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Doulas e SUS

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Sobre as leis de doulas que estão surgindo em várias partes do Brasil cabe uma reflexão:

O SUS é universal e gratuito e precisamos protegê-lo. Não cabe cobrança de nenhum profissional. Se doulas começarem a cobrar pelo seu trabalho isso oferece uma fresta perigosa para qualquer profissional também fazer cobranças pelo seu trabalho. Se quisermos manter o SUS gratuito teremos que ser firmes em sua defesa. Os caminhos para a atenção em hospitais públicos do SUS me parecem ser o da incorporação das doulas as equipes de saúde (como funcionarias regidas pela CLT) ou o voluntariado (como já ocorre em alguns hospitais, como o Sofia Feldman). Nos serviços privados a escolha será livre, assim como o pagamento.

Não vejo dificuldade em admitir doulas nos hospitais particulares, como já vem ocorrendo há uns 15 anos ou mais, mas precisamos ter MUITO cuidado com os hospitais públicos. Por isso as leis que garantem o acesso de doulas precisam ser muito bem fundamentadas e cuidadosas, sob pena de criarmos mais dificuldades para a implantação desse modelo do que facilidades para o livre acesso ao trabalho delas.

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Com quem andas?

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Sempre tive curiosidade em perguntar às gerações que me antecederam como meus parentes se posicionaram diante dos grandes dilemas que ocorreram em suas vidas. Assim, eu pedi para o meu avô me explicar onde ele estava quando nazistas massacravam judeus na Alemanha ou na Polônia. Pedi também ao meu pai para me contar como se portou diante do golpe de 64 ou antes, no pré-golpe de 54. Essa é a resposta que um dia darei quando meus netos me perguntarem se eu sabia do genocídio e limpeza étnica da Palestina. Minha resposta será “sim”, eu sabia e denunciei o quanto pude. Também denuncio agora as cesarianas abusivas, a violência obstétrica e o golpe midiático-jurídico em curso.

Quando lhe perguntarem de que lado você se colocou quando a democracia foi ameaçada, diga se ficou ao lado de Cunha, Temer, Bolsonaro, Renan e Alexandre Frota ou se permaneceu firme ao lado do estado democrático de direito.

Eu estarei ao lado de Veríssimo, Lula, Leonardo Boff, e de todos que lutam para manter de pé a nossa frágil e juvenil democracia.

“Diga-me com quem andas…”

Aconteça o que acontecer, hoje é um dia de muita tristeza, que será lembrado com muita vergonha no futuro.

Será através da barbárie. Mas a culpa final recairá sobre as pessoas tolas que desdenham da democracia. Por causa delas é que muitos sofrerão nos atos que se seguirão ao golpe. Pessoas que por pura estupidez (ou uma ingênua antipatia com um governante) e teleguiados por notícias plantadas pela mídia – Friboi, jatinho, Triplex, sítio, pedalinhos, barco de lata, pedalada – associam-se a criminosos conhecidos e fascistas assumidos, com o sórdido objetivo de ganhar um governo na marra e na “mão grande”, por obra de ladrões e canalhas que zombam das conquistas sociais e da ordem democrática republicana.

Essa massa estupidificada de verde amarelo será a primeira a chorar quando o peso da falta da democracia cair sobre suas cabeças. No primeiro pé na porta da polícia invadindo sua casa lembre-se que a garantia de respeito ao estado de direito lhe foi tirada pelo seu ódio a Lula, e o que ele representa no mundo todo como líder dos pobres, além da sua negligência que permitiu Cunha se livrar das grades e chegar ao poder.

A culpa não é do congresso. A culpa é sua.

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O parto de quem?

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A foto é de inegável mau gosto, mas não acho que se pode ir muito além disso do ponto de vista médico. Não vejo risco para a criança. A foto é uma brincadeira, mas prefiro analisar o que existe por trás dela, que me parece muito mais revelador do que a simples imagem de médicos sorridentes e um bebê desconfortável.

Esta fotografia revela um conteúdo psicológico inconsciente bem claro: o parto foi “feito” por eles, os médicos. O bebê é um produto do seu trabalho, sua técnica e sua arte. A foto escancara a expropriação do nascimento, passando em poucas décadas das mãos das mulheres para as luvas estéreis dos cirurgiões. O nascimento humano deixou de ser um evento feminino para ser um processo controlado e dominado pela medicina, desconsiderando toda a construção histórica de sua adaptação.

A mulher, por certo, não cabe nessa foto. Ela é a inerme Bela Adormecida, dormindo o longo sono do patriarcado, objetualizada e imóvel. Para que ela possa existir é necessário que seja acordada (a cortada), mas não pela sua vontade e desejo, mas pelo beijo (bisturi) salvador de quem a resgata da crueldade de uma natureza madrasta.

A foto expõe de forma muito didática que o nascimento contemporâneo delegou a mulher a uma postura secundária e coadjuvante. O que outrora foi o maior e mais honrado desafio feminino hoje não passa de uma encenação na qual seu papel é cada vez menor.

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Doulas e sociedade

DOULA

Sempre que o assunto “doulas” vai para a grande imprensa aparece a questão da formação curta que elas fazem quando comparadas aos médicos e enfermeiras. O que eu peço aos meus interlocutores quando tratam deste tema da formação é atentar para o fato de que doulas NÃO fazem qualquer ato médico ou de enfermagem, portanto não precisam ter uma formação voltada à destreza técnica nestas áreas. Assim, o curto treinamento pelo qual elas passam é para oferecer conforto para as pacientes, assim como estimulá-las física e emocionalmente para uma atitude positiva e uma postura ativa diante do parto e seus desafios.

Todavia, sabemos que o que se esconde por trás desta pergunta é uma inquietação silenciosa. Ela na verdade que dizer: “Por que doulas podem cobrar sem ter passado pelo mesmo processo de treinamento que eu passei durante os anos de escola, graduação e pós graduação?“.

Este é o principal incômodo de alguns profissionais de área de atenção à saúde. Quando uma doula se sobressai pelo seu trabalho uma onda de negatividade se instala, como se fosse pecaminoso vender seu tempo e sua dedicação e ser reconhecida por isso.

Doulas oferecem seu tempo e sua dedicação, além das qualidades aprendidas de conforto e reasseguramento para as grávidas. E isso pode ser cobrado, a despeito de ter ou não um curso extenso como formação. Entretanto eu creio que esta é apenas uma etapa a ser vencida. Com a continuidade do trabalho e a excelência dos resultados com o acréscimo das doulas não haverá mais como bloquear o acesso das gestantes a este benefício. Precisamos apenas de paciência e persistência.

O futuro do parto passa pelo respeito aos desejos de cada mulher. As doulas entram nessa luta como guardiãs do sagrado feminino e protetoras da fisiologia do nascimento.

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Ferocidade

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Ainda sobre a pediatra que negou atendimento a uma criança por ela ser filha de uma militante do PT.

Uma pergunta me ocorreu..

E se a questão não fosse a cor partidária, mas a cor da pele? Se a médica dissesse que não se sente bem por atender negros, orientais ou imigrantes, ainda sim o representante do sindicato da corporação diria que a médica deveria se orgulhar pela sua “sinceridade”? E se a mãe da criança fosse gay? Preconceito racial não pode, mas contra um partido pode? Alguns preconceitos são piores – ou mais aceitáveis – que os outros? É certo focarmos apenas na (necessária) sinceridade da profissional e esquecer o preconceito asqueroso e abjeto que a moveu?

Fiquei rindo sozinho (um sorriso triste, confesso) de imaginar o que diria o mesmo representante da corporação se uma médica petista (existem sim, acreditem) resolvesse escrever a mesma mensagem para uma mãe que veio à consulta com a camiseta da CBF e um adesivo “Fora Dilma” colado ao peito.

Alguém dúvida da ferocidade com a qual ela seria atacada por seus iguais?

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Negro, negro

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Esta é uma das mais marcantes e mais contundentes história sobre racismo que eu já escutei. Não por ser um relato espetacular, como um massacre promovido pela KKK, ou o relato desumano e degradante da época da escravidão, mas por ser banal, algo que passa ao nosso lado todos os dias sem que possamos perceber.

Trata-se de uma situação corriqueira nas grandes cidades. Quem a contou para mim morava em um apartamento no primeiro andar de um edifício, com seu namorado e sua mãe. O edifício ficava incrustado em um grande condomínio habitacional da minha cidade. A mãe era aposentada, o namorado sargento da polícia militar e ela professora.

No meio da madrugada o namorado se acorda com um som estranho vindo da sala e silenciosamente se levanta para ver se o gato estava fazendo alguma farra noturna. Infelizmente não era um felino com insônia, mas um assaltante que havia invadido o pequeno apartamento e se ocupava em roubar pequenos objetos do apartamento.

Por ser um homem forte, treinado como policial militar para o combate, atirou-se sobre o invasor e tentou segurar seus braços, sendo rechaçado de imediato pelo ladrão, que era igualmente bastante forte. Diante do confronto inesperado o ladrão resolve bater em disparada, saindo pela mesma sacada por onde havia entrado.

Ao ver o meliante se projetar pela porta entreaberta da sacada o jovem correu até o quarto e pegou a arma de serviço que estava repousando sobre o criado mudo. Segurou a pistola com a mão firme e correu para a porta para iniciar a perseguição quando sentiu um corpo projetar-se sobre si aos gritos.

Não, não era o assaltante que voltava. Era a namorada, minha paciente, que aos prantos pedia que parasse.

“Preciso alcançá-lo. É minha obrigação. Sou um policial!!! Por que deveria parar? Por que deveria ficar aqui, acovardado?”

“Porque você é negro!!”, gritou ela em desespero. 

“Você é negro, negro, não percebe?, continuou ela. Você está de camiseta e calção, e estamos no meio da madrugada. Se você sair atrás de um ladrão com uma arma e encontrar o policial da ronda em quem você acha que ele vai atirar? Quem vai parecer sendo o assaltante? Quem tem cara de ladrão, de bandido? Até mostrar sua carteira de policial já poderá estar morto.”

Um breve silêncio se seguiu entrecortado pelos soluços da namorada que ainda o prendia com o corpo. Ele a abraçou mais forte e deixou a arma afrouxar em sua mão.

Nunca havia percebido de forma tão dura a dor de ser negro. Ela tinha razão, pois nesta sociedade de castas um negro armado de madrugada só pode estar do lado do crime. Ambos choraram a dor da impotência e a tristeza de ver que a cor da pele ainda nos separa de uma forma cruel, ainda mais quando invisível.

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Mississipi

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Uma historinha…

Quatro jovens entram em uma loja no shopping sem camisa. Três brancos e um negro. Em função da contravenção a polícia é chamada. Todos são interrogados, mas só o negro é detido, espancado, humilhado e levado à prisão. Quando pergunta por que só ele foi perseguido e punido recebe como resposta: “Mas você está justificando seu ato indecoroso porque outros também fizeram? Que vergonha!!” Ele então responde: “Não, meu ato de não usar camisa pode até ser punido, o que me espanta é o fato de que apenas eu sou perseguido e espancado. Por que os meus amigos não estão presos?” A resposta dos policiais é: “Não vem ao caso“….

Nesse momento ele percebeu que não havia sido preso por andar sem camisa, que até é uma contravenção verdadeira. Ele havia sido preso por ser negro em um shopping, um “crime” muito pior, mas que ele não havia percebido.

Sua queixa não é contra a sua punição, mas a intensidade dos espancamentos diários, e a seletividade em escolher sobre quem cai a mão pesada da lei, e sobre quem o julgador apenas diz que “não vem ao caso“….

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Terra arrasada

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Todas as supostas vitórias trazem consigo o germe da frustração. O que parece ter sido o ápice de uma conquista retumbante muitas vezes não é mais que o prenúncio de uma tragédia. A expulsão dos romanos da Judeia, e a libertação de um povo dominado, veio apenas alguns anos antes do extermínio, a destruição e a diáspora. Aqueles que comemoraram o arbítrio, apenas porque lhes interessa a vingança, estão semeando a brutalidade que lhes recairá no futuro.

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Patrulha em tempos de Internet

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Faz alguns dias eu estava almoçando com meu pai e conversando sobre um determinado personagem contemporâneo. Depois de enumerar muitas de suas virtudes e qualidades meu pai falou: “Ele é muito competente, mas pesa contra si o fato de ser negro”.

Para todos os outros componentes da mesa a manifestação passou batida, e por uma razão bem simples: estavam todos inseridos no contexto da conversa e percebiam que a frase tinha um significado bem específico: em uma sociedade ainda dividida pelas raças, o fato de ser negro imporia a ele cargas, pesos, desconfianças e cobranças que provavelmente não ocorreriam caso fosse branco. Não se tratava de um juízo de mérito, mas uma constatação das dificuldades advindas da condição de negro em uma sociedade ainda tingida pelas cores do racismo.

Além disso, todas as pessoas presentes sabiam que o autor da frase é um notável combatente contra qualquer tipo de discriminação, e teve a vida pautada por uma visão humanista.

Entretanto, o que ouvi me atingiu como a nenhum dos outros presentes, e a razão disso é que nenhum dos parceiros de mesa tinha como eu a compulsão por escrever publicamente sobre temas controversos. Nenhum deles tinha visto uma frase sua ser pinçada de um contexto e usada contra si mesmo, através de uma interpretação viciosa e violenta, que contraria não apenas o resto do texto, mas toda uma vida dedicada a combater discriminações, abusos ou violências.

É claro que as pessoas que se ocupam em praticar o “desvirtuamento do discurso alheio” falam muito mais de si mesmas do que do sujeito a quem criticam e caluniam. Os textos difamatórios contra colunistas que expressam opiniões controversas fala muito mais da desonestidade e imoralidade dos acusadores do que dos próprio articulistas. Os ataques a queridas amigas da Internet que defendem a humanização do nascimento também mostram a face mais sombria e vil dos próprios acusadores, muito mais do que alguma falha por elas cometida.

Entretanto, descobri em minha surpresa um ensinamento: em tempos de redes sociais é importante ter cuidado redobrado com as ironias (que quando descontextualizadas dizem o oposto do que se pensa) e as frases de sentido sutil que podem ser transformadas, dependendo apenas da maldade que habita no coração de quem as lê. Lembrei do ensinamento de Jesus: “Em tempos de Internet, seja teu escrever sim-sim, não-não“.

Ainda disse ao meu pai: “Entendo sua frase e seu contexto. Entendi ainda mais, que ela servia como crítica a uma sociedade que avaliará a competência de um sujeito mais pela sua cor do que por suas qualidades. Todavia, tivesse sido ela escrita em um post da internet e inúmeras pessoas poderiam torturá-la, afastá-la das suas frases irmãs, sequestrá-la para longe da intenção de quem a proferiu e obrigá-la a confessar o que nunca desejou afirmar.”

Meu pai sorriu e tristemente concordou …

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Shortinhos

Shortinho

Tive o cuidado de perguntar para a minha filha antes, já que ela é expert em assuntos feministas, e ela concordou comigo: essa NÃO é uma pauta feminista. E por uma razão bem simples de entender: não existe uma constrição de vestuário baseada em gênero. A regra se aplica a todos. Meninos não podem assistir aulas de “shortinho” ou sem camisa. Eles também precisam se adequar à norma. Portanto, é uma questão de costumes, que tem a ver com o traje de meninas de classe média que frequentam uma escola privada, e não com uma restrição ao sexo feminino de usar determinada roupa.

O shortinho NÃO está sendo proibido por “sexualizar” adolescentes, pela mesma razão que a proibição de assistir aulas sem camisa não é para evitar a sexualização dos garotos. A questão me parece bem mais simples, mas está sendo criada uma celeuma falsamente feminista e reivindicatória sem sentido.

A escola exige uma compostura dos que a frequentam, professores e alunos. O hospital também. A repartição pública idem. Podemos debater esta “compostura” e seus limites, mas a escola tem o direito de estabelecer suas regras. Não é uma restrição às mulheres; é para todos.

Poderíamos imaginar estas mesmas meninas, já formadas em direito, fazendo uma manifestação para que frequentem o fórum de “shortinho”? Ou residentes no hospital? E se fossem proibidas, seria para não “sexualizar” o corpo das advogadas e médicas, ou apenas por que estes locais exigem um determinado decoro, que se expressa pelo linguajar usado, mas também pelos trajes?

Eu creio que as meninas fariam muito melhor escolhendo pautas mais importantes como bandeira. Eu entendo o desejo de engajamento, mas liberação de shortinho não é a mais nobre que eu poderia imaginar.

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