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Valores

Aos 5 anos de idade eu caminhava na rua Salgado Filho quando vi uma banca de jornais que vendia loterias. Olhei os números recheados de zeros no prêmio estampado e perguntei para o gigante que segurava minha mão:

– Pai, por que não compra um bilhete da loteria? Se você ganhar podemos ficar ricos e comprar qualquer coisa que quisermos.

Ele continuou andando firme e olhando para frente e me disse, do jeito sisudo e objetivo que sempre o caracterizou:

– Só acredito em dinheiro que foi ganho através do trabalho. Esse aí pode ser legal, mas é imoral.

É desses pequenos fragmentos dispersos que somos constituídos. Obrigado, pai, por essa lembrança.

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Frases

Toda mulher saber parir e todo bebê sabe nascer” é uma frase muito utilizada no mundo da humanização. Ela me parece uma boa frase, como tantas outras que usamos para nos alinhar a uma proposta. Fala da programação natural e inconsciente que todos possuímos para a garantia de nossas funções reprodutivas. Automática, inconsciente e natural. Em outras palavras, se deixarmos o processo ocorrer sem a interferência da consciência e da razão ele dará conta do desafio por si mesmo. Nosso corpo “sabe” o que faz e como faz.

Outras frases também nos servem de guias. “Tudo é possível àquele que crê“, “Ofereça a outra face“, “O amor cobre a multidão de pecado“. Entretanto, para serem bem usadas é necessário entender que são frases de estímulo e direcionamento, e não leis cósmicas imutáveis. Para usar qualquer uma delas é preciso bom senso e adequação. Tomadas literalmente e sem contexto são axiomas brutos e inúteis, que mais limitam e atrapalham do que auxiliam e apoiam.

A frase “Para mudar o mundo é necessário mudar a forma de nascer” é quase um lema da humanização do nascimento, mas pode ser facilmente mal utilizada se não a colocarmos no seu devido lugar. Usada com sensibilidade pode ser útil como um guia para as nossas atitudes diante da importância civilizatória de um nascimento digno e respeitoso. Todavia, se for usada como uma lei selvagem e rígida perderá todo seu valor e sua função.

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Islã

Muitos confundem, de forma proposital, “religião” com “cultura”, e isso é a origem de muitos preconceitos. Cultura é o caldeirão inteiro, onde a religião é uma das mais importantes iguarias. Vejo muita bobagem e preconceito sendo ditos em toda a parte sobre o Islã. A religião muçulmana é absolutamente elástica, assim como também o são o cristianismo ou o judaísmo (para ficar só nas abrahâmicas).

Alguns adoram mostrar uma foto de um grupo radical islâmico e legendar coisas como “assim é o islã”. Ora, se você mostrasse uma foto de testemunhas de Jeová com saia nos calcanhares, cabelo comprido e preso, blusa fechada e uma Bíblia na mão com a legenda “assim são os cristãos”, isso seria uma mentira e uma injustiça. Esse é apenas um aspecto do cristianismo, e não sua face única.

O cristianismo não manda ninguém se vestir desta ou de qualquer outra maneira, muito menos usar penteados exóticos ou comportados, mas num livro extenso como a Bíblia é possível achar o que se quer, bastando haver vontade e interesses.Todavia as pessoas que almejam um determinado comportamento social, seja nos costumes, casamentos, roupas etc USAM A RELIGIÃO COMO DESCULPA e como uma forma de fortificar suas demandas de ordem política ou ideológica.

Esclarecendo: a religião é um produto da cultura e nunca é a FONTE dos determinantes culturais. Ela é SEMPRE o lugar de onde elementos dos grupos sociais COLOCAM seus valores para tentar influenciar o resto da sociedade a um comportamento que lhes convém.

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Armário aberto

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Durante a minha infância eu fui educado no cultivo de valores morais e espirituais cristãos, como a honestidade, o perdão, a fraternidade e uma visão teleológica de “evolução espiritual”. Poderia ter sido Rock n’ Roll, Elvis ou Stones, mas foi Allan Kardec. Nada contra nenhuma das possibilidades, mas isso tem um pouco de responsabilidade pelo que eu me tornei.

Em 1973 estávamos em plena ditadura militar e nessa época eu contava 13 anos de idade. Foi nesse período que moldei o meu coração vermelho, mesmo mantendo minha camiseta azul, preto e branco. A falta de liberdade e a sensação de constrição social começavam a gritar mais alto do que a visão perseverante, cristã, patriarcal e claramente conservadora que as vertentes religiosas – todas – ensinam nas entrelinhas dos versículos bíblicos e mensagens de Chico Xavier. Minha adolescência, que coincidiu com a entrada na escola médica, produziu esta guinada à esquerda aliada a uma visão social, já na própria medicina, que me acompanha até hoje.

Pois em 1973 eu tinha um amigo que morava há poucas quadras de minha casa e com quem conversávamos muito. Filho de uma família austera de alemães (a classe média de Porto Alegre é de “alemães” em sua maioria), seu pai era veterinário e ele tinha apenas uma irmã. Creio que foi por convite dele que fomos assistir o primeiro “filme proibido” no falecido cinema Carlos Gomes. Claro que no meio da sessão de “chanchada” brasileira – e antes de conseguir ver os almejados peitos descobertos da protagonista – a Polícia deu uma batida e todos os “dimenor” foram expulsos do cinema. O que poderia ser uma vergonha para nós foi motivo de orgulho, pois, mais do que uma sessão de cinema, participamos de uma aventura policial. Quem diria que naquela época seriam necessários pequenos crimes como este para ver inocentes mamilos.

Pois este amigo, um certo dia, veio conversar sobre política comigo. Não era um assunto comum; era um tabu. Falamos da ditadura, do AI5, da falta de eleições e outros temas dentro da perspectiva de dos meninos entre 13 e 14 anos. O que fez essa conversa se tornar inesquecível é que os argumentos do meu amigo eram muito parecidos com os que a direita brasileira usa até hoje. A meritocracia ingênua, o culto ao “Cidadão de Bem”, a pobreza como escolha, o sucesso reservado aos competentes, a miséria como natural e a reação a este modelo como “ação criminosa”.

Entretanto, em dado momento, diante dos meus argumentos de que a educação seria capaz de melhorar as condições de vida e fazer o Brasil alcançar níveis de civilização como na Europa, ele me respondeu:

Isso é inútil, Ricardinho. O filho do ladrão será ladrão e o filho deste também. São valores que se perpetuam nas gerações que se seguem. Não há solução. É como meu pai sempre diz: tem que colocar uma bomba na favela, explodir tudo, acabar com esses vagabundos e começar tudo de novo.

Fiquei por instantes calado e, um pouco tempo depois, ainda chocado, perguntei: “Teu pai disse isso mesmo?

Ele aquiesceu com a cabeça e continuou explicando porque achava que a “solução final” era o único caminho, mas a partir de então eu já não consegui escutar mais nada. Não podia acreditar que as pessoas pensassem assim. Os valores ingênuos de tolerância e amor ao próximo que recebi na infância não me permitiam aceitar um argumento desses sem me espantar.

Nos despedimos e acho que nunca mais falamos sobre esses assuntos. Passamos décadas sem nos ver e hoje sei que ele milita em grupos de extrema direita. Nesse ponto ele tinha razão; o filho saiu ao pai, e o filho do filho tem a cama das ideias prontas para se deitar.

O que me fez lembrar essa história foi o fato de que, nos anos 70, uma ideia genocida e preconceituosa era contada apenas na família, com o rádio ligado, no meio do jantar e não saía dali a não ser por uma inconfidência de meninos. Era feio e socialmente condenável ser fascista, ter pensamentos totalitários e sem nenhuma noção sobre a gênese social da pobreza. Eu acho que a proximidade com a II Guerra Mundial e os horrores do nazismo nos ofereciam essa possibilidade de vergonha. Alguns combatentes vivos e seus depoimentos mantinham a história viva entre nós.

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Sobre essa transmissão transgeracional de valores eu lembro da imagem de crianças de 6 anos em Topeka, no Kansas, participantes da Westboro Baptist Church que carregam cartazes tipo “God Hates Fags” (Deus Odeia Gays). Não há como uma criança odiar homossexuais por seus próprios valores ou seu entendimento das “escrituras”. Estas atitudes só podem ter sido geradas através dos pais. Assim o ódio – tanto como o amor – pode ser ensinado para as crianças desde a mais tenra idade.

Entretanto, há alguns anos vi um documentário sobre adolescentes que conseguiram se libertar do torniquete mental do fanatismo fundamentalista da família que controla esta igreja, provando com isso que as duas proposições coexistem: as frutas não caem longe das árvores, mas é possível sair de perto delas através da informação e da ampliação dos horizontes. E isso tudo munido de muita coragem.

Hoje em dia essas vergonhas se foram, o horror nazista pode ser “questionado”, o darwinismo social está em alta, a perseguição às minorias está liberada, questiona-se abertamente o estado laico, Bolsonaro é “mito” e o fascismo pode, finalmente, sair da toca depois de 70 anos de hibernação.

Um comentário como o do meu amigo de infância? Sim, ontem de tarde, no bar da esquina, entre uma cerveja e uma gargalhada.

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Diploma

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Sobre a citação de Foucault abaixo, que algumas pessoas comentaram, eu ousaria acrescentar:

Lattes, pau“.

Diploma é como cash, dinheiro. Se você olhar com atenção e crítica poderá perceber que aquele objeto não passa de papel e tinta colorida, ainda que com a cara estampada de um antigo opressor. Entretanto é preciso que todos ao seu redor acreditem que ele tem valor. Esse é o pacto: eu lhe dou esse papel colorido e você me dá uma vaca.

O diploma também é (apenas) um papel pendurado na parede que é feito para garantir autoridade externa – e indireta – ao que dizemos e fazemos. Vale para quem não o tem, mas só quem o conquista sabe o quanto ele é valorizado acima do que merece. Por isso concordo plenamente com as palavras de Michel Foucault abaixo: o diploma não vale pela presença, vale pela ausência. Ele é feito para ser valorizado por quem não o tem, e não para ser admirado por quem o possui.

O diploma serve apenas para constituir uma espécie de valor mercantil do saber. Isso permite também que os não possuidores de diploma acreditem não ter direito de saber. Todas as pessoas que adquirem um diploma sabem que ele não lhes serve, não tem conteúdo, é vazio. Em contrapartida, os que não tem diploma dão-lhes um sentido pleno. Acho que o diploma foi feito precisamente para os que não tem.” (Michel Foucault)

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