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Comedoras de Placenta

Mulher comendo

Trabalho com humanização do nascimento, mas tenho pouquíssima experiência em placentofagia. Na verdade apenas vi isso, em salas de parto, como uma espécie de brincadeira entre o casal, algo para servir de laço entre eles. Sei que existe este costume entre algumas pessoas, inclusive aqui no Brasil, especialmente algumas parteiras tradicionais do nordeste, mas não acredito que seja uma prática muito disseminada.

Veja bem, até mesmo entre os animais a placentofagia é relacionada muito mais às questões ecológicas e em, menor grau às determinações espécie-específicas. Isto é: não dá para se dizer que os leões, por exemplo, comem a placenta, ou os babuínos, gorilas ou chimpanzés como uma característica da espécie. Para estes mamíferos o uso alimentar da placenta, quando ocorre, é feito por duas razões específicas principais: obter reserva alimentar em contextos de falta de alimento ou para afastar predadores, que poderiam ser atraídos pelo odor de sangue. Assim, muitas espécies em cativeiro (onde não há risco nem fome) jamais comem a placenta. Por outro lado, na vida selvagem isso pode ocorrer mais do que se observa.

No ser humano nenhuma das justificativas acima se adaptaria à placentofagia. Não temos predadores que se atrairiam pelo cheiro de sangue  nem parece razoável usar 700 gramas de carne para suprir deficiências alimentares absolutas. Portanto, o uso é principalmente simbólico, mas pesquisas sobre seus efeitos medicinais poderiam nos oferecer informações importantes para tratamentos de transtornos do puerpério, entre outros.

Qualquer ato simbólico, incorporado em um ritual, pode parecer  “bizarro” para algumas pessoas, mas pode ser facilmente incorporado por outras culturas. Para alguns, os rituais de batismo ou casamento são igualmente estranhos e até mesmo degradantes. Se quisermos ter uma visão mais abrangente diante da enorme diversidade de rituais existentes no planeta,  não haverá nada de muito estranho em alimentar-se ritualisticamente do envoltório recentemente expelido de um bebê. Compare isso com o corte do perineal (episiotomias) ou a extirpação do prepúcio (circuncisão,  realizada pelos semitas e por grande parte da população dos Estados Unidos), que são cirurgias ritualísticas e mutilatórias da medicina ocidental, e perceberás que, subitamente, a placentofagia se torna muito mais inocente do que estas práticas.

Assim sendo, fica fácil perceber que as críticas à placentofagia são carregadas de preconceitos. Porém, a carga recente contra essa prática mira as placentas que são “devoradas”, mas na verdade tenta atingir as mulheres que procuram fazer do seu parto um processo de empoderamento pessoal. Reivindicar o protagonismo às mulheres no momento do parto passou a ser um “caso de polícia”.

Perceba com cuidado. Retire os véus que cobrem a questão das “mulheres comedoras de placenta” para enxergar o que se esconde por detrás do meramente expresso na placentofagia. Da mesma forma como algumas mulheres queimaram sutiãs e usavam minissaias nos anos 60 e 70, seria um erro grotesco acreditar que tais manifestações eram direcionadas à moda ou à “liberdade de movimentos”. É claro que não; as queimas e as pernas à mostra eram SÍMBOLOS de uma demanda muito mais séria. Tratava-se do grito contra a opressão de uma sociedade patriarcal, chauvinista e machista que sufocava a natural expressão do feminino. E, tais movimentos, mudaram a cultura ocidental, como podemos perceber.

Hoje em dia, as “devoradoras de placenta” estão apenas sinalizando que o protagonismo do parto lhes pertence; que o parto precisa ser regulado por um outro paradigma. Tratá-las como seres bizarros e mulheres “malucas” é perder a perspectiva e o momento histórico de “revolução” no parto.

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Fast Food

Hamburger meal served with french fries and soda close-up

O sol escaldante torrava o capô do carro enquanto os pneus derretiam sobre o asfalto fumegante. Ao aproximar-se o pino do Astro Rei as crianças começavam a se estranhar pelo tédio de uma manhã inteira dentro de uma caminhonete alugada. Minha mulher Norma tentava em vão acalmá-los, dizendo que amanhã, por esta hora, estaríamos nos divertindo no “parque aquático Schlitterbahn”, descendo na velocidade da luz por escorregas infinitos de água cristalina.

Meu filho Pedro de 10 anos, e minha filha Lauren, de 7 estavam visivelmente excitados com a possibilidade de visitar um lugar que há muito eu lhes havia recomendado. Entretanto, a viagem até lá, partindo de San Antonio, levaria mais de duas horas, e precisaríamos parar para almoçar. Mais do que a inevitável excitação pelo passeio, agora a fome também contribuía para nossa inquietude.

– Pare assim que for possível, disse Norma. As crianças precisam comer algo. Podemos almoçar, descansar um pouco e depois continuar viagem. Mas por favor, não pare nessas lanchonetes de “junk food”. Quero que eles comam algo de verdade.

Concordei, mas percebi que se eu me mantivesse na estrada seria impossível encontrar algo diferente de “Wendy’s”, “Mac Donald’s”, “KFC” ou “Taco Bell”. A monotonia das autoestradas americanas é indescritível. Uma sucessão infinita de “dejá vu” que se repetem a cada entroncamento. Os edifícios onde se situam tais lanchonetes parecem feitos de LEGO, monótonos e pré-moldados. Todos feios e previsíveis.

Decido virar a direção em uma saída aleatória. “Exit 348”, mas poderia ser outro número qualquer. Mantive-me no acesso lateral até me sentir seguro para dobrar à direita e adentrar nas ruas do local. Uma via asfaltada e sem calçadas descortinava um bairro residencial, mas eu esperava encontrar algum lugar onde fosse possível sentar e comer. Talvez se eu continuasse minha rota adiante poderia descobrir um centro comercial, uma rua de compras ou um restaurante de comida mexicana. Ou indiana, tanto faz.

Quanto mais eu prosseguia, mais difícil aparecer um lugar para almoçar. Já cansado de girar o pescoço para os lados à procura de uma placa, resolvi parar em um posto de gasolina. Pergunto onde há um restaurante.

– Aqui temos vários. Pode dobrar na próxima rua. Ali tem um “Mac Donald’s”, e mais adiante…

Eu o interrompi antes que me desse a lista que eu já conhecia.

– Na verdade estamos a procura de um restaurante que não seja de “fast food”. Algo como “comida caseira”, sabe? Arroz, feijão, um bife, fritas, ovos, cenouras, tomates, etc. Conhece algum?

O rapaz coçou a cabeça e franziu a testa. Disse para virarmos para o outro lado, pois ele lembra de que perto do monumento havia algo parecido com isso.

Seguimos nosso rumo para onde nos indicou o frentista, mas não havia nenhum restaurante no local indicado. Em verdade o prédio descrito há muito estava abandonado, coberto de madeiras e sem vida. Porém, do outro lado da rua havia uma lanchonete. “Burger King”, estava na placa luminosa.

– Vamos até lá para perguntar onde está este restaurante. As crianças estão aflitas e eu também estou morrendo de fome. Vamos, não custa nada.

Claro, era Norma falando. Homens tem uma natural aversão a pedir informações, talvez porque parece que a cultura tem a expectativa de que nós sempre tenhamos pleno conhecimento de onde estamos e para onde vamos. Pedir informação é uma capitulação, uma fraqueza.

A lanchonete estava vazia, talvez pelo calor, quem sabe por ainda não ser meio-dia. Atrás do balcão uma menina de uniforme e semblante hispânico, e no caixa um senhor aparentando 50 anos, de bigode ralo e óculos, que parecia ser o gerente. Aproximei-me dele e perguntei se havia algum restaurante no bairro que vendesse “comida caseira”, tipo “feita em casa”.

Ele levantou os olhos para a rua e disse:

– Aqui havia um na esquina mas, como pode ver, fechou. Não creio que você vá encontrar algum por aqui. Talvez em Northcliff, porém não posso garantir. Mas temos várias opções de lanches. Veja, temos o Whooper, o Chicken Jr, o…

Norma o interrompeu com a mão à frente.

– Eu sei os produtos que existem aqui, mas é que as crianças são pequenas. Não gostamos de comida industrializada para eles. Além disso, nunca sabemos exatamente do que estes lanches são feitos.

Dois hambúrgueres alface queijo molho especial cebola picles um pão com gergelim…

Minha filha Lauren sorria ao meu lado. Seu sorriso infantil e desdentado não me permitia sequer censurá-la. A música havia colado em sua mente, e ela a repetiu irrefletidamente.

O gerente continuou.

– Bem, esta é a musiquinha do concorrente, mas não está muito longe nos nossos produtos. Veja, temos um controle de qualidade insuperável. Nossas máquinas são calibradas semanalmente e nossa equipe é treinada de maneira altamente profissional. As nossas refeições são preparadas sem contato com as mãos. Uma máquina corta o pão, a outra prensa o hambúrguer, uma outra coloca os ingredientes e esta última aqui atrás de mim os empacota. Tudo asséptico e tecnológico.

– Eu entendo… senhor?

– Gonzáles, ao seu dispor.

– Eu entendo Sr. Gonzáles, disse eu. Por outro lado é exatamente esta falta de presença humana que me assusta. Eu gostaria de uma refeição que se adaptasse ao meu gosto particular, à quantidade de carne que minha mulher gosta, ou à alergia às cebolas de minha filha Lauren. A comida que os senhores servem não parece comida: parece ração, pois não é feita para pessoas, e sim para entidades biológicas que precisam de nutrientes para continuar a trabalhar. Para nós comida é um pouco mais do que isso, pois cumpre uma função simbólica.

Gonzáles me olhou como se eu estivesse falando algo assustador e bizarro.

– Mas temos análises feitas por laboratórios que nos garantem que os nutrientes usados…

Interrompi mais uma vez o gerente.

– Gonzáles, eu concordo com você. Reconheço as pesquisas, mas não se trata de ciência, mas de valores. Eu acho que o ato de se alimentar vai muito além dos nutrientes, dos carboidratos, da glicose e das proteínas. Comer é um ritual, repleto de simbologias, que incluem sinalizadores de valores culturais inconscientes. Portanto, não se faz comida com nutrientes, mas com palavras.

Claro que Gonzáles ficou ainda mais assustado com o meu discurso.

– Eu não conheço nenhum restaurante do jeito que vocês querem por aqui. Se vocês voltarem para a auto estrada encontrarão Wendy’s, KFC e o “concorrente”, vocês sabem qual. Olha, vou confessar a vocês. Nasci do outro lado da fronteira, se é que você me entende, em Nuevo Laredo. Vim para cá pequeno, junto com minha família. Meus pais tinham um restaurante por lá. Mas era um trabalho duro atender a clientela, pois cada prato tinha uma particularidade. Uns não queriam tomate, outros não aceitavam picles; outros comiam metade do prato, e desperdiçávamos o resto, e outros ainda reclamavam que era muito pouco. Trabalhar para cada pessoa isoladamente é muito cansativo e dispendioso. Trabalhar da “maneira antiga” demandava muito tempo. Os dias de hoje não permitem mais essa dedicação à cada cliente. Precisamos de tempo, muito tempo, o elemento mais escasso no mundo atual.

Respirou fundo e continuou.

– Aqui as coisas melhoraram muito. Agora todos os lanches são iguais, independente da fome que você tiver. Todas as porções são idênticas, todos os elementos os mesmos. Não trabalhamos com a diversidade que tanto nos atrapalhava. Apostamos no modelo industrial de manufatura de produtos. Veja ali…

Gonzáles apontou para uma máquina atrás dos balcões e no fundo da loja, e continuou sua explanação.

– Ali está o pão antes de ser cortado, e ali começa o seu lanche, na primeira máquina. Depois ele vai passar por estas outras aqui, sem que ninguém toque nele, até chegar nesta espécie de prateleira vertical, embrulhado, asséptico e pronto para comer. Não acham isso uma maravilha?

– Uma esteira de montagem, disse Norma.

– Sim!! disse Gonzales. Seu olhar era de pura sinceridade, com inegável entusiuasmo. Sim, parecia uma maravilha que a tecnologia economizasse o seu tempo para fazer uma refeição para os outros. Também parecia interessante o fato do processo praticamente não precisar de pessoas, o que explicava o número restrito de funcionários àquela hora do dia.

– Bem, Gonzáles, não queremos mais tomar seu tempo. Obrigado pelas orientações e pelas explicações do seu trabalho. Vamos continuar a procurar mais um pouco. Felicidades e boa sorte.

Ele sorriu com visível amabilidade e acenou com a mão.

Buena suerte y hasta luego, disse ele ao deixarmos o local.

Quanto nos aproximamos do carro havia um senhor de mais idade perto de onde o estacionamos, sentado em uma cadeira de praia sob o toldo de uma loja de equipamentos elétricos. Ainda curioso com a situação me aproximei do senhor e fiz uma pergunta.

– Bom dia, o senhor poderia me dizer o que houve com o restaurante que fechou aqui na esquina?

– O Gilda’s?, perguntou o senhor.

– Sim, aquele da esquina ali, disse eu apontando para o prédio com tapumes.

– Ah, fechou há alguns anos. Não havia interesse em continuar. O dono saiu da cidade. Ele também era maltratado pelos colegas concorrentes. Tinha uma empresa de buffet e fazia comida para festas. É … ele cozinhava na casa das pessoas.

– Uma pena, disse eu.

– Sim, respondeu o senhor. Agora se você quiser almoçar tem que comer comida de papel com bife de plástico.

Sorri para ele e me despedi.

Dentro do carro a ideia foi tentar mais alguns minutos e, se nada encontrar, voltar para a autoestrada e parar em uma lanchonete mesmo. Afinal, a fome estava cada vez pior, e as crianças mais agitadas.

– Podemos ficar dois dias em Schlitterbahn papai? Quero andar em todos os tobogãs, em todas as piscinas, em todos os brinquedos!

Lauren era a mais entusiasmada de todos, sem dúvida.

– O que o papai disse? Podemos brincar hoje. Não teremos muito tempo para ficar pois sua mãe tem que voltar para casa, e você sabe porque, não é?

– Sim!, disse ela. O bebê vai chegar!!

O ventre reluzente de Norma mostrava o quinto ocupante do carro. Suas semanas estavam findando, mas o passeio foi um acordo que fizemos com o pequeno Martin. “Aguarde um pouco para que seus irmãos possam se divertir”, dissemos a ele. Até agora ele havia cumprido sua parte no acordo.

– Sim, mamãe precisa estar descansada e precisamos estar próximos de casa para ir ao hospital, certo?, disse eu.

Dois hambúrgueres alface queijo molho especial cebola picles um pão com gergelim…

Era Pedro, cantarolando irrefletidamente a canção, enquanto mexia no seu Tablet.

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A Velha Infância

carrinho rolimã

Todo mundo me mandou ver o vídeo do Marco, descendo de carrinho de rolimã (ou carrinho de “lomba”, como se diz aqui no sul), principalmente porque o menino que narra a descida dramática do “Morro da Vó Salvelina” tem um sotaque muito engraçado. Aliás, “rolimã” é a forma aportuguesada de “roulement“, ou rolamento em francês. Esses carrinhos originalmente tinham 4 rolamentos que funcionavam como rodas. Eram toscos mesmo, feitos de uma tábua firme sobre a qual o “piloto” se sentava, e dois eixos, em cujas pontas se colocavam os rolamentos. A direção era dada pelos pés, que mexiam o eixo frontal para fazer as curvas. Funcionava com “tração gravitacional”, quer dizer…tinha que estar num local mais alto para descer em velocidade. O vídeo é realmente engraçadinho, principalmente pela maneira emocionada como ele “narra” a descida épica do Marco (o irmão mais velho e genial?), e também pelo sotaque do menino, provavelmente da colônia italiana aqui do sul.

Mas eu achei muito mais bonito do que divertido. Sim, na emoção do menino existe uma pureza que estamos desacostumados. Meninos desta idade estão normalmente trancafiados em casa jogando videogames, mas não o Marco e seu amigo. Estão ao ar livre, brincando com algo que eles mesmo construíram. Por isso a emoção incontida do narrador. Ele descreve a descida do Marco como uma aventura dramática e vitoriosa.

Esta cena me fez lembrar a minha infância, mas também as histórias de aventuras que meu pai conta de sua juventude. Muito mais do que a facilidade de brinquedos que “brincam por nós”, naquela época a imaginação é que nos guiava. Um carrinho de lomba era, na verdade, um “bólido supersônico”, dirigido pelo “Capitão Marco”, o mais ágil de todos os pilotos do exército. O morro da “Vó Salvelina” era na verdade a escarpa tortuosa e mortal que precisava ser vencida, em cujo cume se refugiavam os inimigos da nossa pátria. Ali, nas lutas, batalhas e enfrentamentos imaginários se guardava o gérmen da nossa criatividade. O fazer era parte constitutiva e fundamental do brincar; nada era pronto, tudo ainda tinha que ser adaptado.

Que tipo de mente criativa poderá nos oferecer um mundo onde o lúdico é pasteurizado e pronto, onde os “games” sangrentos substituem as brincadeiras criativas e únicas, e onde as soluções para os problemas estão disponíveis no site da empresa?

Veja abaixo o vídeo do Marco e seu amigo no Morro da Vó Salvelina…

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O Voo

O apartamento onde morei até completar 6 anos – quando nos mudamos do “interior” para a capital – tinha uma característica comum aos prédios dos anos 40 e 50 do século passado. Ao invés de um toldo sobre portas e janelas, havia uma marquise que oferecia proteção tanto para a chuva quanto para o sol que protegia o apartamento térreo. A janela de frente do primeiro piso era do quarto das crianças. Ali, eu e meus irmãos, fazíamos as primeiras bagunças, mal saídos das fraldas. Foi neste contexto que ocorreu um fato que se tornou marcante na minha vida. Uma oportunidade, quando tinha não mais do que 5 anos, minha mãe me colocou de castigo no quarto, devido a uma pequena desavença com meus irmãos. Vá saber qual a travessura possível para uma criança dessa idade. Entretanto, poucos minutos foram cumpridos nesse cativeiro. Há muito tempo que eu vinha arquitetando um plano, e aquele parecia ser o momento ideal para a realização do grande desafio. Durante muito tempo eu desenvolvi a ideia de que era possível sair do meu quarto pela janela, ao invés da porta. Sim, para uma criança de apenas 5 anos não poderia ser uma ponderação muito elaborada. Lembro de olhar da rua a janela do meu quarto e imaginar que seria fácil sair por ali. Estimulado pela oportunidade do castigo, abri a janela com meus dedos gordinhos e curtos e, sem muito esforço, pulei para a marquise logo abaixo.

Chegar até aqui é que demanda coragem; até o chão é apenas mais um salto. Não tema. Vai dar tudo certo. Meus pensamentos reforçavam meu desejo de levar minha aventura até as últimas consequências.

Cale-se, irresponsável! gritou minha consciência. Você tem apenas 5 anos! A distância até o chão é mais do que o triplo do que você tem de altura. Você não enxerga o quanto de risco existe aqui?

Dei um passo adiante e mirei a calçada de grés logo abaixo. É muito mais alto visto de cima; era evidente o quanto a visão de baixo havia me dado uma falsa perspectiva da altura. Os carros, as pedras, o vão mal recortado das lajes, tudo estava muito mais distante do planejado. Enquanto elaborava meu plano, sentei na beirada e balancei as pernas, muito mais para me acalmar e ganhar tempo do que para avaliar a distância que me separava do solo. Talvez, se eu esperasse mais um pouco, minha mãe voltaria para me resgatar. Segurei as alças dos suspensórios que seguravam meu short marrom, respirei fundo e olhei para a quadra de futebol do clube em frente à nossa casa. Minha mãe devia estar cantarolando uma canção de Chico Alves enquanto secava a louça na cozinha. Ela não virá, pensei. Não adianta adiar muito; é necessário tomar a decisão: voltar para o quarto humilhado e fracassado ou embarcar na maior aventura imaginável para uma cabecinha de 5 anos.

Meu espírito aventureiro sorriu; meu instinto de autopreservação colocou as mãos na cabeça e a sacudiu de um lado para outro. Apesar da contrariedade entre ambos, eles já sabiam que a decisão havia sido tomada em meu pequeno coração de menino. Ajeitei meu corpo para frente e olhei para a janela uma última vez. Despedi-me de suas frestas por onde me acostumei olhar a rua mesmo durante a noite, quando minha mãe me mandava dormir. O movimento seguinte era óbvio. Virei-me de costas para a rua, ajoelhado na beirada, coloquei as pernas para baixo e estiquei lentamente o corpo, ficando preso apenas pela barriga. Joguei meu corpinho para um lado ao outro, balançando as pernas penduradas. Passados alguns poucos segundos e eu fiquei preso à pedra fria da marquise apenas pelas mãos. Meus dedinhos gordinhos a seguraram enquanto meus pezinhos de tênis bamba apontavam para o solo.

Naqueles instantes pude entender de forma instintiva muitas das coisas que minha vida depois ensinaria de forma mais consciente. Existe uma inevitabilidade na busca pela autonomia e liberdade, tanto do sujeito que deseja ser livre, quanto dos povos que desejam a emancipação das amarras que os impedem de exercer a plena soberania. Não há como fugir deste caminho, mesmo que ele se mostre duro, perigoso, complexo e desafiador. Entretanto, diante de algumas encruzilhadas e decisões tomadas, é forçoso reconhecer o momento onde não há mais volta, quando é impossível retroceder do ponto alcançado. Meus dedinhos rechonchudos doíam na pedra, agarrados à esperança de que alguma força mágica fizesse mudar o destino. Eles tentavam segurar o que eu ainda era, mas a gravidade me avisava que não há como conter a força da vida tentando se emancipar. Esse momento em minha vida explicaria muitas das situações em que estive envolvido durante toda a minha juventude, maturidade e até agora entrando na velhice. O impulso de ir, o medo de olhar para trás, e a necessidade imperiosa de me arrojar ao desconhecido, movido por um desejo irrefreável de suplantar meus limites.

O mundo abaixo tremia tanto quanto minhas perninhas rechonchudas. Olhei mais uma vez para cima, mas a janela já se apequenara. Eu havia chegado ao ponto sem retorno; não havia escapatória; minhas alternativas eram o chão ou… o chão. Meus braços aguentavam firmes a pressão do corpo pouco, mas senti os dedinhos fraquejando sob o peso da gravidade. Maldito Newton, se não a houvesse inventado eu não estaria nessa situação. Olhei para o céu, minhas pernas balançaram num desejo ilusório de alcançar algo que sabia não estar lá. O espaço subitamente se tornou o opressor, ameaçando meu corpo pendurado, ávido de firmeza.

Os dedinhos continuaram firmes pela eternidade de poucos segundos, quando começaram, cada um por sua vez, a desistir da dureza pétrea da marquise. Senti minha força minúscula ceder aos chamados da superfície terrena. Falanges, falanginhas, até que, finalmente, falangetas. Cada uma delas deslizou pela aspereza da borda, até que a última se desprendeu e caí. Meu corpinho agora deslizava pelo vazio. O ar me envolvia por todos os lados, trazendo de volta a velha angústia do nascimento: o excesso de ar a completar de nada o meu entorno. Liberado de todas as prisões, agora eu era o soberano de todos os reinos, de todas as terras; nada me prendia, nada me oprimia. Meus braços esticados agitavam-se no infinito cósmico e acenavam para as nuvens acima. Minha face lívida se contraiu, e da pequena boca se esboçou um grito.

Primeiro o pé direito, depois o esquerdo. A perna direita dobrou-se, e sobre ela recaiu o peso do corpo. Um soco surdo na face da rua tomou o lugar do grito engasgado. Meu corpo se jogou para frente, em direção à parede do edifício, e minhas mãos apararam seu peso. Amarrado novamente ao mundo, tentei me erguer, mas minha perna direita doía. Um silêncio, que durou milhares de fragmentos de segundo, seguiu-se ao som opaco de minha queda, como a mudez das árvores que antecede as tormentas. Então que, transposto o imobilismo momentâneo do universo, olho para frente e vejo uma porta se abrir.

– Que foi menino? Caiu?

Era a vizinha do apartamento de baixo. Escutou o barulho e veio ver do que se tratava.

– Escutei o barulho de uma bola caindo e queria saber se os vizinhos estavam de novo jogando bola, continuou ela. Eles sabem que tem gente de idade descansando. Aqui não pode!

Eu continuava sentado sobre a perna direita, sem coragem de levantar. Estava estático, mas não chorava, ainda estupefato com o que havia acontecido. Eu era o “menino voador”; havia desafiado a mais antiga das leis, a lei da gravidade, e tinha sobrevivido a ela. A vizinha se mantinha falando algo sobre o ruído que ouvira, e sobre a minha mãe, mas eu não entendia. Apenas percebia os sons de sua voz de mulher, sem captar a plenitude do sentido. Creio que de forma automática ela se virou para dentro da casa e trouxe um copo d’água, o remédio mais tradicional que se dá aos outros quando nós mesmos estamos nervosos. Olhou para mim mais uma vez, depois dos três goles regulamentares, e me perguntou: “Você está mesmo bem?”

Até então eu não havia me dado conta de que ela não tinha percebido o meu voo milagroso e inusitado. Apenas abrira a porta e se deparara com uma criança sentada no chão. Resolvi ficar em silêncio e nada dizer; talvez essa confissão fosse demasiado forte para ela. Nunca se sabe até aonde a emoção descontrolada de uma mulher pode desestabilizá-la. Foi nesse momento que ela me deu sua mão e eu me ergui.

Uma jamanta, como se dizia na época. Sim, parecia que eu havia sido atropelado por uma. Meu joelho direito doía, e a nádega do mesmo lado também. Porém, fiquei feliz de ver que o corpo inteiro respondia aos meus comandos. Consegui dar dois passos e entrei na sua casa. Ela pediu para eu ficar ali, aguardando, enquanto ela chamava minha mãe no andar de cima. Fiquei olhando em volta, as paredes, os quadros, a mesinha no canto, as relíquias de guerra do seu Scherer. Meu vizinho era um brasileiro de origem alemã que havia lutado na segunda guerra, um “pracinha” que adorava ostentar a cicatriz profunda em seu ventre, sua melhor e mais vistosa condecoração. Pouco mais de 20 anos nos separavam do fim do combate sangrento na Europa, mas as suas histórias continuaram até seu último dia de vida. Subitamente, chegou minha mãe, escoltada pela vizinha. Olhou-me sem entender o que havia acontecido. Perguntou o que houve, mas limitei-me a dizer: “caí”. Ela me examinou de cima a baixo, como só as mães sabem fazer, virou-me de costas, apalpou meus ombros e cabeça. “Você está bem? Como passou por mim sem que eu lhe visse?”

Nada falei. Apenas dei de ombros. Ainda era cedo para ela saber do meu salto, da minha aventura suprema. Não queria assustá-la revelando o pequeno herói que tinha em casa. Depois ela mesma perceberia, e então eu teria muitas explicações para dar. Mas naquele momento eu queria apenas gozar a suprema emoção de ter vencido um grande desafio. Arrojado no espaço, destemido, confiante e sentindo a mais inebriante das sensações: o êxtase de ultrapassar os próprios limites. Olhei para minha mãe e a preocupada vizinha por mais uma vez, e de minha voz saiu apenas uma frase:

– Posso brincar na rua?

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A Outra História das Almas Apressadas

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A história deste texto está conectada com o capítulo “Das Escolhas” do livro “Entre as Orelhas – Histórias de Parto”. Nele ofereço outro olhar sobre a cena descrita; ao invés do drama médico das escolhas e dos caminhos possíveis, a perspectiva dramática da mulher que sofre a dor de um nascimento fora de hora. Desta forma pretendo fechar o círculo de possíveis olhares de um evento triste, mas que ao mesmo tempo nos ensina tanto sobre as fragilidades da vida e as escolhas que fazemos.

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A decisão está tomada, e as rodas mal azeitadas da maca guincham pelo corredor estreito, driblando macas, cadeiras, enfermeiras e passantes. Para ela o mundo repentinamente se transforma em tetos mofados e luminárias sujas, que passam diante de sua face pálida como um filme antigo. Os olhos sequer se mexem. Fixos no alto, apenas aguardam a entrada no centro cirúrgico para voltarem a piscar.

O cheiro das limpezas, o brilho ofuscante de mil luzes, o som dos metais tilintando nas mesas e as rodas que param de guinchar lhe anunciam a chegada à sala de operações. Com esforço ajusta seu corpo cansado na mesa cirúrgica, auxiliada por pessoas sem nome, sem fala e sem rosto. Pendurado no braço o manguito; na dobra descorada do cotovelo a fina agulha penetra, por onde escoa um líquido cristalino. No teto a roda luminosa se acende, e pôde ver seus múltiplos rostos aflitos refletidos nos anteparos vítreos das lâmpadas.

Mantém-se em silêncio devocional, como se qualquer som quebrasse uma norma da qual não saberia a razão. Apenas obedece maquinalmente as ordens que lhe são dirigidas. “Vire-se para este lado”, diz um senhor mascarado de voz grossa, enquanto a enfermeira aperta seu queixo contra o peito desnudo. “Não respire. Se você ficar bem quietinha termino bem rápido”. Sente um choque elétrico a lhe percorrer a coluna e retesa o corpo em resposta, mas em seguida percebe as sensações paulatinamente desaparecendo. Dividida ao meio, seu corpo de baixo para e dorme; o corpo de cima silencia e espera. E reza.

Depois as higienes, os panos, as frases desconexas que lhe chegam aos ouvidos. Palavras cruzam a sala sem que delas se capte o sentido. Apenas o medo, como um código secreto compartilhado, percorre as almas da sala.

Então o silêncio. Por alguns instantes todos estão imóveis. Nada se ouve. Finalmente a lâmina grave fere a carne, abre o espaço, penetra. Depois disso, apenas o “bip” das máquinas quebra a monotonia sonora. Pequenos estalidos se seguem. Dos presentes, nenhum som, sequer uma expressão. A luz intensa cega, o tempo fica estanque. As camadas da carne rubra vão sendo abertas, uma após a outra, até que a nave uterina, com sua cor rosada e brilhante, aparece diante do brilho ofuscante do foco de luz. Ali, no casulo aconchegante de veias e membranas, repousa nosso herói.

Um, dois, três cortes precisos da navalha fria. O amnionauta, encerrado em seu mundo de sonhos, nem percebe que seus devaneios de sons e luzes tênues serão interrompidos pelo nosso chamado. Um último corte e chegamos no interior da diminuta esfera. Pela translucência das camadas, que envolvem o universo ínfimo do pequeno ser, podemos ver que ainda dorme. Com um golpe derradeiro e definitivo, rompemos a bolsa, e os panos verdes que cobrem a nudez se escurecem com o líquido amniótico que escorre sem pudor.

É o tempo de nascer.

Dois ou três movimentos e a cabeça salta para fora da ferida. “Desculpe, amigo. Não era seu tempo, mas foi preciso lhe resgatar”. Seu corpo miúdo escorrega para a sala e para o mundo, deixando como rastro o frágil fio que o liga à placenta. As mãos enluvadas suportam o corpo esquálido que, de tão frágil, mal pesa. Ao invés da pele uma fina camada transparente róseo-violácea. Ao invés de cabelo, uma tênue penugem que mal lhe cobre a cabeça. Recém saído do ventre materno ele abre os braços e por um instante parece procurar algo. Ou alguém. Sua expressão é de dor e angústia, a mais antiga de nossas emoções. “O que faço aqui? Porque interromperam meu sono?” pergunta-se. Seus dedos finos e azulados abrem-se e procuram agarrar a luva ensanguentada. Ele contrai seu corpo minúsculo, estende mais uma vez os braços enquanto aguardamos ansiosos os primeiros sons. Sofre, pela primeira vez, a dor do excesso de espaço. “Onde está minha mãe, que me envolvia e acalentava desde quando minhas primeiras células se dividiram? Onde está aquela que tocava com doçura cada pedaço do meu corpo? Abro os braços e só o que agarro é o espaço, o nada. Estou só.

Abre a pequenina boca e quando esperamos um grito escutamos apenas um tímido e fino sibilo. Um lamento. A sala novamente se enche de silêncios. Cordões são cortados, amarra das almas desfeita. Os panos verdes o envolvem num triste celofane. Um sibilo a mais e ele é levado para distante dos nossos olhos.

Os corpos se separam em salas contíguas, mas a mulher cortada ainda jaz à nossa frente. Temos trabalho a fazer e o mais difícil de todos é suturar a alma dilacerada de uma mãe. Corroída pela culpa e pela angústia, olha para a porta que recém se fecha. Seus ouvidos se agrandam para escutar mais um sinal, por menor que seja, do pedaço de si mesma que há pouco se foi. Fecha os olhos e reza em silêncio. Chora pela separação, pelo medo de perder, pela tristeza de ver seu filho sofrer. Imaginariamente abre seus braços e o abraça, junto ao colo. Traz o rostinho amarrotado e lívido para perto do seu e sussurra em seus pensamentos “Mamãe está aqui. Não vamos nos separar. Sei o quanto precisas de mim e também sei o quanto é preciso que eu esteja ao seu lado. Não se desespere, mamãe está aqui”.

E nós, ao seu lado, apenas nos calamos e testemunhamos sua dor.

Na sala ao lado, outra batalha se trava. Consternados perguntamos àquele pequenino que se posta à nossa frente: “Por que agora? Por que tão cedo? Qual a pressa em chegar a um mundo de expiações e sofrimentos?”.

Sua resposta é apenas o choro fino, o lamento de uma alma apressada.

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Inbox do Facebook

Inbox

Chamado no Inbox do Facebook.
Todo ele em inglês, que vou traduzir para facilitar.

– Oi, como vai? Obrigado por me aceitar. Eu me chamo XXX.
– Hummm. Seja bem vinda. De onde vc fala? Nos conhecemos?
– Sou das Filipinas. Não o conheço. Vi você no Facebook.
– Ah, ok e porque me adicionou?
– Porque você é muito bonito e o seu bebê é lindo.
– Hummm…. Olha, as fotos são muito enganosas. Não vá atrás disso. E ele não é meu bebê. É o meu neto.
– Como? Seu neto? Qual sua idade?
– Menina… Tenho a mesma idade da taxa de cesarianas do Brasil.
– Ah… muito né?
– ??
– Quer dizer, as taxas, as taxas!!!!
– Sim, eu sei. Mas obrigado pelo elogio. Depois do que passei nos últimos dias achei que nunca mais ouviria algo assim… Você ainda está aí?
– Alô, alô, alô?… Acho que ela ficou assustada. Com as taxas, as taxas é claro…

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Lua e Sol

“A lua é muito mais importante do que o sol. Enquanto ela ilumina as nossas noites o sol apenas ilumina o dia, quando tudo já está claro”

Creio que esta frase merece uma consideração mais profunda. Quando eu a li me pareceu uma simples idiotice. Uma segunda leitura me obrigou a uma consideração mais profunda, e pensei que ela poderia conter algum tipo de ensinamento.

Muitas vezes consideramos pequenas coisas (como a Lua, se comparada com o sol) como sendo grandiosas apenas porque são demasiadamente exaltadas pelo contexto – em um céu escuro o nosso satélite se destaca com facilidade. Já o Sol fica quase invisível pela sua imensidão e onipresença e, frequentemente, nos esquecemos de sua existência, imaginando que a claridade que percebemos ao nosso redor é natural e parte constituinte do que consideramos um “dia”.

Quando pude reler a frase pensei nas experiências de vida que quase todos nós um dia passamos. Uma delas a paternidade e a maternidade e a convivência com os filhos. Muitas vezes, quando pequenos (e as vezes depois também) nossos filhos fazem elogios extremados e emocionados, em que ressaltam a importância de pessoas que acabaram de conhecer, deixando de valorizar o que possuem desde que nasceram. É clássica a paixão das crianças pela professora, mais tarde pela namorada. Pois elas são Luas resplandecentes no céu escuro da nossa experiência cotidiana. Claras, brilhantes e destacadas, elas irradiam sua luz em todas as direções.

Entretanto, na casa dessas pessoas habitam muitas vezes Sóis de experiência, carinho, afeto, compreensão, paciência e virtude, que muitas vezes são desconsiderados diante da exuberância telúrica. Fixados na face redonda e sorridente da Lua por algum tempo nos olvidamos do calor que sempre nos aqueceu, até porque ele sempre esteve lá; era parte constitutiva de nossas vidas.

Hipnotizados pela Lua, muitas vezes não damos ao Sol a devida justiça.

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Sobre as críticas

Consulta médica

Há tantos anos debatendo diariamente a questão do parto inserido no universo da tecnocracia eu percebi que discutir casos particulares de partos ou indicações de cesarianas (a minha cesariana, a cesariana da minha mulher, a cesariana de uma conhecida ou da vizinha) é INÚTIL e desnecessário. Não se trata de acusar uma específica pessoa que foi vítima de uma assistência inadequada, mas fazer uma crítica forte ao modelo, o sistema e o paradigma de atendimento às gestantes.

É nisso que precisamos focar. Criticar cesarianas, ou mesmo partos, sem estar na pele de quem teve que tomar as decisões é INJUSTO e CRUEL. Esqueçam os médicos cesaristas; eles são prisioneiros deste sistema e frágeis demais para lutar contra ele. Precisamos focar nas mulheres e no seu empoderamento, para que ELAS mudem o parto na sociedade em que estamos inseridos. Com uma sociedade transformada os profissionais que atendem parto mudarão naturalmente.

Por certo que esta é uma questão dialética. Não seria justo desonerar os médicos de qualquer responsabilidade na mudança do modelo. O contato com a experiência única e transformadora do parto deveria moldar a visão destes profissionais a respeito da natureza especial deste evento. Entretanto, o parto medicamente absorvido, transforma-se em uma mera cirurgia de extirpação fetal. Desta forma, despido de simbolismos, o nascimento se esvazia dos seus conteúdos mais significativos. Eu percebi que a principal função do médico é a pedagogia. Cabe a ele mostrar os caminhos da saúde, ensinar o auto cuidado e fazer com que a paciente descubra dentro de si mesma o sentido subjetivo de gestar e parir. Quando o pré-natal se reduz às medições antropométricas e burocracias ele perdeu sua grandiosidade.

Diante de um momento épico e sem precedentes este encontro tão singular entre profissional e cliente nada mais faz do que resumir à mulher a um contêiner fetal, desprovida de transcendência que um nascimento impõe. Pois este empobrecimento típico da cultura tecnocrática ocidental contemporânea é responsabilidade dos profissionais, pois todas as gestantes que conheci perceberam claramente a importância do pré natal como período valioso de aprendizado e crescimento.

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Viagens e Sonhos

Paris - Eiffel

Quando eu tinha 14 para 15 anos minha mãe fez a viagem dos seus sonhos para a França. Como boa “francófila” passou a vida inteira sonhando com as ruas, os cafés, os “boulevards”, os museus, as estações de “metropolitain” e o ar que se respira na “cidade luz”. Pois, aproveitando que meu pai foi estudar na França, ela juntou-se a ele no final da sua viagem e passou um mês em pleno sonho, caminhando por cada ruela, cada praça e cada edificação resplandecente. Talvez este tenha sido o maior exemplo que tive na vida de um sonho a se cumprir…

Na volta ela nos trouxe presentes simples, que eram revestidos de um simbolismo especial. Um chaveiro, bugigangas do avião, imagens da cidade e coisas comuns que turistas compram. Entretanto, muito mais do que o valor de qualquer objeto, estava a impregnação que eles traziam de uma viagem de sonhos e de um projeto criado havia muitos anos em sua mente cheia de fantasias sobre a onírica e romântica cidade de Paris. Entre estes presentes estava um “blusão“, que hoje chamaríamos de “moletom”, em que se lia, em letras estilizadas, “Saint Michel et Saint Germain“.

Perguntei a ela do que se tratava, se eram apenas os nomes de dois santos especiais da cidade, ao que ela me respondeu, com um sorriso maternal, que estes nomes se referiam a um cruzamento de duas avenidas de Paris. “Nada de mais, meu filho, apenas um cruzamento por onde passei”. Imediatamente a minha cabeça de menino criou uma esquina cuja atmosfera era de magia palpável, um ar de sonho respirável e adocicado, um local onde as fantasias mais profundas se realizavam. Minha mãe havia cumprido o maior sonho de sua vida na esquina das ruas que eu carregava no peito. Por muitos anos, até ela ficar puída e pequena demais para um adolescente que se espichava, eu usei o blusão da cidade dos sonhos, a Paris que minha mãe amava e por quem ela tanto sonhou.

Hoje, passeando pelas ruas de Paris, tomei uma sopa de cebola em um pequeno restaurante próximo da Rue du Louvre, acompanhado de uma cerveja Leffe. Levantei-me e segui para a próxima esquina onde fica uma praça, chamada de Saint Michel. Ao lado dela a rua com o mesmo nome. Surpreso pela coincidência inesperada, continuei por ela, magnetizado ela possibilidade de encontrar o cruzamento que habita minha mente há quase 40 anos. Poucos metros adiante, próximo do Panteão, chego ao mítico encontro das ruas Saint Michel e Saint Germain. Como todo encontro por muito tempo esperado, ele nos deixa com a sensação de que algo falta. “Onde estão os fogos de artifício, as dançarinas de can-can, as luzes, os cantores de rua tocando acordeon? Ora, pensei, nenhuma realidade seria capaz de acompanhar a fértil imaginação de um menino“. Entretanto, ali estava a esquina misteriosa, o encontro das ruas que povoaram minhas fantasias infantis. Queria muito que minha mãe pudesse estar aqui comigo para poder me contar como era Paris há 40 anos, o que ela pensou quando aqui realizou seu grande sonho e o que isso significou para sua vida.

Talvez seja melhor assim. O sonho ficou apenas para ela mesma. É bem provável que ela fosse absolutamente incapaz de traduzir em palavras o sentimento que teve ao visitar a cidade. É possível também que tais emoções só existam em um terreno em que as palavras não fazem sentido algum. Além disso, outra mera suposição, a minha emoção ao encontrar essa esquina talvez não tenha tradução, e tudo o que está escrito aqui é uma tola e ridícula aproximação dos sentimentos de um menino de 14 anos ao escutar as palavras de sua mãe, cheias de afeto, esperança e carinho.

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Síndromes

Casal alemão

Esta é uma história interessante sobre conhecer as alternativas para poder usufruir das escolhas.

Um casal se conhece em um distante distrito rural no noroeste do Rio Grande do Sul no fim dos anos 40. Oriundos de uma cultura alemã eram dois agricultores simples e de pouca cultura. Ambos virgens e “passados” em idade, com mais de 40 anos. Durante 3 anos tiveram relações, mas ela disse a ele que tinha uma espécie de “fraqueza” e por isso não menstruava. Um dia o marido foi convidado pelos amigos do “Clube de Bolão” (muito comum nas comunidades alemãs do interior do RS) para jogar contra um time de uma comunidade próxima. E lá foi ele, na boleia de um caminhão. Após o jogo os colegas da outra cidade (um pouco maior) convidaram o time adversário e fazer uma festa na “zona do meretrício”. Mesmo com as reservas do nosso amigo, ele aquiesceu e resolveu experimentar os “sabores da carne”. Foi uma experiência dramática…

Quando chegou em casa pegou uma pequena mala, arrumou suas poucas roupas e disse à mulher: “Arrume suas coisas. Vamos agora mesmo para Porto Alegre falar com um doutor. Você não é normal“. Claro, teve que explicar a ela como havia feito tal constatação, mas diante da descoberta dramática ela sequer se importou. Aquilo seria a resposta para muitas de suas próprias indagações. Aquilo explicaria porque ela sempre foi “diferente” das demais meninas.

Ao chegarem à capital foram atendidos por um professor meu, já falecido, Prof Krieger. Ele examinou a paciente e explicou a eles a síndrome de MRKH – Mayer-Rokitansky-Küster-Hauser – que consiste em agenesia vaginal e uterina, mas com os ovários íntegros e funcionantes (o que explica a manifestação de caracteres sexuais secundários, como pelos pubianos, deposição de gordura corporal e crescimento das mamas). Havia apenas uma pequena reentrância de menos de 3 cm no introito vaginal. A solução (na época) seria cirúrgica, e complementada por dilatadores.

Uso esse caso sempre para mostrar que, se você não conhece as alternativas, não tem como fazer uma escolha consciente. O marido era feliz, pois acreditava que o sexo fosse apenas aquele exercício de encostarem-se mutuamente, sem uma penetração efetiva. Quando pode avaliar uma relação sexual “completa” é que conseguir ver o quanto havia de estranho na sua vida sexual.

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