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Mississipi

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Uma historinha…

Quatro jovens entram em uma loja no shopping sem camisa. Três brancos e um negro. Em função da contravenção a polícia é chamada. Todos são interrogados, mas só o negro é detido, espancado, humilhado e levado à prisão. Quando pergunta por que só ele foi perseguido e punido recebe como resposta: “Mas você está justificando seu ato indecoroso porque outros também fizeram? Que vergonha!!” Ele então responde: “Não, meu ato de não usar camisa pode até ser punido, o que me espanta é o fato de que apenas eu sou perseguido e espancado. Por que os meus amigos não estão presos?” A resposta dos policiais é: “Não vem ao caso“….

Nesse momento ele percebeu que não havia sido preso por andar sem camisa, que até é uma contravenção verdadeira. Ele havia sido preso por ser negro em um shopping, um “crime” muito pior, mas que ele não havia percebido.

Sua queixa não é contra a sua punição, mas a intensidade dos espancamentos diários, e a seletividade em escolher sobre quem cai a mão pesada da lei, e sobre quem o julgador apenas diz que “não vem ao caso“….

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Terra arrasada

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Todas as supostas vitórias trazem consigo o germe da frustração. O que parece ter sido o ápice de uma conquista retumbante muitas vezes não é mais que o prenúncio de uma tragédia. A expulsão dos romanos da Judeia, e a libertação de um povo dominado, veio apenas alguns anos antes do extermínio, a destruição e a diáspora. Aqueles que comemoraram o arbítrio, apenas porque lhes interessa a vingança, estão semeando a brutalidade que lhes recairá no futuro.

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Patrulha em tempos de Internet

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Faz alguns dias eu estava almoçando com meu pai e conversando sobre um determinado personagem contemporâneo. Depois de enumerar muitas de suas virtudes e qualidades meu pai falou: “Ele é muito competente, mas pesa contra si o fato de ser negro”.

Para todos os outros componentes da mesa a manifestação passou batida, e por uma razão bem simples: estavam todos inseridos no contexto da conversa e percebiam que a frase tinha um significado bem específico: em uma sociedade ainda dividida pelas raças, o fato de ser negro imporia a ele cargas, pesos, desconfianças e cobranças que provavelmente não ocorreriam caso fosse branco. Não se tratava de um juízo de mérito, mas uma constatação das dificuldades advindas da condição de negro em uma sociedade ainda tingida pelas cores do racismo.

Além disso, todas as pessoas presentes sabiam que o autor da frase é um notável combatente contra qualquer tipo de discriminação, e teve a vida pautada por uma visão humanista.

Entretanto, o que ouvi me atingiu como a nenhum dos outros presentes, e a razão disso é que nenhum dos parceiros de mesa tinha como eu a compulsão por escrever publicamente sobre temas controversos. Nenhum deles tinha visto uma frase sua ser pinçada de um contexto e usada contra si mesmo, através de uma interpretação viciosa e violenta, que contraria não apenas o resto do texto, mas toda uma vida dedicada a combater discriminações, abusos ou violências.

É claro que as pessoas que se ocupam em praticar o “desvirtuamento do discurso alheio” falam muito mais de si mesmas do que do sujeito a quem criticam e caluniam. Os textos difamatórios contra colunistas que expressam opiniões controversas fala muito mais da desonestidade e imoralidade dos acusadores do que dos próprio articulistas. Os ataques a queridas amigas da Internet que defendem a humanização do nascimento também mostram a face mais sombria e vil dos próprios acusadores, muito mais do que alguma falha por elas cometida.

Entretanto, descobri em minha surpresa um ensinamento: em tempos de redes sociais é importante ter cuidado redobrado com as ironias (que quando descontextualizadas dizem o oposto do que se pensa) e as frases de sentido sutil que podem ser transformadas, dependendo apenas da maldade que habita no coração de quem as lê. Lembrei do ensinamento de Jesus: “Em tempos de Internet, seja teu escrever sim-sim, não-não“.

Ainda disse ao meu pai: “Entendo sua frase e seu contexto. Entendi ainda mais, que ela servia como crítica a uma sociedade que avaliará a competência de um sujeito mais pela sua cor do que por suas qualidades. Todavia, tivesse sido ela escrita em um post da internet e inúmeras pessoas poderiam torturá-la, afastá-la das suas frases irmãs, sequestrá-la para longe da intenção de quem a proferiu e obrigá-la a confessar o que nunca desejou afirmar.”

Meu pai sorriu e tristemente concordou …

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Shortinhos

Shortinho

Tive o cuidado de perguntar para a minha filha antes, já que ela é expert em assuntos feministas, e ela concordou comigo: essa NÃO é uma pauta feminista. E por uma razão bem simples de entender: não existe uma constrição de vestuário baseada em gênero. A regra se aplica a todos. Meninos não podem assistir aulas de “shortinho” ou sem camisa. Eles também precisam se adequar à norma. Portanto, é uma questão de costumes, que tem a ver com o traje de meninas de classe média que frequentam uma escola privada, e não com uma restrição ao sexo feminino de usar determinada roupa.

O shortinho NÃO está sendo proibido por “sexualizar” adolescentes, pela mesma razão que a proibição de assistir aulas sem camisa não é para evitar a sexualização dos garotos. A questão me parece bem mais simples, mas está sendo criada uma celeuma falsamente feminista e reivindicatória sem sentido.

A escola exige uma compostura dos que a frequentam, professores e alunos. O hospital também. A repartição pública idem. Podemos debater esta “compostura” e seus limites, mas a escola tem o direito de estabelecer suas regras. Não é uma restrição às mulheres; é para todos.

Poderíamos imaginar estas mesmas meninas, já formadas em direito, fazendo uma manifestação para que frequentem o fórum de “shortinho”? Ou residentes no hospital? E se fossem proibidas, seria para não “sexualizar” o corpo das advogadas e médicas, ou apenas por que estes locais exigem um determinado decoro, que se expressa pelo linguajar usado, mas também pelos trajes?

Eu creio que as meninas fariam muito melhor escolhendo pautas mais importantes como bandeira. Eu entendo o desejo de engajamento, mas liberação de shortinho não é a mais nobre que eu poderia imaginar.

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Violência banalizada

Violencia obstetrica

Sobre a carta da jovem estudante de medicina:

O que foi descrito por ela, com indignação e horror, é o dia a dia de QUALQUER obstetra que trabalha em serviço público, em especial nos hospitais universitários. Infelizmente esta cena é extremamente comum em todos os serviços do país. É assim que acontece, e nosso espírito se endurece diante dessa violência. Hanna Arendt chamava de “banalização do mal”, que é quando a brutalidade e a desumanização passam a ser a forma natural de convivência entre as pessoas.

Muitos profissionais, quando confrontados com estas imagens não conseguem entender o quão agressivas elas, em verdade, são. “Como assim, vai negar a importância da oxitocina? O que, vai permitir que a paciente controle o seu trabalho? Sim, episiotomia; existem trabalhos na Escandinávia que justificam o uso. É lógico que rompi a bolsa; queria apressar o parto e ver a cor do líquido. Claro que usei o fórceps, mas foi para salvar a criança!! Queria que eu operasse? Não foi Kristeller, foi uma pequena pressão para ajudar a mãe; ela estava fazendo a força errada.”

A violência banalizada no parto se torna invisível. A arrogância profissional é o idioma natural em um clima de pressão e medo. Os profissionais largamente treinados na lógica médica da intervenção se tornam incapazes de enxergar a fisiologia de um nascimento.

A mirada etiocêntrica na qual fomos doutrinados e treinados, através das medidas intervencionistas “salvadoras”, por fim obscurecem a trilha milenar que nossa espécie trilhou para se adaptar aos múltiplos desafios a ela interpostos. A visão defectiva da mulher, e a ideia construída de sua incompetência essencial, nos oferecem a perfeita tela sobre a qual colocamos as tintas da violência. Afinal, “mãezinha”, é para o seu próprio bem. “Não vai querer prejudicar seu bebê, não é?”

A novidade no cenário do nascimento é que agora as pessoas começam a reconhecer tais atitudes e condutas como violência. Homens e mulheres conseguem perceber os abusos quando acontecem, não só na atenção ao parto como antes dele, nas indicações absurdas de cesarianas sem qualquer indicação clínica.

Como sempre cabe uma ressalva, para não municiar os que desejam olhar para trás e manter o parto como uma violência institucional que não pode ser questionada. Existe espaço, sim, para as intervenções em medicina, sem as quais seríamos meros objetos dos caprichos da natureza. Nossa crítica é apenas contra os ABUSOS e as práticas defasadas e, principalmente, quando as mulheres não tem o direito de escolha sobre qualquer procedimento no seu corpo

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Feministo

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Eu não sou feminista.

Não sou, nunca fui e nunca serei.

Ok, por um determinado tempo pensei ser, mas durou pouco. Algumas feministas deixaram muito claro para mim as razões pelas quais eu não podia ser. Lembro que o mesmo ocorreu com um dos meus ídolos, Dr Marsden Wagner. Uma amiga feminista certa vez lhe disse: “Se você não fosse homem seria uma maravilhosa feminista“. Ele contava essa história com genuíno orgulho, com o que concordo plenamente.

Caminhando na praia no meu último dia de férias – depois de muitos anos sem poder tê-las – eu refleti sobre estes limites. Para mim o Feminismo (e coloco letra maiúscula pela sua importância na cultura) é como nacionalidade. Alguns atributos são de nascença, em especial o lugar onde você nasceu. Assim como a sua nacionalidade é algo que os OUTROS conferem a você, também assim entendo o Feminismo.

Eu posso torcer pelo Leicester, falar inglês, comer “fish and chips”, adorar a rainha, cantar o hino, conhecer a genealogia dos Tudor ou me vestir como um britânico, mas não serei inglês a não ser que os ingleses me reconheçam como tal. Na hora de mostrar o passaporte aparecerá para sempre o meu país de origem. E ele não fica ali, atravessando o canal da Mancha.

Com o Feminismo ocorre o mesmo. Seria preciso que as feministas aceitassem essa intromissão, mas o movimento que elas criaram e que trata dos problemas específicos das mulheres apenas a elas diz respeito. Posso dizer que os assuntos da Inglaterra me dizem respeito de forma indireta, pois estamos todos no mesmo planeta e um “bater de asas de borboleta na Inglaterra me afeta aqui”, mas isso apenas me garante o direito de participar do debate, mas jamais carregar a palavra pelos ingleses.

Quando em uma audiência pública em 2014 vi um representante médico auto proclamar-se feminista, mesmo tendo uma história e uma postura francamente misóginas, eu percebi a clara inconformidade das feministas presentes. Era como se tivessem sido insultadas; ficaram indignadas e furiosas com a arrogância do catedrático. Naquele momento pude colocar no tabuleiro de ideias à minha frente a última peça que faltava para entender a questão do “pertencimento”. O abuso em considerar-se feminista era ofensivo e violento àquelas que há muitos anos lutavam por essa proposta.

Minha vinculação com as ideias do feminismo, todavia, não precisou jamais ser desafiada. Posso continuar sendo um proponente da autonomia plena da mulher sobre seu corpo e seu destino. Posso lutar por partos mais seguros e edificantes. Posso brigar com unhas e dentes pelo empoderamento feminino e pela liberdade garantida para fazer escolhas. Posso ser um “aliado sem ser alinhado”. E tenho uma ótima razão para fazer isso.

Mulheres e homens fazem parte da humanidade. Dividimos o mesmo espaço na terra e a natureza nos aproxima através dos laços do desejo. Por mais que este seja vilipendiado, há algo que nos faz sempre buscá-lo. Pois “ele dá dentro da gente e não devia, é feito estar doente de uma folia, e nem dez mandamentos vão conciliar, nem todos os unguentos, toda alquimia”, como diria Chico. O feminismo, ao criticar o paradigma sempre acerta; ao atirar nos homens, sempre erra.

Somos todos da família humana apenas artificialmente apartados. Somos ainda todos nascidos de mulher e, portanto, o nascimento produz uma marca indelével em todos que nascem, sejam homens ou mulheres. Cuidar destas é, em última análise, cuidar de toda a humanidade.

E como sou um pedaço dessa humanidade tenho total autoridade para lutar pelo que julgo ser o melhor para todos nós, humanos. E o melhor para todos é considerar as mulheres como dignas e fortes, capazes e livres.

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Cesariana “humanizada”

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Sobre o uso do termo “Cesariana Humanizada”

Esta é uma discussão que já tem mais de 20 anos. No meu segundo livro há um capítulo inteiro sobre a inadequação desse termo. Eu sempre chamei de “cesariana digna” ou “cesariana respeitosa” pois creio que estes termos oferecem uma compreensão melhor do que propomos e não criam confusão com o movimento que apoiamos.

Qualquer contato da cirurgia cesariana com o conceito de “humanização” me parece espúrio e uma tentativa de aproximação com o fenômeno complexo e intenso do parto. O próprio termo utilizado por muitos profissionais de saúde, “parto cesariana”, é uma aberração, mas surgiu pelos mesmos motivos: uma espécie de “pinkwashing” da cirurgia de extração fetal. O “parto cesariana” recebe de nós o mesmo repúdio que a expressão “fazer o parto”, quando utilizada pelos assistentes do parto. Parteiro não faz, ele assiste algo que só as mulheres fazem.

A “cesariana humanizada” nos transmite a mesma mensagem subliminar deformada que, como toda criptografia, precisa ser decifrada para ser entendida. A mensagem é: “Ah, você percebeu a importância do ideário da humanização aplicado ao nascimento? Que bom!! Eu também reconheço a necessidade de humanizar o parto, por isso lhe ofereço esse produto, o “parto cesariana humanizado “. Ele é quase igual ao original, mas um pouco mais barato, e você ainda leva a vantagem de não sentir dor nenhuma. Que tal?” Uma maravilha de marketing, exatamente porque a manifestação acima não precisa passar pelo discurso, pois o conceito se aloja nos espaços entre as palavras, mistura-se com as frases ditas e ganha força exatamente pela sua invisibilidade.

Humanizar o nascimento é GARANTIR o protagonismo à mulher. Sem esse conceito nunca avançaremos em direção aos plenos direitos reprodutivos e sexuais. Em uma cesariana – mesmo quando digna, respeitosa e bem indicada – a mulher NÃO É protagonista do ato (mesmo quando o é da escolha por ele), o qual pertence ao cirurgião. Desta forma, a cesariana carece do eixo central da nossa definição de humanização: a autonomia e o protagonismo restituídos a mulher.

Não há porque ceder a este tipo de manipulação do nosso inconsciente. Cesariana não é parto; é cirurgia de grande porte e que existe para oferecer segurança para mães e bebês em situações limites e de risco elevado para o parto fisiológico. Sem essa consideração corremos o risco de banalizar uma cirurgia cujos abusos são uma grave ameaça à saúde humana, e das mulheres em especial.

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Reflexões de Aeroporto

Aeroporto

Episódio XXIII

Ela nos procurou no segundo tempo da sua gestação. Já havia utilizado o banco de reservas, feito as adaptações necessárias e as estratégias possíveis, mas a prorrogação se aproximava atropelando os dias. Decidiu-se pela radicalidade de trocar a equipe de assistência ao seu primeiro parto. Assim chegou, entre o susto e a esperança

Na sua chegada uma velha e conhecida história: a médica não lhe passava nenhuma confiança no seu desejo por um parto normal. “Faremos seu parto se tudo estiver certo. Nunca corro riscos“, dizia. “Acima de duas horas começo a cobrar uma taxa“, completou, o que a fez imaginar estar falando com um enorme taxímetro. “Meu parto é de acordo com protocolos. Doula?… não.”

A partir desse desencanto, que conhecemos muito bem, passou a nos visitar. Suas consultas, a partir de então, sempre obedeciam uma rotina clara: conversas que duravam o tempo inteiro da consulta. Uma hora de trocas: expectativas, experiências, propostas, ideias e alternativas. As alterações determinadas pela gestação seguiram o curso mais fisiológico e, quando fomos avisados da ruptura da bolsa com 40 semanas, nada poderia ser mais previsível e natural.

As contrações se tornaram logo muito fortes, determinando como consequência a chegada da doula à sua casa. O espaçamento entre as ondas contráteis tornou-se rapidamente menor, fazendo o telefone vibrar no bolso da minha calça jeans.

“Muito fortes, Ric. Uma atrás da outra. Ela quer ir para o hospital”, disse a doula, e sua voz tinha o timbre da urgência.

“Ela apagou?”, perguntei. Aprendi que o apagamento neocortical é o melhor sinalizador de que a fase de transição está em curso ou já foi transposta.

“Sim. Está fora da casinha”, disse a doula, e de longe pude imaginar o sorriso que coloria seu rosto de menina.

Morar ao lado do hospital me oferece a vantagem de vencer todas as “corridas” com as pacientes, e isso nos dá a possibilidade de garantir um “continuum de cuidado”. Nunca há solução de continuidade entre o suporte oferecido pela doula e o acompanhamento médico que ela receberá no hospital. Sou sempre eu quem abre a porta do CO para a chegada da gestante e seu companheiro.

Quando eles chegaram pude logo ver, antes mesmo do abraço de boas vindas, que ela havia colocado firmemente os dois pés na superfície etérea da partolândia, o reino distante e onírico para onde vão as gestantes que conseguem vencer as barreiras – pessoais e institucionais – que precisam ser transpostas até o nascimento de seu bebê. Seu olhar era vago e seu rosto pouco lembrava a mulher sorridente e altiva que há poucos dias havíamos encontrado no consultório. Estava longe, distante, o que me assegurou a proximidade do desfecho.

Sorri baixinho para a doula, enquanto puxava sua mão para dentro do CO. “Ela viajou total; saiu da casinha. Parabéns pelo timing”, disse eu para a doula. Sabemos que a chegada precoce ao Centro Obstétrico é um dos piores indicadores para partos normais, pelo ambiente iatrogênico que o hospital impõe. Chegar no tempo certo é um caminho seguro para a normalidade de um nascimento.

Seguimos para a sala PP e procedemos com os prolegômenos. Dispam-se as vestes humanas e coloquem-se as vestais. Desumanize-se a mulher, transformando-a num ser angelical e assexuado. Retirem-se os anéis, os brincos, os brilhos, os sorrisos, as palavras. É o protocolo.

Alheio às regras ouso falar. Pior ainda, ensaio sorrisos e brinco com sua face lívida. Escuto 150 batidas na parede do ventre, e digo num portunhol forçado: “Mas bah!! Que espetáculo!!”.

Ela então desfaz sua face doída e sorri, mostrando o otimismo que deixara escondido sob o aluvião de temores e contrações. “Não faça força nos braços, relaxe. Respire fundo. Você está fazendo tudo certo”.

Seu marido, recém chegado da aventura no País da Burocracia, a segura por trás, tentando lhe dar um duplo suporte: físico e emocional. Sorri das minhas piadas, e ensaia uma gargalhada quando, no pico da contração ela grita: “Ricardoooooo“.

Quando me chamam assim é porque falta pouco“, expliquei sorrindo, mesmo que a visão dos cabelos negros de seu bebê brotando da vulva fosse uma evidência suficiente e muito mais clara.

Nesse momento ela interrompe suas vãs tentativas de se arrumar na mesa de parto, e a forma desajeitada de se acocorar, e me pede, quase envergonhada:

“Quero ir para o chão, posso?”

As faces dos três, marido, doula e paciente, me olham, e nesse momento ficou – mais uma vez – claro o inquestionável caráter invisível, e por isso mesmo potente, dos pressupostos do patriarcado a regular as tensões de poder na atenção ao parto.

Que poderia eu responder? Como poderia eu questionar a decisão de mudança de postura para uma outra, a qual a paciente intuía como mais adequada?

Minha resposta foi “Claro, desça daí”. Ajustamos os campos estéreis sob seus pés e pela primeira vez ela se sentiu absolutamente confortável. As plantas dos pés firmemente fixas no piso da sala lhe davam a força que lhe faltava, tanto quanto os braços do marido lhe amparavam e comunicavam confiança.

Subvertidas as leis, modificados os protocolos, trocadas as posições de poder e seu bebê despontou com mais vigor. Dois ou três esforços e ele chegava aos seus braços corado e triunfante.

Risos, gargalhadas, observações emocionadas e uma torrente de palavras, gesto e lágrimas a cobrir de significados o pequeno sujeito que chegava ao nosso convívio. “Um cidadão que testemunhará o século XXII“, pensei, se é que um dia chegaremos tão longe.

Ao sair, penso no pedido que ela me fez. “Posso?”, disse ela. O modelo autoritário e patriarcal do parto se mistura com o nitrogênio da atmosfera e compõe os gases que respiramos. Mulheres ainda pedem licença para livremente escolherem a melhor posição para jogar seu bebê em nosso colo, como se houvesse em qualquer um dos assistente um órgão sensor capaz de sentir o corpo viscoso de seu bebê melhor do que ela própria.

Sem reconhecer a sabedoria inata, visceral e celular que cada mulher tem para parir nunca conseguiremos progredir no entendimento do parto e da sua assistência. Cabe aos novos profissionais encarregados dessa atenção a dura tarefa de abandonar suas capas de autoritarismo, para assim, leves e livres, poderem sentir a poderosa energia que emana do nascimento.

Quem sabe até o século XXII chegar isso será uma realidade. Quem viver, verá._

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Narrativas

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A razão pela qual eu não acho adequado participar de “guerra de artigos”, é que eles se referem a valores crus, biológicos e matemáticos, sem jamais considerarem o valor subjetivo de um parto. Isto é: o desejo da mulher não conta. Por essa falha na compreensão mais ampla do que significa um parto eu considero inútil a luta fálica de quem tem o melhor artigo ou estudo sobre o local de parto, como se NÓS – os que controlam a ciência – tivéssemos o direito de decidir como uma mulher vai parir.

Analisem por este especifico ponto de vista. Vocês sabiam que quando uma mulher branca se casa com um negro ela tem 4x mais chance de se separar? Sabiam também que uma separação prejudica – e isso pode ser cientificamente mensurado – a saúde dos filhos? Baseados nestas avaliações puramente científicas não seria razoável proibir relacionamentos inter-raciais em benefício das crianças que correm risco de sofrer com a separação dos pais?

“Ah, mas esse é um problema social. Quando acabar o racismo os casamentos entre brancos e negros serão como os “normais” das outras pessoas”. Sim, é um problema social, tanto quanto é o parto domiciliar. Quando o sistema de saúde, em especial os médicos, pararem de agredir e pressionar as mulheres e parteiras pelas suas escolhas o resultado para todos será muito melhor. Imaginem se os médicos fizessem isso com as mulheres que escolhem cesarianas, se fossem tratadas como lixo ao internarem para esta cirurgia. Portanto, a corporação cria as más condições para um parto domiciliar, e quando maus resultados ocorrem culpam a natureza “perigosa e imprevisível” do parto.

Se você procurar bem é ÓBVIO que vai achar artigos que dizem que os relacionamentos homossexuais são mais arriscados e produzem mais adoecimento. Se você quiser achar vai encontrar artigos da Escandinávia dizendo que episiotomia se relaciona com problemas do assoalho pélvico, mas não vai contar como esses partos são conduzidos naquele país, muito menos a forma como as mulheres se posicionaram para parir. Assim, sempre encontramos na ciência aplicada à saúde aquilo que mais desejamos.

Quando há um especial desejo envolvido, e evidentes interesses corporativos, varremos a autonomia feminina para baixo do tapete. Podemos até falar em “liberdade de escolha” mas apenas quando ela se limita às cesarianas, obviamente sob cuidado médico. Se for uma escolha pelo parto em casa, aí a escolha livre e independente da mulher se torna inadequada e inaceitável.

O grande problema – na maioria das vezes não percebido – é o SEQUESTRO do parto pelo discurso médico. O parto é contado dentro de uma narrativa de submissão e alienação por parte das mulheres, enquanto nessa mesma visão os médicos são heróis e salvadores da natureza cruel e traiçoeira que habita o corpo das mulheres.

Nessa narrativa “oficial” a mulher é sempre passiva, como uma Princesa Bela Adormecida, inútil, inerte, imóvel e que necessita do beijo intrusivo (aliás, não consentido) para salvá-la de seu corpo fraco e insuficiente. Porém, para que o parto continue a ser um processo masculino e fálico – pois penetra, invade, muda e repara – é necessário que a princesa continue dormindo. E ainda vemos MILHÕES de mulheres que seguem a narrativa heroica do príncipe que salva a ingênua princesa que colocou o dedo onde não devia. Dormem solenemente aguardando que a medicina venha a reparar seus corpos mal feitos e degenerados.

É fácil fazer disputas de artigos. Só acho inútil. Para as parteiras é fácil fazer críticas à corporação médica porque elas estão protegidas pela sua própria corporação. Para os médicos obstetras humanistas se trata de uma luta de David contra Golias, e por isso não pode ser surpresa a existência de uma onda de ataques da corporação contra os profissionais que ousam questionar a narrativa médica em contraposição à narrativa das próprias mulheres em relação ao parto.

É inegável que nos encontramos no meio de um processo de transição, mas enganam-se os que pensam que as evidências científicas – para qualquer lado – serão o fiel da balança. Aprendi a duras penas que a “verdade” (sintam-se livre para interpretar esta palavra como quiserem) não é capaz de puxar o gatilho das mudanças. As evidências científicas surgem apenas DEPOIS de mudarmos a cultura, e esta se modifica sempre de baixo para cima, através de uma transformação na forma de vermos OS MESMOS fenômenos, mas agora sob uma nova ótica. O parto – por ter sido sequestrado pelo discurso médico – é visto como um procedimento da medicina aplicado sobre um “paciente”, isto é, um sujeito passivo sobre cujo corpo atuamos, independente de sua aquiescência. O mesmo modelo é utilizado sobre quem vai operar um tumor de mama, uma pedra no rim ou tratar com antibióticos uma infecção pulmonar; o desejo do paciente é desimportante. A expropriação do parto pela medicina, retirada das mãos das mulheres e colocada nas mãos dos médicos, está na gênese da violência obstétrica e do intervencionismo desmedido.

Podemos acrescentar à esta equação o fato de que o parto ocorre no corpo das mulheres em um contexto de patriarcado decadente, mas ainda atuante, o qual coordena as relações sociais como um “cimento” forte o suficiente para produzir coesão. Assim, tal contexto produz mulheres que oferecem seus corpos à medicina em troca de uma suposta (e ilusória) segurança.

Da mesma forma como os sionistas em Israel precisam criar uma fantasia de “ataque iminente” dos pobres palestinos para justificar seus massacres, os médicos precisam exaltar os perigos tremendos escondidos nos corpos grávidos de suas pacientes para justificar as intervenções pelas quais determinam e mantém seu domínio.

Não há dúvida que todos os profissionais que ameaçarem a narrativa hegemônica vão sofrer os ataques de uma corporação acuada, de uma forma ou de outra. Os relatórios de violência obstétrica, desde os da Fundação Perseu Abramo e os demais que se seguiram, denunciam apenas a ponta do Iceberg. Os obstetras, pela primeira vez na história, sentem-se pressionados pela opinião pública, e os profissionais sentem-se confusos porque nunca imaginaram que a forma como veem os partos pudesse ser apenas uma das maneiras de interpretá-lo, e não a “forma científica e correta”.

Os ataques aos médicos humanistas assemelham-se aos raids aéreos e as bombas sobre Gaza. É um aviso: “não ousem questionar nosso poder ou muitos mais sofrerão”.


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Cultura

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É muito triste ver como a insensatez impera na atenção ao parto em várias partes do mundo. Mais importante do que o acolhimento e a atenção técnica primorosa são o controle e os interesses corporativos. Entretanto, não é a tecnologia o fator fundamental que diferencia um parto no norte da Europa de um no leste europeu. O grande diferencial é a CULTURA e sua especial forma de enxergar – e tratar – as mulheres.

Assim, a principal revolução não será pela aquisição de equipamentos, materiais, drogas e leitos hospitalares, mesmo que saibamos de sua importância e papel na boa atenção ao parto. Não, a verdadeira mudanca será cultural, passando do atual paradigma de atenção para um que respeite as mulheres como sujeitos íntegros, capazes de tomar decisões por si mesmas e com plena autonomia.

Enquanto as mulheres forem consideradas de forma diminutiva e demeritória nenhuma aquisição tecnológica irá contemplar as reais necessidades que o nascimento seguro e empoderador demanda.

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