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Pessoa objeto coisa

A questão implícita no experimento da mulher-objeto é a sua “desumanização” proposta na performance. Quando qualquer sujeito (e pode ser uma mulher ou um homem) é despojado de sua condição humana fica destituído de qualquer possibilidade de empatia com os semelhantes. Sempre que um genocídio é planejado a primeira etapa é retirar das vítimas sua humanidade.

Isto ocorreu com os judeus durante o holocausto, os armênios com os turcos, os chineses na invasão japonesa, os congoleses nas mãos de Leopoldo e com os palestinos aprisionados e massacrados pelos sionistas. A descrição do povo subjugado é de “animais”, exatamente como Trump se referiu aos imigrantes – ou como foi a regra do discurso dos europeus sobre as colônias de África. É ilustrativa a exposição de crianças negras em zoológicos europeus no século XIX ou mesmo como “caça” para a diversão da realeza. A estratégia é retirar destes povos aquilo que os identifica com os humanos, o que os torna iguais a nós, como os seus sentimentos, sua dor, sua cultura e seus valores. Depois que isso ocorre, construído sistematicamente pela sociedade que os domina, é mais fácil aceitar a crueldade, a barbárie e até sua destruição e extermínio.

Com o sujeito ocorre o mesmo. Se é um boneco, que não reage, não reclama dos maus tratos a ele aplicados e se comporta como um ser despojado das reações reconhecidas como humanas, que problema poderia haver em coisificá-lo e objetualizá-lo para o nosso uso e prazer? Esse mecanismo explica a despersonalização que se produz nos centros obstétricos para que a violência aplicada à mulher não produza um contra fluxo afetivo que atingiria o próprio agressor.

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Coisas

“Os objetos substituem afetos e ocupam espaços vagos nos corações. Uma pletora de coisas amontoadas aleatoriamente sobre si mesmas. Muito “cargo” por sobre carcaças desprovidas de valor. Mais do que a estética, a utilidade ou a praticidade o que os jovens decoram é o preço do que vestem; a roupa é o invólucro de seu preço. Adereços são usados para dar brilho e valor a uma carne ordinária e banal. Roupas feias carregadas com nomes estrangeiros de produtos manufaturados por crianças em Bangladesh sendo usados para tapar o buraco sem fundo do vazio existencial de quem muito possui sem nada ter de real.

Vivemos em um tempo em que milhões são gastos em roupas e joias, mas  não temos o suficiente sequer para garantir uma educação para todos, nem mesmo habitação ou comida. Mas, o paradoxo é que uma boa educação talvez seria o melhor antídoto para a barbárie do consumismo inconsequente.

Ainda me vem à mente a frase (baseada em Mia Couto): “São tão miseráveis que não possuem nada além de dinheiro”.

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Definições Simples

Se um médico, enfermeira ou outro profissional do parto não consegue explicar para uma criança de 5 anos o que significam “humanização do nascimento”, “autonomia” e “livre escolha” é porque ainda não entendeu estes conceitos. Se tais conceitos (que são, em verdade, simples) não forem entendidos claramente eles não serão aplicados na prática. Se não podem ser praticados efetivamente, procurem alguém que os compreenda e os use.

Foto: introdução do livro “Carta aberta de Woody Allen para Platão” de Juan António Rivera

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Amor e Verdade

Ah, a ilusão do amor…

Dedicamos uma porção enorme de nossas vidas à busca desse sentimento que acalenta, conforta e dá sentido às nossas angústias. Entretanto, seu preço é por vezes amargo. E quando o amor é confrontado com a verdade? E quando a palavra afiada corta como navalha os cordéis de fina tessitura que sustentam a delicadeza desse encontro?

Entre a verdade e o amor, com qual deles você escolheria passar o resto de sua vida?

“Sons e palavras são navalhas e eu não posso cantar como convém sem querer ferir ninguém”. (Belchior)

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Paz

 

Curioso ouvir gente falando de PAZ.

Essa gente que está cansada das guerras (aqui não as temos de forma declarada) e da violência urbana. Gente que não aguenta mais ser roubada, ameaçada, sequestrada ou furtada. Gente que não suporta mais o noticiário cheio de sangue ao meio dia. Desgraças, mortes, agressões a granel.

Por outro lado, essas pessoas não querem verdadeiramente a paz, porque paz não é algo que se ganha é algo que se faz. Essas pessoas querem tão somente deixar de serem vítimas da guerra, porém pouco ou nada fazem de efetivo para que ela termine. Choram as mortes, mas apenas aquelas do seu exército; os outros …. bem, eles bem fizeram por merecer a morte que tiveram.

Muitos fazem discursos bonitos e inspiradores sobre a importância da Paz, bons o suficiente para serem assistidos num domingo à tarde escutando ao fundo as bombas de gás caindo sobre os moradores da favela . Tão úteis quanto um punhado de artistas medíocres da Rede Globo com camisetas brancas marchando por Copacabana pedindo “paz”, que nada mais é do que o projeto de manter os pobres miseráveis e excluídos, mas conformados e dóceis, a ponto de não roubarem mais o nosso celular e a nossa carteira. Uma “pax romana” adaptada aos nossos tempos, onde o crime da exclusão e da iniquidade é tratado como “valoração do mérito”, e a fome como uma “chaga moral”. Uma paz que criminaliza de todos os meios e formas aqueles que ousaram questionar a miséria e a indignidade humana, procurando destruir sua figura pública e sua moral.

É desta paz dos vencedores que nos falam?

Paz? Teu cu….

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Responsabilidade e Autonomia

O problema da responsabilidade da mulher sobre a gestação é bastante complexo e sobre isso há um ponto nevrálgico de caráter ético e filosófico sobre o qual ainda não há solução definitiva: “Afinal, a quem pertence esse feto e, depois, esta criança?”

Há que se lembrar que o surgimento da paternidade reconhecida é recente na historia da humanidade. Até então o sexo era prazer e domínio e passou a ser preservação genética; de uma paternidade social a um vínculo mais pessoal. Entretanto, por razões óbvias, a maternidade sempre foi visceral e reconhecida socialmente. A guarda dessa criança sempre foi responsabilidade da mulher que a pariu. Somente as mudanças estruturais da sociedade advindas da monogamia e do amor romântico puderam determinar uma nova configuração da paternidade. De algo difuso ou quase inexistente a um vinculo social reconhecido e valorizado.

Hoje ainda vemos a mulher muito mais conectada com sua gestação e filhos do que os homens. Não imagino como poderia ser diferente, já que é sobre seu corpo que o processo ocorre. Entretanto, existe um limite invisível que separa os dois polos, que se move ao sopro dos valores sociais vigentes: de um lado a responsabilidade de outras instâncias, como o pai e a sociedade; do outro a liberdade e a autonomia da mulher sobre seu corpo e seu destino.

Quando se reconhece a mulher protagonista e autônoma o aborto legalizado passa a ser mais facilmente entendido. “Seu corpo, suas regras”, dizemos. Também seus cuidados e escolhas na gestação e no parto passam a ser mais valorizados e respeitados. Dieta, estilo de vida, cuidadores, local de parto, amamentação, etc. Tudo depende da mulher, sendo o homem um mero espectador do evento, restringindo-se a lhe dar suporte material e moral.

Por outro lado pode haver um envolvimento muito grande dos parceiros(as) na gestação e parto, mas com isso é natural que também os direitos sobre o bebê sofram uma espécie de partilha. Se antes dependiam apenas das escolhas da mãe, agora o parceiro também se sentirá no direito de opinar e decidir. Portanto, não deveria ser absurdo que ele opinassem sobre local de parto, amamentação, vacinas, parteiros mas também pela própria continuidade ou não da gravidez. Afinal, se ele é responsável (moral e financeiramente) deveria também poder exercer seu poder de decisão sobre algo que também é, reconhecidamente, seu.

As linhas divisórias entre as a suprema autonomia feminina e a “intromissão social” variam no tempo e nas latitudes, mas hoje vemos uma tendência crescente para proteger a mulher e suas escolhas. Entretanto, para que se exija responsabilidades dos parceiros(as) também é fundamental que lhes seja garantido um nível razoável (porem variável) de poder de decisão.

Nenhum parceiro é capaz de oferecer ajuda sem que haja a contrapartida do reconhecimento.

Manuel de Aquino Queiroz, “Poder e Limites do Corpo – uma arqueologia da gravidez”, Ed. Cascais, pág 135.

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Função Paterna

Há alguns meses, falando sobre os condicionantes sociais da criminalidade citei um estudo que mostra que 70% da massa carcerária de homens no Brasil é composta de sujeitos sem a figura paterna constante em suas vidas. Realmente, faz sentido para mim este achado; falta um pai na vida dessas crianças. A mesma análise agora foi feita com os massacres nos Estados Unidos demonstrando que a ausência de um modelo masculino paterno está presente em todos os perfis psicológicos dos personagens por trás das armas.

A volatilidade dos relacionamentos contemporâneos e a facilidade dos divórcios e separações, associados com uma maior independência das mulheres – mudanças culturais com inegáveis aspectos positivos – tiveram como parefeito o aparecimento de um número maior de crianças que crescem sem a presença de um pai em suas casas.

A ausência dessa figura junto com outros fatores como a violência urbana, o capitalismo, a banalização das armas e a competitividade estimulada nas escolas podem estar na origem dos surtos de violência como os que temos testemunhado na América do Norte. Além disso, algo também precisa ser feito com os meninos dentro de um sistema escolar que é conduzido por mulheres e direcionado para as meninas, e não para os garotos. Ser “garoto” na escola é ser um potencial foco de problemas.

O estilo de vida ocidental nos levou a que um número crescente de crianças crescem sem a figura paterna. Não é a separação do casal a origem do problema, mas suas consequências. Entretanto, a ninguém ocorre achar que a solução seja manter juntos casais que não mais se amam. Esse tempo de prisão “em nome das crianças” já passou.

Como presenciei muitos casos de alienação parental em minha vida pessoal e profissional e sei o quanto é duro ver homens expulsos do afeto de uma criança pela voz da mãe. Apesar de achar que a maioria dos casos é mesmo por imaturidade e irresponsabilidade dos homens, não penso que a alienação paterna possa ser desconsiderada.

Por outro lado, não é à força que se constrói um pai. Ser um bom pai é um processo transgeracional; se o indivíduo não consegue se sentir nessa função não há nada que se possa fazer. Claro que podemos obrigá-lo a pagar suas obrigações econômicas e fazê-lo cumprir as determinações de visitas, mas sabemos que não é isso que significa ser pai. É bem mais do que dinheiro e presença física.

Mães deixadas à própria sorte para cuidarem sozinhas dos filhos são sempre um desafio complexo. Não apenas as questões materiais contam, mas também as emocionais. A sensação de onipotência de uma mãe (até um pai) que cria uma criança(s) sozinha é fabulosa. Não há contraponto, nem contraditório. Sua voz é TODA a autoridade que a criança tem. Isso pode representar uma sedução muito grande e representar um elemento não visível na alienação parental. “Ele (ela, raríssimas vezes) nunca vem visitar os filhos.”, ou “Ele(a) sempre volta chorando da casa do pai”. Sempre que escutei estas frases de mães separadas eu me perguntava – em silêncio – o quanto disso era falta de desejo do parceiro e quanto havia de obstrução simbólica por parte da mãe. Difícil saber.

Sejam quais forem as razões (abandono ou alienação parental) a verdade é que a falta dessa função (mais do que dessa “figura”) está implicada em todos os casos de massacres produzidos por jovens rapazes americanos. É preciso proteger os meninos que, por serem homens e tratados como “privilegiados” (com o que discordo, mas esta é outra discussão) são frequentemente negligenciados. A falta do pai é um dos principais elementos ligados ao crime e à contravenção e uma especial atenção precisa ser devotada a essa lacuna de formação nos próximos anos. Para o bem de toda a humanidade.

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Carrapatos

Esses dias morreu (mais uma) menina por aborto inseguro no Brasil e sua história alcançou as capas de jornais e as mídias sociais. Achei que nenhuma notícia poderia ser mais triste do que esta…. até ler os comentários. Neste porão da estupidez humana proliferam como carrapatos os cidadãos de bem, desfilando pestilência em forma de ódio. Lá estão inclusive senhoras, mães, avós amorosas em cujas páginas pessoais do Facebook pululam imagens de Jesus, gatinhos, bolos deliciosos e….. Bolsonaro. A maldade travestida de “justiça” é a mais perversa das armadilhas. Essas “pessoas de bem” são a ralé moral desse país.

Como diria Cunha, outro cidadão exemplar, “que Deus tenha piedade de suas almas“.

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Corpos Expostos

Estava conversando com uma amiga ativista da atenção ao parto que está escrevendo sua tese sobre a perseguição aos humanistas quando ela me pediu umas fotos (que aparecem sempre em minhas aulas para os cursos de doula) e que são paradigmáticas para o entendimento da forma como as mulheres são atendidas pelo sistema obstétrico contemporâneo. Essas são fotos que falam muito da maneira específica como funciona a exposição das mulheres e seus corpos na atenção ao parto.

A primeira delas mostra uma mulher completamente coberta por campos estéreis, com exceção dos seus genitais. Esta imagem envia uma clara mensagem da “essencialização feminina”, ou seja, a perda de toda a sua subjetividade e individualidade, sendo reduzida a um contêiner fetal, cuja passagem – e apenas ela – observamos e permitimos que apareça. Faz parte da ideia de reduzir a mulher a um objeto, escondendo a sua totalidade e mostrando apenas uma parte, aquela que nos interessa. A publicidade sabe muito bem como isso se processa, ao mostrar as mulheres como mãos, coxas, lábios, nádegas ou seios; a mulher enquanto sujeito nunca aparece, apenas uma parte sua, onde se encontra o que desejamos vender. Por outro lado, esconder a mulher é uma das formas de proteger os profissionais a partir de des-humanização da sua paciente, tornando-a mais facilmente percebida como um objeto sobre o qual aplicarão sua arte. Com isso a dor, a angústia, o sofrimento e a inevitável empatia que surgirá na interação com um paciente que possuiu alma se distanciam do profissional que, assim liberado, pode agir movido pela razão e sem a interferência das emoções identificatórias.

A segunda imagem é ainda mais interessante. Norbert Elias em “O Processo Civilizatório” descreve a curiosa imagem do banho das cortesãs europeias ladeadas por servos, tanto mulheres quanto homens escravos. É de se perguntar como seria possível que, diante do puritanismo da sociedade de alguns séculos em relação ao corpo, uma nobre mulher ficasse nua diante de seus servos homens. A resposta é dura e cruel: exatamente pela des-humanização desses personagens eles perdiam a condição de sujeitos em paridade com as pessoas a quem serviam. Tinham não mais do que o status de animais, como objetos sub-humanos, pelo quais não faria sentido sentir-se constrangida. Não eram mais do que parte da mobília presente na cena.

O mesmo ocorre com uma mulher que perde sua autonomia e suas características subjetivas, onde o pudor, a privacidade, e as vergonhas de sua nudez carecem de sentido. Os profissionais perdem a capacidade de vê-las como mulheres, inteiras, femininas e possuidoras de corpos animados, erotizados. Tornam-se objetos a quem não faz sentido garantir intimidade. Diante de qualquer reação da paciente, constrangida em sua nudez, a resposta é sempre a mesma: “Não se preocupe, estamos acostumados. Somos todos profissionais”, o que pode ser traduzido por: “Não enxergamos você como uma mulher; perdemos essa capacidade ao chegarmos aqui”

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Arquiteturas sexuais

Respeitosamente discordo.

Na minha modesta opinião o erro está em parear a sexualidade masculina com a feminina sem levar em consideração a arquitetura ancestral de suas construções. Sendo uma sexualidade objetual e a outra narcísica é de suas específicas naturezas que se expressem de forma absolutamente diversa: uma para fora e outra para dentro.

Uma expressão sexual masculina narcísica (como na foto) se choca contra a estrutura íntima da sexualidade masculina, por isso parece ridícula. Já a estrutura feminina essencial (portanto não cultural) se adapta a essa exposição do corpo como artefato de desejo. Além disso eu concordo com algumas feministas de que não se trata de uma objetualização (apesar da apresentação como objeto de desejo) mas de um reforço do poder feminino que não deveria ser desprezado. Por que haveriam as mulheres de desprezar o imenso poder que exercem na cultura como guardiãs do prazer?

Não há nada de errado ou sexista no corpo feminino como objeto de desejo (que ele felizmente é) mas na REDUÇÃO da mulher a APENAS um corpo sem alma e sem autonomia. No meu modesto ver é possível glorificar e desejar as mulheres e suas formas sem reduzi-las a isso e admirá-las por todas as suas qualidades humanas.

Porém, subverter a arquitetura da sexualidade humana em nome de uma igualdade forçada me parece errado. Talvez, se o tema fosse mostrar sexo para vender produtos (como uma motocicleta), eu concordaria, mas o texto escrever a à foto como sexista (por ser normalmente com uma mulher) e não imoral ou indecente (por vincular sexo com consumo).

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