica a saúde da população e que o caminho é pela suavidade, pela “slow medicine” e pelo respeito aos direitos reprodutivos e sexuais. O sucesso de “O Renascimento do Parto”, a espera “angustiante” pela sua continuação e a produção de tantos outros documentários mostram que a visão da mídia sobre nossas palavras está mudando de uma forma bastante positiva.

O último elemento, o qual me motivou a escrever esta resenha, é a participação dos operadores do direito. Hoje a ReHuNa fez-se ouvir na Organização dos Estados Americanos, em Buenos Aires – através da brilhante advogada Ana Lucia Keunecke – que foi levar aos delegados desta instituição a voz dos ativistas do parto do Brasil junto com nossas denúncias de violência obstétrica. Tivemos a oportunidade de mostrar às Américas como se dá a perseguição sórdida protagonizada por corporações contra médicos, enfermeiras obstetras e doulas que lutam por partos mais dignos e menos violentos. Pudemos sensibilizar os delegados de muitos países irmãos para a nossa luta contra a violência institucional aplicada às gestantes, numa violação inaceitável de tratados internacionais dos quais o Brasil é signatário.

Importante também salientar a importância da Artemis como participante das lutas pela dignidade garantida às gestantes, mostrando que nossa paixão invadiu o universo do direito e lançou sementes que aos poucos mostram seus frutos.

Assim, minhas previsões todas estão se cumprindo. Entretanto, erra quem pensar que esta tarefa está próxima de seu término. “Longo é o caminho de quem deseja trazer luz e discernimento“. Humanizar o Nascimento é garantir o protagonismo à mulher e, enquanto nossa missão não for cumprida, haverá sempre razão para continuarmos firmes nesta trajetória.

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Comédia

O desespero do pessoal que chamava o PT de corrupto e que foi para a rua com camisa amarela é tocante. Metade continua afirmando que todas a corrupção e todos os males surgem do PT, o mesmo partido que colocou o Brasil por breves instantes no mapa do mundo. O resto é contra “todos os corruptos”, que “todos vão para a cadeia”, “intervenção militar”, ou “bandido bom é bandido morto” (não é o assunto, mas sempre que podem eles falam isso). A ideia é a despolitização, o surgimento dos “gestores”, o fim dos partidos e, com isso, o fim da corrupção. Essa tese é tão tosca e tão ingênua que só gente fanatizada acredita nisso. Qualquer sujeito que já tenha trabalhado em uma empresa qualquer sabe como é corrupta a iniciativa privada, em qualquer nível.

O problema atual é que este pessoal “verde amarelo”, a turma do “sem partido” (lembram 2013?), se sente traído na confiança que tinham em Aécio, em Temer (“vai melhorar porque não é PT”) e mesmo Dalanhoro (uma mistura do fanático gospel com o Batman de Curitiba), que sofreu a suprema humilhação de levar um tapa de luvas do MPF de Brasília ao denunciar seu amigo Aécio, mesmo que as acusações estivessem na mão de Batman e Robin há mais de dois anos, as quais ficavam escondidas para não criar um climão quando se encontrassem na próxima premiação da Globo.

E eu é que sou comediante…. comédia é insistir que a culpa do Temer é do PT, quando o PT fez o MÁXIMO esforço durante 6 anos para manter Temer escondido no Jaburu com sua bela donzela. Comédia é não observar que a DIREITA BRASILEIRA é representada por todas estas figuras macabras que foram desenjauladas pelo golpe capitaneado por urubus neoliberais como Kataguiri e Rólidei. Agora que Temer, Aécio, Jucá, Padilha et caterva são denunciados tentar empurrar a paternidade para as esquerdas. Esse filho é de vocês!!!!

Comédia é achar que essas provas contra Temer e Aécio são novas, quando são muito velhas e estavam sendo retidas pelos interesseiros de sempre – Gilmarzinho entre eles. Comédia é não se dar conta de que um pedalinho de merda, um sítio do amigo e um apartamento que não é do Lula serviram para TODOS VOCÊS ficarem anestesiados e não perceberem o desmonte da previdência e da CLT enquanto os verdadeiros facínoras agiam.

O constrangimento é porque, enquanto acusavam o PT e imploravam para poder – mais uma vez – lamber bota de milico, uma tropa de malandros operava para “estancar a hemorragia, com o STF, com tudo”, sempre contando com uma Lava Jato que já não conseguia mais esconder o fato de que tinha lado, que tinha partido, que protegia algumas figuras e massacrava outras.

O desmonte se iniciou com o depoimento de Lula que deu um show político no seu depoimento, e que deixou o juiz Moro nocauteado no chão. Todos sabemos que Lula será condenado por Moro, que inclusive já deu sua sentença na Europa (para quem quiser entender), mas o depoimento deixou claro que Moro sempre agiu como um acusador, um Batman que joga no time do Coringa e que tem a vaidade como seu principal motivador.

Comédia é ver essa direita que saiu à rua ladeada por um pato querer dizer que estavam lutando contra a corrupção. Nunca estiveram; queriam apenas manter a Casa Grande cercada e gradeada, e impedir que o nordestino entrasse mais uma vez onde não foi convidado.

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Autofagia

Eu li o pedido de desculpas da professora Elika e não li o texto do ano passado que gerou a celeuma. Entretanto, pela minha própria experiência, nem é preciso ler o texto inicial para saber que a violência contra ela é absurda e desmedida. Eu sei exatamente como estes grupos fazem linchamentos virtuais e por isso me solidarizo com Elika e todas as outras bruxas e bruxos queimados nas fogueiras da intolerância. Apenas deixo claro que o sucesso desses movimentos libertários e por justiça social não se dará apenas pelo enfrentamento com os adversários machistas, misóginos, racistas ou LGBTfóbicos, mas também através da dura tarefa de reconhecer e extirpar das entranhas do próprio movimento os fascistas que militam por estas causas.

Ninguém mais tem dúvidas do racismo e do machismo em nossa sociedade. Não é preciso avisar isso em todo texto como se fosse uma novidade. Não é mais esse o problema, e sim como combater de forma pedagógica e eficiente. O que eu penso é que o combate à estas duas feridas sociais não pode ser com a DESTRUIÇÃO de reputações, patrolando suas biografias e jogando toda uma militância do bem no lixo pela simples escolha errada de palavras. Esta é uma estratégia suicida. Alguém acha que os movimentos feministas, de esquerda ou anti racistas se beneficiaram com a “aposentadoria” da Elika no Facebook? Tenho certeza que nas fileiras adversárias é possível escutar o sorriso dos bolsonetes com a autofagia dos setores progressistas.

Pois vou mais adiante: nós brancos precisamos ser educados para a nova realidade. Sou da época em que era lícito contar piada de negros, claramente racistas, e fui amorosamente educado pelos meus amigos de que isso não tem graça. Quem quer imprimir uma nova realidade precisa entender e ter paciência para a adaptação. Isso não diminui nossa culpa, mas coloca todos os personagens sociais como responsáveis pela mudança.

Tanta gente acha errado espancar crianças quando elas agem errado, mas acham natural triturar publicamente a honra de quem cometeu erros. Lembre que o racismo – assim como o machismo – é tão naturalizado em nossa sociedade que muitas vezes agimos com estes preconceitos sem sequer percebermos. Erramos muitas vezes sem saber, como Elika errou com suas palavras…

Da mesma forma como as crianças erram também…

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