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Contágio

Coca Cola

No final do século passado um grupo de adolescentes na Bélgica toma Coca-Cola e começa a se sentir mal. Náusea, vômito, tontura, dispneia e ansiedade A partir desse fato de inicia uma busca pelas causas dessa “intoxicação”, que inclui pesquisa das folhas da planta de onde se produz a essência e, por fim, encontra-se uma alteração na formulação da bebida. Isso poderia encerrar a investigação, não fosse o fato de que um bioquímico afirmar que, mesmo havendo essa pequena alteração em um componente, seria necessário uma concentração mil vezes maior dessa substância para produzir qualquer dos sintomas relatados pelo adolescentes.

Mas se os sintomas eram reais e a concentração da substância insuficiente para causá-los, o que poderia produzir os sinais alarmantes que os jovens apresentavam?

A resposta, segundo Malcolm Gladwell, escritor e jornalista americano, seria um componente contagioso no comportamento. Não se tratava de uma substância venenosa ou uma partícula viral, mas uma ideia, um pensamento, o medo. Existem vários exemplos de fatos como esse, como crianças em creches tendo crises em frente à TV no Japão, o fenômeno mórbido de Jim Jones na Venezuela ou a “febre” das Tulipas na Holanda. O contágio não se dá a partir de uma entidade química ou biológica, mas a partir de elementos do “campo simbólico“, no fértil terreno das ideias.

O que podem nos ensinar tais fenômenos? Essencialmente ele nos falam do poder da comunicação pessoal e direta, por certo. Entretanto, também nos mostram que tal poder pode nos conectar para o mal – o sintoma, a dor, o desespero – mas também pode ligar as pessoas para o bem. Se essa conexão identificatória com o sofrimento e o sintoma alheio é capaz de construir uma onda de histeria do “nada” (biológico ou químico), também poderia induzir comportamentos solidários, saudáveis e construtivos. Para estes também há vários exemplos em distintos contextos.

Em relação ao parto e nascimento sempre me estimulei pela potencialidade das boas histórias contadas como importante elemento de contágio positivo. Vejo nelas a possibilidade da criação de “ondas de positividade“, e apenas por isso resolvi fotografar nascimentos: para criar “histórias visuais”. Por outro lado, quando leio ou escuto relatos de violência obstétrica relacionada aos partos, sempre tenho a sensação de que, mesmo reconhecendo a relevância destas denúncias, precisamos muito mais focar na luz do que na sombra.

Como eu dizia há alguns anos, o combate às cesarianas indevidas ou à violência obstétrica não deve ser nossa trilha principal, pois que ela se concentra na sombra da obstetrícia – anacrônica e violenta. Nossa proposta deveria se direcionar ao contágio positivo das histórias de sucesso, espalhando de forma viral a possibilidade de partos seguros e tranquilos, com plena autonomia das mulheres, com embasamento científico e um olhar abrangente sobre este poderoso rito de passagem.

A mudança do panorama da atenção ao parto vai ocorrer na medida em que o volume de histórias bonitas e poderosas ultrapassar um determinado “turning point“, um momento específico em que o respeito ao nascimento for naturalizado e toda forma de violência se tornar absurda. Para alcançar esse limite é preciso multiplicar essas descrições e fazer delas as imagens que usamos para colorir de realidade as nossas fantasias. Cabe apenas a nós criar esse psicosfera positiva no campo da linguagem.

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Crime e Castigo

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Quando vejo o ódio de algumas pessoas contra supostos corruptos, clamando por prisão para os que – ao menos aparentemente – cometeram crimes, eu lembro de uma famosa conferência de Malcolm Gladwell sobre este tema. Em sua palestra ele aborda as razões que levam um sujeito a cometer – ou não – um crime, seja uma simples sonegação de um item no imposto de renda ou mesmo um assassinato. A solução desse enigma poderá solucionar muitos problemas do convívio social e melhorar as relações do sujeito com a sociedade onde está inserido.

Por muito tempo fomos levados a acreditar que nosso barreira para cometer crimes se baseava na punibilidade. Isto é: se o risco de ser punido fosse alto isso inibiria nossa propensão a cometer crimes. Pelo contrário, se o risco fosse baixo – o que bem conhecemos como impunidade – temos um estímulo para o cometimento de delitos. Desta forma, para acabar com a criminalidade teríamos que criar mecanismos sofisticados de punição, e com isso inibir sua prática.

Com base nesse princípio foi criada, em 1993, uma lei na Califórnia chamada de “Lei das 3 etapas”. Ela previa punições crescentes para sujeitos que reincidiam em seus crimes, e na terceira etapa ocorria a prisão por no mínimo 25 anos de detenção.  Para tanto criou-se um aparato gigantesco jurídico e carcerário, consumindo milhões em impostos, objetivando exterminar a impunidade no estado mais rico da federação. Por um período específico da sua história a Califórnia teve 7 vezes mais prisioneiros do que outros estados americanos e qualquer país europeu. Nessa época um sujeito podia ser condenado a 10 anos de prisão por roubar uma fatia de pizza – e, acreditem, esse é um fato real.

O bem estar social tem seu preço, e para acabar com o crime é preciso ser duro,  certo? Com essa alta punição o resultado seria que o cidadão médio, diante do risco de ser preso, não cometeria mais delitos. Esse seria o fim da impunidade, pela mão pesada da lei. Cadeia, punição, severidade levando ao fim da impunidade.

Certo?

Errado. A “Lei das 3 etapas” foi um retumbante fracasso. O declínio da criminalidade na Califórnia observou o mesmo declínio de outras unidades federativas dos Estados Unidos que não fizeram absolutamente nada para aumentar a punibilidade dos crimes. Milhões foram gastos em prisões, polícia, juízes, advogados e todo o aparato burocrático para não se observar nenhuma diferença com os lugares que nada fizeram, isso sem mencionar as vidas que foram destruídas por punições aplicadas com demasiada severidade diante de delitos insignificantes.

A tese do “crime causado pela impunidade” caía por terra. Não é o medo de ser punido o principal fator que nos impede de cometer delitos. Existe algo bem mais significativo.

A resposta está na “Legitimidade”.

O fracasso do modelo punitivo foi uma grande lição para nossa ciência criminal. O aumento – absurdo – das penas não diminuiu a propensão ao crime como se esperava. Se pode funcionar para alguns indivíduos não vale como regra geral a ponto de produzir estatísticas que comprovem sua validade. Foi um erro que custou milhões ao cofres americanos e  impôs um sofrimento inaceitável a muitos cidadãos.

Infelizmente esse conhecimento ainda não foi plenamente disseminado para ser incorporado como uma verdade social. A “Guerra ao Terror” e as ações de retaliação contra grupos extremistas, como forma de punir atos “terroristas”, jamais produziram o resultado desejado e adicionaram lenha e combustível à frágil geopolítica do Oriente Médio.

Mas o que nos faz deter a criminalidade? O que pode nos oferecer uma esperança de sair à rua sem correr o risco de sermos roubados ou mesmo mortos? Certamente que punir os crimes não pode ser negligenciado, mas acreditar que essa é a resposta mostrou-se um sonoro equívoco.

A possível solução para esta questão está no sentimento de legitimidade. A legitimidade se divide em 3 aspectos: Respeito, Justiça e Confiança.

Respeito é quando o sistema que lhe julga escuta suas explicações  e respeita  seu ponto de vista. Você vai ser levado em consideração e será ouvido como pessoa e cidadão.

O segundo elemento, a Justiça, é quando você percebe que o sistema que lhe julga é justo, e que você será julgado como qualquer outra pessoa, mesmo sendo pobre, negro, imigrante, homossexual, ativista do parto humanizado ou participante de qualquer outra minoria social.

O terceiro aspecto é a Confiança. Ela aparece quando o sistema inspira segurança e você tem a certeza de que as leis não vão mudar da noite para o dia, quando uma “pedalada” passará a ser crime – mas somente agora – quando um sítio de meia pataca vale mais do que um apartamento em Paris, quando os seus erros são mais importantes e graves do que os mesmos que são cometidos por outros. Sem a confiança na imparcialidade do sistema ele jamais será legítimo.

Agora pensem no conceito de legitimidade composto por Respeito, Justiça e Confiança e adaptem para o cidadão da nossa sociedade contemporânea cruel e desigual. Como um negro oriundo de uma favela se sente diante desse modelo social? Ele enxerga Respeito?  Acredita que será ouvido por quem o julgar? Ele acredita que a Justiça será feita, sabendo das fundações racistas e elitistas de nossa sociedade e nossas leis? E sobre a Confiança? Confiará que as leis são aplicadas de forma igual para todos? Um jovem negro de periferia, ao saber que 70% da massa carcerária é composta de negros e pardos irá confiar na imparcialidade do sistema judiciário? Um médico que vê a perseguição aos que lutam contra o abuso de cesarianas pode confiar num sistema que somente beneficia os que exageram no bisturi?

A resposta provável é …. não.

Somente a LEGITIMIDADE das instituições poderá fazer uma sociedade menos violenta. Isso vale para o a sociedade em geral,  mas também para a solução de conflitos como aqueles do Oriente Médio. A busca de legitimidade é uma construção social lenta e custosa, mas é a única forma consistente de criar um sistema justo e coerente para todos nós. Só obedecemos as leis quando elas nos parecem legítimas: respeitosas, justas e confiáveis.

Punir já se mostrou inadequado com as crianças, então por que deveria ser o modelo pedagógico social por excelência para os adultos?

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Próxima etapa

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O próximo passo no movimento de humanização do nascimento é acabarmos com as “Notas Públicas” que jogam assuntos internos para o mundo exterior (leia-se, Redes Sociais). Mesmo que, ao analisar estas manifestações, eu encontre verdades e correções, eu ainda acredito que a via mais correta para resolver estas contendas seja uma discussão privada e sincera, onde os pontos de vistas possam ser expressados com honestidade e franqueza. Fui vítima de manifestações desse tipo no passado, e não vejo qualquer vantagem para um projeto, uma ideia ou um movimento pelo uso de manifestações marcadas pela autofagia. Ninguém ganha com isso; todos perdem.

No caso em questão a minha dor é ainda maior porque gosto e tenho laços de amizade e carinho por todas as pessoas envolvidas, em ambos os lados da controvérsia. Eu sinto, pela primeira vez na vida, a sensação de um menino que se martiriza ao assistir a briga dos pais e pensa: “Por que eles não conversam e se entendem? Por que essas brigas na minha frente? Eles deveriam se amar!!”

O que é pior, um dos pais sempre se aproxima e pede, de forma sutil e subliminar, que o pobre menino escolha um dos lados. Que crueldade!!

Espero que essa situação possa nos oportunizar um questionamento profundo de nossos valores e estratégias. Precisamos construir uma união mínima em torno de ideias compartilhadas, respeitando as diferenças pessoais e oportunizando o diálogo aberto entre aqueles que lutam por propostas semelhantes. Os que se posicionam contra a autonomia feminina, a visão interdisciplinar do parto e a adoção de protocolos baseados em evidência sempre festejam estas brigas intestinas; só os conservadores tem a ganhar. As mulheres e seus filhos, objetivo maior de nosso trabalho, são os que mais perdem com nossa incapacidade de resolver esses problemas de forma compreensiva, amorosa e privada.

Sonho com uma conversa conciliadora entre as partes, o que entendo ser difícil em um momento de sentimentos aguçados e honras feridas. Todavia, o que restaria da vida sem a possibilidade de sonhar?

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Direita, volver…

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“A direita conservadora é sempre previsível. Não pode falar de diversidade sexual na escola porque os meninos vão se influenciar e se tornar homossexuais. Não pode falar de política e marxismo porque eles vai virar esquerdistas. Que heterossexualidade e liberalismo mais frágeis esses que não suportam uma confrontação de ideias e não aguentam um debate!!!”

Max

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Ativismo Ácido

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Entendam de forma dialética. Não fosse a “infantilidade” e a “falta de modos” na abordagem de alguns ativistas – principalmente os da primeira leva – talvez estivéssemos todos de bem com os médicos e todas mulheres indo placidamente para as cesarianas sem contestação, como vaquinhas para o abatedouro. Não teríamos 57% de cesarianas, mas 85%, como Monterrey. Entretanto, “não se faz uma revolução – e nem se altera a pirâmide de poderes – com sorrisos e tapinhas nas costas”, adaptando a famosa fala de Sheila Kitzinger.

A humanização do nascimento cresceu de forma VERTIGINOSA no último decênio EXATAMENTE porque ativistas produziram esse enfrentamento e colocaram a cara à tapa. Não foi com sorrisos amarelos e reuniões em hospitais; foi com grito, passeata, buzina e alguns (in)evitáveis exageros. Como falou Ciro Gomes há algumas semanas “É por vocês que estamos lutando, seus #$¥£@#!!!

Dizer, do alto do seu conforto e de sua inação, que a conduta de algum ativista durante estes conflitos foi “infantil” é negar a evidência de uma luta absolutamente desproporcional de poderes; é igualmente desreconhecer a importância vital destes personagens na construção de novos paradigmas em qualquer ramo do conhecimento.

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23 Fatos sobre partos em um Hospital na China

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Primeiras impressões sobre a obstetrícia na China. Hospital Geral de Ju Lu, uma cidade média que está distante 1000 km da capital Beijing.

1- Não há homens atendentes de parto, e por questões claramente culturais. Médicas e parteiras trabalham lado a lado, mas em um ambiente 100% feminino.

2- Não há pediatras na atenção ao parto, mesmo em gestações de risco. Somente parteiras treinadas. Se existe algum problema a criança é levada para a unidade de neonatologia que fica ao lado. O mesmo se observa na Europa.

3- Icterícia neonatal se trata com:

  • Luz
  • Hidratação
  • Medicina Chinesa – um conjunto de ervas. Fiquei tão interessado que elas me deram uma caixa de presente com as ervas para icterícia neonatorum. Elas ficaram impressionadas com a excessiva (para elas) preocupação que temos com a bilirrubina.

4- Taxa de episiotomia 15%.

5- Partos deitados, posição tradicional, infelizmente. Esse é um modelo que precisa mudar. Ficaram vivamente interessadas em tentar oferecer posições alternativas.

6- Elas realizam parto na água, em uma sala especial, bastando para isso pagar uma taxa de 600 yuan – 300 reais. Usam uma banheira moderna, feita na “Dinamarca”. Gostam muito de atender partos assim.

7- Duas maternidades no mesmo prédio: uma simples e a outra SUPER sofisticada, mais chique que todas que já vi nos hospitais de Porto Alegre ou São Paulo (e eu estou agora em uma cidade menor do que Caxias do Sul – 400 mil habitantes). A maternidade chique tem modelo PPP (pré parto, parto e pós parto) que é usada por pacientes mais sofisticadas e que aceitam pagar uma conta mais alta. “Gente phyna da China”.

8- O sistema de saúde é sempre “meio público e meio privado”. Não existe atendimento grátis e universal. O governo paga uma parte sempre, mas o resto é com você. A paciente é quem escolhe se quer ir para a maternidade chique ou para a mais simples (que, no entanto, é bonita e funcional). Quando perguntei “e se o paciente não tiver como pagar?” as parteiras se olharam e responderam “elas pedem para a família ajudar”.

9- É curioso passar na frente dos banheiros nos corredores do hospital e sentir o cheiro forte de urina. Isso parece não incomodar ninguém nos restaurantes, aeroportos e/ou hospitais. Esse cheiro é o que mais me impressiona como visitante.

10- Enfermeiras ganham 3.000 yuans por mês quando são funcionárias iniciais. Com o tempo podem chegar a 4.000 yuans. Isso significa entre R$ 1.500,00 e 2.000,00 mensais, muito pouco para o padrão ocidental. Elas ficaram muito interessadas em saber quanto se ganha no Brasil por parto realizado, ou quanto ganham enfermeiras e médicos trabalhando em hospitais (o que é sempre difícil de responder).

11- Trabalhadores de saúde, como médicos e enfermeiras, ganham pouco e não tem acesso a uma vida plena de classe média. Quem ganha muita grana são os aventureiros do capitalismo nascente. Sempre, em qualquer lugar.

12- Eles têm genuíno respeito pelos “experts” estrangeiros. Minhas aulas de hoje lotaram e tivemos mais de 70 profissionais do hospital. Médicos, parteiras e até cardiologistas. Quando cheguei ao hospital para falar fui recebido na porta da frente pelo diretor médico do hospital que veio pessoalmente me cumprimentar. Ele fez questão de carregar minha pasta com o computador até a sala de conferências.

13- Eles têm muita vontade de aprender. Quando mostrei que, com pequenas adaptações, poderiam fazer partos verticais na cama da sala de partos, eles pegaram bloquinhos e começaram a fazer desenhos e anotações, inclusive o diretor administrativo do hospital que nos acompanhava.

14- Partos no setor público ainda acontecem em sala de parto, mas não há dificuldade alguma para adotar o modelo PP. Falei isso para elas e parece que entenderam. Prometeram tentar mudar o paradigma de “uma sala por vez”.

15- Ponto importante: apesar de não existirem doulas a família é aceita e convidada a ficar por perto durante TODO o trabalho de parto, na mesma sala e tomando chá. O marido pode acompanhar sua esposa quando ela vai para a sala de parto. Tive vergonha de explicar a elas nossa luta para ter doulas presentes nos partos hospitalares do Brasil.

16- As cesarianas são feitas pelas médicas e auxiliadas pelas parteiras. Não se usam dois cirurgiões em uma cesariana. Cesarianas são feitas no CO só em caso de emergência, caso contrário são feitas no centro cirúrgico.

17- Perguntei para a plateia na minha aula se havia alguém nascido de cesariana e só uma menina ao fundo levantou a mão, visivelmente envergonhada. Havia mais de 70 pessoas presentes.

18- Perguntei se alguma menina havia menstruado antes dos 12 anos e NENHUMA levantou a mão… (só havia 5 homens na sala). Quando perguntei o porquê um dos homens disse que a vida e a dieta na China são piores do que no Brasil ou nos Estados Unidos. Essa resposta apenas demonstra como os chineses tem uma visão deturpada e fantasiosa do Ocidente. A dieta normal dos chineses – muitos legumes, frutas, peixe, carne, nada de leite, pouco sal, quase nada de açúcar e sem refrigerantes – é MUITO melhor do que a dieta no Brasil e quilômetros à frente de uma dieta norte-americana.

19- A tese de que a menarca – início da vida menstrual – mais cedo nas meninas do ocidente se deve à dieta rica em gordura e à precocidade do estímulo sexual fica comprovada por essa minha tímida amostra de mulheres chinesas.

20- Perguntei quantas mulheres na sala já eram mães e umas 40 (mais da metade) levantaram a mão. Perguntei quantas haviam feito cesariana e NENHUM braço se ergueu. Ninguém havia feito cesariana. A China é um país que ainda não foi destruído pelo modelo ocidental dominado pelo medo e pelo ódio. Aqui podemos fazer um trabalho maravilhoso, pois não é preciso lembrar a elas como o parto normal é importante; elas nasceram assim e pariram seus filhos desta forma.

21- A taxa global de cesarianas no hospital (setores público e privado) é de 28%, tendo ao redor de 800 partos realizados por ano. Elas acreditam que esse número é muito alto, e está foi uma das razões para nos trazerem aqui.

22- O relacionamento de parteiras e obstetras é absolutamente colaborativo e amistoso. É emocionante de ver.

23- Existem bolas de Pilates em todas as salas de pré parto, mas na maternidade pública não tem chuveiro para as pacientes em trabalho de parto. Mostrei a elas que água (ou como chamo, “Aquamerol“) é essencial para o parto e elas anotaram nos seus caderninhos.


A taxa global é alta, mas Ju Lu é uma cidade pequena no interior da China. Em Beijing, a situação é certamente diferente, mas não creio que a alta taxa de intervenções seja pelo controle governamental. As razões para a atual situação são provavelmente as mesmas que ocorrem em outros países: medo de processos, tempo, dinheiro, poder, médicos desconectados com a realidade do parto normal, formação acadêmica tecnicista, professores velhos que não atendem parto, etc. Mas nessa cidade o modelo ainda é muito centralizado na fisiologia do parto.

Com exceção da estátua do Mao na frente do hospital, nada poderia ser mais capitalista do que esse modelo. Quando falo (com muito orgulho!!!) do nosso cambaleante SUS elas ficam abismadas e encantadas. “Tudo de graça?”, perguntam. Tenho vontade de começar a conversa com elas dizendo: “Bem, no meu país, a República Socialista Democrática do Brasil, o sistema único de saúde blá, blá, blá….”

s parteiras são umas gracinhas, gentis, sorridentes, tímidas e tem uma enorme vontade de aprender. Não tem vergonha de perguntar nada sobre parto, Brasil, salário, estilo de vida, filhos, etc. Por outro lado são reservadas ao extremo. Uma delas me mostrou uma foto no seu celular de um parto no hospital onde trabalha (bem longe, elas vieram de várias partes da China para o nosso workshop) em que aparecia o marido beijando a esposa logo após o nascimento do filho deles. Nada que a gente não se acostumou no Brasil, e não era nem “desentupidor de pia”; era quase um “selinho”. Todavia, no momento do beijo o seio esquerdo da mulher estava à mostra, enquanto segurava o bebê, e isso causou um certo desconforto, inclusive entre elas. Perguntei o porquê e elas deram aqueles risinhos envergonhados cobrindo a boca. “A China é muito conservadora, doutor“.

Na China as midwives são todas enfermeiras. Não há “obstetrizes” de entrada direta, como Ana Cristina Duarte ou Cristina Balzano Guimarães, ou como as parteiras da Holanda. Outro detalhe importante: não há subalternos no cuidado. Não existem técnicas ou auxiliares de enfermagem; todo o serviço é feito por elas, com exceção da nutrição ou da limpeza do local (a das pacientes também é com as enfermeiras).

As taxas de cesariana estão aumentando principalmente pelas grandes cidades, como Beijing. Lá o paradigma de atenção tenta copiar o pior modelo do mundo, o americano: sem parteiras na atenção e alta tecnologia. “High tech low touch”. Iatrocêntrico, etiocêntrico e hospitalocêntrico. Esse modelo nunca funcionou onde foi utilizado, pois desconsidera as dimensões emocionais e o suporte psicológico e afetivo que foi a marca do nascimento desde o surgimento de nossa espécie.

Elas se preocupam muito com bolsa rota e me perguntaram como atendemos. Disse que o meu critério é aguardar trabalho espontâneo por 24h e só depois penso em induzir. A maioria esmagadora entra em trabalho de parto nesse período. Elas me contaram que internam todas as bolsas rotas e quando perguntei ao porquê me disseram que era por medo de “prolapso”. Partos pélvicos são atendidos por cesariana. Percebi que as parteiras não têm treinamento para atendimento de pélvicos. Gêmeos apenas se o primeiro for cefálico e o segundo for pélvico. A explicação para isso ficou “lost in translation“.

Elas investigam espessura da parede uterina por ultrassom para atender VBAC. Expliquei que não fazemos isso no Brasil por não haver evidências de que possa prevenir rupturas. Não fazem versão externa para pélvicos e nem sabem técnicas, posturas, exercícios, homeopatia ou acupuntura para tratar essas posições.

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Entrevista em Portugal

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Acabo de assistir a manifestação de uma obstetra de outro país (sim, uma mulher) sobre a humanização do nascimento em que ela inicia sua fala dizendo que “não existem partos naturais; existem apenas partos eutócicos ou distócicos“. Achei interessante essa frase porque ela revela claramente a forma de traduzir um fenômeno humano sem levar em consideração seus elementos… humanos. Ela basicamente desconsidera o parto na perspectiva de quem o está incorporando, e o classifica por quem o observa e intervém. Nesta concepção não há sujeito no parto, o qual se restringe apenas a um fenômeno que ocorre em uma pessoa sem que esta tenha qualquer interferência sobre ele. Esse é o retrato fiel do modelo médico da atenção ao parto.

Entrevistas como esta são sinalizadores inequívocos dos estertores do velho paradigma. Elas escancaram a desconexão do discurso médico com a cultura dinâmica e mutante. Não há mais como separar as intervenções médicas das expectativas e valores dos pacientes, em especial das mulheres que passaram – e ainda estão passando – por uma profunda transformação em seu papel social. A assimetria de poderes – que ainda é vista por muitos médicos como o elemento central da ação médica – perde espaço para uma atitude que tende à igualdade e à cooperação. Se a confiança no conhecimento e capacidade dos profissionais sempre será essencial, a prepotência e a desconsideração das dimensões humanas e subjetivas do paciente vai perdendo sua força a olhos vistos pelo surgimento de uma cultura que não aceita mais a alienação como forma de relação entre os diferentes atores sociais. Construir uma atenção ao parto sem garantir o protagonismo à mulher como a pedra fundamental da atenção ao nascimento ficará em nossa memória como a lembrança desconfortável de uma época de prepotência que por muito tempo regulou as relações entre os médicos e seus pacientes

Veja aqui a entrevista

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Os Estupros

Violence victim

Fiquei sabendo agora de um “estupro coletivo” no Rio de Janeiro que, não bastasse a violência absurda e desumana, ainda serviu como objeto de espetacularização pelas redes sociais. Não por acaso, numa sincronicidade diabólica, Alexandre Frota faz uma visita ao Ministro da Educação levando a ele propostas para o ensino no Brasil. Lembrem que o “muso do impeachment” é também responsável por uma performance num programa de TV (de Rafinha Bastos, o mesmo que “comeria ela e o bebê”) em que relata um estupro a uma mulher Mãe de Santo que o estava atendendo. Depois disse que se tratava de um número de Stand Up, mas isso é irrelevante diante da gravidade de tratar estupro como brincadeira, banalizando a violência.

Eu ouso pensar que o estupro cometido tem a ver com o profundo mal que o golpe produziu no imaginário do país. A sensação que tenho é que as pessoas perderam a confiança na justiça e no judiciário. A mesma justiça que perde meses (e milhões) investigando barquinhos de lata e negligencia investigar a fundo um helicóptero cheio de pasta de cocaína não pode exigir que confiemos nela. O STF foi acusado de participação EFETIVA e DIRETA no complô para a derrubada do governo. As gravações comprometendo Jucá, Renan e Sarney estavam em sua posse desde março; foram escondidas para permitir o golpe. O juiz Moro mostrou dureza e inexorabilidade seletiva, e apenas contra o PT, durante todo o curso da Lava Jato, e quando da queda de Dilma pediu o “desarmamento dos espíritos”.

Quando o povo se dá conta que os magistrados são indignos de confiança percebem que não há valor algum em se comportar dentro da lei. Por isso a sensação de impunidade de quem comete atos hediondos. “Se o Alexandre Frota pode contar isso na TV como brincadeira, por que não podemos também?”

As mulheres, foco do desejo masculino e signo de poder para quem as possui, sempre serão as primeiras sacrificadas em um mundo sem lei. No livro “Ensaio sobre a Cegueira” do escritor português José Saramago, a primeira coisa que ocorre quando se instala o caos de um mundo às escuras e sem controle foi o domínio sobre as mulheres, que leva naturalmente à violência e ao estupro.

Quando se destroça a força simbólica da lei os mais frágeis são os primeiros a sucumbir.

Não, eu me nego a ver como coincidências estes eventos. Quando a LEI se apaga e a justiça não parece se fazer, surge em todos o espírito da selva, onde a ordem é matar ou morrer.

Os estragos sociais de uma quebra jurídica abjeta e criminosa como a que testemunhamos vão se estabelecer em todos os níveis das relações pessoais, pois que os valores que foram desrespeitados são da ordem básica das relações sociais.

Triste dia em que apologistas do estupro tem voz na educação de um país. O resultado é a banalização do crime mais antigo, mas ainda presente na comunidade humana.

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Dilma e a Alcateia

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O jornalismo brasileiro chegou aos níveis mais baixos de credibilidade. Quem acredita em uma manchete hoje em dia? “Contas particulares da presidenta Dilma pagas por propina”. Quando você vai ver, não tem nenhuma fonte, nenhuma comprovação, nenhuma informação. Apenas um boato criado por um criminoso com uma caneta na mão e um rabo preso. A imprensa é o principal alicerce das democracias, ao lado de um judiciário isento e sério. Já que perdemos estes dois, o que nos restará?

Se não fosse uma tragédia para a imagem desse país seria digno de gargalhadas. Fico pensando nos pobres, classe média e aposentados fazendo um carnaval ridículo contra o governo, sem saber que Dilma, com todos os seus defeitos e equívocos, era um anteparo contra a alcateia que a cercava. Agora, com Dilma afastada, abriu-se a porta do galinheiro e NÓS, pobres e ingênuos galináceos, estamos a mercê dos lobos que pretendem assaltar os cofres públicos em benefício próprio, e para se blindarem contra a ameaça da justiça.

Parabéns paneleiros… vocês conseguiram.

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Meu Candidato

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Como escolherei meu candidato nas próximas eleições:

Minha escolha é negro, pobre, mulher e de esquerda (mas reconheço que seria bizarro achar um negra, pobre e feminista no DEM ou no PP…). Não aceito mais a pouca representatividade desses segmentos sociais nos nossos parlamentos. Somos governados pelas elites, mas essa culpa não podemos tirar de nossas costas; nós mesmos votamos nos nossos algozes. Nosso voto, via de regra, é egoísta ou irresponsável. Votamos em quem vai ganhar, votamos para contar uma piada, votamos para tirar vantagem e votamos porque queremos benefícios pessoais ao invés de votar em quem nos representa, quem é parecido conosco, quem tem nossas ideias e compartilha paixões.

Chega de votar em branco, empresário, rico, manipulador, que faz política toma-lá-dá-cá, que promete cargo de assessor, que está ligado ao poder econômico e que está se lixando para a população. Também não votarei em alguém que faça da religião – qualquer uma – seu palanque. Evangélicos com programa de TV, empresários da fé… NUNCA MAIS!! Não votarei em candidatos ligados às grandes corporações ou financiados por elas. Não darei meu voto para radialista de programa popular e também jamais apoiarei ex jogador de futebol que manipula eleitores, tratando-os como torcedores emburrecidos. Não votarei em alguém por ser jovem ou velho, mas votarei em velhos com jovialidade ou jovens com maturidade.

Darei o meu voto para alguém que seja parecido com a imagem que vejo no espelho todas as manhãs. Vou procurar alguém que tenha sonhos parecidos e que não acredite que o dinheiro possa lhe trazer felicidade ou vantagens. Vou encontrar alguém que coloque o bem comum como uma paixão acima das suas inevitáveis vaidades, e que lute por uma sociedade equilibrada e justa, e não apenas para favorecer seus amigos e parentes. Procurarei também um candidato que pense no nascimento humano como conexão sagrada do sujeito com a natureza, que valorize o trabalho de doulas e parteiras como guardiãs desse momento, e que reconheça a importância dos médicos e da tecnologia, que salvam vidas quando bem utilizados.

Usarei meu direito sagrado de votar para MUDAR a realidade triste e sombria que nos levou ao golpe absurdo e humilhante que estamos sofrendo agora, para que nunca mais o povo seja manipulado por um congresso desonesto, vil e corrupto como o que temos hoje.

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