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Jogos de Sedução

Não é necessário muita imaginação para perceber que não existe nada de “prático” nas roupas femininas; elas não foram concebidas para deixar as mulheres mais felizes ou relaxadas, nem mesmo mais bonitas. As roupas foram feitas para nos deixar mais desejáveis, ora escondendo (para ressaltar pela curiosidade), ora mostrando as virtudes (para atrair). O preço a ser pago sempre foi alto, basta lembrar das vestimentas torturantes que as mulheres usaram por séculos, como os espartilhos, os sapatos deformantes nas meninas chinesas, até os saltos altos e os jeans apertados que perduram até hoje e são vestimentas usuais desde a adolescência. “There’s more to clothes than to keep warm” já diziam os ingleses; tudo na moda é erotismo, e o preço de despertar o desejo é o desconforto. O sacrifício brutal em nome do narcisismo é milenar, transcultural e essencial – pensem nos rituais de escarificação das adolescentes indígenas e nas inúmeras cirurgias plásticas a que se submetem as mulheres do ocidente com o claro objetivo de oferecer uma chance maior ao seu destino reprodutivo. Todos esses sacrifícios imensos servem essencialmente para torná-las mais desejáveis através de signos sexuais que podem ser traduzidos pela aparência, e a história nos prova que a recompensa vale a pena.

Assim sendo, uma sociedade em que as mulheres se revoltassem contra estas imposições culturais e decidissem usar saltos normais, pele natural, lábios sem batom, calças confortáveis e calcinhas largas, de algodão e que não marcassem as curvas voluptuosas do seu corpo seria um lugar bem menos desconfortável para se viver, mas pareceria tão diferente do que temos hoje que sequer seria reconhecível como humana. Uma adolescente que privilegiasse o seu bem estar e conforto corporal em detrimento da sedução e do impacto que causa ao olhar do outro seria vista como “esquisita” ou pelo menos “estranha”. Enquanto a estrutura psíquica feminina for narcísica as mulheres farão qualquer sacrifício para garantir seu lugar ao sol.

Deveria ser igualmente evidente que as mulheres não precisam tolerar toda essa opressão da aparência; cabe a elas decidir qual jogo jogar. Não há nada de errado ou imoral em desmerecer todas estas convenções sociais e valorizar virtudes “internas”, como conhecimento, dedicação, estudo, etc e desprezar as formas externas, deixando de consumir cosméticos, cirurgias, adereços e roupas que ressaltam o corpo. O mesmo se pode dizer dos homens; eles podem decidir de forma diferente a respeito de suas estratégias e alternativas na corrida para garantir seu espaço no “pool genético” do planeta. Um homem, por exemplo, pode desconsiderar seu poder de sedução e não fazer o que os homens tipicamente fazem para conquistar as mulheres, mas talvez isso reduzisse muito suas chances para encontrar parceria. São escolhas legítimas; todavia, o que não parece correto é romper apenas com as regras que não nos agradam. Por exemplo: quero jogar o jogo da sedução, mas não quero o esforço de seduzir e não quero ser vista como “objeto sexual”. Quem pretende participar da disputa sexual deve entender as regras.

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ONGs

Há alguns anos, quando rompi minhas ligações com uma instituição pela sua intenção de se vincular economicamente com ONGs imperialistas, fui acusado de radical e de intransigente por querer “politizar” esta luta. Afinal, que mal poderia haver em receber recursos para uma causa tão nobre? Esse, aliás, é o mesmo dilema que todo médico consciente precisa enfrentar com a oferta cotidiana de brindes – de canetinhas a viagens aéreas para congressos – entregues pelas empresas farmacêuticas, que desta forma compram a simpatia e lealdade aos seus produtos. Que liberdade tem um profissional que aceita este tipo de “mimo”? Se há uma coisa que aprendi, a duras penas, é que não existe enfrentamento no âmbito social que não seja político em sua essência. No âmbito da prática médica, desde muito cedo ficou claro que a única linha eticamente defensável seria não aceitar qualquer presentinho “desinteressado” por parte das empresas que lucravam com as minhas prescrições; no que diz respeito às instituições, não permitir que organizações imperialistas tenham controle econômico sobre suas jnossas lutas e nossas pautas.

Isso se aplica às instituições ligadas à saúde também, em especial àquelas que oferecem suporte às populações em vulnerabilidade, como as mulheres, gays, trans, comunidades negras, etc. Nos anos 70 o foco era a esterilização de mulheres, levada a cabo por um grupo multinacional americano, pois o crescimento populacional nos países satélites sempre foi um temor para as forças imperialistas. Hoje em dia muito dinheiro é direcionado aos grupos identitários, e esse suporte merece ser questionado de forma muito séria e contundente. Afinal, por que tanto investimento na divisão da sociedade em identidades, produzindo a fragmentação da sociedade em pequenos grupos, cada um lutando isoladamente por seus interesses e privilégios, encarando a todos os outros como inimigos na disputa pelos mesmos direitos? Ora, a resposta é óbvia: o resultado dessa luta é o enfraquecimento da consciência de classe.

Aceitar dinheiro – ou suporte de qualquer natureza – de organizações visceralmente conectadas ao imperialismo é um erro clássico de quem apenas procura resultados cosméticos e parciais. O tempo acaba mostrando o equívoco de associar-se a estas organizações, que agem como pontas de lança das forças hegemônicas internacionais. Estas, com a fachada da benemerência, usam de seu poder econômico para controlar a narrativa nacional. O caso da Transparência Internacional – que defendia a transparência mas aceitava os crimes da LavaJato – é emblemático: a face nobre do “combate à corrupção” esconde interesses imperialistas que usam da chantagem e da manipulação da opinião pública para levar adiante uma agenda alinhada aos interesses das grandes potências.

A autonomia de um país se demonstra também através da atenção que se dá aos grupos que se infiltram no tecido social para implantar uma agenda ligada aos interesses estrangeiros. As ONGs que atuam junto aos indígenas brasileiros, seja oferecendo roupas, remédios ou tão somente a “palavra do senhor” são outro exemplo histórico da invasão alienígena sobre nosso histórico problema com as populações nativas. Monitorar, vigiar e até mesmo expulsar estas organizações é uma ação necessária para que nossa estrutura social não seja degenerada pela infiltração de grupos estrangeiros. A autonomia tem preço, e este é a vigilância constante sobre ações de grupos travestidos de boas intenções, mas que em seu bojo carregam interesses de dominação através do poder econômico.

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Imagem Pública

Não é sobre Madonna, mas poderia ser. Uma influencer (sabe-se lá o que realmente significa isso) faz uma série de transformações corporais, aumenta os lábios, puxa a pele do rosto, coloca silicone em vários lugares, perde 20kg (ou ganha), faz bronzeamento artificial, coloca “lentes” nos dentes, injeta Botox e transforma sua face em uma fotografia inexpressiva. Depois de tudo isso, publica sua imagem em várias plataformas. Olho as fotos que são jogadas na nossa cara pelas redes sociais e penso: “A modificação visual dela ficou um horror. Está mesmo muito feio, basta comparar as fotos e ver como ela era lindamente imperfeita antes”. Abaixo das fotos inúmeros comentários, a maioria exaltando as modificações, mas muitos são debochados, outros bem humorados e alguns francamente ofensivos.

Imediatamente surgem os textões deixando claro que “o corpo é dela e ninguém tem nada a ver com isso”. Defesas aparecem do seu direito de mudar seu rosto como bem entender, como se alguém estivesse questionando a legalidade das mudanças corporais. Mas será que a imagem de alguém pertence apenas àquela pessoa? Seria justo silenciar um crítico de arte dizendo “O artista tem o direito de pintar como quiser, e você não tem nada a ver com isso”? Quem assiste não tem nada a ver com o produto? Para um ator sua imagem não é sua obra, seu trabalho? Será mesmo certo silenciar qualquer comentário sobre a imagem que um artista (nos) apresenta?

Por que estas “estrelas” de Hollywood não aprendem de vez que suas figuras públicas estarão eternamente sujeitas aos comentários alheios? Ora, quem desejar ser anônimo e não sofrer pelas avaliações negativas de sua aparência, basta trabalhar no escritório de um banco, longe dos olhares do público. E vejam: não se trata de defender ofensas, deboches, ataques sexistas, misóginos ou racistas; por certo que ofender alguém por sua aparência é deselegante e deseducado, mas não estar preparado para críticas quando uma figura pública faz transformações radicais na sua aparência é ainda mais inadequado.

Pessoalmente, não me importo com a atitude dos artistas sobre seus corpos, em especial as atrizes. Quer emagrecer, quer engordar, quer fazer os enchimentos da moda? Problema seu, máximo respeito às suas escolhas pessoais. Entretanto, sabemos o quanto estas mudanças só ocorrem em função do outro; elas não são feitas para oferecer satisfação a um sujeito isolado do mundo, mas para que esta mudança produza um impacto na forma como os outros o enxergam. Portanto, quem faz comentário sobre os artistas e sua imagem é o legítimo destinatário das transformações realizadas. Não há nada de incorreto ou invasivo: a forma e a intensidade como os outros nos impressionam pertence a nós. Sou eu quem vai ver seu rosto e suas formas, portanto é justo que tenha o direito de avaliar, julgar e comentar.

O que estas pessoas pretendem é a criação de um mundo onde ninguém critica nada ou ninguém para não correr o risco de ofender ou tocar em feridas narcísicas. Se esse mundo um dia vier a acontecer rapidamente vamos retroceder à idade da pedra lascada, já que sem atrito não há mudança, e sem ela obstaculizamos a possibilidade de progresso. Desta forma, não é justo reclamar e se vitimizar ao escolher uma nova face, um novo parceiro, um novo visual ou um novo gênero. Nossas escolhas afetam os outros e eles tem o direito de manifestar seu entusiasmo, seu apoio, sua aceitação ou sua inconformidade. Além disso, quantas vezes alguém respondeu um elogio dizendo “Sua opinião não me interessa. Guarde-a para si mesmo. Você está sendo invasivo”. Nunca, não é? Portanto, não é o comentário “invasivo” sobre suas cirurgias plásticas ou transformações: é a crítica, a inconformidade, e o fato de expor publicamente que não gostou dos resultados.

Sim, existem muitos “Juízes de Internet”, mas sejamos francos, quem não é? Quem aqui nunca julgou Lula ou Bolsonaro na rede social, inclusive usando do recurso do deboche, da sátira, do escárnio ou da ironia? Quer dizer então que não devemos julgar nada ou ninguém? Ou não devemos julgar apenas atrizes bonitinhas, frágeis, ingênuas e sensíveis – pelos menos assim se apresentam – para que não se sintam tristes? Ora, se eu fosse mulher me sentiria ofendida por acreditarem que a minha condição de mulher me impede de ser criticada, por ser frágil demais para suportar comentários negativos.

Sim, a defesa automática das mulheres é geralmente misógina, porque aposta na fraqueza e na infantilidade delas, que assim precisam ser protegidas das mesmas críticas que, de forma cotidiana, fazemos a qualquer homem na confiança de que ele vai suportar as críticas e responder de forma firme e autônoma.

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Torcedor

Criança: paiê, compra aquele brinquedo!!
Pai: não tenho dinheiro.
Criança: não precisa, passa o cartão.
Torcedor: presidente, compra aquele jogador!
Presidente: não há dinheiro.
Torcedor: não precisa, passa o cartão.

Torcedores são como crianças exigindo que o papai lhes ofereça o deleite de suas fantasias. Na condição de aficionados pelo nosso clube, agimos como garotinhos buscando a satisfação de nossos desejos sem perceber o custo implicado nessa tarefa. “Ora, os adultos que se virem para me garantir o que mereço”. Em verdade, muito mais chocante que a revelação da sexualidade infantil é a demonstração cotidiana da infantilidade renitente dos adultos. Por mais que venhamos a crescer, existem resquícios da nossa infância que não desaparecem jamais, tamanho o apego que devotamos ao nosso universo psíquico, infantil e dependente.

Esse é o grande dilema do futebol, na perspectiva do torcedor: para torcer por seu time é necessário abrir mão da razão e mergulhar de olhos fechados na absoluta irracionalidade das paixões. Por isso aceitamos o pagamento absurdo e doentio dado aos jogadores, tratados como príncipes, milionários e mimados. Por isso oferecemos aos jogadores tanto poder. Mas não apenas garantimos esta distinção a eles, como tambem para toda a legião de profissionais que vivem às custas dessa neurose coletiva, como comentaristas, repórteres, analistas, influenciadores, etc.

É por estas razões que qualquer sinal de racionalidade e bom senso no trato com as coisas da bola é visto como um ato perigoso, pois que toda a indústria do futebol se assenta sobre um personagem que precisa ser necessariamente impulsivo e infantil: o torcedor. Hoje, o futebol moderno aos poucos expulsa o sujeito comum das coisas do futebol. Não vai mais aos estádios, não compra a camisa oficial do clube e sequer convive com seus ídolos, escondidos em condomínios de luxo afastados da cidade. Agora o torcedor é buscado nas redes sociais, no Twitter, no Instagram, Facebook, etc. A respeito disso, há poucos dias vi uma discussão entre dois jogadores no fim de uma partida onde o xingamento utilizado, ao invés do tradicional filho da p*ta foi:

– Quem é você? Você nem tem seguidores!!!

Não importa se tem gols, defesas, campeonatos vencidos e taças erguidas. No futebol moderno – e no mundo dos boleiros – vale quem tem mais seguidores. Estes são os novos “torcedores”, mas não veja isso como um avanço; estes também precisam ser igualmente irracionais.

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Senectude – ou Crepúsculo

Chega um tempo em que a fragilidade dos corpos nos obriga a abrir mão de um dos bens mais preciosos: a autonomia, valor que tanto exaltamos quando tratamos dos direitos humanos mais elementares. Todavia, em algum momento da existência precisaremos deixar a autonomia em nome da manutenção da própria vida. Esse é um tema que percorre a vida de quase todos, e eu mesmo passei isso com meus avós paternos e minha mãe. Em um determinado momento nossos familiares – em especial os avós e depois os pais – perdem sua independência e sua autonomia em função da fraqueza, de alguma doença, da idade avançada ou das perdas cognitivas. A forma de reagir a esta situação é variável, mas ela estará inscrita nos detalhes de toda a vida pregressa de quem envelhece, e por isso é muitas vezes possível prever como cada um lidará com este evento.

Muitos, como meu avô, lutaram contra a inexorabilidade da sua dependência; resistiu o quanto pode, mas foi literalmente carregado à força para fora de casa. Outros, como minhas avós, minha mãe e minha sogra, aceitaram de forma mais tranquila, como se esta passagem fosse uma parte natural da vida – alguém cuidaria delas como elas cuidaram de tantos durante suas vidas.

Talvez aqui seja possível estabelecer uma diferença essencial entre a vivência da senescência para os homens e para as mulheres, mesmo sabendo que esta vivência será sempre única e pessoal. Para os homens a perda da autonomia é muitas vezes vista como um golpe mortal em seu amor próprio. Retire-o de seu domínio e ele se tornará vulnerável, fraco e impotente. Por seu turno, muitas mulheres (todas da minha família) se comportam de forma dócil e aceitam o fato de que, em algum momento, é chegada a hora de serem cuidadas e amparadas, da mesma forma como o destino determinou que cuidassem de tantos filhos e netos. Já meu pai sempre disse que não aceitaria os cuidados de ninguém. Deixou isso claro quando ficou viúvo aos 90 anos e não aceitou se mudar para a casa de qualquer um dos filhos. Quando, por fim, adoeceu, morreu muito rápido, sem se submeter à “tortura” de viver sob os cuidados de alguém. Antes dele meu avô, por sua vez, xingou, sapateou e nunca perdoou meu pai por tê-lo retirado de sua casa, mesmo quando sequer conseguia se mover. Nunca aceitou “viver de favores”.

Para o homem sua casa é seu mundo, e de minha parte, já reconheço de que material sou feito. Portanto, não tenho dúvida alguma de que também vou resistir até onde tiver força. Viver sob o cuidado alheio é humilhante para quem sempre valorizou a liberdade e a autodeterminação.

Algum momento, entretanto, haverá em que alguém chegará ao meu ouvido e dirá: “Pai, não dá mais. Chega. Não vamos aceitar ver você sofrendo por este orgulho insano. Você terá que sair de onde está e ficar sob os nossos cuidados”. Nesse momento eu saberei que não tenho como me defender e, mesmo resistindo, serei obrigado a aceitar. Diante desse destino inescapável, eu já me preparo para perdoar meus filhos e netos pela palavras duras que sei que vou ouvir; é melhor fazer isso enquanto ainda existe lucidez suficiente. Aceitar o declínio da vida é preparar-se lentamente para a morte. Antes mesmo, quando percebemos nossa sutil e crescente desimportância na tessitura da vida, já é o momento de compreender que estas são as suas sábias regras, e que cabe tão somente aceitar o quinhão que a nós é determinado.

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Ilusão

Ilusão, ilusão, veja as coisas como elas são… (Chico Buarque)

“Ahhh, mas ela veste o que quiser e ninguém tem nada a ver com isso”.

Acreditar que uma mulher (mas poderia ser um homem nu) se “veste para si mesma” é uma das mais antigas formas de auto ilusão. Não vivemos isolados em ilhas. Talvez Robinson Crusoé ou o náufrago Tom Hanks de “Cast Away” tivessem essa atitude, mas não nós, seres sociais. Roupa é linguagem, é metáfora, é simbólica; é a vestimenta que, ao mesmo tempo que nos esconde e nos interdita ao olhar do outro, desvela nossos conteúdos internos através de códigos sutis. Também muitos dizem que críticas sobre as roupas não caberiam aos outros (em especial os homens), pois que ninguém pode impedir que uma mulher use o que bem entender – o que seria igualmente falso, mas pelo menos não negaria os elementos eróticos das roupas que usamos para cobrir – e revelar – nossos desejos.

A ninguém é dado o direito de ir ao trabalho vestindo apenas cuecas ou de biquíni, sequer dar uma aula de sutiã e calcinha. Ou seja: existe um “dress code” que deve ser obedecido, o qual será determinado pela cultura onde estamos inseridos. Essa história sobre “ela veste o que quiser” todos sabemos que não é verdade; é apenas slogan, palavras de ordem, pois que homens e mulheres obedecem a fatores externos à sua vontade para se vestirem; ninguém é plenamente dono do que veste sobre o corpo. E está certo quem diz que as roupas servem para sequestrar o olhar. São para isso mesmo, para seduzir, exaltar virtudes – quadris, ombros, tórax, seios, lábios – que reforçam os aspectos eróticos do corpo. Essa “inocência” no uso das roupas é falsa; somos todos mamíferos eróticos e entendemos o quanto nosso corpo pode ser um foco de desejo ao olhar alheio.

As outras pessoas são espelhos do impacto que causamos nelas. Escutei há muitos anos uma história do Sartre bem interessante sobre o tema. Certa vez, ao caminhar por um boulevard em Paris, comentou com o amigo que o acompanhava: “Que linda essa mulher que está uns passos atrás de nós”, ao que o amigo lhe respondeu: “Como sabe que é linda se está atrás de nós?“, ao que Sartre sorrindo respondeu “Ora, basta observar o olhar dos homens para ela quando caminham em nossa direção”. Sartre percebeu o impacto que ela – seu corpo e a extensão dele, a roupa – fazia nos homens que tinham a feliz experiência de cruzar o seu caminho.

Na escola aprendi um velho adágio inglês que dizia “There´s more to clothes than to keep warm”; ou seja, existem muito mais nas roupas do que o simples desejo de se aquecer. Elas são acessórios do erotismo humano, e ninguém as usa impunemente. Sim, é sedutor usar a bandeira da liberdade de se vestir, mas é injusto acreditar que a única razão para cobrir a pele da forma como deseja não seja exatamente estimular o desejo em quem nos vê. E essa consciência não significa que devemos voltar a uma forma arcaica de “decência” e pudor, obstaculizando essa livre expressão libidinal, mas pelo menos deveria impedir a ingenuidade de afirmar que alguém se veste a despeito do impacto que causa nos outros. Pessoas são seres de erotismo, e não há nada em nossas ações que não esteja carregado dessa força atrativa.

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Modelos

Há alguns anos recebi a ligação de uma amiga no meio da noite. Dizia ela, com voz carregada de angústia:

– Você não vai acreditar: Fulana e Sicrano se separaram. Estou em choque. Como puderam fazer isso. Acho que nem na minha própria paração fiquei tão abalada.

O casal de quem ela falava era conhecido por nós dois. Uma dupla se pessoas jovens, bonitas, inteligentes e de sucesso. Eram eles, para muitos que compartilhavam de sua amizade, um modelo de relacionamento. Curiosamente, apesar de acreditar ser um exagero da minha amiga, eu também fiquei chocado com a notícia inesperada, e passei muito tempo tentando entender as razões da minha (nossa) inconformidade.

O fato de servirem de “modelo” de relacionamento deveria ter me indicado a resposta. Aliás, eu acho curioso quando as pessoas exaltam os casamentos, em especial quando elogiam os relacionamentos longos. Talvez seja pela raridade, pelo inusitado em nossos tempos de amores fluidos ou quem sabe porque eles sinalizam valores especiais como paciência, resiliência, sabedoria e amor.

Na verdade, eu não vejo nenhum valor moral especial nessas relações duradouras. Gente casada há muito tempo não é melhor – e nem pior – do que gente que troca constantemente de parceria. Conheci monstros monogâmicos, como Dan Mitrione, policial americano, agente do FBI e conselheiro das ditaduras militares da América Latina. Esse agente agiu aqui na década de 1960, colaborando com os militares de Brasil e Uruguai, oferecendo a eles aulas práticas de tortura. Era casado, frequentava a igreja toda semana e tinha 9 filhos. Um homem aparentemente exemplar, ancorado por um casamento sólido. Foi executado pela guerrilha de resistência. Por esse singelo exemplo fica claro que a imagem externa das relações amorosas não garante nenhuma qualidade intrínseca aos sujeitos. É possível ser um libertino e ter um profundo respeito pelo outro, e o mais monástico casal pode esconder em sua intimidade perversidades inimagináveis.

Claro, eu acho que casamentos que se mantém (com laços amorosos, não apenas formais) têm vantagens, especialmente para a criação dos filhos e para a vida econômica do casal. Mas não creio que estes valores possam ser usados para manter relações tóxicas. Na verdade, eu creio que os casamentos de “sucesso” oferecem às pessoas o mesmo alívio que as crianças obtêm ao observar os adultos. Para o turbilhão de angústia que caracteriza a infância, a existência de adultos demonstra a elas que é possível suportar e resistir às agruras de crescer. Os filhos olham para os adultos – em especial os pais – cheios de esperança de que a dor de crescer venha a amainar com o passar do tempo. Os pais carregam uma possibilidade de futuro, e garantem aos filhos a perspectiva de sobreviver à tempestade da infância.

Da mesma forma, os casais iniciantes olham para os casais mais antigos com este mesmo tipo de esperança. Desejam que as dificuldades de manter uma relação amorosa sejam, por fim, ultrapassadas, e que sobrevenha uma calmaria de amor e entendimento. Foi por isso que ficamos tão impactados com a separação do “casal modelo”: de uma maneira inconsciente, esta separação nos roubava um pouco do sonho de vencer nossas próprias dificuldades.

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Empatia e Bondade

Diz-se que a forma mais rebuscada de empatia é fingir não ter visto algo para não constranger a pessoa. Muito fiz isso, mas acho que esse sentimento merece uma análise mais fria.

Eu questiono que a motivação para essa atitude seja simplesmente a empatia. Muitas vezes fingimos não ver um malfeito apenas para nos livrarmos do enorme constrangimento de compartilhar com alguém algo condenável ou embaraçoso. Ao fingir não ver, você está livrando a ambos da necessidade de reconhecer e debater sobre o que ocorreu. Desta forma, quando fazemos isso é mais para nos livrar da situação embaraçosa do que por empatia ou caridade. Ou seja, há bastante de egoísmo nesta ação, talvez até mais do que bondade.

O mesmo ocorre quando damos um presente. Acredito que há mais desejo de satisfação pelo agradecimento que se segue do que a legítima e desinteressada alegria de presentear. Por isso é que quando damos a alguém um “mimo” e esta pessoa não agradece na medida que esperamos, o chamamos de “ingrato” ou “mal-agradecido”, porque o agradecimento (efusivo e explícito) fazia parte da negociação desde o princípio.

Minha análise se debruça sobre a observação crua e sem condescendência sobre as motivações inconscientes que nos levam a praticar atos de caridade, seja uma ajuda humanitária ou um simples presente oferecido à uma criança. À luz das evidências, sobre estes fatos simples se inserem outras razões, mais profundas e inconscientes. Existe um componente egoístico inerente a todas estas atitudes e comportamentos, mas a vaidade nos impede de enxergar e reconhecer tais motivações.

Entretanto, a senda de crescimento pessoal passa pela necessidade de reconhecer nossas facetas menos nobres, ao mesmo tempo que nos oferece a sabedoria para depurar o quanto de auto exaltação buscamos nestas ofertas.

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Plágio

A presidente de Harvard Claudine Gay foi acusada de “plágio” em sua produção científica, sendo levada a renunciar sua posição na instituição. Primeira mulher negra a assumir a presidência da Universidade mais prestigiosa do mundo, sua retirada ocorreu logo após ter abraçado a defesa da Palestina contra os ataques genocidas de Israel na Faixa de Gaza. É claro que o fato de ser uma mulher negra e apoiar a Palestina não influenciou na investigação que foi feita contra ela. Imagina…

Por outro lado, se você quiser ferrar com alguém do mundo acadêmico, basta investigar sua produção científica. Eu garanto: é impossível não que não encontrem arestas deste tipo na história e na produção pessoal de qualquer um. Acusações de plágio são muito comuns no meio acadêmico, e são coisas fáceis de usar contra desafetos. Nós vimos este tipo de ataque sendo feito há alguns anos aqui mesmo no Brasil em relação ao ex-juiz Moro e sua tese de doutoramento, e até mesmo com o Alexandre de Moraes. Isso porque, se você analisar trabalhos acadêmicos (teses e dissertações) com uma lupa, analisando todos os detalhes e as “letras miúdas” em meio a centenas ou milhares de páginas, poderá encontrar uma falha – intencional ou não – sobre a citação adequada de um autor ou a falta dela nos créditos. Mesmo aqui no Facebook, quem pode garantir que nunca escreveu algo que já havia sido escrito, quase da mesma forma, por outra pessoa?

Assim, com este tipo de acusação sendo utilizada ao sabor dos ventos, qualquer um pode ser vítima de vinganças e ataques violentos. Esses trabalhos são o calcanhar de Aquiles de muita gente no mundo universitário. Como dizia Napoleão Bonaparte, “São tantas as leis que nenhum cidadão está livre de ser enforcado”. Ou seja, são tantas as fissuras inevitáveis na criação do pensamento e da escrita que ninguém pode estar seguro de que não será atacado por alguma falha, dependendo dos interesses que existam para destruir a carreira de um pensador inconveniente. O plágio de Claudine Gay muito provavelmente é o apartamento triplex de Lula no Guarujá; da mesma forma, é possível que em alguns anos ela seja inocentada, mas aí o estrago já terá sido feito.

Moro e Alexandre jamais tiveram suas carreiras prejudicadas pelas acusações que surgiram contra seus trabalhos acadêmicos, exatamente porque serviam – com louvor – ao sistema. Por um minuto apenas, pensem como seria tratado um petista com estas mesmas acusações. Já a presidente de Harvard foi defenestrada porque passou a ser vista como alguém que atrapalhava a tirania sionista da sociedade americana. O que causa escândalo (mas não surpresa) é ver que o mito da “liberdade de expressão” tão celebrada pelos americanos e seus admiradores, está ruindo aos olhos de todos, mostrando que a democracia liberal americana é uma farsa sustentada apenas por propaganda e força bruta. Ou seja: qualquer um que ouse chamar os Estados Unidos de uma democracia onde imperam a liberdade de expressão e o estado democrático de direito está condenado ao ridículo e à humilhação pública.

A direita e a “esquerda” americanas agora se debatem sobre o fato e trocam acusações sobre as “reais razões” para a demissão de Claudine Gay. De um lado os conservadores celebram sua demissão por ser uma mulher representativa da “teoria racial crítica” e, do outro, os identitários acusam a manobra como sendo racista, já que Claudine foi a primeira mulher negra a presidir a mais rica universidade americana. Por trás desse debate, os sionistas – que estão presentes tanto entre os liberais quanto entre os trumpistas – estão dando gargalhadas e comemorando o combate, porque esta é uma vitória do poder econômico para silenciar qualquer crítica ao estado terrorista de Israel.

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Futebol, arte e imagem

Nesta época do ano os clubes de futebol no Brasil fazem as principais contratações para a temporada. Com a injeção que as Ligas recém criadas estão fazendo no futebol, alguns clubes receberam somas muito grandes de dinheiro referentes aos direitos de televisionamento. Com isso, para as estrelas que devem chegar, são prometidos salários inacreditáveis como 2 milhões de reais mensais, ou o salário de quase 2 mil trabalhadores. Eu sei: paga quem quer, ninguém é obrigado a consumir. Entretanto, as somas são impressionantes, e sempre me fazem lembrar da “Febre das Tulipas”.

Este fenômeno merece uma consideração. Por que tanto dinheiro investido em futebolistas? Pagar 2 milhões mensais para jogadores medíocres (ou seja, comuns) é a medida justa da nossa neurose, e o quanto o capitalismo, ao nos sonegar o sonho da riqueza e do sucesso, nos faz gozar através do sucesso alheio. A glorificação de jogadores de futebol, mas também do tênis, golfe, xadrez, basquete, basebol assim como antigamente o foram os gladiadores e esportistas de todo tipo, mostra que usamos destes artifícios – o circo – para anestesiar o sujeito comum, oferecendo a ele uma felicidade tão fugaz quanto alienante, já que o sistema o mantém alijado de conquistas próprias. “Você continuará um inútil, pobre e medíocre, mas seu time será campeão e seu ídolo vai conquistar as mulheres (ou os homens) que você tanto sonha”.

Aliás, li agora mesmo que o ator “exilado” em Portugal Pedro Cardoso escreveu algo na mesma linha ao dizer que se vende muito mais Beyoncé do que Tracy Chapman. Apesar de preferir a cantora de “Fast Car” à intérprete de “All the Single Ladies”, ele reconhece que Beyoncé vende muito além do que apenas sua música. Ela expõe sua vida pessoal, sua vida sexual, seu casamento, suas posses, seus perfumes e produtos, suas fofocas (ela recentemente “trocou de cor”) e seu cotidiano incrível de mulher milionária. Ela faz parte do pequeno e seleto universo de mulheres tão etéreas que sequer fazem cocô…. apenas sublimam.

Já a Tracy Chapman vende apenas arte, e através dela, seu modo especial de ver o mundo. Ela lança sobre o mundo seu olhar cheio de poesia e crítica social. Quem realmente se importa? Para quem consome o “pacote celebridade” este é um produto muito menos valorado. “Sim, mas não tem um escândalo, um “bafão”, um namoro secreto, um divórcio milionário?”Não – diz ela constrangida, apenas a minha arte, música, minha sonoridade. Desculpe” . Sim, nós não queremos arte. Queremos a gloriosa projeção que o artista nos oferece, sua fortuna, suas lágrimas, seu prêmios, sua vida fantasiosa de glamour. Queremos a vida dela, não seu olhar sobre a vida. Queremos ela, não sua arte.

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