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A derrota petista de 2016

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Pela lógica racionalista da “destruição do PT“, que se pode ver pela escolha maciça por um candidato da elite em São Paulo, o povo é evangélico, de elite, ladrão, gosta de apanhar da polícia e adora ver a merenda dos filhos ser roubada. Ora… nossas escolhas se dão de forma diversa do que nossa vã consciência determina, tanto na política quanto no amor.

Transformar a política nessa brincadeira racionalista acreditando que voto se dá com a razão, quando em verdade ele vem das tripas, é apenas demonstração de ingenuidade e pouco alcance visual. O voto contra o PT foi dado depois de uma ampla e extensa campanha midiático-jurídica de criminalização das aspirações populares, um avanço sem precedentes de todas as armas de propaganda contra o partido que, apesar de seus inúmeros defeitos e falhas, mudou a cara do Brasil.

Insistir na tese do “partido que dividiu o Brasil” (como se antes reinasse harmonia entre as classes sociais) ou ser o partido do “nós contra eles” é mais do que ingenuidade: é cegueira auto imposta. Esse Brasil SEMPRE teve donos, e a culpa do PT foi provar ao sujeito negro, pobre, miserável e faminto que esse país também lhe pertencia.

Infelizmente, os antigos donos inquestionáveis da nação não suportaram ver aquela “negrada suja” invadindo seus domínios, e o resultado em São Paulo ficou claro: vamos votar nos patrões, na política rasteira, na elite quatrocentona e vamos induzir o pobre e o evangélico – entorpecido pela propaganda – de que se trata de uma cruzada contra o Mal, o demônio e a cisão, e a favor da “paz entre donos e serviçais”.

Como eu disse anteriormente, não reclamo de urna. A vitória da banda podre da política brasileira, da elite empresarial e da impunidade deve servir para um grande aprendizado, em especial das esquerdas. Por muitos anos subestimou-se o poder da mídia de transformar qualquer sujeito social em um fantoche. Não se sabia também o poder imenso de um judiciário parcial em moldar o imaginário do povo. Também o poder da Igrejas em manipular as mentes e manter a população pobre das periferias encabrestada foi negligenciado, mas tudo isso servirá de ensinamento para o futuro, desde que sejamos capazes de aprender com os nossos erros.

Que não foram poucos.

O Brasil não colocou o PT no lixo… colocou o PT de castigo. Não há como destruir o PT, muito menos as utopias da esquerda, pois elas são como ervas daninhas: quanto mais se tira mais elas crescem. Não comemorem muito, antipetistas. Os ideais de equidade e justiça social não vão desaparecer pela onda moralista, fascista e racista que assola o mundo inteiro. Precisa mais do que um golpe para matar nossos sonhos.

O progresso é feito de avanços e retrações. Agora é o momento de recolher os cacos, chorar pelas ilusões perdidas, levantar a cabeça e reerguer o partido. E que as esquerdas tenham a sabedoria de construir um caminho onde as semelhanças sejam mais importantes do que as naturais diferenças.

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Das Tripas

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Uma pessoa que passou meses a fio chamando o ex-presidente de “Mulla”, “Lulladrão”, “9 Dedos”, “molusco” e a ex presidente de “Dilmanta” NUNCA teve um neurônio sequer dedicado à análise racional dos fatos. É inegável que as pessoas que assim se referem aos políticos em seus posts são contaminados por emocionalismos, paixão, fervor religioso (já que o antipetismo se configura como uma religião) e um viés moralista (petralhas corruptos!!!!) inquestionáveis. Meus amigos que assim agem podem dizer o que bem entendem e fazer todas as criticas que quiserem ao PT; metade delas até eu vou concordar. A única coisa que não vão conseguir é NOS convencer que suas posições são “racionais e isentas”. Como dizia Max, “Tal foi a intensidade da escuridão a lhe encobrir a visão que sequer conseguiu enxergar a própria cegueira“.

Ahhh… e TUDO o que escrevo é emocional, é afetivo e vem das tripas. Nossa racionalidade não passa de um verniz, uma fachada intelectual que nos afasta dos medos encobrindo-os com o conhecimento. Entretanto, por mais que esse verniz brilhe ele não é capaz de cobrir por completo os medos e mitos e nos definem e regulam.

Portanto…. não tenham medo de assumir sua postura não-isenta. Não há necessidade de esconder (ilusão!!) seu ódio ao PT. Ele é muito mais digno e respeitável do que uma isenção dissimulada. Eu não tenho vergonha alguma de abandonar as posições “equidistantes”; no ativismo é preciso paixão e amor pelas causas.

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Ódio nosso de cada dia

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Muito se tem escrito ultimamente sobre o ódio, em especial após algumas manifestações contrárias ao governo Dilma ainda na campanha eleitoral de 2014. É inegável que a corrupção existente em qualquer sistema de poder – da política ao porteiro da boate – é inaceitável, mesmo quando sua existência está enraizada na cultura de uma maneira tão firme e profunda. Entretanto, não parece ser ela a causa do ódio contemporâneo. Fosse assim, as múltiplas delações contra alguns personagens do PMDB, PSDB, DEM entre outros gerariam igual onda de raiva incontida, como a que se viu contra a administração petista. Mesmo agora, não se vê nenhuma manifestação maiúscula exigindo a prisão de Eduardo Cunha, Jucá, Renan e outros. A indignação contra o mau uso dos recursos públicos obedece uma lógica seletiva.

Desde o princípio das manifestações violentas contra integrantes do PT eu percebi que havia uma mensagem codificada nas explosões de agressividade, que se expressava de forma dissimulada. Os gritos de “ladrões“, “bandidos” e “vagabundos” eram mensagens encobridoras de conteúdos outros, cuja essência escapava até de quem as proferia. Havia um SENTIMENTO de raiva da classe média, mas ela não conseguia dizer exatamente do que se tratava. A chegada dos imigrantes à costa europeia carregada de violência se justifica pelas queixas de desemprego e de marginalidade que eles podem causar. Em Israel houve uma imensa manifestação de israelenses contra judeus negros vindos de África, acusando-os de aumentar a criminalidade em determinado bairro. Quando a investigação foi feita, descobriu-se que aquele “bairro negro” era – em verdade – um dos mais seguros e com menor taxa de crimes de toda a cidade. Todavia, a simples demonstração dessa realidade não fez com que os protestos parassem. Por quê? Ora, porque no “Império das Hipóteses” a realidade é que precisa se adaptar às convicções, e não o contrário. O racismo evidente das manifestações precisava de uma “indignação encobridora”, e a simples verdade dos números e estatísticas era insuficiente para demonstrar o contrário e arrefecer o ódio.

Mas se a corrupção não é a origem desta indignação, o que gera tanto ódio e ressentimento? Muito se tem falado sobre isso, e as teses se multiplicam. É evidente que o PT, pelo exercício continuado no poder, acabaria escorregando em questões éticas e pela necessidade de estabelecer alianças e conchavos para manter o poder e, certamente, a governabilidade. Não se trata, entretanto, de perdoar tais condutas, mas não é crime contextualizá-las. Os maiores críticos dessa ação petista são de partidos em que estas ações são praticamente institucionalizadas, basta para isso ver como o PMDB formou seu novo governo. Portanto, não se pode dizer que as práticas do PT, por piores que fossem, destoam do que historicamente se fez em política no Brasil. O exemplo da Petrobrás é clássico: não basta Cerveró admitir reiteradamente que o esquema começou no governo FHC, a culpa da Petrobrás será sempre dos governos petistas. Mais uma vez uma realidade inconveniente que teima em confrontar as convicções. Nesse caso, que ela se cale.

A origem do ódio contra o PT, que vemos na Internet de forma mais fácil – pelo anonimato – mas que também se expressa nas conversas informais, é de difícil análise. Um dos elementos que muitos me dizem é que “dos outros a gente sabia, mas o PT foi uma decepção”. Chega a ser engraçado colocar a culpa de nossa ingenuidade sobre o PT, como se ele tivesse culpa por não entendermos como funcionam os esquemas de ganância, vaidade e poder nos governos de qualquer nível. Outra desculpa é de que o PT “deveria ser o exemplo”, já que tanto criticou isso nos outros. Isso é verdade, mas também desautorizaria todas as críticas ao PT feitas pelos políticos de outras agremiações e ficamos presos em um círculo infinito de culpa e acusação que não nos leva a lugar nenhum. Todos os rabos são sujos…

Mas a origem do ódio ao PT está muito mais escondido nas profundezas do nosso espírito, no calabouço de nossos sentimentos menos nobres. Tão feios e sujos são que sequer ousam mostrar o rosto. Usam a máscara da “corrupção”, dos “vagabundos”, dos “petralhas“. O ódio ao PT é estético. Ele tem origem na escravidão que nunca foi assimilada pela brasilidade branca, impoluta e europeia. Ela se baseia no sentimento de invasão que assaltou a classe média brasileira: uma massa de excluídos agora querendo o lugar que “conquistamos”, através do nosso “mérito”. A luta contra as cotas é emblemática, e demonstra esse ódio em sua face mais cristalina: “Esse lugar é nosso. Não permitimos que vocês invadam a nossa academia.” O ódio contra o PT fala de uma identidade de classe média que se desfaz, cujas bordas se tornam imprecisas e nos deixam com medo de não sabermos mais a que lugar pertencemos. O ódio contra o PT está em suas virtudes e na ideia de fazer um pacto civilizatório, oferecendo a chance de cidadania para os excluídos. Isso foi insuportável.

Nada disso perdoa os pecados do PT, mas a derrota nas urnas poderá ser o melhor que já aconteceu a este partido. Como me contava meu pai, “para a cana-de-açúcar o moinho é uma máquina monstruosa e destruidora, mas para o açúcar é o lugar onde se libertou das impurezas acumuladas”. O que hoje é derrota amanhã pode ser entendido como a grande chance de renovação.

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Nazismo

Sobre a bandeira nazista em 1934 em Santa Catarina …

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Antes de serem proibidas a língua e as referências à Alemanha durante o nazismo, o governo de força da Alemanha – e mesmo a figura de Hitler – eram exaltados como modelos de sucesso, especialmente pela reconstrução da economia alemã do pós guerra. A constituição brasileira de 1937 foi baseada nas ideias alemãs e Hitler chegou a ser eleito o “Homem do Ano” pela Revista Time. Ele tinha seguidores no mundo inteiro, e ainda os tem. De onde você acha que vem a paixão de alguns brasileiros por personagens como Bolsonaro e (em menor grau) o juiz Sérgio Moro? De onde você acredita que vem o saudosismo pela ditadura e os regimes fechados?

Ora… existia antes – e continua a existir agora – um desejo por governantes fortes, uma espécie de busca pela figura paterna, forte, viril e que dê conta dos nossos medos e fragilidades. É por isso que glorificamos esses personagens que nos prometem “dureza“, “firmeza“, combate sem tréguas à “corrupção“, etc. Lembra como Collor nos ludibriou com sua “Caça aos Marajás“? Pois atentem que seu discurso era EXATAMENTE na mesma linha do que se fala ainda hoje. Percebe como de novo estamos “caçando corruptos” como se isso significasse a redenção nacional? Não Percebe que essa estratégia obedece a uma agenda que já foi usada com Getúlio, Jango, Juscelino e Dilma?

Isso apenas mostra que estamos repetindo a história por não termos aprendido o suficiente com suas lições. Quando vejo Moro tratado como “Messias”, usando métodos medievais e ilegais como regra, e com o beneplácito de um STF molenga e acovardado, eu percebo que os fatos que culminaram em Hitler – na época amado por todo o povo alemão – se repetem na frente dos nossos olhos. A mesma busca por um Salvador nacional que nos livrará de todo o mal, e mesma leniência com o Estado Democrático de Direito, e mesma caça a políticos de um lado só, etc…

Esse Bandeira poderia estar ainda hoje tremulando. Tenho certeza que entre os “revoltados” e “anticomunistas” ela continua na moda.

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Nojo

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Na última campanha eleitoral no Paraná o candidato Greca, fervoroso antipetista que lidera as intenções de voto em Curitiba, disse que não gosta de pobres e que, quando tentou ajudar um deles colocando-o em seu carro, teve náuseas por causa do cheiro. Mas, quem pode dizer que está o candidato está “equivocado”. Ora, como pode ser errado um reflexo – por definição involuntário – de náusea e vômito ao sentir o cheiro de um pobre?

Pelo contrário, o candidato deveria ser elogiado por expressar de forma clara e cristalina o sentimento que muitos candidatos tem em relação aos mais necessitados de uma população. Aliás, o “nojo” que boa parte da classe média brasileira tem do PT é exatamente por causa desse cheiro, esse odor de povo e esse aroma de equidade.

Infelizmente a imensa maioria dos seus críticos não consegue admitir que a ojeriza que nutrem pelo partido de Lula se deve às suas virtudes, menos do que por seus inequívocos defeitos. O que a estas pessoas causa nojo é essa mania que o PT tem de olhar para o Brasil para além dos muros da classe média.  

Como não há coragem para admitir a aversão que sentem pelo povo, pelos pobres e pelo “resto” do Brasil, melhor então fazer como foi a prática em todos os golpes anteriores, militares ou não: batam na corrupção, pois a luta contra ela nos autoriza a quebrar – sem remorso – um a um os pilares que sustentam o Estado Democrático de Direito. Se alguém reclamar a resposta é o velho clichê: “Ah, vai defender a corrupção?”  

Aqueles que sentem nojo desse cheiro apenas entendam que ele vai continuar no ar penetrando suas narinas, e não será com golpes que poderemos arejar a democracia. Acostumem-se pois não há como fugir dele para sempre.

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Estética do Poder

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Não se trata de combater a corrupção ou de “moralizar o pais”. Fosse isso verdade e toda a fúria contra o PT estaria igualmente direcionada contra os mais corruptos partidos: PMDB e PSDB. Mas por que não vemos panelas gritando contra eles?

Ora, porque no fundo achamos que a opulência e a riqueza lhes cai bem. Acreditamos como natural FHC ter um apartamento em Paris, afinal ele era um acadêmico, mas não aceitamos um igual a nós com um modesto sítio em Atibaia ou um Triplex mixuruca em Santos. Acreditamos que o “mentor supremo de um mega escândalo de corrupção” aceitaria migalhas desprezíveis para colocar seu pescoço a prêmio. Acreditamos na “falta de prova como a prova definitiva“, apenas porque não suportamos a (falta de) estética do povo.

Na verdade acreditamos em qualquer coisa capaz de nutrir nossos preconceitos, os quais se assentam sobre o desejo, e não na razão.

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Denúncias e Fanatismo

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Aos poucos a Internet se dá conta do fiasco absurdo e inédito dos patetas do Ministério Público Anti-Lula. É inacreditável que operadores do direito que um dia pisaram numa faculdade como estes procuradores (eu não tenho provas disso, mas tenho convicção) tenham sido capazes de tamanha irresponsabilidade. Fazer um show midiático e terminar assumindo publicamente a inexistência de provas ficará para a historia como o maior vexame dessa instituição.

E eu achava que nada poderia… ser mais vergonhoso e primário do que confundir Hegel com Engels… ou Carlos Magno com o rei Arthur. A desmoralização que esses jovens produziram no MPF entra no anedotário nacional e mancha a sua seriedade. Que Deus nos livre um dia de sermos acusados com tamanha leviandade e desonestidade como Lula e sua família foram. Se essa é a verdadeira face da instituição então estamos todos correndo o risco de recebermos denúncias vazias e carregadas de desejos e motivações políticas. Espero que essa vergonha seja o golpe definitivo contra a partidarização dos espaços jurídicos da nação.  

Por favor… essa é a pior demonstração de nosso subdesenvolvimento. Tentem imaginar um Ministro da Suprema Corte americana – ou mesmo o juiz que julgou o caso O. J. Simpson – dizendo em frente às câmeras: “Não temos as provas de que esse crime foi cometido mas, bolas… Foda-se, eu tenho convicção. Vamos condená-lo!!!”.

Conseguem entender como isso é escandaloso?

 Conseguem perceber como esse tipo de brincadeira com a justiça rebaixa o Brasil aos olhos do mundo? Conseguem perceber que não é por acaso que sofremos um golpe e agora o governo se esforça ao máximo para caçar aquele que simboliza a reação a essa barbárie contra a democracia? Moro é contestado, por seu partidarismo e seus métodos, em todo o mundo civilizado. Mas… se você procurar publicações de países com vocação ditatorial ele será certamente tratado como um “homem forte”. Este tipo de personagem é sempre deletério em médio e longo prazos. O poder concentrado mais cedo ou mais tarde se torna despótico e corrupto. Por isso mesmo eu votaria contra o PT nas próximas eleições: para arejar o poder. Moro não passa de um autoritário com costas quentes, pois em qualquer país decente do mundo ele estaria preso.

Para quem acha que “vale a pena para acabar com a corrupção” lembrem que TODAS as ditaduras, das mais suaves às mais cruéis, começam com essa retórica. Depois de estabelecidas elas descambam para o terror e, por vezes, o genocídio. A democracia levada a sério, por mais lenta e custosa que pareça, é sempre o caminho mais seguro. Infelizmente a “torcida organizada” pelo juiz Moro (torcida que há pouco tempo era para o esquecido Barbosa, lembram?) oferece o campo ideal para ações afastadas da legalidade e da equidade.

Repetindo: em que país civilizado se permitiria a escuta privada (mesmo que não fosse ela o objeto inicial) de um presidente?

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Nova Direita

A indefinição e a postura dissimulada caracterizam o novo discurso dos conservadores, que, aliás, foi predominante nos carnacoxas. “Eu não tenho partido; meu partido é o Brasil” (o que lembra o governador Sartori, do RS, em sua indefinição proposital). Outra muito comum é “esquerda ou direita não me definem“, mas a gente já sabe – há décadas – que quando um sujeito rejeita essas definições ele é, seguramente, de direita e conservador.

Esta tática nada mais é do que um “descompromisso” discursivo, e junto com ele ganha-se a possibilidade de se manter franco atirador. “Atiro no PT e depois me refúgio atirando balas de festim no Aécio, Cunha ou Renan, pois sei que essas não machucam ninguém, mas fazem barulho e me oferecem a máscara da isenção. Ninguém vai me cobrar que eu bato panela só contra a esquerda, né?

Essas manobras da direita buscam uma espécie de isolamento crítico cujo objetivo é sempre colocar o outro como fanático, enquanto simula um discurso de equidade e parcimônia. Para essa nova estratégia lembro de Brecht: “Dos rios dizemos violentos, mas não dizemos violentas as margens que o oprimem“. Calar-se diante das encruzilhadas tentando com sua mudez oferecer uma imagem de sobriedade apenas favorece o lado mais forte.

O silêncio dos opressores não é sabedoria ou moderação, é conveniência a favor da estagnação.

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Abertura das Olimpíadas Rio 2016

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A abertura das Olimpíadas não foi feia, nem brega ou desonesta. Foi apenas perfeita e linda. Se usarmos este tipo de análise sombria e pessimista (“o povo com fome e nós festejando”, ou “nós sambando e eles tirando direitos”) nenhuma obra de arte poderia ser feita. Toda obra de arte mente; desavergonhadamente falseia a realidade, mostrando uma face e ocultando todas as outras – como uma foto de perfil de Facebook.

Fosse possível mostrar o “real” de um pais – uma pessoa, uma ideia, uma proposta – e a arte simplesmente desapareceria, pois que sua essência repousa exatamente nessa discrepância entre o que mostra e a completude da realidade circundante. A arte sempre nos arrebata pela sua limitada perspectiva, seu foco em um ponto determinado e sua mensagem particular sobre um específico olhar. A arte só pode ser analisada pelo que mostra, e não pelo que oculta. O que não há nela só pode ser analisado fora dela, pela sociologia, psicanálise e outras formas de conhecimento.

Se a abertura da Olimpíada mente sobre a realidade do Brasil também Guernica ou a Liberdade liderando o Povo, de Delacroix.

Não cabe à arte descrever o Real ou usar as tintas da Verdade. Minhas preferências pessoais não desmerecem ou exaltam nenhuma arte. Falam mais de mim do que da obra. A obra em si é um magneto de similitudes; busca avidamente encontra e um olhar que lhe ofereça sentido; uma sereia de canto estranho e singular em busca de um pirata solitário e saudoso. Respeito quem acha que a arte PRECISA ser politicamente engajada, mas discordo neste aspecto. Ela precisa provocar estranhamento e deslocamento, que pode – ou não – ser político. Se houver necessidade da arte servir a um objetivo político, então falamos de panfletarismo e não arte. A arte pode ser engajada, mas precisa acima de tudo ser livre para expressar a alma do sujeito que a cria.

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Barbárie

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A barbárie não está na criminalidade em alta, nem na corrupção alastrada. Não está no golpe midiático-jurídico que ora sofremos, perpetrado pelos mesmos agentes políticos que historicamente espoliam o Brasil desde a Velha República.

A barbárie não está no Mal, já que ele é da natureza egoística humana, resquício instintual da luta pela sobrevivência. A barbárie não está nas guerras libertárias ou nas lutas e marchas pela indignação explosiva. Ela não está sequer no abuso das polícias.

De nada adianta procurá-la onde ela não está. A barbárie está dentro de cada um de nós. Ela é a complacência com o Mal, a preguiça diante do sofrimento alheio, a postura egocêntrica, o silêncio diante do arbítrio e da violência. O que é “bárbaro” é calar-se quando a selva se abate sobre nós, imaginando que nossa mudez nos trará alguma vantagem. Pior ainda é usar a voz para saudar a selvageria como se ela tivesse o poder de nos salvar.

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