Após ouvir seu nome ele entrou na sala segurando a mão da mãe. Difícil saber se sua postura retraída era causada por medo ou vergonha. A cabeça baixa, o medo de sentir dor, o caminhar relutante. Sua mãe deu dois passos na saleta acanhada, acomodou-se em uma das duas cadeiras e apontou a outra para seu filho. À frente deles o homem de avental branco levantou rapidamente os olhos da ficha em sua mesa, girou a caneta entre os dedos e disparou perguntas banais. A mãe respondeu sem precisar pensar muito. Sim, 12 anos, sim, sim, sim, não, sim, não come, muito pequeno, ele é magro demais. Poucos minutos de conversa até que o homem escreveu algo num papel, entregou à mãe e apontou a porta. Mãe e filho saíram sem mais nada dizerem. O menino olhou para trás e ainda conseguiu ver o homem sério parado na porta.
Meu pai tinha 12 anos e foi a primeira vez que viu um médico. Um encontro que nunca esqueceu.
Um pouco mais de 40 anos após esta cena, meu filho me perguntou o que era um médico, talvez curioso para saber o que eu fazia. Essa é uma pergunta genial, que só as crianças são capazes de fazer. A resposta mais simples seria seguir a linha da formalidade. “Um sujeito é médico quando faz uma faculdade de Medicina reconhecida e ganha um diploma, o qual fica dependurado na parede do consultório”. Essa resposta seria razoável, mas para um criança de 5 anos seria necessário ainda explicar outros termos como “diploma”, “faculdade”, etc. Além disso, o que significa “se formar” numa faculdade”?
Criada em 17 de agosto de 1220 a Faculdade de Medicina de Montpellier, na França, é considerada a primeira faculdade de medicina do mundo a receber reconhecimento. Naquela data, o cardeal Conrad de Urach, concedeu os primeiros estatutos à Universitas Medicorum Montispessulani, estabelecendo oficialmente uma instituição universitária dedicada ao ensino da medicina. Há uma disputa com a Universidade de Salerno, mas ao contrário dessa, a universidade de Montpellier já tinha uma estrutura que pode ser reconhecida como de uma verdadeira escola médica.
Isso propicia uma questão incômoda. Oito séculos do surgimento da primeira escola de medicina é “ontem” quando se leva em consideração a idade da nossa espécie. Temos por volta de 200 mil anos como “sapiens” e de civilização temos apenas 10 mil anos de percurso. A formalização do ensino médico só ocorreu em 10% do tempo em que vivemos em cidades. Mas, e antes disso? Quem eram os médicos “sem papéis” que atenderam as milhares de gerações de gentes que sofreram antes de existir uma escola regular de ensino de sua arte? Não deveriam ser chamados assim apenas porque não ostentam um documento pendurado na sala de espera de um consultório de classe média em uma cidade moderna?
Antes de existir qualquer formalidade para o reconhecimento da profissão os estudantes procuravam um médico experiente e passavam acompanhá-los durante anos. Nesta trajetória de aprendizado estes garotos observavam os pacientes, aprendiam a reconhecer sintomas, participavam dos tratamentos e estudavam os conhecimentos transmitidos pelo mestre. O próprio Juramento de Hipócrates revela essa organizarão. Neste texto, o pai da medicina estabelece obrigações do discípulo para com seu mestre e seus descendentes, mostrando como o ensino médico estava associado a relações pessoais e familiares. Ou seja, a escolha pela medicina era algo pessoal e muitas vezes uma tradição familiar, da mesma forma como se observa na parteria tradicional com o aprendizado direto, que se observa ainda hoje. Assim, responder que um médico é alguém que passou pela faculdade e se graduou retira da foto milhões de personagens da história que cuidaram dos seus semelhantes sem este tipo de documento.
Talvez, para ser justo e abrangente, um médico seria alguém cujo objetivo é ajudar quem sofre. Mas não apenas o exercício da fraternidade, que não pode ser característica de apenas uma categoria profissional, posto que é uma qualidade humana. Assim, o cuidado médico é aquele onde o sujeito instrumentaliza, através do estudo formal ou informal, seu natural desejo de tratar a dor alheia. A medicina seria assim, a “Fraternidade instrumentalizada“, a cura mediada pelo conhecimento.
Foi assim que eu tentei explicar ao meu filho o que significa ser médico. Na minha mente ainda surgiu a frase célebre Voltaire “É verdade que, durante muito tempo, de cada cem médicos, noventa e oito foram charlatães”, mas deixei-a guardada em minha mente. Preferi que ele guardasse uma imagem boa daqueles profissionais que se esforçam para que o sofrimento inalienável da condição humana seja mais suportável.
Parabéns aos doutores cuja simples presença é o maior remédio jamais criado.

