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Desejo feminino

“O desejo feminino e sua ameaça à estrutura patriarcal pode ser analisado lendo-se o livreto “Traumnovelle”, de Arthur Schnitzler, que deu origem ao filme “Eyes Wide Shut” do diretor Stanley Kubrick com Tom Cruise e Nicole Kidman.

Para mim a cena mais impactante do filme é a descrição da fantasia que Nicole confessa que teve com o militar, seguidas da cara boquiaberta de Tom ao escutar o relato riquíssimo em detalhes e nuances oferecidos por sua mulher. É exatamente nesse momento, ao defrontar-se com a descrição detalhada das fantasias dela, que ele entra em pânico e vê desmoronar diante de si a ilusória supremacia fálica que tanto acalenta.

O resto do filme inteiro é a busca por esta imagem perdida de si mesmo.

Por outro lado, todo o filme pode ser interpretado reconhecendo o parto como parte da vida sexual de uma mulher, e entendendo que sua exuberância funciona também como uma ameaça ao sistema falocêntrico contemporâneo, tanto quanto a fantasia sexual da esposa colocou a mente do marido em espiral. Por isso a voz do parto é calada e suprimida, assim como toda a eroticidade que ele é capaz de expressar.”

Veja aqui o fragmento que tanto me impactou….

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Panegírico

Há alguns dias escrevi um texto sobre o “Mister Bento” e suas diatribes pelo zap-zap. No episódio ele xavecava uma menina de sua região dizendo-se “o homem mais lindo da cidade e um dos mais belos do RS” e em suas palavras, sucintamente escritas, transbordava indignação e estupefação diante da declaração da menina de que ele “não fazia seu tipo”.

“Como assim, se até lésbicas e homens se encantam por mim?”, disse ele em outras palavras. Ainda tentou mais alguns argumentos para demover a moça de sua recusa, mas sem resultado.

No texto anterior eu questionava se a pena imposta – por todos nós – a ele não era exagerada e perguntava se a sua atitude auto elogiosa, porém não violenta e não agressiva, merecia tanta reprovação a ponto de fazê-lo alvo de nossos ataques. Muitas pessoas acharam que “macho escroto(??) que age assim tem mais é que ser exposto”. Para muitas a pena foi até branda, pois suas ações não merecem perdão. Penso que para estas o fato de ser homem torna qualquer pena irrisória.

Mantenho a pergunta. O que fez ele de tão agressivo? Qual seu vitupério mais imperdoável? Por que foi tão impiedosamente atacado?

Ouso responder: o que há de insuportável e que nos choca de forma direta é o encômio, o elogio a si mesmo, a auto adulação, a louvação de si próprio. Estas são ações socialmente reprováveis e repulsivas. Vou adiante: mas por que elogiar-se publicamente é feio? Qual a razão para soar tão mal aos nossos ouvidos uma apologia às nossas virtudes pessoais? E veja que curioso paradoxo: aceitamos graciosamente a mentira da falsa modéstia e repudiamos com vigor a verdade do autoelogio. Então, qual o pecado de nos amarmos tanto em público?

Meu amigo Julio Cesar compôs uma música na nossa juventude cujo refrão era “Eu sou bonito, eu sou bacana, eu sou bonito, eu sou bacana”. Fazíamos troça com algo proibido. Brincávamos com o absurdo de criarmos para nós uma imagem de beleza.

O crime de exaltar-se explicitamente é ainda mais agravado quando é um homem a falar de sua própria beleza física, algo que também não é aceito na sociedade patriarcal. Esculachar-se (como eu faço com minha falta de cabelos) é até elogiável, mas descrever-se como lindo merece a pena da humilhação pública.

Minha humilde resposta para essa pergunta é que o auto elogio é uma usurpação. Em verdade, ao ouvirmos uma exaltação laudatória de si mesmo, pensamos: você não pode dizer isso…. porque não sabe do que fala!! Só nós temos esse direito. Você é o que dizemos de você, construído pelos nossos olhos e nossos valores estéticos. O encômio não cabe a você; espere que um outro lhe promova e reconheça suas virtudes, jamais você mesmo. Você está falando de um lugar que não é seu!! Saia já daí!!!

Talvez isso ajude a esclarecer a razão de tanto mal estar causado pelo panegírico que o Mister Bento fez de si mesmo. Ele roubava um lugar que não era seu. Ou há outra explicação para tanto desconforto com suas palavras?

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Mister Bento e João Gilberto

Depois que o Mister Bento teve seu xaveco revelado nas redes sociais ele veio a público fazer uma declaração onde se diz arrependido e pede “desculpas” por seu erro. “Afinal, errar é humano”, disse ele.

Diante desse singelo pedido de escusas, eu pergunto: desculpas pelo quê e para quem? Pelo que vi da conversa ele foi respeitoso, não baixou o nível, não agrediu e não atacou a moça. Foi, talvez, um pouco insistente, mas nada além do jogo de vai-e-vem da conquista. Se a moça tivesse achado que a conversa era abusiva não o teria chamado de “querido” e teria deixado de responder. Não, apenas deixou claro para o rapaz que ele “não era seu tipo”. Aliás, uma conversa que provavelmente acontece todas as noites em milhões de danceterias espalhadas pelo mundo onde se pratica o jogo da sedução.

O que chama a atenção na conversa não é nenhum “erro”, mas o discurso que desvela uma auto estima espetacularmente alta, ilimitada, de alguém que toma a negativa da menina como algo inconcebível. Ele me lembrou imediatamente Gastón, o personagem musculoso de “A Bela e a Fera”, que não conseguia acreditar que a pequena Belle não se deixasse encantar pelos atributos físicos do homem “mais lindo da aldeia”.

Mas… por que pedir desculpas por mostrar-se como verdadeiramente é, despido das capas sociais de ocultação? Por que deveria pedir perdão por dizer o quanto se acha lindo, maravilhoso, belo e talentoso? Por que deveria se desculpar pela desabrida imodéstia? Se essa demonstração de vaidade pode ser desagradável aos nossos sentidos, certamente não é ofensiva ou violenta. Por qual razão deveria ele, então, pedir perdão?

Perdão pelo xaveco? Pela cantada? Pelo convite para saírem? Perdão por “se achar”? Por mostrar sua “nudez” emocional na intimidade de uma conversa? Pela autoimagem exaltada e magnificada?

Não faz sentido para mim. Não há o que se desculpar.

Isso me lembrou uma velha piada atribuída ao genial João Gilberto.

O já famoso João Gilberto recebe antes do seu show um jovem aflito em seu camarim. Diz o jovem bastante nervoso ao cantor:

– Preciso de um favor seu. Estou com uma garota que há anos tento conquistar. Descobri que ela é sua fã e consegui comprar ingressos para uma mesa bem próxima do palco. Se você viesse me cumprimentar depois do show acho que isso a impressionaria. Meu nome é Ricardo. Poderia me ajudar?

João Gilberto sorriu ao entender o plano do rapaz. Sabia ele que ser íntimo de um cantor famoso deveria garantir muitos pontos na luta para conquistar uma mulher. Concordou com sua ideia e se despediram.

Terminado o show, seguido de efusivos aplausos, lembrou da promessa e se dirigiu à mesa onde Ricardo estava com a vistosa loira de decote hipnótico e generoso. Acercou-se de ambos e com um sorriso cumprimentou o “amigo”.

– Então Ricardo, que bom que você veio. E pelo visto trouxe uma linda jovem.

Ao ouvir as palavras do pai da Bossa Nova, Ricardo franziu o venho e disparou:

– Não posso conversar não, João. Depois falamos. Agora estou conversando com a Rita.

Moral da história: ser amigo de João Gilberto pode lhe dar pontos, mas esnobá-lo quebra a banca.

Da mesma forma, receber uma cantada do “homem mais lindo do Rio Grande“, pode inflar seu ego, mas esnobá-lo e expor sua vaidade a todos, tornando pública uma conversa privada e exibindo a intimidade de uma conversa (mesmo com o risco de humilhar alguém que não lhe fez mal algum) pode lhe jogar às alturas. Melhor ainda: ninguém vai questionar a ética dessa atitude, pois todos ficarão focados na auto estima gigantesca do Mister Bento, tanto quanto Ricardo e João ficaram hipnotizados pelo decote de Rita.

Quem deveria pedir desculpas?

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Tipos virtuais

No Facebook há pessoas a quem poderíamos chamar de “delimitadores”, que são sujeitos que buscam fazer declarações – políticas, pessoais, científicas, filosóficas, etc. Para estas, a opinião dos outros é desimportante na medida em que sua manifestação serve apenas ao propósito de marcar uma posição e apontar uma demarcação de ideias, e a perspectiva alheia não terá força suficiente para demovê-la de lá. Trazem verdades e perspectivas pessoais claras e fortes.

Por outro lado há também os “debatedores”, gente que propõe ideias como quem lança um anzol em um oceano de perspectivas, esperando que os peixes mordam para que eles mesmos possam se alimentar do que o mar tem a lhes oferecer. Não têm posturas fechadas, mesmo tendo opiniões e pontos de vista, mas acham interessante conhecer o “outro lado da história”.

É um grave erro confundir estas duas personalidades. Via de regra, nunca tente debater com a primeira; por inúmeras razões ela não está pedindo sua opinião, não quer saber o que você pensa e só aceita sua concordância e sua afiliação com seu ideário. É importante respeitar essa limitação.

Com a segunda, aproveite o texto e as respostas que se seguem. Muitas vezes elas são muito mais interessantes do que a postagem inicial. Em inúmeras oportunidades a ideia motivadora produz “spin offs” ainda mais interessantes que o assunto proposto a princípio. Coloque sua ideias – ou sua discordância – focando no texto proposto (e não em sua agenda pessoal) e de forma respeitosa. Não seja agressivo ou debochado. Depois de escrever releia e pondere.

Em qualquer das duas possibilidades nunca responda quando o debate se contaminar com ataques pessoais. Quem usa das redes sociais para ofender a honra de desconhecidos apenas inventa assuntos para ter essa oportunidade. Fuja dos trolls e não os alimente.

E, acima de tudo, não seja ingênuo de debater racionalmente com alguém cujas crenças foram obtidas irracionalmente.

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Dinheiro

“O dinheiro suficiente para sanar problemas se restringe àquele que supre as necessidades. Comida, segurança, proteção, abrigo, frio, chuva. Acima disso estaremos já no império dos desejos. Estes, por definição, são infinitos, enquanto as necessidades são limitadas e circunscritas à vida e à fisiologia.

Perguntar quanto de dinheiro te faria feliz é o mesmo que perguntar qual a profundidade de um buraco sem fundo. Ou qual a distância até o infinito…

Dinheiro não produz felicidade porque esta é a realização de um sonho infantil, mas para as crianças pequenas o dinheiro inexiste. Por isso a felicidade não pode ser atingida com valores monetários.

Se o dinheiro pudesse trazer felicidade ricos seriam automaticamente felizes, mas isso está bem longe da verdade. São felizes a despeito do dinheiro, ou infelizes apesar dele.”

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Panóptico

O mundo panóptico contemporâneo se tornou o VAR da vida social. Não há mais como esconder aquela crise de raiva incontida, aquela explosão de contrariedade ou aquele paroxismo de indignação, da mesmo forma como a puxadinha no calção do adversário na hora do escanteio se tornou um risco absurdo.

Hoje um ato impensado pode nos jogar no abismo da condenação pública, onde não há perdão. Os juízes da redes sociais marcam pênalti, sem dó. Agora uma vida inteira de virtude sucumbe a poucos segundos de luxúria, pecado ou egoísmo expostos publicamente.

O exercício da contenção hipócrita e de uma fachada social falsa ainda precisam ser mais bem avaliados. Uma sociedade impedida de exercer a privacidade torna-se necessariamente mais virtuosa pela inexistência explícita de pecado?

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Almas gêmeas

Li esta resposta a um questionamento sobre o sexo objetificado na cultura contemporânea:

“O sexo objetificado e coisificado pela padronização do erotismo, tratado como mercadoria, é vendido como estereótipo, camuflando qualquer *relação verdadeira de afeto*. Os encontros resumem-se ao desejo de adquirir um produto, algo distante do sentimento de pertencimento mútuo.”

Hoje em dia, com as relações mais livres e frouxas, derivadas – entre outras coisas – das conquistas do feminismo, achamos que as relações são “objetuais”, ‘interesseiras” e “superficiais”. Em verdade, a sexualidade sempre foi um acerto entre interesses, as vezes explícitos mas quase sempre inconscientes.

Por seu turno, “relações verdadeiras de afeto” são criações contemporâneas e nada tem a ver com sexo, que serve basicamente à reprodução e – exatamente por isso – é prazeroso. Unir afeto com sexo é um artificialismo criado pela cultura há pouco tempo, com o surgimento do amor romântico. Dizer que amor e afeto “deveriam estar unidos” é um ideia bonita, mas não tem nada a ver com a nossa programação.

Em verdade, “se amor existe, é o sentimento de uma mãe por seu filho, e todos os outros amores são dele derivados”, como diria Freud. O amor é, por certo, a fissura bizarra da estrutura cósmica, o inesperado e não programado sentimento que surge pela debilidade do feto humano ao ser expulso do ventre materno antes do devido tempo de maturação. Sua “altricialidade” – a dependência do cuidado alheio – produz reciprocamente os sentimentos maternos de afeto que constituem a base da nossa estrutura psíquica, e o que nos joga inexoravelmente no universo do desejo.

Imaginar que a novidade da estrutura de sexo conectado com amor seja o fim último de ambos sentimentos é uma crença arriscada. Determinar o fim do “projeto sexual da humanidade” – o pertencimento de um pelo outro – é tão apressado quanto decretar, na economia, o “fim da história”. Se deu errado com Fukuyama, porque daria certo com as uniões afetivas humanas?

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Dinheiro

Dinheiro não traz mesmo felicidade, mas por certo pode apaziguar angústias, desde que sejam do tipo que podem ser pagas ou compradas. E, realmente, não cabe romantizar a miséria, pois que não deve ser positivo viver seu cotidiano lutando pela mera sobrevivência.

Da mesma forma também não cabe romantizar o dinheiro e a abundância, pois não há pessoa mais miserável que um sujeito tão pobre que nada possui além de dinheiro.

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Limites

Passados exatos 100 anos os fascistas na Itália já eram responsáveis pelo assassinato de cerca de 600 italianos, uma mostra da total impunidade dessas milícias que, por princípio, preferiam usar pedaços de pau e não armas contra seus inimigos – sindicalistas, socialistas, comunistas – pois seu objetivo essencial era humilhá-los, e não dar cabo de suas vidas.

Um médico na Itália, de sólida reputação e posição social, foi vítima dessas brigadas fascistas. Por sorte não morreu, mas recebeu seu quinhão de tortura e humilhação. Seu filho, ainda pequeno, a isso presenciou com terror, amargura e indignação.

Nesta época era comum na Itália que estas facções criminosas, os “camisas negras”, emboscassem líderes sindicais e atirassem nos joelhos, para que eles nunca mais pudessem andar; essa ação se chamava gambizzare. Outra prática era a purga: constranger o sujeito a beber litros de óleo de rícino para provocar tormentos na barriga e no intestino. Também havia ataques aos sindicalistas e líderes operários com correntes; esses eram os castigos determinados para o “crime” de liderar as reivindicações dos trabalhadores.

Assim era o pânico desse menino, que o aterrorizava todos os dias: receber à noite seu pai alvejado e tornado inválido pelos camisas negras fascistas. A guerra acabou. Mussolini foi executado e sua família foi exposta ao ódio que ele tanto semeou. O fascismo esmaecia na Itália e os camisas negras tornaram-se a triste memória da crueldade e do horror. Esse menino, filho do médico, já adulto volta à Itália já graduado depois de ter estudado com a nata do pensamento freudiano na França, tornando-se psicanalista. Abre uma consultório e começa a atender seus pacientes.

Certo dia encontra em sua sala um cliente novo, homem maduro à procura de atendimento. Trata de assuntos domésticos, angústias, dores do passado. Relata minuciosamente suas neuroses, suas dúvidas e suas feridas abertas. O atendimento continua sem novidades por algumas semanas até o dia em que ele conta de seu passado na Itália fascista, e revela que pertenceu a um grupo de agitadores cuja missão era atirar no joelho dos sindicalistas. Ele havia participado das gangues de “gambizzare”.

Nesse momento de revelação o coração do jovem psicanalista congelou. Por seus olhos passaram as cenas de terror e medo de sua infância, na iminência de ver seu pai voltando para casa baleado, aleijado ou morto, seu ativismo castigado pelos porretes e tiros dos camisas negras. Diante dessa confissão, nada falou, mas percebeu que uma lembrança muito sensível de sua alma foi atingida.

Na consulta seguinte pediu ao paciente que procurasse um colega. Criou uma desculpa qualquer e se despediu. Sentiu que havia sido atingido em um local por demais delicado de sua constituição emocional, ferindo mortalmente a relação que recém se havia iniciado.

Mas e quanto à isenção do profissional? E o que dizer da escuta sem preconceitos e julgamentos?“, perguntou o aluno, ao escutar a história contada pelo mestre.

Ora, não existe escuta isenta. Não há ouvidos que não transformem e metabolizem histórias no curto trajeto entre o tímpano e os sentimentos mais profundos. Exigir de um terapeuta que não seja tocado pelas narrativas que encontra em sua escuta cotidiana é pedir que negue o que há de mais humano em si. Se é justo pedir que as emoções e a perspectiva de mundo de um analista não conduzam um tratamento, também é correto aceitar que a carne que o constitui é suscetível às palavras e seus significados.

“Cada um sabe de seus limites”, respondeu ele com simplicidade. Da mesma forma, quando médicos invocam a “objeção de consciência” para recusar uma demanda podem estar falando de suas limitações diante da dramaticidade das escolhas que são obrigados a tomar. Não é justo tratá-los como se habitassem corpos ausentes de alma.

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Distopia

(Uma manifestação de contrariedade com o texto que escrevi sobre o parto normal e a humanização do nascimento – feita por uma mulher).

“…mulher nenhuma deveria ter parto normal na atualidade, para que serve a medicina? Para evitar dores e mutilação no corpo das pacientes. Hoje parto normal só para animais, e olha que os domesticados já estão passando por cesárea para não sofrer. Mas enfim, vá ter um filho em parto normal, depois a gente se fala, ok?”

Diante dessa manifestação fica muito difícil responder. Estou estupefato. Inquieto e atônito, mas com uma clareza súbita sobre estes temas. Sua mensagem me deixou perturbado a ponto de abrir um portal de iluminação sobre minha cabeça. Na luz que se produziu eu percebi a verdade de suas palavras e, mais ainda, o fato de que não só o parto normal poderia ser considerado obsoleto, mas que o próprio sexo deveria ser, com o tempo, descartado como desiderato máximo do prazer humano. Como você disse, depois do acesso aos recursos tecnológicos, o mundo “natural” deveria ser reservado apenas aos animais. Afinal, se já é possível fazer fertilização “in vitro” por que ainda insistimos nesse modelo ultrapassado de reprodução?

E veja bem…. além de ser cansativa e desagradável essa “troca de odores e fluidos”, o que dizer dos riscos? Doenças sexualmente transmitidas, infarto agudo, torcicolo, arritmias, hemorragias e gravidezes não planejadas, entre outros dissabores, poderiam ser evitados. Sexo é cansativo e pode ser dolorido, enquanto uma inseminação pode ser feita num laboratório de qualidade com toda a segurança e limpeza, enquanto o casal poderá estar viajando para a praia ou desfrutando dos verdadeiros prazeres da vida: pedir comida pelo IFood e ver séries da Netflix.

Não há como deixar de reconhecer seu acerto em decretar o fim do parto normal diante de tantas evidências científicas de sua obsolescência. Todavia, eu reconheço que, sendo o parto uma parte da vida sexual da mulher, melhor seria que todos os aspectos da sua sexualidade – e não apenas o parto – fossem relegados ao esquecimento e trocados pelas suas variantes tecnológicas. Assim, por que não banco de esperma no lugar de marido, fecundação artificial no lugar de sexo, cesariana no lugar do parto, fórmula láctea no lugar da amamentação, babás e creches no lugar da maternagem? Por que ainda insistimos nesses anacronismos que só atrapalham nosso conforto e nossa alegria?

Certamente que este futuro utópico que você imagina para todos será, por certo, mais seguro, mais feliz e indolor. Haldous Huxley e Margaret Atwood ficariam corados de vergonha de não terem pensado em todos estes detalhes.

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