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Ilusão

Ilusão, ilusão, veja as coisas como elas são… (Chico Buarque)

“Ahhh, mas ela veste o que quiser e ninguém tem nada a ver com isso”.

Acreditar que uma mulher (mas poderia ser um homem nu) se “veste para si mesma” é uma das mais antigas formas de auto ilusão. Não vivemos isolados em ilhas. Talvez Robinson Crusoé ou o náufrago Tom Hanks de “Cast Away” tivessem essa atitude, mas não nós, seres sociais. Roupa é linguagem, é metáfora, é simbólica; é a vestimenta que, ao mesmo tempo que nos esconde e nos interdita ao olhar do outro, desvela nossos conteúdos internos através de códigos sutis. Também muitos dizem que críticas sobre as roupas não caberiam aos outros (em especial os homens), pois que ninguém pode impedir que uma mulher use o que bem entender – o que seria igualmente falso, mas pelo menos não negaria os elementos eróticos das roupas que usamos para cobrir – e revelar – nossos desejos.

A ninguém é dado o direito de ir ao trabalho vestindo apenas cuecas ou de biquíni, sequer dar uma aula de sutiã e calcinha. Ou seja: existe um “dress code” que deve ser obedecido, o qual será determinado pela cultura onde estamos inseridos. Essa história sobre “ela veste o que quiser” todos sabemos que não é verdade; é apenas slogan, palavras de ordem, pois que homens e mulheres obedecem a fatores externos à sua vontade para se vestirem; ninguém é plenamente dono do que veste sobre o corpo. E está certo quem diz que as roupas servem para sequestrar o olhar. São para isso mesmo, para seduzir, exaltar virtudes – quadris, ombros, tórax, seios, lábios – que reforçam os aspectos eróticos do corpo. Essa “inocência” no uso das roupas é falsa; somos todos mamíferos eróticos e entendemos o quanto nosso corpo pode ser um foco de desejo ao olhar alheio.

As outras pessoas são espelhos do impacto que causamos nelas. Escutei há muitos anos uma história do Sartre bem interessante sobre o tema. Certa vez, ao caminhar por um boulevard em Paris, comentou com o amigo que o acompanhava: “Que linda essa mulher que está uns passos atrás de nós”, ao que o amigo lhe respondeu: “Como sabe que é linda se está atrás de nós?“, ao que Sartre sorrindo respondeu “Ora, basta observar o olhar dos homens para ela quando caminham em nossa direção”. Sartre percebeu o impacto que ela – seu corpo e a extensão dele, a roupa – fazia nos homens que tinham a feliz experiência de cruzar o seu caminho.

Na escola aprendi um velho adágio inglês que dizia “There´s more to clothes than to keep warm”; ou seja, existem muito mais nas roupas do que o simples desejo de se aquecer. Elas são acessórios do erotismo humano, e ninguém as usa impunemente. Sim, é sedutor usar a bandeira da liberdade de se vestir, mas é injusto acreditar que a única razão para cobrir a pele da forma como deseja não seja exatamente estimular o desejo em quem nos vê. E essa consciência não significa que devemos voltar a uma forma arcaica de “decência” e pudor, obstaculizando essa livre expressão libidinal, mas pelo menos deveria impedir a ingenuidade de afirmar que alguém se veste a despeito do impacto que causa nos outros. Pessoas são seres de erotismo, e não há nada em nossas ações que não esteja carregado dessa força atrativa.

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Modelos

Há alguns anos recebi a ligação de uma amiga no meio da noite. Dizia ela, com voz carregada de angústia:

– Você não vai acreditar: Fulana e Sicrano se separaram. Estou em choque. Como puderam fazer isso. Acho que nem na minha própria paração fiquei tão abalada.

O casal de quem ela falava era conhecido por nós dois. Uma dupla se pessoas jovens, bonitas, inteligentes e de sucesso. Eram eles, para muitos que compartilhavam de sua amizade, um modelo de relacionamento. Curiosamente, apesar de acreditar ser um exagero da minha amiga, eu também fiquei chocado com a notícia inesperada, e passei muito tempo tentando entender as razões da minha (nossa) inconformidade.

O fato de servirem de “modelo” de relacionamento deveria ter me indicado a resposta. Aliás, eu acho curioso quando as pessoas exaltam os casamentos, em especial quando elogiam os relacionamentos longos. Talvez seja pela raridade, pelo inusitado em nossos tempos de amores fluidos ou quem sabe porque eles sinalizam valores especiais como paciência, resiliência, sabedoria e amor.

Na verdade, eu não vejo nenhum valor moral especial nessas relações duradouras. Gente casada há muito tempo não é melhor – e nem pior – do que gente que troca constantemente de parceria. Conheci monstros monogâmicos, como Dan Mitrione, policial americano, agente do FBI e conselheiro das ditaduras militares da América Latina. Esse agente agiu aqui na década de 1960, colaborando com os militares de Brasil e Uruguai, oferecendo a eles aulas práticas de tortura. Era casado, frequentava a igreja toda semana e tinha 9 filhos. Um homem aparentemente exemplar, ancorado por um casamento sólido. Foi executado pela guerrilha de resistência. Por esse singelo exemplo fica claro que a imagem externa das relações amorosas não garante nenhuma qualidade intrínseca aos sujeitos. É possível ser um libertino e ter um profundo respeito pelo outro, e o mais monástico casal pode esconder em sua intimidade perversidades inimagináveis.

Claro, eu acho que casamentos que se mantém (com laços amorosos, não apenas formais) têm vantagens, especialmente para a criação dos filhos e para a vida econômica do casal. Mas não creio que estes valores possam ser usados para manter relações tóxicas. Na verdade, eu creio que os casamentos de “sucesso” oferecem às pessoas o mesmo alívio que as crianças obtêm ao observar os adultos. Para o turbilhão de angústia que caracteriza a infância, a existência de adultos demonstra a elas que é possível suportar e resistir às agruras de crescer. Os filhos olham para os adultos – em especial os pais – cheios de esperança de que a dor de crescer venha a amainar com o passar do tempo. Os pais carregam uma possibilidade de futuro, e garantem aos filhos a perspectiva de sobreviver à tempestade da infância.

Da mesma forma, os casais iniciantes olham para os casais mais antigos com este mesmo tipo de esperança. Desejam que as dificuldades de manter uma relação amorosa sejam, por fim, ultrapassadas, e que sobrevenha uma calmaria de amor e entendimento. Foi por isso que ficamos tão impactados com a separação do “casal modelo”: de uma maneira inconsciente, esta separação nos roubava um pouco do sonho de vencer nossas próprias dificuldades.

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Empatia e Bondade

Diz-se que a forma mais rebuscada de empatia é fingir não ter visto algo para não constranger a pessoa. Muito fiz isso, mas acho que esse sentimento merece uma análise mais fria.

Eu questiono que a motivação para essa atitude seja simplesmente a empatia. Muitas vezes fingimos não ver um malfeito apenas para nos livrarmos do enorme constrangimento de compartilhar com alguém algo condenável ou embaraçoso. Ao fingir não ver, você está livrando a ambos da necessidade de reconhecer e debater sobre o que ocorreu. Desta forma, quando fazemos isso é mais para nos livrar da situação embaraçosa do que por empatia ou caridade. Ou seja, há bastante de egoísmo nesta ação, talvez até mais do que bondade.

O mesmo ocorre quando damos um presente. Acredito que há mais desejo de satisfação pelo agradecimento que se segue do que a legítima e desinteressada alegria de presentear. Por isso é que quando damos a alguém um “mimo” e esta pessoa não agradece na medida que esperamos, o chamamos de “ingrato” ou “mal-agradecido”, porque o agradecimento (efusivo e explícito) fazia parte da negociação desde o princípio.

Minha análise se debruça sobre a observação crua e sem condescendência sobre as motivações inconscientes que nos levam a praticar atos de caridade, seja uma ajuda humanitária ou um simples presente oferecido à uma criança. À luz das evidências, sobre estes fatos simples se inserem outras razões, mais profundas e inconscientes. Existe um componente egoístico inerente a todas estas atitudes e comportamentos, mas a vaidade nos impede de enxergar e reconhecer tais motivações.

Entretanto, a senda de crescimento pessoal passa pela necessidade de reconhecer nossas facetas menos nobres, ao mesmo tempo que nos oferece a sabedoria para depurar o quanto de auto exaltação buscamos nestas ofertas.

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Plágio

A presidente de Harvard Claudine Gay foi acusada de “plágio” em sua produção científica, sendo levada a renunciar sua posição na instituição. Primeira mulher negra a assumir a presidência da Universidade mais prestigiosa do mundo, sua retirada ocorreu logo após ter abraçado a defesa da Palestina contra os ataques genocidas de Israel na Faixa de Gaza. É claro que o fato de ser uma mulher negra e apoiar a Palestina não influenciou na investigação que foi feita contra ela. Imagina…

Por outro lado, se você quiser ferrar com alguém do mundo acadêmico, basta investigar sua produção científica. Eu garanto: é impossível não que não encontrem arestas deste tipo na história e na produção pessoal de qualquer um. Acusações de plágio são muito comuns no meio acadêmico, e são coisas fáceis de usar contra desafetos. Nós vimos este tipo de ataque sendo feito há alguns anos aqui mesmo no Brasil em relação ao ex-juiz Moro e sua tese de doutoramento, e até mesmo com o Alexandre de Moraes. Isso porque, se você analisar trabalhos acadêmicos (teses e dissertações) com uma lupa, analisando todos os detalhes e as “letras miúdas” em meio a centenas ou milhares de páginas, poderá encontrar uma falha – intencional ou não – sobre a citação adequada de um autor ou a falta dela nos créditos. Mesmo aqui no Facebook, quem pode garantir que nunca escreveu algo que já havia sido escrito, quase da mesma forma, por outra pessoa?

Assim, com este tipo de acusação sendo utilizada ao sabor dos ventos, qualquer um pode ser vítima de vinganças e ataques violentos. Esses trabalhos são o calcanhar de Aquiles de muita gente no mundo universitário. Como dizia Napoleão Bonaparte, “São tantas as leis que nenhum cidadão está livre de ser enforcado”. Ou seja, são tantas as fissuras inevitáveis na criação do pensamento e da escrita que ninguém pode estar seguro de que não será atacado por alguma falha, dependendo dos interesses que existam para destruir a carreira de um pensador inconveniente. O plágio de Claudine Gay muito provavelmente é o apartamento triplex de Lula no Guarujá; da mesma forma, é possível que em alguns anos ela seja inocentada, mas aí o estrago já terá sido feito.

Moro e Alexandre jamais tiveram suas carreiras prejudicadas pelas acusações que surgiram contra seus trabalhos acadêmicos, exatamente porque serviam – com louvor – ao sistema. Por um minuto apenas, pensem como seria tratado um petista com estas mesmas acusações. Já a presidente de Harvard foi defenestrada porque passou a ser vista como alguém que atrapalhava a tirania sionista da sociedade americana. O que causa escândalo (mas não surpresa) é ver que o mito da “liberdade de expressão” tão celebrada pelos americanos e seus admiradores, está ruindo aos olhos de todos, mostrando que a democracia liberal americana é uma farsa sustentada apenas por propaganda e força bruta. Ou seja: qualquer um que ouse chamar os Estados Unidos de uma democracia onde imperam a liberdade de expressão e o estado democrático de direito está condenado ao ridículo e à humilhação pública.

A direita e a “esquerda” americanas agora se debatem sobre o fato e trocam acusações sobre as “reais razões” para a demissão de Claudine Gay. De um lado os conservadores celebram sua demissão por ser uma mulher representativa da “teoria racial crítica” e, do outro, os identitários acusam a manobra como sendo racista, já que Claudine foi a primeira mulher negra a presidir a mais rica universidade americana. Por trás desse debate, os sionistas – que estão presentes tanto entre os liberais quanto entre os trumpistas – estão dando gargalhadas e comemorando o combate, porque esta é uma vitória do poder econômico para silenciar qualquer crítica ao estado terrorista de Israel.

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Futebol, arte e imagem

Nesta época do ano os clubes de futebol no Brasil fazem as principais contratações para a temporada. Com a injeção que as Ligas recém criadas estão fazendo no futebol, alguns clubes receberam somas muito grandes de dinheiro referentes aos direitos de televisionamento. Com isso, para as estrelas que devem chegar, são prometidos salários inacreditáveis como 2 milhões de reais mensais, ou o salário de quase 2 mil trabalhadores. Eu sei: paga quem quer, ninguém é obrigado a consumir. Entretanto, as somas são impressionantes, e sempre me fazem lembrar da “Febre das Tulipas”.

Este fenômeno merece uma consideração. Por que tanto dinheiro investido em futebolistas? Pagar 2 milhões mensais para jogadores medíocres (ou seja, comuns) é a medida justa da nossa neurose, e o quanto o capitalismo, ao nos sonegar o sonho da riqueza e do sucesso, nos faz gozar através do sucesso alheio. A glorificação de jogadores de futebol, mas também do tênis, golfe, xadrez, basquete, basebol assim como antigamente o foram os gladiadores e esportistas de todo tipo, mostra que usamos destes artifícios – o circo – para anestesiar o sujeito comum, oferecendo a ele uma felicidade tão fugaz quanto alienante, já que o sistema o mantém alijado de conquistas próprias. “Você continuará um inútil, pobre e medíocre, mas seu time será campeão e seu ídolo vai conquistar as mulheres (ou os homens) que você tanto sonha”.

Aliás, li agora mesmo que o ator “exilado” em Portugal Pedro Cardoso escreveu algo na mesma linha ao dizer que se vende muito mais Beyoncé do que Tracy Chapman. Apesar de preferir a cantora de “Fast Car” à intérprete de “All the Single Ladies”, ele reconhece que Beyoncé vende muito além do que apenas sua música. Ela expõe sua vida pessoal, sua vida sexual, seu casamento, suas posses, seus perfumes e produtos, suas fofocas (ela recentemente “trocou de cor”) e seu cotidiano incrível de mulher milionária. Ela faz parte do pequeno e seleto universo de mulheres tão etéreas que sequer fazem cocô…. apenas sublimam.

Já a Tracy Chapman vende apenas arte, e através dela, seu modo especial de ver o mundo. Ela lança sobre o mundo seu olhar cheio de poesia e crítica social. Quem realmente se importa? Para quem consome o “pacote celebridade” este é um produto muito menos valorado. “Sim, mas não tem um escândalo, um “bafão”, um namoro secreto, um divórcio milionário?”Não – diz ela constrangida, apenas a minha arte, música, minha sonoridade. Desculpe” . Sim, nós não queremos arte. Queremos a gloriosa projeção que o artista nos oferece, sua fortuna, suas lágrimas, seu prêmios, sua vida fantasiosa de glamour. Queremos a vida dela, não seu olhar sobre a vida. Queremos ela, não sua arte.

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O Mais Temido

Por qual razão as torcidas de fora do Rio Grande do Sul historicamente consideram que o Grêmio é o time mais difícil, mais aguerrido, mais temido e aquele que mais deve ser evitado?

Existem várias formas de explicar este fato, a maioria delas clubista. Entretanto, vou deixar aqui a minha teoria, que acredito ser a menos enviesada: nosso coirmão, o Internacional, nunca fez festa na casa alheia, com exceção dos campeonatos regionais. Todos os campeonatos acima do Mampituba (divisa entre o Rio Grande do Sul e Santa Catarina) vencidos pelo Colorado foram com a volta olímpica sendo realizada em seu próprio estádio. Os três campeonatos brasileiros da série A foram vencidos no Beira Rio (Cruzeiro, Corinthians e Vasco) nos anos 70, assim como as duas Copas Libertadores. A sul-americana idem. O mundial não conta, porque hoje em dia ele é realizado em estádio neutro. Além disso, as duas Copas Libertadores do Internacional foram, respectivamente, contra um time brasileiro (São Paulo) e um time mexicano (o Chivas Guadalajara), o que não melhora o cartaz entre os clubes sul-americanos e não produz a imagem de clube guerreiro, ameaçador, imbatível e “imortal” entre as torcidas da América Latina.

Por seu turno, o Grêmio tem vários campeonatos vencidos fora de sua casa, fazendo festa nos domínios do adversário inúmeras vezes – e de forma épica. Isso marca muito a imagem do clube fora de suas fronteiras. Temos 5 copas do Brasil, sendo que duas delas ganhamos contra os times de maior torcida do Brasil, fora do nosso estado e com estádios lotados: Flamengo de Romário e Corinthians de Marcelinho Carioca e Luxemburgo. Também fomos campeões brasileiros sobre o São Paulo de Valdir Perez e Serginho vencendo as duas partidas finais, sendo a grande final no Estádio Morumbi repleto. São derrotas “em casa” que os adversários jamais esquecem.

No âmbito da América, ganhamos 3 libertadores, duas dela na casa do inimigo: uma na Colômbia contra o Nacional de Higuita e outra contra o Lanús em Buenos Aires. Ou seja: fizemos a festa da América na casa “deles”, expondo a torcida adversária à dor de uma derrota em seus próprios domínios. A terceira foi no nosso estádio, mas contra o campeão do Mundo, o Peñarol de Fernando Morena. Desta forma, ganhamos 3 libertadores vencendo na final clubes das 3 maiores praças futebolísticas da América – além do Brasil: Uruguai, Argentina e Colômbia. Até nossa vitória no Brasileirão da série B foi fora do nosso estádio, e de forma épica: em Recife, contra o Náutico, na Batalha dos Aflitos, que o Brasil inteiro lembra como o feito mais heroico da história do futebol profissional. Também a falecida Copa Sul ganhamos em Curitiba, contra o Paraná Clube, jogando em seu estádio.

Ou seja: o Grêmio é o mais aguerrido dos clubes do Sul do Brasil e o adversário mais temido pelos “hermanos” dentre todos os clubes brasileiros da Libertadores. Essa fama – e o temor causados nos adversários – foi forjado porque criamos a imagem de um time guerreiro que não se intimida com a torcida adversária e por termos uma história de imortalidade. Ganhamos campeonatos importantes e de forma espetacular na casa dos nossos inimigos. Por isso quanto mais nos odeiam, mais nos admiram.

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Cancelado

A primeira vez que testemunhei esse fenômeno foi há uns 10 anos ao resolver comprar um produto pela Internet quando estava nos Estados Unidos. Recebi o produto pelo correio alguns poucos dias depois da compra e ele veio com um papel onde se lia algo como: “Se o produto tiver qualquer avaria avise-nos antes de fazer sua avaliação no site. Faremos o possível para resolver a questão e estaremos à disposição para ouvir sua reclamação. Não nos avalie negativamente antes de nos dar a chance de resolver seu problema”.

Percebi, pela primeira vez, o quanto valorizavam minha opinião, minha avaliação do produto e o que achei do atendimento. Eles preferiam mandar um produto novo – sem custos!! – do que lidar com uma avaliação negativa na seção de “comentários” da página. Ficou óbvio que uma avaliação muito negativa deveria afastar centenas de potenciais compradores. Imagine olhar os comentários antes de decidir comprar e ler: “Não compre. Quebrou em uma semana e não devolveram meu dinheiro”. Não há dúvida que manter o comprador satisfeito é a política mais segura. Para alguém que passou a vida inteira sem nenhuma alternativa depois de fazer uma compra, esse empoderamento súbito da minha perspectiva como comprador pareceu um milagre, o que foi possível com a popularização das compras on line. Pois naquele singelo bilhete eu estava, em verdade, vendo as primeiras manifestações de um fenômeno tão significativo quanto novo: o surgimento do sujeito solitário que expressa sua opinião sobre produtos publicamente, mas agora com inédita relevância.

Não há dúvida que o medo do comerciante gerou uma necessidade de melhorar os produtos e os serviços. Já fiz reclamações em compras da Amazon por envio errado de produtos cujo conserto por parte dos vendedores custou mais do que o próprio produto que comprei. Ficou evidente que uma avaliação mordaz e negativa poderia causar muito estrago. E não se trata de criticar a força que a ponta consumidora acabou ganhando, longe disso. Porém, outro fato se associou a este “novo poder” garantido ao comprador: não apenas os produtos passaram a ser avaliados, mas também as pessoas. A partir de então, as figuras públicas passaram a ser vistas e tratadas como produtos que consumimos nas redes sociais. Caso elas não cumprissem nossas expectativas, poderíamos usar da nova ferramenta social chamada “cancelamento“. A partir deste novo modelo de interação social, passamos a cancelar gente “à rodo”, pelas mais diferentes razões, mas em especial pelas escolhas políticas, as posturas morais, o comportamento, as manifestações públicas, etc. “Fez o L?”, cancelado. “Votou no Bozo?” cancelado. “Separou da mulher?”, você não vale mais nada. “Talaricou?”, você está fora. “Foi acusado de algo horrendo, como abuso sexual?” então você será destruído impiedosamente, sem direito a perdão, mesmo que no futuro se prove que era tudo mentira.

Nesse novo modelo, o trabalho das pessoas, sejam elas jogadores de futebol, cantores, pensadores, jornalistas, médicos, etc. passou a ser secundário à persona pública do sujeito. O que você faz é menos relevante do que o que parece ser. Hoje inclusive existem “gerentes de imagem”, funcionários que controlam tudo o que o sujeito pode dizer, de que lado deve se postar, se deve apoiar este ou aquele candidato, o que deve dizer sobre a Palestina, a Ucrânia, o aborto, as mulheres, o machismo, os gays, os negros, as trans, o sexo, etc. Isso determinou que hoje em dia nenhuma opinião é real e verdadeira; todas são, determinadas por aqueles que controlam a imagem do “influencer” e são moduladas pelo interesse dos fãs – que em última análise controlam como seus ídolos devem ser.

Hoje o cancelamento é uma adaga que balança sobre nossas cabeças. A mera suspeita de um malfeito não confirmado causou o cancelamento de PC Siqueira, sua depressão e posterior morte. A menina, sobre quem se criou uma série de mentiras sobre o namoro com um comediante, também não suportou a pressão das redes. Outros fizeram piadas que ofenderam identidades (ou identitários) e foram imediatamente cancelados. Calados, amordaçados, enviados para a “Zona Fantasma”, desapareceram ou foram destruídos, mandados para onde são jogados aqueles cuja opinião não podemos tolerar. Ninguém está livre de ser julgado e condenado pelo tribunal da redes, basta ter uma opinião contra-hegemônica.

Sequer estou me referindo à ação autoritária da justiça, que deseja “regular” as redes sociais para evitar “abusos”. Sobre isso o caso Monark (youtuber cancelado por dizer que era a favor da criação de qualquer partido, até mesmo o nazista) é didático ao nos mostra como o conceito de “abuso” pode ser absolutamente subjetivo e também servir oportunisticamente aos interesses dos poderosos. A censura nos ameaça tanto de maneira formal quanto na informalidade das redes. Não…. aqui falo apenas aqui do sujeito que, na condição de relativo anonimato e segurando um celular nas mãos, decreta a destruição de um outro baseado em antipatia, discordância ou mera implicância. Esse sujeito, empoderado como consumidor, é capaz de gerar pequenas – e até grandes – tragédias.

Como diria o filósofo contemporâneo Roger Jones “…as redes sociais nos jogaram ao mesmo tempo na modernidade e na idade média. Basta abrir o “x”, ex-Twitter, e veremos que todo dia há uma nova vítima jogada à fogueira; é assim que funciona. É o mercado da punição, algo que está enriquecendo muita gente, porque funciona como um negócio. Anotem: semana que vem surgirá um novo “monstro” para ser empalado publicamente, porque esse é o combustível, a força que nos impele a ligar o celular e gozar com o novo linchamento. As redes sociais vivem de pecados alheios; esse é o grande barato e o grande lucro desse negócio”.

E você? Já cancelou alguém hoje?

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Dio Come ti Amo

Conheci uma senhora que era apaixonada por esse filme, tendo visto mais de uma dezena de vezes – no cinema!!! Eu mesmo o assisti na adolescência. Ele narra a historia de Gigliola, uma jovem e humilde nadadora que concorre em uma competição na Espanha e acaba se apaixonando pelo noivo de sua melhor amiga. Entretanto, quando o casal vêm visitá-la na Itália, ela finge ser rica, tendo a cumplicidade dos pais para manter a farsa. O filme nada mais é que um dramalhão romântico sobre as idas e vindas de uma relação, cujo roteiro parece ter sido feito apenas para essa cena final. Nela, a mocinha canta o tema (e nome) do filme no sistema de som do aeroporto para convencer o bonitinho a perdoá-la pelo mau julgamento que fez dele.

A música se chama “Dio Come Ti Amo” e foi composta em 1966 (mesmo ano de lançamento do filme) e fez um sucesso imenso durante o período em que estivemos próximos da música italiana, em especial quando Roberto Carlos ganhou o festival de San Remo em 1968 com a música “Canzone per Te”. Eu também achei interessante o avião usado nas tomadas finais do filme, que é um Fokker 27 com dupla hélice, que fez sucesso nos anos 60. Quem é coroa como eu há de lembrar…

Aliás, minha música italiana favorita na infância foi “Noi, innamorati d’improvviso”, de Fred Bongusto. Claro, não sabia nenhuma palavra da letra, além do titulo, mas achava linda. Acho que um italiano coroa poderia me educar dizendo que esta música é uma espécie de “Garçom, nesta mesa de bar” ….que parla.

PS: Esta é Gigliola Cinquetti, ano passado (2022) no Festival Eurovisão, aos 75 anos. Na época do “Dio Come ti Amo” tinha 19 aninhos. Ainda hoje é uma gatona!!!!

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Diversidade

Há 40 anos passados eu trabalhava como interno (estudante de medicina) em um pronto socorro privado da capital. Em uma oportunidade, enquanto conversava com a recepcionista em meio a um plantão monótono de fim de semana, vi um casal se aproximar da recepção trazendo uma criança ao colo.

– Meu filho está com febre. Preciso uma consulta. Vocês atendem pelo INPS?

O INPS é o antigo SUS. O casal e seu filho estavam vestidos de forma muito simples, algo pouco usual para um serviço privado em um bairro nobre da cidade. A secretária olhou para mim e sorriu com o canto da boca, como que a dizer “mais um daqueles”.

– Não atendemos pelo INPS, somente de forma particular. A consulta custa 5 mil cruzeiros.

O casal se olhou e sequer explicou que não teriam dinheiro. Resignados, limitaram-se a perguntar onde haveria um hospital público. A secretária apontou a direção e eles saíram com o filho febril nos braços.

– Todo sábado aparece um “cabeção” com esse tipo de pergunta, disse a secretária.

Cabeção, na gíria médica da época, representava o “sujeito pobre”. Alguns outros médicos tratavam esse personagem por “jacaré”, talvez por reclamarem muito, serem “boca grande”. Eu sempre recordo desse fragmento de história porque ele me ensinou algumas coisas relevantes, e a mais importante delas é a ilusão de pertencimento. Eu conhecia aquela secretária; ela era mãe de duas crianças e solteira. Ganhava um salário muito baixo e morava na periferia da cidade. Apesar disso, olhava com ares de superioridade para as pessoas do seu mesmo estrato social que apareciam inadvertidamente no ambulatório. Porém, por estar numa posição de relativo poder, e rodeada de profissionais da medicina, se considerava superior aos “cabeções” que, por ingenuidade ou desinformação, vinham procurar um serviço vedado à sua classe social. O fato de ser oriunda das classes populares não produzia a empatia que se poderia esperar; em verdade, muitas vezes esta condição produz o inverso: a identificação com o opressor.

Esta história se conecta com outras percepções que desenvolvi na minha vida. Uma delas é o meu repúdio às soluções cosméticas que jamais atingem a fonte dos problemas. Colocar uma pessoa das classes trabalhadoras em uma posição de relativo poder não significa garantir um atendimento mais empático, e a história está repleta de exemplos do quanto estas ações são apenas dissimulações para manter inalterada a estrutura social. Para alguns ainda é difícil entender porque a esquerda radical repudia o identitarismo, mas o veto ao cessar fogo em Gaza sendo dado, pela segunda vez, por um negro (representando um país majoritariamente branco) é mais um excelente exemplo. Diante da potência avassaladora do imperialismo, a cor da pele, a origem, os dramas compartilhados e as raízes são impiedosamente pulverizados. O sujeito, seja qual for sua identidade, será objeto de manipulação pelas forças reais que comandam a nação. A ideia de que negros, gays, trans, mulheres e quaisquer outros que se julguem oprimidos fariam a diferença pela sua representatividade é ingênua – no mínimo – mas é usada para dar a ideia de que sua escolha sinaliza as tão sonhadas equidade e diversidade na sociedade. Puro diversionismo macabro; na verdade os cordéis continuam sendo manejados pela elite exploradora; mudamos apenas a cor e a vestimenta dos marionetes. Nada muda, nada se transforma, mas oferecemos a suprema encenação para que os poderes sigam intocados.

Repito o que digo há décadas: se a representatividade tivesse valor neste nível, a entrada das mulheres na atenção ao parto – como ocorreu de forma marcante nas últimas décadas – teria um efeito revolucionário na assistência ao nascimento. Afinal, mulheres atendendo mulheres e criando entre elas uma sintonia fluida e natural, faria brotar a empatia redentora entre as cuidadoras e suas pacientes. A migração feminina para a obstetrícia deveria produzir uma marcada transformação no cuidado, diminuindo, até quase a extinção, qualquer resquício de violência obstétrica institucional. Essa era, para quem se lembra dos debates dos anos 90, a esperança compartilhada por muitos profissionais da nascente corrente da humanização do nascimento. Nada disso ocorreu. O que se viu na entrada do novo milênio foi que essa esperança era falsa, e a mudança simples no gênero dos atendentes não produziu nenhuma alteração perceptível nos níveis de abuso e violência no parto.

As taxas de violência e abusos praticadas por profissionais na atenção ao parto, sejam eles homens ou mulheres, são praticamente idênticas. O peso da medicina e a pressão corporativa são muito mais fortes que a identidade. O jaleco branco, a caneta “Parker” e o estetoscópio pendurado no pescoço são mais relevantes do que sua história, sua origem social ou sua identidade. Também por isso havia negros na polícia racista da África do Sul, árabes no exército sionista e pobres e negros nas forças de repressão brasileiras nos inúmeros massacres perpetrados contra a população negra e pobre das periferias brasileiras; a farda pesa mais do que a cor da pele.

Que isso nos sirva de lição na luta contra os preconceitos e a exclusão: a luta precisa ser compartilhada, sem diversionismo. A grande revolução será em torno da luta de classes, não das cores, dos gêneros e dos jeitos de ser. Não existe emancipação de mulheres, negros, gays, etc. que não passe pela revolução contra o capitalismo, atingindo a sociedade de classes e eliminando as barreiras sociais.

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Avós

Eu sei que é brincadeira essa história da criança e fazer com os avós tudo o que os pais proíbem, mas no fundo esse jogo é perverso, e se trata de uma disputa entre pais e avós pelo afeto das crianças, algo que só produz malefícios a elas. Tenho 5 netos e tenho como norma não oferecer jamais a eles qualquer coisa que não tenha autorização expressa dos pais. Não cabe a mim criar este tipo de competição; também não preciso oferecer coisas e objetos para conquistar o carinho e a afeição deles. Não tenho necessidade de usar meus netos para arrefecer as culpas derivadas da minha insuficiente e falha paternidade. Jogar as crianças de um lado para outro (como muitos casais separados fazem) não é a função de um avô que deseja uma educação equilibrada aos seus netos.

Pareceu careta? Pois é careta mesmo, mas talvez estejamos carentes de um pouco de caretice, de valores, princípios e disciplina. Acho que o bom senso na educação, assim como conceitos já bem sedimentados de psicologia, são sempre de auxílio nessa tarefa.

https://fb.watch/oIT6CU5U3M/

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