Infelizmente o padrão na atualidade não é a confrontação de ideias, o contraditório e o respeito pelas visões discordantes mas o cancelamento, a perseguição pelas posturas, os abaixo-assinados com pedidos de demissão, a difamação, as pressões pela punição severa e a destruição sumária da reputação.
Pouco ou nada importa que o alvo da ira de agora seja alguém que durante décadas esteve ao lado da “nossa causa”; basta uma única posição discordante e você é jogado na lata de lixo, descartado, aniquilado e humilhado publicamente.
Esse sistema de terror faz com que, diante de casos públicos conhecidos e muito publicizados, aqueles que tem uma visão diferente da massa enfurecida se calem, com medo dos ataques e das violências virtuais. Reina um silêncio constrangedor nas redes, criando a falsa impressão de unanimidade. Tornou-se comum que, nos agora raros encontros pessoais, algumas pessoas sussurrem entre si: “eu não vejo dessa forma e não concordo, mas não posso falar sobre isso publicamente pois serei executado se disser o que penso”.
A tirania do senso comum faz vítimas todos os dias nas redes sociais. Quem escreve sabe que uma mínima palavra descontextualizada pode acender o estopim de uma reação violenta e cruel.
Minha opinião? No futuro próximo vai acontecer um fenômeno de reação a isso. A intolerância de alguns grupos será vista como realmente é: um sistema cruel de silenciamento, cujo objetivo é forjar consensos na marra e através da violência virtual. Por fim, as pessoas vão se voltar contra estes ativistas que se escondem por trás das belas causas para melhor espalhar opressão e despotismo.
A iniciativa do Liceu Franco-Brasileiro não obriga ninguém a usar “linguagem inclusiva”, mas permite que ela seja usada livremente por professores e alunos. Pelo menos foi assim que eu entendi na reportagem. A alternativa para isso seria a proibição, mas isso é absolutamente inaceitável. A língua é um “ser vivo”; ela é mutante e se transforma, como as espécies animais e vegetais no planeta, que se modificam para produzir adaptação a um meio ambiente que se altera constantemente. Por isso que “você” surge de “à vossa mercê” e tantas outras palavras e expressões aparecem da lapidação cotidiana de seu uso.
Imaginar uma língua imutável é pretendê-la morta, estéril, sem o uso que as pessoas fazem dela nas ruas, em casa, no contato com outros idiomas e no surgimento de novas palavras para novos objetos e circunstâncias.
O uso da “linguagem inclusiva” deve se submeter ao teste do uso. Se as pessoas aceitarem sua utilização e ela se tornar corrente e corriqueira, será naturalmente incorporada ao dia a dia – e posteriormente pela academia. Não existe “língua errada”, não existe falar incorreto; os idiomas são entidades em constante transformação. Só o tempo e os costumes podem incorporar formas de falar ou tornar outras obsoletas.
O resto é ranço de quem pretende a existência de linguagens “corretas” e “fixas”. Esse conservadorismo é inútil, pois é impossível interromper a transformação da forma como falamos.
Há alguns anos fui convidado a participar de um evento em uma universidade local onde profissionais de múltiplas áreas tratavam de suas perspectivas específicas na área da saúde. A mim coube falar de “Humanização do Nascimento”, por certo.
Como estávamos no ambiente acadêmico minhas palavras foram recebidas com reserva por alguns professores presentes, em especial aqueles ligados à neonatologia. Para a imensa maioria desses médicos a humanização do nascimento é um tabu. Sua formação é centrada na atenção dos quadros mais complexos e limítrofes e quase nenhuma atenção (ou importância) é dada para a observação e a atitude não intervencionista da imensa maioria dos casos. Aliás, este o grande paradoxo do atendimento ao parto normal pela medicina: treinar exaustivamente para o enfrentamento de situações raras e pouco para o normal e o fisiológico, que são a regra no nascimento humano.
Porém, logo após a minha palestra entrou na sala uma nutricionista especializada em crianças com paralisia cerebral grave, e eu resolvi permanecer para ouvir suas palavras. Ela começou sua palestra deixando claro ser importante desmistificar a relação do parto normal com esta condição, o que já me deixou muito feliz. Depois disso começou a descrever as estratégias nutricionais usadas em crianças severamente comprometidas, em estados quase vegetativos.
Foi no seu relato apaixonado sobre a atuação sobre estas crianças que eu comecei a me questionar sobre nosso sistema de recompensas.
Tenho uma amiga que adora presentear seus netos. Compra para eles todas as bugigangas eletrônicas da moda. Certa vez eu lhe perguntei o porquê de tantos presentes e ela respondeu, de forma sincera e aberta: “Você precisava ver a carinha dela quando abriu o presente!!” Foi aí que eu formulei a minha tese de que os presentes são iscas que damos às crianças para recebermos o verdadeiro pagamento, aquele que vem com sua gratidão e seu amor. Somos os agraciados, não eles; garantimos o “presente do afeto” deles para nós mesmos.
O mesmo na medicina. Para mim é fácil ver o quanto trabalhar com o nascimento humano pode ser gratificante. O choro, a emoção, as lágrimas, a alegria contagiante dos casais e das famílias, a vida que (re)nasce em cada parto, o futuro da humanidade garantido, etc., são todos presentes que recebemos. Para cada parto, uma tonelada de agradecimentos, abraços, felicitações. Quem é, afinal, “presenteado” com o bebê?
Entretanto, quando eu vi a dedicação àquelas crianças, algumas delas quase irresponsivas – os muito severos – e o carinho devotado a elas eu percebi o quanto é necessário entender que a verdadeira gratificação vêm do sentido mais amplo da tarefa, e não das miudezas e dos agradecimentos que, por mais que sejam presentes maravilhosos para enfrentar as agruras da tarefa, não podem ser a única moeda simbólica para o nosso trabalho.
Senti vergonha da minha euforia diante das conquistas por nascimentos dignos e respeitosos. Senti pena de mim pela alegria incontida nos cumprimentos recebidos. Pude ver naquela bela menina o quanto o amor pela tarefa é muito mais importante do que qualquer outra recompensa em jogo
– …. portanto, nunca é demais esquecer que Hitler matou 10 milhões de judeus no holocausto da segunda guerra mundial, e estas mortes todas poderiam ser… – Errrr, na verdade não foram 10 milhões. Muitos falam em torno de 6 milhões, o que se considera um número oficial de vítimas da comunidade judaica. – E que diferença faz? – A diferença é a precisão, estar mais próximo verdade, não espalhar fake news. – Você entendeu o que eu quis dizer, seu nazista. – Sim, eu entendo, apenas tentei consertar seus números equivocados. Seu argumento perde credibilidade e força se contiver esses erros factuais. Mas … por que me chamou de “nazista”? – Ora,, porque você está desmerecendo as mortes do holocausto, discutindo detalhes – como número de mortos – quando o ponto é questionar a barbárie cometida em nome das ideologias, seu machista. – Mas eu não questionei seu ponto, apenas seus dados incorretos!!! Como eu disse, estava tentando lhe ajudar, consertando um equívoco com o número de vítimas. E por que agora me chama de “machista”? – Por que eu sou mulher e você está me interrompendo. Além disso está questionando a minha verdade, achando que por ser homem e branco sempre terá razão!!! – Mas.. eu apenas tentei lhe ajudar!!! – Chega de tentar me dizer como devo pensar, o que devo dizer e como preciso me expressar!! Apenas respeite minhas palavras!! -……. – …. continuando, a ideologia comunista de Hitler levou o mundo a um colapso com repercussões que… – Desisto. Nave mãe, pode voltar. ET, telefone, casa…
Já pensaram como deve ser o massacre contra meninos pretos e pobres diante das acusações – por vezes levianas e sem sustentação – nos juizados pelo Brasil afora? Se nos Estados Unidos, onde os direitos humanos e a proteção aos réus é mais solidificado, existem casos brutais de condenações motivadas por raça e classe social (como o caso de George Stinney na foto acima), imaginem como deve ser o desrespeito, o racismo e o preconceito de classe contra esses jovens aqui no Brasil. Quantos jovens estarão encarcerados agora apenas por sua cor? Quantos meninos estão hoje atrás das grades apenas como punição para a condição de pobreza a que são submetidos?
O punitivismo – de qualquer tipo – é um câncer da direita que infecta até as alas liberais da esquerda. Precisa ser extirpado, destruído e esquecido, porque se baseia num conceito de sociedade dividido entre “bons e maus”, de viés essencialista e moralista, que nega os contextos sociais na produção dos delitos e do crime.
O abolicionismo penal entende que, para alguns tipos de crime, ainda não temos recurso melhor do que o afastamento da sociedade. Entretanto, a visão abolicionista prega que a ideologia da punição e do castigo é absolutamente ineficiente para diminuir a criminalidade e para gerar uma sociedade de paz. Só a equidade e a justiça social serão capazes disso. E para este fim precisaremos de um esforço pela paz, pois sem paz continuaremos divididos e em eterna guerra.
Em verdade, em tempos de crise, esses monstros conseguem se soltar. Quando dois ou mais monstros se unem nessa liberdade anti civilizatória coisas muito ruins podem ocorrer. As guerras mundiais, a invasão de Coreia e China pelo Japão, o massacre dos Armênios, a conquista das Américas, o genocídio palestino e a inquisição entre outros foram momentos de catarse coletiva, onde um número imenso de monstros adormecidos acordaram e colocaram em marcha um projeto de violência, opressão, domínio e destruição.
Não precisa morrer todo mundo, mas os holocaustos e as hecatombes que nos atingem ciclicamente dão uma demonstração bem clara do que existe por dentro de nós de monstruoso e devastador. Uma das regras mais básicas para entender o humano é não se deixar levar por sorrisos e delicadezas superficiais. Hoje em dia, não creia nos posts indignados com a maldade e a injustiça; dentro de todo o justiceiro mora um algoz adormecido.
Meus netos dividem o mundo entre o “bem”e o “mal”. Hoje em dia o mais velho pergunta de uma forma um pouco diferente: “esse cara é chato?”, que significa basicamente se ele representa as forças do Mal. O que ele pede quando começa o filme é que digamos a ele “em que lado do espectro eu o coloco?“. Para eles os personagens são benéficos ou maléficos. Para aqueles que representam o bem, só a felicidade poderá ser o prêmio a receber. Para os “chatos”, estes são merecedores dos piores castigos. Tipo o Gastón cair do penhasco na disputa por Belle ou como a “morte” trágica de Ernesto de la Cruz em “Coco”. No merci.
Mas eles tem 7 e 4 anos, e não conseguem vislumbrar matizes. Para eles a essência do sujeito é vil ou luminosa. O mais velho agora começa a entender que as pessoas são complexas; as vezes são más mas tem coisas boas dentro de si. Isso é desafiador para a cabecinha dele, mas faz parte do aprendizado da vida afastar-se das certezas e mergulhar corajosamente nas dúvidas.
Crescemos com essa perspectiva, pois libertar-se dessa visão de mundo é muito complicado. “Como ele pode defender o oposto do que defendo e mesmo assim encontrar nele qualidades morais?”. “Como posso enxergar virtudes em alguém tão diferente de mim quanto é possível entre dois seres?
O mais fácil é enclausurar-se no maniqueísmo e desreconhecer as semelhanças que nos unem a todos os outros seres humanos, mesmo que as circunstâncias e os contextos nos coloquem em posições políticas e sociais antípodas. O horror que nos faz odiar os diferentes é ver que nossas ações são quase iguais àquelas que tanto criticamos nos outros.
Meu neto mais velho diz: “e esse aí vovô, é chato ou é do bem?” e eu só de sacanagem respondo: “São que nem a gente, um pouco bons e um pouco maus”. Ainda acho que é de cedo que se planta a semente da alteridade
No futuro só existirão solteiros e bem casados“, já dizia o psicanalista Flávio Gikovate. Creio que sim, mas apenas quando as inúmeras outras amarras que mantém juntas pessoas que não mais se desejam forem plenamente suplantadas. Uma mudança de tal magnitude, onde a plena liberdade das escolhas afetivas se tornará o padrão nos encontros amorosos, levará bastante tempo.
Digo isso porque é ingenuidade imaginar que as correntes que nos prendem são apenas externas a nós, como dinheiro, filhos, condições gerais, moradia, proteção, etc. Não, creio mesmo que a pior servidão é aquela autoimposta; é na forja do inconsciente, na configuração psíquica mais profunda onde se produzem os grilhões mais poderosos.
Eu acabei me convencendo da possibilidade de “estupro culposo” (reconheço que o termo é horroroso) quando tomei conhecimento um caso rumoroso da Inglaterra amplamente divulgado há alguns anos. Inclusive fiquei sabendo do caso num fórum de feministas que estavam analisando o caso sem ódios ou revanchismos. Elas inclusive concordaram com o resultado do júri.
Imaginem a situação. Uma menina de 12 anos, junto com sua amiguinha, encontram um rapaz em uma parada de ônibus à meia noite de uma sexta feira no centro movimentado de uma grande cidade inglesa (Londres?). Ele conversa amistosamente com ambas e avisa que está indo para uma festa em outra parte da cidade. Ambas combinam encontrá-lo lá mais tarde e assim o fazem. A menina reencontra o rapaz na festa (que ocorria na casa de um amigo seu) e eventualmente eles mantém relações sexuais de forma claramente consensual. Ela pega no sono e pela manhã se despede do rapaz e vai para casa. Trinta dias depois os pais descobrem o que houve (ela confessou) e acusam o rapaz de estupro de vulnerável.
Estupro, não? Uma menina de 12 ANOS!!! Sem nenhum tipo de justificativa, certo?
Sim, mas há alguns detalhes que oferecem uma perspectiva ao menos atenuante para este caso. Na trajetória a partir do encontro na parada de ônibus, pela rua até o endereço determinado e dentro do local da própria festa – onde foi várias pessoas encontraram a menina – todos foram enfáticos em dizer que ela aparentava ao menos 20 ANOS DE IDADE. Todos os aspectos sexuais secundários eram de uma mulher sexualmente madura – tamanho, pelos, seios, cabelos, etc. Chama a atenção o depoimento do policial que indicou o endereço a elas: “Sim, lembro de ter ajudado duas moças, ao redor de 20 anos, a encontrar a rua, as 2h da manhã”.
Quando chegou à festa alguém perguntou sua idade, ao que ela respondeu “18 anos” provavelmente com medo de não poder ficar lá e ser convidada a se retirar. Algumas horas após chegar teve relações com o mesmo rapaz que havia encontrado anteriormente na parada do ônibus, e o fez de forma absolutamente consensual, sem despertar nele nenhuma dúvida sobre sua idade ou suas intenções.
Lembro bem da dúvida entre as feministas inglesas sobre esse caso. O rapaz era de ótima índole, estudioso e íntegro. Afirmou categoricamente ter sido enganado pela menina. As testemunhas TODAS afirmaram que ninguém poderia desconfiar que ela era menor de idade. O policial reafirmou isso, até porque se suspeitasse que se tratava de uma criança teria retido ambas as meninas por estarem numa rua movimentada no centro da cidade sem adultos por perto e às 2h da madrugada.
A conclusão do júri foi essa mesmo: estupro, porque foram relações com uma menor de idade, (mesmo que consensuais), mas culposo, porque a menina enganou a todos sobre sua idade. Não só pela aparência mas também ao anunciar na festa que tinha 18 anos (quando tinha, na realidade quase 13). Concluíram que, apesar de ser menor de idade, sua aparência não permitia que essa idade fosse revelada. Além disso, mais do que omitir, ela mentiu sua idade para poder permanecer na festa para qual havia sido convidada.
Relato esse caso em nome da correção do TERMO e não trazendo relação com o caso da menina em Santa Catarina, que tem características bem distintas (neste caso em Santa Catarina o estupro não estaria caracterizado pela idade, mas pela alcoolemia). Apenas me convenci que é possível haver tecnicamente um estupro (por ser a vítima menor de idade) sem intenção ou dolo (porque a vítima, mais do que omitir, falseou a sua idade).
Eu acho que a função de um advogado é defender seu cliente com as armas possíveis dentro da lei. Portanto, sua fala ao atacar a vítima, apesar de absurda e violenta, pode ser entendida como estratégia de quem está sendo pago para defender. Entretanto, existe um juiz cuja função é exatamente IMPEDIR que a estratégia de humilhação e ataques à honra da vítima tenha seguimento. É por isso que ele está presente na audiência, que não pode ser entendida como “terra sem lei” ou como “vale tudo”.
Não se pode admitir isso. Se a ação do advogado foi nojenta e desprezível, a atitude do juiz foi CRIMINOSA, pois permitiu que o teatro macabro e estúpido de uma das partes tivesse espaço dentro de um lugar que deveria ser acolhedor para quem afirma ter sofrido uma violência.
Existem duas questões neste caso, e ambas são estarrecedoras. A primeira é a sentença aberrante e inacreditável, com a criação da entidade “estupro culposo” inédita e bizarra, mas que ainda precisa mais bem entendida, para que sua construção estranha (estupro + culposo) não cause confusão e acirre os debates.
A segunda – e muito mais importante – foi a forma indigna e aviltante de tratar uma depoente, que reclamava ser vítima de violência sexual, em um tribunal, como se fosse ela a abusadora e não aquela que pode ter sofrido o mal em seu corpo e sua alma. A cena nos remete ao circo romano, onde os homens na galeria se regozijavam com o sofrimento da pobre criatura entregue aos leões.
Agora, ao invés de se revoltarem com a carnificina oferecem apenas o ódio que escorre pelos cantos da boca, o deboche, o sarcasmo e a indiferença de quem, diante de tanta barbárie, silencia e permite que a matança continue.
PS: a expressão “estupro culposo” consta de uma fala obtusa e inconsequente do promotor, mas não está presente na sentença. E eu acho que a análise que foi feita por alguns especialistas mostra que a sentença está correta: não há elementos para produzir a convicção de culpa. Mas, mesmo reconhecendo o acerto da sentença, nada justifica o tratamento violento dispensado à menina. Não é necessário – muito menos correto – tratar uma mulher que presta esta queixa com tamanha agressividade.