Arquivo da tag: Voltaire

Doutor, é grave?

Após ouvir seu nome ele entrou na sala segurando a mão da mãe. Difícil saber se sua postura retraída era causada por medo ou vergonha. A cabeça baixa, o medo de sentir dor, o andar relutante. Sua mãe deu dois passos na saleta acanhada, acomodou-se em uma das duas cadeiras e apontou a outra para seu filho. À frente deles o homem de avental branco levantou rapidamente os olhos da ficha em sua mesa, girou a caneta entre os dedos e disparou perguntas banais. A mãe respondeu sem precisar pensar muito. Sim, 12 anos, sim, sim, sim, não, sim, não come, muito pequeno, ele é magro demais. Poucos minutos de conversa até que o homem escreveu algo num papel, entregou à mãe e apontou a porta. Mãe e filho saíram sem mais nada dizerem. O menino olhou para trás e ainda conseguiu ver o homem sério parado na porta.

Meu pai tinha 12 anos e foi a primeira vez que viu um médico. Um encontro que nunca esqueceu.

Um pouco mais de 40 anos após esta cena, meu filho me perguntou o que era um médico, talvez curioso para saber o que eu fazia. Essa é uma pergunta genial, que só as crianças são capazes de fazer. Na minha mente ainda surgiu a frase célebre Voltaire: “É verdade que, durante muito tempo, de cada cem médicos, noventa e oito foram charlatães”, mas deixei-a guardada em minha mente. Preferi que ele guardasse uma imagem boa daqueles profissionais que se esforçam para que o sofrimento inalienável da condição humana seja mais suportável. Por outro lado, a resposta mais simples para dar a ele seria seguir a linha da formalidade. “Um sujeito é médico quando faz uma faculdade de Medicina reconhecida e ganha um diploma, o qual fica dependurado na parede do consultório”. Essa resposta seria razoável, mas para um criança de 5 anos seria necessário ainda explicar outros termos como “diploma”, “faculdade”, etc. Além disso, o que significa “se formar” numa faculdade”?

Criada em 17 de agosto de 1220, a Faculdade de Medicina de Montpellier, na França, é considerada a primeira faculdade de medicina do mundo a receber reconhecimento. Naquela data, o cardeal Conrad de Urach, concedeu os primeiros estatutos à Universitas Medicorum Montispessulani, estabelecendo oficialmente uma instituição universitária dedicada ao ensino da medicina. Há uma disputa com a Universidade de Salerno, mas ao contrário dessa, a universidade de Montpellier criou uma estrutura que pode ser reconhecida como de uma verdadeira escola médica. Isso propicia uma questão incômoda. Oito séculos do surgimento da primeira escola de medicina é “ontem” quando se leva em consideração a idade da nossa espécie. Temos por volta de 200 mil anos como “sapiens”. Desde que criamos a civilização existem apenas 10 mil anos de percurso. Desta forma, a formalização do ensino médico só ocorreu em menos de 10% do tempo em que vivemos em cidades. Resta então a pergunta: e antes disso? Quem eram os médicos “sem papéis” que atenderam as milhares de gerações de gentes que sofreram antes de existir uma escola regular de ensino de sua arte? Não deveriam ser chamados “assim “médicos” apenas porque não ostentam um documento pendurado na sala de espera de um consultório de classe média em uma cidade moderna?

Antes de existir qualquer formalidade para o reconhecimento da profissão os estudantes procuravam médicos experientes e passavam a acompanhá-los durante anos. Nesta trajetória de aprendizado estes garotos observavam os pacientes, aprendiam a reconhecer sintomas, participavam dos tratamentos e estudavam os conhecimentos transmitidos pelo mestre. O próprio Juramento de Hipócrates revela essa organização. Neste texto, o pai da medicina estabelece obrigações do discípulo para com seu mestre e seus descendentes, mostrando como o ensino médico estava associado a relações pessoais e familiares. Ou seja, a escolha pela medicina era algo pessoal e muitas vezes uma tradição familiar, da mesma forma como se observa na parteria tradicional com o aprendizado direto, modelo de “aprenticeship” que se observa ainda hoje. Assim, responder que um médico é alguém que passou pela faculdade e se graduou retira da foto milhões de personagens da história que cuidaram dos seus semelhantes sem este tipo de documento.

Talvez, para ser justo e abrangente, um médico seria alguém cujo objetivo essencial é ajudar quem sofre. Mas não apenas pelo exercício da fraternidade, que não pode ser característica de apenas uma categoria profissional, posto que é uma qualidade humana. É necessário que este cuidado sofra contínuo e ininterrupto aprimoramento, através do estudo, da experiência e da ytoca de informações. Se utilizarmos este conceito, o cuidado médico é aquele onde o sujeito instrumentaliza, através do estudo formal ou informal, seu natural desejo de tratar a dor alheia. A medicina seria assim, a “Fraternidade instrumentalizada“, a cura mediada pelo conhecimento.

Foi assim que eu tentei explicar ao meu filho o que significa ser médico. Quando analisamos os elementos constitutivos mais essenciais dessa prática, sobra apenas aquilo que nos caracteriza como uma espécie gregária e social: a fraternidade. Esse elemento constitutivo de nossa alma é a semente da qual brotam todas as perspectivas terapêuticas, entre elas a medicina, que sempre esteve ao lado dos pacientes para oferecer um pouco de alívio diante da inexorável angústia de viver.

Parabéns aos doutores cuja simples presença é o maior remédio jamais criado.

Deixe um comentário

Arquivado em Causa Operária, Histórias Pessoais, Pensamentos

Quem decide por nós?

No Brasil você é proibido de defender a legalização de um partido nazista; isso está na legislação. Entretanto, a gente sabe que nossa constituição é maleável; ela pode ser suplantada pelo simples desejo de um ministro do STF, bastando para isso que ele sinta ameaçada sua perspectiva burguesa e liberal. E vejam: não se trata sequer de defender um partido nazista ou sua plataforma racista, opressora e excludente, mas simplesmente reconhecer o direito de fascistas aparecerem à luz do dia e saírem do esgoto. Pois isso, para Alexandre de Moraes, já é motivo para perseguições. Monark, o menino ancap, está sendo perseguido por querer bancar o Voltaire em terra de Xandão (*).

Por outro lado, você pode criar um partido de inspiração e financiamento sionista no Brasil de forma absolutamente livre. O sionismo é uma ideologia supremacista e colonial que já matou milhões de palestinos, direta ou indiretamente, nos últimos 75 anos. Durante o Nakba, em 1948, expulsou 750 mil palestinos de suas casas e criou um país artificial, roubando a terra dos seus moradores originais. Israel se tornou a última colônia opressora ocidental, onde só uma identidade tem plenos direitos, em detrimento de todas as outras. Estabeleceu um regime explícito de Apartheid, separando os judeus do “resto”, em especial os árabes – a população nativa do local. No último massacre, ainda em vigor, mais de 30 mil pessoas, a maioria de mulheres e crianças foram mortas. Os crimes de guerra – ataque a hospitais, aos campos de refugiados, aos médicos, enfermeiras e jornalistas, etc. – são difundidos abertamente pela Internet e pela TV, crimes escancarados, vistos por milhões de pessoas no mundo inteiro. Cinicamente matam, prendem, humilham e abusam. Apesar disso, as redes de TV e os jornais podem defender abertamente esse regime, sem sofrer qualquer admoestação por parte das instituições jurídicas.

Ou seja, o problema não é a defesa de sistemas de poder fascistas, racistas e opressivos; isso podemos ver como acontece abertamente pela defesa de um país terrorista como Israel. O drama está em quem tem o poder de discriminar o que pode ou não ser proibido. Por certo que não é o povo brasileiro, mas uma elite jurídica que determina o que pode ou não ser visto por nós. No caso brasileiro, os ministros do STF concentram esse poder, atuando por cima de todos os outros poderes; a palavra de um Xandão vale mais do que a do presidente ou mesmo do Congresso Nacional inteiro – que ao contrário daquele, foram escolhidos diretamente pelo povo.

Assim, dá para entender as razões pelas quais a extrema direita autoritária e a extrema esquerda focam no mesmo ponto: o autoritarismo do STF é perigoso. A extrema direita fascista, por certo, por questões oportunistas: eles são as vítimas de hoje, uma vez que seus líderes estão a ponto de serem encarcerados pela ação do STF. Porém, seria uma suprema ingenuidade acreditar que a extrema direita preza valores como a liberdade, se estão sempre à frente das ditaduras que destroçaram a democracia no mundo inteiro. Já para a esquerda radical a questão é mais estrutural; entende que o mesmo Alexandre que deseja “limpar” as redes sociais foi o sujeito que apoiou o golpe contra Dilma, a prisão ilegal de Lula e rasga elogios ao traidor da pátria Michel Temer sempre que pode. Portanto, Xandão está longe de ser um legalista e alguém que defende a democracia e a constituição; ele é de fato um golpista e mais um árduo defensor dos poderes burgueses. Repetindo: é possível denunciar Alexandre de Moraes como um autoritário – um sujeito colocado no poder por um traidor e que abusa do seu poder – sem ser simpático ao bilionário, drogadito, ancap, golpista que estimula e patrocina golpes na América Latina.

(*) sim, eu sei que Voltaire não disse aquela famosa frase, mas se eu colocasse o nome de sua verdadeira autora – Evelyn Beatrice Hall, biógrafa de Voltaire – ninguém iria sacar a analogia.

Deixe um comentário

Arquivado em Causa Operária, Política