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Mulher Selvagem

Muitos querem afastar dos olhos a imagem da “mulher selvagem” que compõe a iconografia do parto em tempos de humanização do nascimento. Suspeito que as que mais temem essa imagem enigmática e desafiadora são as próprias mulheres, talvez porque ainda não descobriram o real fascínio que tais fotografias podem produzir em todos, em especial nos (seus) homens. Ao meu ver, a maquiagem é apenas um recurso para que esta “outra” continue existindo apenas nas fantasias e não consiga se expressar, vencendo as barreiras da epiderme. Deixar brotar essa mulher selvagem demanda coragem pois, depois que ela surge, como colocá-la de volta em sua jaula?

Não entendam isso como uma crítica ao recurso; use-o quem o desejar, sem esquecer das questões médicas que se perdem com sua aplicação, como a cor da pele do rosto, do leito ungueal e a perfusão das mucosas labiais. Trata-se tão somente de tentar entender as razões que trouxeram à tona este debate.

Entretanto, me permito uma interpretação para além dos valores superficiais. Creio que ficar maquiada para esses momentos é tentar manter aquela mesma “persona” (máscara) por tantos anos cultivada, ao invés de arriscar-se numa nova mulher, cuja beleza emerge não da suavidade do contorno dos lábios e sobrancelhas, sequer das bochechas salientes e coradas, mas da energia colossal que brota de seu suor, lágrimas, gritos e cabelos em chamas.

A quem interessa que esta mulher selvagem se mantenha encarcerada?

No Brasil 85% das mulheres do setor privado se submetem a cesarianas e nós vamos debater a maquiagem? É isso produção?

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Não me obrigue a…

Li mais uma matéria sobre o “direito de não amamentar” e que se coloca ao lado de tantas outras que li nos últimos anos queixando-se de uma espécie de “patrulha” por parte do ativismo da amamentação. Essas queixas atuam como sombras de qualquer movimento social que promova uma mudança nas suas estruturas. Se você cria um movimento de boa alimentação perceberá imediatamente o surgimento de sua sombra, “não me obrigue a comer vegetais”, ou “eu como junk food e sou feliz”. Coloque aí parto, feminismo, poluição, sexo livre, liberdade de expressão e democracia. Todos têm suas sombras, criadas uma fração de segundos após o surgimento dos movimentos que combatem.

Não há dúvida que estes movimentos tem suas razões, até porque é impossível que a paixão que estimula o surgimento de movimentos sociais não crie também exageros e visões afuniladas, aquelas que tentam traduzir o mundo todo a partir de uma única questão humana. É função desses contra-movimentos servir de anteparo aos exageros naturais. São, portanto, úteis no progresso das ideias.

Entretanto, é importante entender como se situam esses movimentos que tentam criticar a amamentação e qual seu sentido. Conheço essa retórica desde que começamos a lutar contra os abuso de cesarianas e no combate à violência obstétrica há 25 anos. Logo percebi que, mesmo diante do escândalo internacional de termos 85% de cesarianas no setor privado, ainda havia espaço para escritos, relatos e discursos alinhados com “não me obrigue a um parto normal”, como se o nosso problema não fosse a taxa pornográfica de cirurgias de extração fetal, mas relatos esparsos e sem comprovação de alguma mulher sendo impedida de ser operada como desejava.

A acusação recorrente que surge de forma recorrente é de que os defensores da humanização não se importam com o sofrimento das mulheres que não pariram e/ou não amamentaram. Ora… o sofrimento de qualquer mulher nos é importante, mas o FOCO de nossa luta é o fracasso do parto e da amamentação para aquelas mulheres que assim o desejavam. Essas são mulheres traídas pela cultura e que recebem apoio das militância do parto e da amamentação, mas de forma cíclica vejo estes movimentos sendo acusados de criar cartilhas de “parto correto” ou “leite correto”, o que deixa as que não conseguiram deprimidas e desconsideradas. Essa acusação é simplesmente falsa.

Para mim essas manifestações representam – em grande proporção – o sentimento de culpa por parte de quem, desejando amamentar, assim não conseguiu. O sentimento de falha – por algo que sequer tem culpa – acaba gerando uma reação de ataque àqueles que defendem a amamentação. O pior efeito colateral dessa inadequação é colocar naqueles que lucram com o desmame a máscara injusta de “lutadores pela liberdade de escolha”.

Minha tese é que nós, que lutamos pela humanização, precisamos escutar essas mulheres; em verdade devemos escutar qualquer mulher, pois todas tem algo muito importante a dizer. O erro é achar que a insistência para amamentar é o “problema”, quando na verdade é um exagero inerente a qualquer luta por mudança de um cenário sombrio . Não, o problema é o desmame, o machismo, o abuso de cesarianas, a falta de democracia, a violência policial. O problema é o racismo, e não algum branco que foi barrado em uma banda de pagode, ou um homem que se sentiu ofendido por uma queima de sutiãs (pra ver como minha iconografia é dos anos 60). Todavia, é claro que a queixa de uma mulher que se sentiu constrangida em sua decisão de não parir ou não amamentar é justa e deve ser levada em consideração.

É preciso escutar o discurso que essas pessoas trazem, sem dúvida, mas sem cair no erro de acreditar que existe um real problema de constranger pessoas a amamentar quando o grande drama nesse país ainda é o desmame precoce e nossa luta por elevar a média de amamentação para além de míseros 54 dias.

Também precisamos debater excesso de cesariana, machismo, comida envenenada e tantas outras causas nobres sem medo de ver suas sombras surgirem logo depois.

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Carros de duas rodas

Uma cesariana depois de um tremendo esforço, luta, dedicação, orientação e uma atitude de respeito pelos profissionais CONTINUA SENDO UMA CESARIANA. E não tem nada de errado em ser assim. Mas uma cesariana é um ato médico que tem esse profissional como protagonista. Acredito que devemos parar de chamar de “cesariana humanizada” apenas porque foi bem indicada, porque se não for bem indicada ela é apenas ABUSIVA.

Nessa definição que utilizamos, para um evento ser humanizado ele precisa ter o protagonismo do sujeito, o que é impossível numa cesariana. Só isso. Isso não torna o nascimento menos importante ou menos bonito, apenas define o que ele é. Acima de tudo, sabemos o quanto temos progredido nos projetos de humanização no mundo inteiro e na luta contra as cesarianas abusivas. O uso da expressão “cesariana humanizada” é UM TRUQUE dos cesarianas para entrar no clube da fisiologia e do respeito ao corpo pela porta dos fundos. É uma margarina que se finge de manteiga, um leite que se finge de materno, uma geleia com sabor artificial de morango.

Não caiam nesse discurso que quer vender cesariana como se fosse a última flor da humanização.

Outra coisa, precisamos parar de tratar mulheres como crianças, dourando a pílula das cesarianas. Não há porque usar artifícios de linguagem para “proteger”  mulheres do fato de que a cesariana é uma cirurgia, e que um parto é um processo completamente diferente. As mulheres são fortes e maduras o suficiente para suportarem a frustração de um não-parto.

“Venha comprar um automóvel de duas rodas e ganhe um capacete de brinde”

– Mas não é uma motocicleta?”

– A gente chama de automóvel de duas rodas para o proprietário não se sentir chateado por não ter um carro. Afinal, auto + móvel, ora… por que não?

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Mitos ruidosos

Mitos que caem ruidosamente.

É curioso como o surgimento desses mitos médicos sempre coincidem com benefícios e privilégios para os setores que detém o poder. O mito da “segurança” superior da cesariana em várias circunstâncias (gestação a termo, cesariana anterior, pélvicos, gemelares) só consegue prosperar e florescer porque beneficia médicos e instituições. As vantagens do parto vaginal, em contrapartida, não conseguem se estabelecer com facilidade exatamente pela mesma razão: o parto vaginal agride o desejo e a própria formação tecnicista dos médicos.

Para a atenção a um parto múltiplas habilidades são requeridas, enquanto para uma cesariana bastam as qualidades técnicas. Mas, como os profissionais médicos detém o poder autoritativo, as evidências só produzem diferença quando reforçam este poder, e não quando se contrapõe a ele.

Veja aqui o estudo que demonstra a segurança de provas de trabalho de parto para gestantes com 3 ou mais cesarianas.

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Escolhas e Demandas

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Cesariana por demanda materna é um debate complexo, por certo. Não o considero simples, tampouco fácil. Eu entendo alguns argumentos de quem acha que o sistema público de saúde não deveria pagar por cirurgias desnecessárias e que, ainda por cima, arriscam o bem estar materno e fetal. Entretanto, assim como sou a favor da liberação do aborto e das drogas – apesar de não gostar de nenhum deles – eu prefiro que as mulheres tenham direito a fazer suas escolhas, mesmo as que julgo equivocadas, do que serem tuteladas e obrigadas a realizar o que outras pessoas julgam melhor para elas. Proibir nunca foi uma estratégia inteligente; infantilizar as mulheres, também.

Vou me manter firme em minha visão original: “Precisamos tornar  o parto normal tão prazeroso e gratificante que a opção por uma cesariana será a mais tola das escolhas. Mas, ainda assim, será uma escolha da mulher.

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Parto Adequado

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Fiquei sabendo que 10 mil cesarianas foram evitadas pelo programa “Parto Adequado”, cujo nome foi criado com um único objetivo: tirar o nome “humanização” dos projetos de incentivo ao parto normal. Como sabemos, os médicos sempre se ofenderam com essa palavra (“está nos chamando de desumanos?”). Essa diminuição de cesarianas e a consequente queda nas internações em UTI neonatal parece ser um bom indicador. Entretanto, quando percebemos que são realizadas mais de 1 milhão de cesarianas por ano, esta redução representa menos de 1% de todas as cirurgias realizadas no país.

Claro, o programa não foi aplicado no país inteiro, mas penso que sem mudar o paradigma médico intervencionista pelo modelo de parteria nenhuma mudança significativa e mensurável será percebida em um futuro próximo. Apesar dos resultados aparentemente promissores, o projeto “Parto Adequado” parece querer provar que é possível melhorar o atendimento ao parto dentro do velho paradigma, baseado na intervenção, no médico e no hospital.

Não creio…

A simples diminuição de cesarianas não fará a menor diferença. Estaremos evitando cesarianas a que preço? Podemos acabar trocando altas taxas de cesarianas por partos cheios de intervenções, além de acrescentar riscos decorrentes de uma atenção vaginalista, mas que mantém o mesmo viés centrado na intervenção.

Humanizar o nascimento é bem mais do que trocar um corte em cima por um mais em baixo.

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Cicatrizes

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A cesariana no século XX, com sua rapidez, relativa segurança e praticidade, permitiu que muitas vidas de mães e bebês fossem salvas. Entretanto, sua prevalência no mundo ocidental foi aos poucos aniquilando as habilidades que os responsáveis pela assistência desenvolveram nos últimos 2 milhões de anos. A facilidade e a impunidade para abreviar uma gestação através da cirurgia de extração fetal, aliadas à incapacidade de entender a complexidade do processo de parturição, levaram ao estado atual: cesarianas além de limites aceitáveis e partos violentos. Como nos lembra Gail Tully – a partir de um comentário de Lorenza Holt – mais acertado seria chamarmos de “falha de assistência” do que “falha de progressão”; de uma forma crescente estamos perdendo as habilidade essenciais para darmos conta das sutilezas deste evento.

Se nada for feito o século XXI pode assistir o fim do parto vaginal pela absoluta impossibilidade de encontrar profissionais capacitados para atendê-lo.

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Sentenças

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Eu digo há mais de duas décadas que o movimento de humanização do nascimento precisa falar para quatro instâncias fundamentais:

1 – Mulheres
2 – Ativistas
3 – Profissionais de saúde
4 – Operadores do direito

Mesmo que nossos esforços tenham se intensificado muito no que diz respeito às mulheres, o campo do ativismo e muitos profissionais da saúde, até agora os operadores do direito – advogados, promotores e juízes – ainda se mantêm profundamente ignorantes sobre o tema do nascimento. Alguns recentes julgamentos e manifestações mostraram de uma forma muito clara a incapacidade do judiciário em tratar de assuntos médicos, em especial dessa área especial da medicina aplicada à mulher. Essa lacuna produz uma profunda insegurança nas mulheres e principalmente nos profissionais que querem sofisticar seu atendimento mas temem ser julgados por pessoas que desconhecem profundamente os elementos mais básicos da Medicina Baseada em Evidência e que se deixam conduzir por mitos contemporâneos, em especial a “mitologia da transcendência tecnológica”. Via de regra os advogados, promotores e juízes se deixam levar pelo “senso comum”, sem enxergar os sistemas de poder que estão em jogo quando ações médicas são julgadas.

É minha convicção que só teremos humanização do nascimento quando obstetras humanizados puderem ser protegidos, quando o judiciário entender elementos essenciais da medicina baseada em evidências, quando promotores puderem entender que “por que não operou antes?” não é uma justificativa válida e que cesarianas não são soluções limpas, nobres e seguras para qualquer desafio no parto.

Enquanto não tivermos essa segurança jurídica para o atendimento ao parto humanizado todos os nossos esforços serão limitados. Sem a incorporação do campo jurídico nesse esforço e a proteção garantida aos obstetras humanizados nunca teremos uma atenção plenamente digna.

Mas qual  seria a saída? Se os pareceres são sempre feitos por médicos, e reconhecendo o viés corporativista que os médicos terão na imensa maioria dos casos, como evitar que os profissionais de saúde continuem a ditar as regras nos litígios?

Como impedir que os lobos determinem as leis da selva?

Exemplo típico, que ocorre aqui e nos Estados Unidos: médicos não querem atender partos após cesarianas, partos pélvicos e partos de gêmeos. Eles conhecem nos riscos e os benefícios dessas abordagens mas…. por que haveriam de se arriscar? E “risco” aqui não se refere àquele que acomete os pacientes, mas o SEU risco profissional. Se um mau resultado for a juízo já terá um parecer condenatório da corporação, pois esta condena quem foge aos SEUS interesses (partos pélvicos, gemelares e domiciliares não interessam aos médicos) e o profissional estará completamente desprotegido. Com isso condenamos, de forma direta ou indireta, milhares de mulheres a realizar cesarianas contra sua vontade, assim como ocorre com os partos domiciliares. Constrangendo os médicos e amedrontando as mulheres conseguimos estabelecer um modelo de assistência que serve aos interesses das corporações e das instituições, mas que não propicia escolhas verdadeiras e nem contempla os desejos das mulheres.

No fim das contas, a forma de parir em uma cultura acaba sendo determinada de forma autoritária pela corporação profissional, e não pelas mulheres. Médicos humanizados são constrangidos pelos interesses corporativos a agir de uma maneira a não questionar ou desafiar o modelo hegemônico, mesmo que as evidências científicas lhes ofereçam respaldo.

Enquanto essa perseguição ocorre, médicos “cesaristas” – aqueles que recorrem às cesarianas sem uma real necessidade – sentem-se autorizados a empilhar quantas cesarianas desejarem, colocando suas pacientes em verdadeiras “linhas de montagem” para se submeterem a esta cirurgia, pois que a utilização de recursos tecnológicos abusivos em que nada vai lhes ameaçar. Profissionais que agem assim estarão sempre blindados contra qualquer acusação. Ninguém ousa criticar um profissional que se posiciona “do lado certo da força“; mesmo nos piores cenários, sempre sobra ao médico a possibilidade de dizer “fizemos tudo que era possível“.

Posicionar-se ao lado da tecnologia, até quando ela é mortal, é uma carta de alforria para qualquer ação médica.

Todavia, já podemos ver os sinais de mudança no horizonte. Aos poucos está se formando uma consciência nova sobre a questão do nascimento no país, inédita no nosso meio, e por isso incipiente. Não há como exigir que uma cultura se modifique com pressa; ela precisa ser sedimentada entre as próprias mulheres e depois para os outros atores sociais. Hoje já são visíveis inúmeras iniciativas que confluem para o estabelecimento de um novo paradigma. Um caso aqui, outro ali, uma manifestação, um artigo, um filme. Dois filmes. Uma marcha, três marchas, um parlamentar que se associa às nossas propostas. Um juiz que lê os autos com cuidado e responsabilidade; mais tarde um que seja sensível e estudioso. Depois 3 ou 4 se juntam a este. E assim caminham as mudanças.

Os operadores do direito aos poucos vão percebendo as repercussões sociais do parto humanizado e o sentido que estas mudanças vão implicar na cultura. Por isso mesmo precisam estar preparados para a defesa da liberdade, da autonomia e dos direitos reprodutivos e sexuais.

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Até quando?

Impaciência

Estava lendo o texto de uma colega sobre uma cesariana e percebi que é, sim, possível escrever um texto ofensivo e rancoroso ao extremo embrulhando palavras ácidas e agressivas com celofanes coloridos de falsa candura.

É muito ódio nesse coraçãozinho…

Até quando as pessoas vão continuar com esse discurso de contrapor humanização do nascimento com cesariana? Quando é que vão se dar conta de que não criticamos a cirurgia, mas seu abuso? Quando é que perceberão que não se trata de questionar a boa prática cirúrgica – que começa com uma boa indicação – mas alertar para as consequências em curto, médio e longo prazo do exagero INQUESTIONÁVEL de um recurso que é reservado apenas para os casos de risco aumentado para mães e bebês? Quanto ainda teremos de suportar essa dicotomia FALSA entre recursos tecnológicos e humanização do nascimento?

Apenas para lembrar o conceito e acabar de uma vez com essa falsa incompatibilidade entre uso de tecnologia e assistência humanizada:

“A Humanização do Nascimento vem trazer a síntese entre as conquistas recentes da ciência, que nos oferecem segurança, com as forças evolutivas e adaptativas dos milênios que nos antecederam. Este releitura do nascimento humano se faz necessária para acomodar as necessidades afetivas, psicológicas e espirituais das mulheres e seus filhos com as conquistas que o conhecimento nos trouxe através da aquisição crescente de tecnologia.”

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Julgamentos

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Os julgamentos feitos sobre mulheres que pedem auxílio farmacológico para o alívio de suas dores em nada ajudam esta mulher – ou  a humanização do parto – mas fazem parte do processo de amadurecimento de um movimento social. Tais críticas surgem da necessidade de estabelecer valores sólidos através da radicalização.  Abandonar, ou simplesmente questionar, tais pontos é tratado como um sinal de fraqueza. Só o tempo permite suavizar estas posturas e oferecer um melhor entendimento. Abandonar radicalismos é demonstração de fortalecimento de uma ideia. Os dogmas nada mais são do que muletas ideológicas.

O parto é uma construção subjetiva e que se inicia na primeira infância.  É ali que são firmados seus alicerces, numa época onde ainda não há o trânsito das palavras. Portanto, os medos, as tensões e as percepções dolorosas no processo de parir estarão subjugados a estas estruturas psíquicas muito precoces.

Quando eu imaginei qual seria a definição mais completa e sucinta para o nascente movimento de humanização eu desenhei na minha frente um triângulo em que nos vértices de baixo se encontravam a “visão interdisciplinar” e a “medicina baseada em evidências“. Estes são os elementos formais e técnicos desta filosofia. Entretanto no vértice de cima eu coloquei o “Protagonismo garantido à mulher” como o elemento estruturante e fundamental, sem o qual nenhum dos outros se sustenta. Garantir o comando à mulher é o vértice ÉTICO do movimento de humanização, o qual jamais podemos abrir mão, sob pena de desfigurar completamente o valor libertário essencial desta proposta.

Julgar quem solicita um recurso de alívio para o furacão físico e psíquico de um nascimento, seja pela analgesia ou mesmo por uma cesariana, é um ato que contraria toda a filosofia da humanização do nascimento, a qual preconiza que o parto é um evento único e subjetivo no qual somente quem sofre sua dor e seu gozo pode entendê-lo por completo.

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