Arquivo da categoria: Pensamentos

Grilhões

No futuro só existirão solteiros e bem casados“, já dizia o psicanalista Flávio Gikovate. Creio que sim, mas apenas quando as inúmeras outras amarras que mantém juntas pessoas que não mais se desejam forem plenamente suplantadas. Uma mudança de tal magnitude, onde a plena liberdade das escolhas afetivas se tornará o padrão nos encontros amorosos, levará bastante tempo.

Digo isso porque é ingenuidade imaginar que as correntes que nos prendem são apenas externas a nós, como dinheiro, filhos, condições gerais, moradia, proteção, etc. Não, creio mesmo que a pior servidão é aquela autoimposta; é na forja do inconsciente, na configuração psíquica mais profunda onde se produzem os grilhões mais poderosos.

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Estupro

Imagem meramente ilustrativa

Eu acabei me convencendo da possibilidade de “estupro culposo” (reconheço que o termo é horroroso) quando tomei conhecimento um caso rumoroso da Inglaterra amplamente divulgado há alguns anos. Inclusive fiquei sabendo do caso num fórum de feministas que estavam analisando o caso sem ódios ou revanchismos. Elas inclusive concordaram com o resultado do júri.

Imaginem a situação. Uma menina de 12 anos, junto com sua amiguinha, encontram um rapaz em uma parada de ônibus à meia noite de uma sexta feira no centro movimentado de uma grande cidade inglesa (Londres?). Ele conversa amistosamente com ambas e avisa que está indo para uma festa em outra parte da cidade. Ambas combinam encontrá-lo lá mais tarde e assim o fazem. A menina reencontra o rapaz na festa (que ocorria na casa de um amigo seu) e eventualmente eles mantém relações sexuais de forma claramente consensual. Ela pega no sono e pela manhã se despede do rapaz e vai para casa. Trinta dias depois os pais descobrem o que houve (ela confessou) e acusam o rapaz de estupro de vulnerável.

Estupro, não? Uma menina de 12 ANOS!!! Sem nenhum tipo de justificativa, certo?

Sim, mas há alguns detalhes que oferecem uma perspectiva ao menos atenuante para este caso. Na trajetória a partir do encontro na parada de ônibus, pela rua até o endereço determinado e dentro do local da própria festa – onde foi várias pessoas encontraram a menina – todos foram enfáticos em dizer que ela aparentava ao menos 20 ANOS DE IDADE. Todos os aspectos sexuais secundários eram de uma mulher sexualmente madura – tamanho, pelos, seios, cabelos, etc. Chama a atenção o depoimento do policial que indicou o endereço a elas: “Sim, lembro de ter ajudado duas moças, ao redor de 20 anos, a encontrar a rua, as 2h da manhã”.

Quando chegou à festa alguém perguntou sua idade, ao que ela respondeu “18 anos” provavelmente com medo de não poder ficar lá e ser convidada a se retirar. Algumas horas após chegar teve relações com o mesmo rapaz que havia encontrado anteriormente na parada do ônibus, e o fez de forma absolutamente consensual, sem despertar nele nenhuma dúvida sobre sua idade ou suas intenções.

Lembro bem da dúvida entre as feministas inglesas sobre esse caso. O rapaz era de ótima índole, estudioso e íntegro. Afirmou categoricamente ter sido enganado pela menina. As testemunhas TODAS afirmaram que ninguém poderia desconfiar que ela era menor de idade. O policial reafirmou isso, até porque se suspeitasse que se tratava de uma criança teria retido ambas as meninas por estarem numa rua movimentada no centro da cidade sem adultos por perto e às 2h da madrugada.

A conclusão do júri foi essa mesmo: estupro, porque foram relações com uma menor de idade, (mesmo que consensuais), mas culposo, porque a menina enganou a todos sobre sua idade. Não só pela aparência mas também ao anunciar na festa que tinha 18 anos (quando tinha, na realidade quase 13). Concluíram que, apesar de ser menor de idade, sua aparência não permitia que essa idade fosse revelada. Além disso, mais do que omitir, ela mentiu sua idade para poder permanecer na festa para qual havia sido convidada.

Relato esse caso em nome da correção do TERMO e não trazendo relação com o caso da menina em Santa Catarina, que tem características bem distintas (neste caso em Santa Catarina o estupro não estaria caracterizado pela idade, mas pela alcoolemia). Apenas me convenci que é possível haver tecnicamente um estupro (por ser a vítima menor de idade) sem intenção ou dolo (porque a vítima, mais do que omitir, falseou a sua idade).

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Tratamento Indigno

Eu acho que a função de um advogado é defender seu cliente com as armas possíveis dentro da lei. Portanto, sua fala ao atacar a vítima, apesar de absurda e violenta, pode ser entendida como estratégia de quem está sendo pago para defender. Entretanto, existe um juiz cuja função é exatamente IMPEDIR que a estratégia de humilhação e ataques à honra da vítima tenha seguimento. É por isso que ele está presente na audiência, que não pode ser entendida como “terra sem lei” ou como “vale tudo”.

Não se pode admitir isso. Se a ação do advogado foi nojenta e desprezível, a atitude do juiz foi CRIMINOSA, pois permitiu que o teatro macabro e estúpido de uma das partes tivesse espaço dentro de um lugar que deveria ser acolhedor para quem afirma ter sofrido uma violência.

Existem duas questões neste caso, e ambas são estarrecedoras. A primeira é a sentença aberrante e inacreditável, com a criação da entidade “estupro culposo” inédita e bizarra, mas que ainda precisa mais bem entendida, para que sua construção estranha (estupro + culposo) não cause confusão e acirre os debates.

A segunda – e muito mais importante – foi a forma indigna e aviltante de tratar uma depoente, que reclamava ser vítima de violência sexual, em um tribunal, como se fosse ela a abusadora e não aquela que pode ter sofrido o mal em seu corpo e sua alma. A cena nos remete ao circo romano, onde os homens na galeria se regozijavam com o sofrimento da pobre criatura entregue aos leões.

Agora, ao invés de se revoltarem com a carnificina oferecem apenas o ódio que escorre pelos cantos da boca, o deboche, o sarcasmo e a indiferença de quem, diante de tanta barbárie, silencia e permite que a matança continue.

PS: a expressão “estupro culposo” consta de uma fala obtusa e inconsequente do promotor, mas não está presente na sentença. E eu acho que a análise que foi feita por alguns especialistas mostra que a sentença está correta: não há elementos para produzir a convicção de culpa. Mas, mesmo reconhecendo o acerto da sentença, nada justifica o tratamento violento dispensado à menina. Não é necessário – muito menos correto – tratar uma mulher que presta esta queixa com tamanha agressividade.

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1500

Hoje alcancei o artigo de número 1500 no meu humilde blog “Orelhas de Vidro”. Não é muito quando comparado às pessoas que realmente escrevem e sabem fazê-lo. Entretanto, eu comecei a escrever pelas razões mais clichês do mundo: uma grande angústia e a percepção clara do término que se aproxima. Achei que deveria deixar escritas as minhas ideias, assim mesmo escondidas em um blog, mas que poderiam produzir curiosidade em algum passante desavisado que se interessasse por isso no futuro.

Fui um “late bloomer”; comecei a escrever de verdade aos 40 anos e nunca mais parei. Escrevo freneticamente todos os dias. Não me preocupo com a qualidade, por certo, apenas em verter meus pensamentos para a escrita, como percebendo que, se não forem para o papel, estarão perdidos para sempre “como lágrimas na chuva”. Como diria meu irmão: “A qualidade é desprezível, o que importa é a quantidade”.

Há muitos anos uma paciente de seus 60 anos me contava de suas agruras, dores e desventuras. Morava com seu sobrinho de 20 anos de idade, “um menino muito complicado, doutor”. Disse-me que ele era a fonte de todas as suas preocupações – que acabavam vertendo para o corpo. O garoto veio morar com ela porque sua mãe – irmã da minha paciente – estava doente, com câncer, e não deveria durar muito pois o estado da doença era avançado.

– É por essa razão que ele é tão complexado, doutor. Ele não perdoa a mãe e reage com ódio, como se fosse se vingar dela atacando o mundo todo.

Pedi que continuasse…

– Ela engravidou com 15 anos doutor. Cuidamos da sua gravidez e depois ela passou a morar com nossa mãe e nosso pai. Dedicou-se a cuidar do seu filho e nunca mais quis saber de namorar. Depois que eles morreram ela continuou na casa cuidando dele, porém nunca aceitou nos contar quem é o pai. Na adolescência diante da insistência do meu sobrinho de encontrar seu pai biológico, ela disse: “Esse nome vai morrer comigo. Eu jamais direi quem é seu pai”. Havia muito ódio em suas palavras, mas o menino jamais aceitou esta negativa. Diante dos seus reiterados pedidos ela se fechou, a relação entre ambos se deteriorou e ele veio morar comigo, mas carrega consigo essa revolta, esse ódio. Por muitos anos tentei explicar à minha irmã que nenhum nome seria pior do que o seu silêncio, mas ela se manteve calada. Agora, doutor, ela está morrendo. O nome desse homem, como ela mesmo me disse, descerá ao túmulo com ela e meu sobrinho jamais poderá encontrar seu pai.

O peso dessas palavras eu sinto até hoje. O menino sabia que a morte da mãe enterraria um pedaço de si mesmo, e por isso não conseguia perdoá-la. A dor de ambos era violenta e corrosiva, mas podia ser sentida por mim, mesmo à distância.

Eu lembro dessa história porque é assim que me sinto a escrever. Cada história, cada piada, cada relato, cada lembrança vem carregado com o “nome do pai” que eu preciso dizer. Várias vezes, repetidas vezes. Escrevo porque não quero morrer sem dizer. Não quero descer à terra sem contar algo que só eu vi, uma perspectiva só minha ou uma ideia que me veio à mente repentinamente.

Escrevo apenas para dizer a mim mesmo que consigo enxergar, na curva da esquina, o dia em que estas ideias vão se desmanchar, perdidas no infinito cósmico. Como poeira de estrelas voltando ao sol.

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Racismo invisível

O sucesso do negro no Brasil é crime hediondo, insuportável. Digo também que o sucesso do nordestino pobre com dedo faltando também machuca aqueles que não aceitam a ascensão das camadas mais baixas da sociedade. Por isso Lula é atacado e Fernando Henrique, o “príncipe”, poupado. Por isso Pelé foi duramente ofendido (chamado de “ser humano desprezível”) no seu aniversário por seus problemas familiares (o reconhecimento de uma filha fora de seus casamentos), mas Simone, socióloga francesa, chique e branca, jamais foi atacada por sua defesa da pedofilia. Ou quando citam Marie Curie e não falam do abandono de seus filhos. Não, elas eram brancas demais para merecer o mesmo tipo de ataque destrutivo que o Rei do Futebol recebe há tantos anos. Afinal, para elas vale a regra: “os gênios são esquisitos mesmo”.

Não esqueçam que, antes do caso da filha que faleceu de câncer, Pelé era acusado de não ter ajudado Garrincha diante de suas mazelas com o alcoolismo e a falta de dinheiro – como se Pelé tivesse obrigações com o craque das pernas tortas. Isto é: Pelé jamais teria perdão, e o crime poderia ser escolhido dependendo do gosto do acusador.

Sim, diante da chuva de ataques ao Pelé por suas fragilidades e seus pecados, e diante da constatação de que isso nunca foi feito com os defeitos de Ayrton Senna (entre outros ídolos esportivos) fica inegável para mim que há também – mesmo que de forma inconsciente – um ataque a um “negro metido a besta”, que nunca aceitou seu lugar.

O racismo se assemelha à violência obstétrica nesse ponto: tanto mais forte quanto mais inconsciente e mais disseminado silenciosamente pelos “costumes”. E veja: pode-se ser racista travestido das melhores intenções, assim como as piores violências de gênero contra as gestantes podem ser cometidas ilustradas com a famosa frase “aceite, é o melhor para você”.

Para ver a fala de Emicida sobre o tema no “Papo de Segunda” do GNT, clique aqui.

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Bruxas?

“Era uma vez, quando a Líbia (“Viemos, vimos, ele morreu”) oferecia ao mundo espetáculo imperialista humanitário sangrento estrelado pelas Três Hárpias Norte-americanas: Hillary Clinton, Samantha Power e Susan Rice, de fato quatro, caso se inclua a mentora e alma mater de Hillary, Madeleine Albright.” Crônica de Pepe Escobar no blog do Alok.

Pois vejam só… a grande ameaça para o resto do mundo com a possível vitória do senil Joe Biden se concentra em 4 mulheres poderosas, Senhoras da Guerra, frias comandantes do Imperialismo Americano mais abjeto e belicoso. Foram elas as responsáveis pela destruição de países inteiros no Oriente Médio, África e Ásia. E não há nada na figura de Kamala Harris – cria das poderosas Big Techs americanas – que nos dê esperança em um planeta mais fraterno e mais cooperativo. Em suma, mais “feminino”.

Não faz mal lembrar que a última guerra em que a América Latina esteve envolvida foi conduzida e liderada por uma mulher. Sim, Margareth Thatcher, além de ter jogado o mundo na espiral destrutiva do neoliberalismo, foi protagonista da última incursão bélica do primeiro mundo na parte de baixo do Equador.

Digo isso porque confio na tese de que “A Revolução será feminista ou não será”, mas com isso deixo claro que a simples entrada das mulheres na política não permite que esse modelo seja modificado. Uso para isso a minha experiência com o parto: a entrada das mulheres não deixou o parto mais feminino, mas deixou as obstetras mais masculinas. Eu canso de dizer que não existe nenhuma diferença moral ou intelectual entre homens e mulheres, brancos, negros, indígenas, amarelos e mistos, gays e héteros, e que estas diferenças são determinadas pelos sistemas e pelos contextos, jamais pela essência. Portanto, de nada adianta apostarmos nas aparências sem levarmos em conta o âmago – por vezes invisível – das lutas e anseios que habita aqueles corpos.

Conhecemos muito bem como a escolha por uma mulher apenas por seu gênero pode ser desastrosa. Mais salientes do que os dotes de sua biologia ou sua identidade sexual deverão estar seus compromissos com a equidade de gênero, o fim da violência contra as mulheres, o término da velada violência obstétrica, o rechaço ao punitivismo, ao racismo e ao sexismo de todas as formas, além de um compromisso com a construção de uma nova sociedade baseada na fraternidade e não mais na competição e na guerra.

Nossa experiência recente com Joice, Bia, Winter, Zambelli, Ana Amélia e tantas parlamentares ligadas aos valores conservadores nos prova que, mais do que ser mulher, é preciso levar a bandeira feminista da equidade e da paz.

Por mais bruxas e menos harpias.

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Ainda sobre oligarcas

O texto que escrevi sobre o sistema escolar americano, tocava em um ponto de simples compreensão: a oferta “espontânea” da comunidade para a melhoria da escola do bairro, onde seus filhos estudam. Contribuições (doações) em dinheiro para o aparelhamento de laboratórios, bibliotecas, quadras esportivas, etc. Nada é pedido em troca, mas é claro que se puderem colocar uma placa de agradecimento ao benemérito, ou batizarem a quadra poliesportiva ou a biblioteca com o nome do doador, que mal pode haver? Afinal, uma escola pública que homenageia alguém que lhe oferece dinheiro (cuja origem não lhe cabe perguntar), não deve ser ruim, né?

(Não duvido que existam bibliotecas financiadas por “Jeffrey Epstein”, “Bill Cosby” ou “Harvey Weinstein” que agora se ocupam em apagar o nome na placa…)

Bastou escrever este texto, baseado em uma experiência pessoal, para os liberais atacarem essa ideia dizendo que eu criminalizava a “caridade”, e que estas doações eram uma ideia genial para a participação efetiva da comunidade na educação. Um deles chegou a dizer que “o texto era tão ruim que não conseguiu ler até o fim”, o que diz muito do pânico em se defrontar com ideias contra-hegemônicas. Sequer perceberam que o texto pretendia mostrar que a atitude “caridosa” e “despretensiosa” dos doadores seguia um padrão de valorização dos próprios imóveis (e descontos no imposto de renda), e que não era tão “benevolente” quanto nos faziam acreditar. Também tentava mostrar que essas iniciativas, mesmo que possam oferecer melhorias na escola, acabam trazendo desajustes e desequilíbrios em um sistema que deveria produzir equidade e paridade entre os alunos.

Porém, o que mais me chama a atenção é o culto que as pessoas da classe média devotam a esses beneméritos. Ainda carregamos a mentalidade dos pequenos burgueses que, enquanto olhavam a nobreza com desmedido encantamento, sentiam pelos trabalhadores inegável desprezo e repulsa, sem perceber que estavam muito mais próximos de quem desprezavam do que daqueles por quem nutriam admiração.

Recordo vividamente amigos descrevendo encontros com figuras da “nova nobreza”: os ricos industriais, rentistas, donos de redes de comunicação e proprietários de terra. Puro encantamento. Qualquer gesto, por mais banal que fosse, era descrito como sutil, delicado, sóbrio e magnânimo. Quando estas pessoas – muitas delas sem qualquer brilho intelectual ou moral – lançavam a eles sua atenção isso produzia uma onda de gratidão e plenitude. Pobres almas!!! Via de regra iam solicitar migalhas para os pobres, pão para os famintos, cadeiras e mesas para alunos, e ficavam satisfeitos quando uma fração dos valores acumulados por esta elite lhes era minimamente repassado. A figura de John Rockefeller distribuindo moedinhas para os miseráveis da recessão americana nunca foi tão emblemática para descrever esta relação de subserviência.

É muito triste ver o crescimento da sociedade atrelado à boa vontade de milionários, como se a saúde, a educação, o saneamento básico fossem bênçãos que recebemos de capitalistas, e portanto, deveríamos agradecer a eles por seu desprendimento e sua caridade. Quando é que nossa auto estima vai permitir que a gente se livre da praga dos bilionários? Quem precisa desse tipo de aberração????

Nossa mentalidade não mudou tanto quanto imaginamos. Se a revolução burguesa nos livrou da sujeição à nobreza, o capitalismo ainda nos mantém subservientes aos poderosos que, se não mais ostentam títulos nobiliárquicos, ainda nos oprimem com o capital e suas formas de controle.

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Filantropos

Não há mais justificativa para negar que a filantropia em sua forma moderna, enquanto modelo empresarial, é a forma como os ricos e poderosos jogam migalhas aos pobres para que sua imagem seja melhorada e/ou aprimorada. Desde o início do capitalismo americano funciona assim, como nos ensinou John Rockefeller – o homem mais rico da história, que chegou a ser dono de 2% do PIB americano – jogando moedinhas (Dimes) para que as crianças na rua pudessem juntar. Era publicidade deslavada, tentando criar a imagem tão falsa quanto absurda de um “velhinho bondoso”. Na verdade se tratava de um dos lobos mais astutos e inescrupulosos do nascente império americano.

Todos esses sistemas de “ajuda aos pobres” só existem porque insistimos em um modelo capitalista injusto e que produz a brutalidade da iniquidade social. Nenhum país precisaria de ONGs para combater a fome, o analfabetismo ou as doenças endêmicas. Para oferecer este atendimento à população bastaria que os recursos PÚBLICOS fossem distribuídos de forma adequada e que não houvesse a concentração obscena de riqueza na mão de poucos capitalistas, que posteriormente devolvem uma fração minúscula de seus lucros como forma de publicidade, através de seus “institutos” e “fundações”.

É exatamente a perversidade desse sistema social e econômico que precisa ser combatida no século XXI. Quando a gente olha para estas instituições de ajuda à África, no combate à AIDs, à pobreza da América Latina, de proteção dos animais e de preservação da Amazônia e conhecemos os ativistas honestos e dedicados que dela participam, perdemos a noção do contexto amplo onde estas instituições são criadas, e ficamos incapacitados de perceber que a existência delas só pode ocorrer diante da falência do Estado. Sem a opressão sobre os povos e as desigualdades fomentadas entre os seres humanos nenhuma caridade seria necessária pois nenhuma filantropia faz sentido em um estado operante e que ocupe o posto de motor da distribuição equitativa de renda.

Enquanto isso não ocorre ficamos a mercê de seres desimportantes e sem brilho algum, como as primeiras damas de alguns Estados, as esposas de industriais que comandam fundações ou algum artista que tira milhões de seus seguidores e depois devolve uma parcela pequena – sempre para quem ele próprio escolhe, e não para quem mais necessita.

Os grandes filantropos americanos financiam Universidades pagas – como as da Ivy League – para que brancos de classe média possam estudar através de um sistema falsamente meritocrático, que sempre coloca em vantagem a classe que repousa sobre privilégios. Financiam também orquestras filarmônicas e museus (para a mesma classe), mas alguns fazem pior: estimulam pesquisas de medicamentos em negros e pobres africanos e da Ásia para serem posteriormente usados em brancos na América e Europa. Nada disso é bom, nada disso é adequado para a sociedade. Nada disso é justo e correto em uma sociedade que se pretende fraterna e justa.

“Caridade é ofensa; o povo quer – e merece – justiça social”.

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Doações

Há alguns anos, conversando com amigos americanos ricos, eles me contaram que a escola onde seus filhos estudam no ensino fundamental precisava de uma reforma no pátio, e para isso solicitaram aos pais da comunidade doações em dinheiro.

Depois de uma visita à escola esse casal resolveu fazer uma polpuda oferta de 60 mil dólares para a escola, para refazer o pátio de forma completa. Não apenas uma reforma, mas um novo complexo de brinquedos e estruturas de esporte para as crianças se divertirem. Ambos contaram com muito orgulho a sua participação e seu desprendimento em auxiliar a escola do bairro.

É importante frisar que o ensino fundamental nos Estados Unidos é completamente gratuito e financiado pelo Estado. Apenas 10% dos estudantes estão em escolas privadas. Do jardim de infância até o fim do “high School” o aluno não paga nada, e os impostos financiam toda a educação básica dos americanos.

Entretanto, é permitido às escolas públicas receberem dinheiro e incentivo de particulares para melhorias em suas estruturas e equipamentos de laboratório, quadras de esporte, biblioteca, piscina, etc. Você pode pagar diretamente para melhorar as condições da escola onde seus filhos estudam ou qualquer outra instituição governamental.

É aí que residem os problemas. É muito comum vermos nos filmes americanos – ou quem visita suas escolas e universidades – placas em homenagem a doadores beneméritos e filantropos que ajudam instituições de ensino com gordos auxílios monetários. Isso coloca os alunos cujos pais são doadores em posição de destaque, o que cria uma espécie de dívida com a família do doador (vide link abaixo). O próprio cinema explora isso à exaustão, na cena em que o diretor vai falar com um aluno cujo avô tem uma placa de benemérito na escola.

Mas existe um outro problema mais sutil. Como as doações privadas são direcionadas a uma escola em especial – geralmente onde os filhos estudam – é do interesse do doador que a escola do seu bairro seja de excelentes condições porque isso valoriza – e muito – o valor do seu imóvel. Uma escola de excelência na comunidade faz disparar o preço da sua casa. Para além disso, esse direcionamento da doação faz com que, no mesmo sistema público de ensino, existam escolas espetaculares e escolas miseráveis. Todas pertencem ao mesmo Estado financiador, mas com estruturas absolutamente díspares, dependendo do dinheiro que circula dentro da comunidade.

Desta forma, bairros pobres —> escolas públicas pobres; ao mesmo tempo em que bairros ricos —> escolas públicas ricas. O modelo capitalista, mesmo diante de um sistema escolar público que deveria equalizar as oportunidades, acaba reproduzindo os mesmos desvios naturais que o caracterizam, incentivando desigualdades e criando castas de estudantes por escola e por bairro.

O ingresso às universidades está relacionado com o desempenho escolar nas séries fundamentais. Quem terá mais chances de sucesso? O estudante branco com um imenso laboratório de informática e química no bairro de classe média alta ou o estudante preto e latino do subúrbio, onde os banheiros estão quebrados e a biblioteca sequer existe?

Pensem nisso quando esses políticos vierem com ideias moderninhas de misturar fundos públicos com dinheiro da iniciativa privada. Nessas combinações nunca é o pobre que se beneficia.

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Faturas

As vezes penso que as alegrias que a vida oferece nada mais são do que adiantamentos da Deusa Álea – a divindade das incertezas – com a garantia de uma futura cobrança, em um jogo de soma zero onde para cada felicidade momentânea conquistada surgiria no futuro uma fatura a pagar com juros de tristeza, dor e decepção.

Por isso a culpa; por isto nenhum gozo é livre. Um freio que se puxa diante do sorriso dos miúdos, do convívio, no compartilhar, na imensa fortuna de assistir uma criança abrindo os olhos ao mundo, enquanto você, ali ao lado, assiste os milagres brotando diante dos seus olhos incrédulos.

E depois o medo e a tristeza de lembrar que a conta tem de fechar, que esta dívida precisa ser paga, zerada, e que é preciso a dor, a miséria e a penitência caso queira sorver da vida o que ela pode lhe dar.

A culpa pelo prazer é dos maiores fardos. Livrar -se desse peso é uma tarefa estupenda, cujo esforço por vezes ocupa uma vida inteira.

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