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Fetiches

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Fiquei pensando sobre os fetiches e me veio à mente a pergunta é: não temos um preconceito irracional sobre a expressão dos fetiches, desconsiderando sua natureza e aplicando sobre eles valores morais? Poderia um homem que expressa seus fetiches aparentemente bizarros – fazer sexo vestido de mulher, vestido de bebê ou caubói, em lugares exóticos, com múltiplas(os) parceiras(os), etc. – ser criticado, humilhado e censurado pelas sua “escolhas”, a forma como recobre de realidade suas fantasias?

A questão, entretanto é mais complexa. Os fetiches e as fantasias não são escolhas racionais e livres; são emanações do inconsciente e vinculadas aos estratos mais profundos do psiquismo humano. Nenhum sujeito escolhe racionalmente (apesar da expressão do desejo ser racional) ser espancado durante o sexo como forma de gozo, mas estas atitudes expressam significados muito profundos e da ordem do inconsciente.

Todavia, não seria o romantismo uma manifestação fetichista socialmente aceita e valorizada? Essa foi a ideia que algumas amigas mulheres me trouxeram e que eu achei muito interessantes. O romantismo de homens e mulheres é tão fetichista quanto uma orgia ou uma fantasia “bizarra”. O romantismo pode fazer diferença para o(s) parceiro(s), pois que são convidados a participar ou ser cúmplices dele; todavia ele é igual a qualquer outra fantasia para o sujeito que a produz.

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A necessidade das Doulas

RenataFrohlich044a

Creio que quando falamos de doulas e suas tarefas na assistência ao parto precisamos deixar papéis e funções bem claras. Muito já foi dito sobre o quanto uma doula pode ser importante no parto, pela vinculação emocional que ela produz com a mulher que está parindo, assim como muito já se disse sobre os limites desta atuação. Doulas NÃO fazem nenhuma ação médica ou de enfermagem. Doulas não substituem o pai, e não discutem determinações médicas. Doulas não receitam droga de espécie alguma e não assumem o protagonismo pela mulher. Doulas são ajudantes, amigas, parceiras compassivas e auxiliares experientes na tarefa de fazer nascer.

Mas são elas fundamentais?

Eu acho que nós precisamos contextualizar. O movimento de doulas no Brasil já tem mais de 10 anos, e muitas doulas no Brasil saem dos cursos de capacitação todos os dias com o real interesse de ajudar gestantes na tarefa de parir. Para muitas mulheres, com suas histórias, contextos e circunstâncias, uma doula será fundamental, mas para que isso aconteça deveremos respeitar o sentimento dela sobre o evento. Caso contrário criaremos apenas outra invasão sobre a autonomia das mulheres.

Quando eu fui pai – há mais de 30 anos – não havia doulas. Minha mulher não teve este tipo de ajuda e apenas pude estar presente porque era estudante de medicina. Ela deu a luz em um parto grosseiro, em uma sala cheia de profissionais pouco afeitos a trabalhar com a magia do nascimento. Entretanto, ela pariu. Posso dizer que, para ela uma doula não foi “fundamental”, o que não significa que, se uma doula estivesse presente, ela não poderia ter uma experiência muito mais gratificante e menos angustiante.

É possível que a grande dificuldade quando tratamos da presença de uma doula esteja na ideia de que isso seja “fundamental”. Essa expressão nos leva aos fundamentos, à essência, condições sine-qua-non. Por exemplo: uma bola é fundamental para o futebol; um juiz não. Assim, podemos dizer que para o nascimento de uma criança apenas a mãe e o seu bebê são “fundamentais”; todo o resto vem por acréscimo. Desta forma, para um parto é necessário que haja uma grávida, mas não uma doula. É importante, entretanto, que entendamos quando as ativistas dizem: “Toda mulher TEM que ter uma doula“. Nesse caso, trata-se de uma emoção, uma maneira muito mais simbólica do que real de tratar a importância que elas percebem na ação de uma doula. É apenas a expressão de uma alegria e de uma gratidão, e não um tratado sobre a ontologia do parto.

Ter uma doula em um parto PODE ser espetacular para o desenvolvimento do parto, por que tem a ver com as necessidades básicas humanas de carinho, suporte, apoio e afeto. Entretanto, para algumas mulheres a presença de qualquer pessoa pode produzir um efeito contrário, e nesse caso uma doula NÃO deveria estar presente. Essa é a tese que eu mais me dedico no momento: o “Parto na Perspectiva do Sujeito“. Nós, profissionais de saúde e gestores, temos o DEVER de oferecer uma doula para todas as gestantes, tanto quando oferecemos cesarianas para casos patológicos, analgesias para dores acima do limite ou antibióticos nas infecções. Eu até acredito que não disponibilizar uma doula um dia será considerado antiético, se forem proféticas as palavras do Dr John Kennell. Todavia, utilizar uma doula como ajudante na atenção ao parto só pode ocorrer quando estiver em sintonia com as características do SUJEITO que está parindo, e não pela imposição de protocolos coisificantes, objetualizantes e homogeinizantes. Uma doula é um DIREITO, e jamais uma rotina hospitalar ou uma peça de mobiliário, que estará junto à gravida quer ela queira ou não.

Somos muito mais do que mamíferos, e nossa conformação racional nos impõe características ímpares. Somos agentes da natureza, e não apenas submetidos à sua vontade. Somos seres de linguagem, vagamos no universo da palavra, volitamos sobre significados e significantes e não podemos ser analisados apartados da consciência que conquistamos. Assim, determinar uma doula como “essencial” é desreconhecer nossa característica única de “humanos”, tanto quanto impor analgesias ou decretar a privacidade como igualmente “fundamentais”.

Deixemos nas mãos das mulheres as escolhas, este é o caminho. Se é importante oferecer a elas o que o conhecimento nos mostra como válido, mais fundamental ainda é permitir que cada mulher faça suas escolhas como desejar, baseadas em sua vida, desejos e valores.

PS: Esse é um debate que aconteceu em 2012, reformatado…
Na foto, Zeza Jones, Doula Zezé e Renata Fröhlich no nascimento de Flora, em 29/12/2007

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A Cesariana da Celebridade

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Mais um pouquinho sobre as críticas à cesariana da cantora Sandy…

Bem… Muitas ativistas exageram mesmo, mas isso é normal quando se luta por ideias. Eu já sofri na carne o ataque de algumas pessoas por ter uma postura mais aberta nas questões feministas, mas entendo que seja normal o exagero diante da barbárie da condição da mulher. Como diria John Lennon, “A mulher é o negro do mundo”. Como não perder o rumo diante de tanta energia para a mudança? A injustiça, mesmo condenável, tem um sentido, que é a transformação social. Mas essa energia precisa ser domada e controlada, para que não sirva de armamento contra pessoas que fazem suas escolhas, certas ou não.

Mas a proposta de não atacar as escolhas das “celebridades” me parece adequada. Acusar as mulheres que fazem cesarianas é continuar a agredir a vítima, e isso não podemos admitir.

A escolha pela cesariana é triste, mas é uma escolha como tantas outras que fazemos na vida. Mulheres que “escolhem” cesarianas sofrem do que eu chamei anteriormente de “violência ideológica”. O mesmo tipo de violência silenciosa que fazia as chinesas esmagarem seus pés para deixá-los pequeninos e delicados. O mesmo tipo de agressão ideológica que faz mulheres escolherem cesarianas por acreditarem que elas são “limpas, civilizadas, indolores e seguras”. Também se expressa na pressão que as meninas sofrem para ter um corpo magro e perfeito, até que a anorexia as conquiste. É também aquela usada contra mulheres que optam pelo parto normal. De longe parece mesmo que estas mulheres fizeram escolhas: malhar, comer pouco, esmagar seus pés ou abrir o ventre para extirpar um bebê, mas quão livres terão sido elas? Que tipo de pressão foi exercida para que elas tomassem estas decisões? Que carga tiveram elas que suportar – psicológica, emocional, física – para optar por um caminho com a qual não concordamos? Afinal, quem atira esta pedra?

É o que penso: que tipo de forças houve em cada caso de cesariana a ponto de fazer uma mulher esquecer sua escolha anterior pelo parto normal e refugiar-se na cirurgia? Culpá-la por ter sucumbido a estas pressões não é justo. Precisamos cultivar uma postura compreensiva, onde o parto será exposto como uma forma segura, tranquila e bonita de parir, mas jamais um modelo imposto por um grupo fechado em sua ideologia. Para isso já temos os cesaristas…

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A Princesa e as Escolhas

A princesa e seu cavalheiro

Então, a decisão para o galante cavalheiro foi pronunciada com severidade:

“Podes escolher entre estas opções, nobre senhor. Poderás ter a mais bela mulher de dia, para mostrar nas festas, para os visitantes, para os assuntos oficiais e para a corte. Por outro lado, terás uma mulher horrenda em tua cama, pegajosa e malevolente, por quem terás repulsa.

A outra opção também te será complexa: Poderás ter uma mulher horrenda e asquerosa durante o dia, que te envergonhará diante do reino inteiro, comportando-se como uma ogra nas festas, nas recepções e nos encontros com os signatários de outros reinos. Em compensação terás uma mulher linda, graciosa, meiga, sensual e carinhosa a compartilhar contigo os lençóis. Ela afagará teu cabelo, te dará conforto após as batalhas e pronunciará palavras de apoio diante de tuas angústias.

Agora tu tens o poder de escolher qual das duas faces desta maldição preferes: a mulher linda à luz do dia e perante os olhos de teus súditos, mas horrorosa quando o sol desaparece nas montanhas; ou aquela feia na luminosidade das horas mas delicada e desejável quando o véu da noite cobre a todos nós com seu breu.”

O nobre cavaleiro olhou para um ponto fixo no horizonte e depois de poucos instantes de reflexão respondeu:

A mim não cabe decidir sobre a vida de outrem. Se ela será feia ou bonita, desejável ou repugnante é uma decisão que só pode estar nas suas próprias mãos de princesa. A mim cabe apenas o direito de querê-la ou não. Não posso modificá-la diante do meu desejo, minhas ideias e minhas escolhas.

Respirou profundamente, olhou para aqueles que lhe dirigiram a palavra e completou: “Deixem que ela decida como a maldição se fará. Prefiro viver ao lado de uma princesa que seja capaz de decidir sobre sua própria vida.

E quando lhe foi oferecida a oportunidade de escolher como desejava ser perante seu amante o feitiço que nela habitava sumiu. Sim, de forma instantânea ele se foi, pois esta era a chave que a libertaria: o direito restituído de escolher o próprio destino e ser protagonista da própria vida. Liberta das amarras milenares do poder obliterante de uma cultura machista ela agora podia escolher seu caminho, fazer o que bem desejasse, dizer o que lhe viesse à mente, abrir seus lábios e beijar a quem seu desejo apontasse e amar aquele que seu coração abraçasse. Assim, solta, pôde finalmente seguir seu desígnio humano de cumprir com os mais altos fins de sua existência.

Fechando o livro, o velho olhou para os olhos do seu netinho e completou: “E assim ela viveu, feliz para sempre, mas não tenho sequer a certeza de que tenha se casado com o príncipe que a libertou. É possível, claro, mas é igualmente razoável que tenha até ficado só. E digo isso por uma única razão: o que aconteceu depois de cair o feitiço só ocorreu porque ela assim escolheu”.

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