Arquivo da tag: celebridades

Sinceridade

– Eu não acredito na sinceridade de nenhuma celebridade, respondeu Henriqueta, com ar de enfado. Não acredito em seus amores, suas paixões, seus casamentos relâmpago, suas tristezas ou dramas.

Jeffrey olhou para H. através do cristal do Pinot Grigio que acalentava na mão direita. Seus lábios intumescidos mergulharam na imagem da taça, enquanto os olhos verdes boiavam por sobre o líquido rubro.

– Como sempre, exagerada, comentou Jeffrey, mas já sabendo que H. não aceitaria a crítica tão facilmente.

– Não fode, J., você sabe do que estou falando. Não se trata de duvidar que sofram como eu ou você. Sei que eles mesmos tem seus dramas, tragédias e alegrias. Entretanto, eu me refiro à narrativa construída ao redor do espetáculo de suas vidas.

Jeffrey molhou os lábios no vinho e respondeu,

– Por cedo que há exageros, mas isso não os torna à parte dessa novela da vida que todos compartilhamos. Quando a câmera apaga se pode ver a carne, o suor, as rugas e os vincos que carregam, disse ele, antes de tomar mais um gole de vinho.

– Isso me lembra Woody Allen em um conto que li há séculos. O presidente Lincoln determina a um assessor que lhe faça uma pergunta durante a próxima reunião. “Qual a pergunta“, questiona ele, ao que o presidente responde: “Qual o tamanho ideal das pernas de um homem?” O assessor concorda mas, intrigado, pergunta: “E por que exatamente essa?“, ao que ele responde “Porque tenho uma ótima resposta“.

– Sim, e daí?

– E daí, continuou Henriqueta, que no “universo da lacração ilimitada” é bem possível que uma subcelebridade diga ao seu “manager”: “Por favor, arranje uma treta comigo a respeito do meu clip, da minha roupa, da falta dela, da minha namorada, da celulite, dos peitos, da minha posição política ou da minha sexualidade. Urgente!!!” O manager responde “Mas por quê?“, ao que ela devolve: “Ora, porque tenho uma ótima lacrada para oferecer como resposta“.

H. arremata com grandiloquência.

– Nesse mundo de fantasia criado na pós modernidade não existem mais opiniões ou ideias, apenas declarações públicas, que todos sabemos de antemão que são falsas. Mas como eu já lhe disse, a verdade morreu faz tempo. Fui até no enterro…

Jeffrey apenas baixou a cabeça e terminou de sorver seu vinho, mas não conseguiu segurar a curiosidade.

– Afinal, qual o tamanho ideal das pernas de um homem?

H. Sorriu com a lembrança

– O suficiente para que cheguem até o chão.

Jennifer Coulton, “Catville, Bronx and Nowhere”, ed. Battery South, pág. 135.

Jennifer Coulton é uma jornalista e colunista americana nascida em Indianápolis cujo trabalho é enfocado em assuntos contemporâneos, com ênfase em costumes, sexualidade, feminismo e cultura pop. Escreveu uma coluna semanal sobre feminilidades no Indianápolis Recorder de 2003 até 2016. Depois disso dedicou-se a escrever livros, sendo “Catville, Bronx and Nowhere” o seu primeiro e mais conhecido. Henriquetta é neste livro seu alter ego, debatendo com diversos interlocutores os dilemas de uma mulher consciente, politizada e livre em uma sociedade em que o neoliberalismo é um cadáver insepulto.

Deixe um comentário

Arquivado em Citações

Mc Quem?

O caso do menino que fez piada com uma criança na Disney mostra como, no mundo cibernético, uma vida pode ser destruída em 30 segundos. Isso me faz lembrar a frase que minha mãe colou na parede do seu quarto: “Cuida como vives; talvez sejas o único evangelho que teu irmão lê“. Quem deseja adentrar no mundo do sucesso e da fama – seja lá por qual caminno for – precisa entender que sua imagem, o que fala e como se comporta é um modelo a ser seguido por muitos – as vezes por milhões.

Se há uma constante no mundo da fama ela foi descrita por Augusto dos Anjos: “A mão que afaga é a mesma que apedreja”. Aqueles que exaltam serão os primeiros a lhe afundar quando a dívida afetiva da adoração custar a ser paga. “Eu lhe dei meu amor e minha veneração; como vai me pagar?

A atitude do rapaz foi deplorável e insensível; desrespeitosa e grosseira. Porém, a onda de vingança destrutiva contra ele me causa igual incômodo. O mesmo punitivismo que cria monstros como Moro e Dalanhol habita dentro do(a) “cidadã(o) de bem” que goza vendo a destruição de um sujeito cujo erro todos fomos testemunhas.

Perdoar NÃO significa condescender com o erro, mas entendê-lo e aplicar a pena justa, nem mais e nem menos. Destruir pessoas nunca será uma pena adequada. Usar a justa indignação como veículo de perversidade e da vingança jamais será caminho para uma sociedade solidária.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos, Violência

A Cesariana da Celebridade

sandy-e-lucas02-rep-face

Mais um pouquinho sobre as críticas à cesariana da cantora Sandy…

Bem… Muitas ativistas exageram mesmo, mas isso é normal quando se luta por ideias. Eu já sofri na carne o ataque de algumas pessoas por ter uma postura mais aberta nas questões feministas, mas entendo que seja normal o exagero diante da barbárie da condição da mulher. Como diria John Lennon, “A mulher é o negro do mundo”. Como não perder o rumo diante de tanta energia para a mudança? A injustiça, mesmo condenável, tem um sentido, que é a transformação social. Mas essa energia precisa ser domada e controlada, para que não sirva de armamento contra pessoas que fazem suas escolhas, certas ou não.

Mas a proposta de não atacar as escolhas das “celebridades” me parece adequada. Acusar as mulheres que fazem cesarianas é continuar a agredir a vítima, e isso não podemos admitir.

A escolha pela cesariana é triste, mas é uma escolha como tantas outras que fazemos na vida. Mulheres que “escolhem” cesarianas sofrem do que eu chamei anteriormente de “violência ideológica”. O mesmo tipo de violência silenciosa que fazia as chinesas esmagarem seus pés para deixá-los pequeninos e delicados. O mesmo tipo de agressão ideológica que faz mulheres escolherem cesarianas por acreditarem que elas são “limpas, civilizadas, indolores e seguras”. Também se expressa na pressão que as meninas sofrem para ter um corpo magro e perfeito, até que a anorexia as conquiste. É também aquela usada contra mulheres que optam pelo parto normal. De longe parece mesmo que estas mulheres fizeram escolhas: malhar, comer pouco, esmagar seus pés ou abrir o ventre para extirpar um bebê, mas quão livres terão sido elas? Que tipo de pressão foi exercida para que elas tomassem estas decisões? Que carga tiveram elas que suportar – psicológica, emocional, física – para optar por um caminho com a qual não concordamos? Afinal, quem atira esta pedra?

É o que penso: que tipo de forças houve em cada caso de cesariana a ponto de fazer uma mulher esquecer sua escolha anterior pelo parto normal e refugiar-se na cirurgia? Culpá-la por ter sucumbido a estas pressões não é justo. Precisamos cultivar uma postura compreensiva, onde o parto será exposto como uma forma segura, tranquila e bonita de parir, mas jamais um modelo imposto por um grupo fechado em sua ideologia. Para isso já temos os cesaristas…

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo, Parto