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Proletários

O Sindicato dos Médicos do Ceará em uma nota oficial (vide abaixo) avisa que não participará da GREVE GERAL marcada para o dia 28 de abril como forma de combater o desmanche da CLT e as reformas da Previdência danosas aos trabalhadores.

Primeiramente, vamos deixar claro que a nota é natural e não deveria causar nenhuma surpresa. O contrário sim seria digno de espanto: médicos descerem do seu pedestal de barro admitindo que são trabalhadores como quaisquer outros. Infelizmente os médicos do Brasil ainda “comem galinha e arrotam peru“. O tempo do médico filho de latifundiário, que vivia de clínica privada e doava uma tarde por semana aos miseráveis da Santa Casa já acabou há 30-40 anos. É preciso acordar desse sonho de grandeza aristocrática que ficou no passado.

Médico é proletário, estuda pra concurso, é funcionário público e ganha salário achatado. Continuar com essa arrogância tola e falsa é uma estupidez suicida. Manter-se fora da classe trabalhadora, desprezando-a de forma pedante é uma atitude estúpida e retrógrada. Melhor seria assumir sua posição como trabalhador e aderir a um movimento cuja proposta é garantir direitos conquistados que atingem a todos, inclusive os próprios médicos.

Mas essa humildade talvez seja inalcançável para uma categoria que esteve aliada ao golpe desde o primeiro instante. Triste reconhecer que a classe médica no Brasil é a vanguarda do atraso e da exclusão social.

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Médico ideal

(…sobre a produção do “médico ideal”)

Desde a época da escola médica recebemos daqueles que nos orientam a ideia de que envolver-se com os pacientes é uma atitude “fraca”, “débil”, que demonstra uma labilidade emocional e afetiva, a qual aponta para uma falha formativa. O subtexto dessa formação é que o “médico perfeito”, na concepção platônica, deveria ser como o juiz: frio, duro, imparcial e sem qualquer esboço de emoção. Ou como o Dr. House: insensível, técnico, bruto, estúpido, grosseiro e genial.

Talvez esta visão de médico tenha uma conexão atávica com os antigos operadores de casaca curta, os “cirurgiões barbeiros”, que não carregavam nenhum sangue nas veias e se mantinham de pé sustentados por seus nervos graníticos, que arrancavam pernas, cálculos da bexiga e braços sem anestesia, olhando a dor, a agonia e até a morte dos pobres enfermos sem sequer mover as sobrancelhas.

Mark Lipmann, “Doctors from the Heart”, ed. Volare, pag. 135

Mark Weinstein Lipmann é um pediatra americano nascido em Houston – Texas em 1954. Foi criador e diretor do Centro de Pediatria de Pasadena, cidade para onde se mudou após terminar a residência em pediatria e neonatologia. Desde muito cedo começou a questionar o modelo tecnocrático de atenção à saúde, com intervenções exageradas e potencialmente perigosas, em especial na sua área – a pediatria. Desta forma, começou a militar nos movimentos de apoio à amamentação, sendo membro integrante da conhecida “La Leche League”. Escreveu inúmeros artigos sobre amamentação e inclusive a importância do parto normal e fisiológico para a introdução imediata da amamentação, assim como a importância da ausência de drogas no leite materno para um processo de aleitamento mais tranquilo e efetivo. Foi perseguido pela corporação médica de sua cidade por sua militância pelo parto e pela amamentação, e seguiu lutando a despeito das agressões e sanções. No livro “Doctors from the Heart” enumera suas convicções e o arcabouço teórico e filosófico do suporte à amamentação livre e ao parto normal. Foi aclamado pela crítica como “um libelo a favor da natureza humana e pelo resgate de uma vida mais simples e saudável” por sua postura firme, embasada e concisa sobre a importância de resgatar a fisiologia perdida pelo capitalismo e a tecnocracia.

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Abusos

Estive circulando na medicina por 39 anos e as atitudes desrespeitosas e abusivas dos estudantes, residentes, preceptores e professores sempre ocorreram. Não acredito que exista uma “crise” real surgida há poucas semanas ou meses, mas apenas uma publicidade maior para um problema centenário. Não há nada que me faça pensar que na minha época de estudante a atitude dos alunos em relação a pacientes e familiares era melhor. Em verdade, lembro de alguns episódios que seriam impensáveis nos dias de hoje, tamanho o desrespeito e o desprezo com as mulheres, em especial.

O que temos agora são mecanismos mais rápidos e eficientes de disseminar a informação e uma cultura mais madura para denunciar abusos, mas o comportamento dos estudantes e médicos continua o mesmo das últimas 4 décadas. O problema pode ser melhorado com a vigilância sobre a formação e o reforço de conteúdos éticos na faculdade (nada a ver com ética médica, que tem muito mais a ver com Maçonaria e lealdade corporativa), mas nada vai mudar de verdade sem questionarmos quem são os brancos (87%) classe média alta (80%), filhos ou irmãos de médicos (40%) que constituem o corpo discente da maioria das faculdades de medicina do país.

Esse perfil de entrada é a base para entendermos o brutal fosso de valores, ideias, visões de mundo, perspectivas e posturas que separa os médicos do universo de pacientes que são por eles atendidos. Sem que essa distância seja encurtada toda e qualquer transformação será apenas parcial e/ou paliativa.

Não basta aumentar a carga horária da disciplina de deontologia médica para “passar uma cal branca sobre a casa rachada“. Não é com este tipo de atitude que vamos fazer uma revolução paradigmática. Precisamos debater que médicos queremos e quem estamos formando. Como bem sabemos, os médicos chegam à faculdade egressos de um estrato social completamente diverso dos pacientes que virão a atender, mas a escola médica, ao invés de tentar consertar este desvio e esta perversão ainda reforça os preconceitos, assim como a visão classista e excludente dos alunos. Os exemplos vem de cima; o preconceito é uma cátedra sem professor titular, mas que todos os alunos conhecem desde o primeiro dia do curso. É por isso que as pessoas que já conviveram dentro de uma faculdade de medicina não se espantam com o relato de doutores recém formados (ou não) desprezando enfermeiras, doulas e funcionárias(os) ou tendo atitudes absolutamente machistas e abusivas com os pacientes, os mesmos a quem juraram proteger e curar. Esse ainda é o padrão de uma corporação que insiste em se manter na Casa Grande.

Minha sugestão – e desde já deixo claro que ainda utópica e sonhadora – é a criação de uma instituição que existe em outros países, salvo engano, a França: a “Ordem dos Pacientes” ou o “Conselho Federal dos Pacientes” que se ocuparia de receber as queixas de pacientes e estaria a serviço da sua proteção contra erros e equívocos de hospitais e profissionais de saúde. Pedir que os médicos façam o controle de seu próprio trabalho é ingenuidade. Os conselhos servem para proteger a medicina e os médicos, e isso não é uma acusação aos conselhos diante dessa importante e essencial função, mas o reconhecimento de que ela não é eficiente para auxiliar os pacientes. O “caso Adelir” é um bom exemplo. Para mim seria importante criar uma instância extrajudicial que pudesse fazer essa mediação antes de que os casos fossem enviados aos tribunais, diminuindo as demandas e fortalecendo as negociações, sem ser movida por um caráter primordialmente punitivo.

Não parece interessante? Eu, por conhecer os tribunais e seus conselheiros, percebo o quanto é ingênuo imaginar que os conselhos  de medicina possam deliberar contra si mesmos, cortar na própria carne e agir contra os poderes estabelecidos, os quais sempre beneficiam a categoria. Não faz sentido. Quando sou confrontado com esta minha desconfiança eu sempre pergunto aos amigos: “Na última eleição para o Conselho de Medicina, em quem você votou?“. Claro que as pessoas sempre respondem que só médicos votam nessa eleição. Então eu respondo: “E por que você acha que os conselheiros médicos favoreceriam os pacientes ao invés dos seus próprios eleitores?

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Confiança traída

universidad

Na minha infância e juventude a parte dos filmes que mais me assustava era quando se revelava que o policial – algumas vezes o juiz – era uma figura corrupta e maligna. Manipulava com seu poder pessoas e circunstâncias durante toda a trama, e nunca era possível pegá-lo; afinal, ele era o poder. Ver pessoas com tal nível de poder abusarem de sua autoridade em benefício próprio – seja por dinheiro ou vaidade – me oferecia uma sensação aterrorizante de fragilidade. As figuras de poder que corrompem a sagrada função de nos proteger, por razões mesquinhas e egoísticas, desafiam até nossa capacidade de perdoar, tamanha a violência psicológica de burlar nossa confiança.

Escrevo isso porque a mesma sensação tenho quando vejo médicos escrevendo textos violentos, agressivos, desrespeitosos, homofóbicos, sexistas ou simplesmente cruéis nas redes sociais. A mesma sensação de fragilidade diante dos poderosos e a tristeza de ver uma função social tão delicada sendo deturpada. Como admitir que os profissionais que nos acolhem nos momentos mais delicados, de dor e sofrimento – mas também de alegria e júbilo – possam expressar tanto preconceito e arrogância, distribuindo julgamentos sem nenhum constrangimento? Pior, sem sequer tentar entender os contextos e circunstâncias que levaram pessoas tomar atitude e fazer escolhas sobre sua saúde.

Médicos, juízes, policiais e políticos precisariam estudar filosofia e psicologia desde muito cedo em sua formação, muito antes de aprender as leis ou a anatomia humana. Sem estes conhecimentos fundamentais, e a atitude ética que se produz a partir deles, podemos criar monstros e algozes brutais.

Alguns deles já são facilmente encontráveis em nossas redes sociais.

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Dívida

Médico - House

“Parabéns a todos os médicos que se esforçam para doar o que de mais precioso possuem: eles mesmos. O mais poderoso remédio que um médico pode oferecer não está em nenhum elixir ou comprimido, mas na palavra cálida para quem sofre e no olhar preciso diante da dor. Tudo o que a ciência nos oferece vem por acréscimo; retire-se a compaixão da prática médica e ela perde seu sentido e transcendência.”

Minha profissão está cheia de praticantes que não conseguem perceber qual sua verdadeira posição no cenário do nascimento. Colocam-se acima das críticas e não admitem que qualquer um questione as ideologias que permeiam e condicionam suas ações. É por existirem tantos profissionais assim, carentes de autocrítica, que as lutas pela humanização do nascimento são tão necessárias. Escrevi sobre esta postura outro dia, mas penso ser lamentável testemunhar a manutenção de um discurso calcado na ideia de que “já que salvamos tantas vidas ninguém pode nos criticar”.

Ora, que espécie de “imunidade” é essa? Por que esta “blindagem“? Que dívida temos com esta função a ponto de não podermos criticá-la quando seus rumos se provam equivocados?

Imagine um bombeiro espancar sua mulher em casa e, depois de ser detido, se explicar desta forma na delegacia da mulher “Fico muito triste de ver essas críticas à minha pessoa. Não é justo, diante de tudo que estudei e das coisas que realizo pelo bem da comunidade. Ontem mesmo apaguei um incêndio e salvei um gatinho que estava num poste. Como podem me chamar de violento?

Ora, apagar fogo e salvar gatinhos é sua obrigação profissional, mas ela não lhe dá o direito de espancar sua mulher!!!! Salvar uma vida por uma síndrome de Hellp, uma hemorragia ou mesmo através do recurso cirúrgico é maravilhoso – em verdade, é o que os médicos deveriam sempre fazer – mas não lhe dá o direito de operar sem necessidade, fazer episiotomia e Kristeller, desmerecer as mulheres, desconsiderar maridos e aplicar as infinitas formas de violência verbal e moral que existem na atenção ao parto.

Falta um olhar mais severo e crítico para a obstetrícia. Não haveria porque temer esta avaliação de nossas falhas, e acho que só evoluiremos no debate quando nossas práticas defasadas forem assumidas. Enquanto as escondemos elas crescem, como qualquer temor e qualquer medo….

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Evolução das Consciências

Multidao

Eu ainda acho que a atenção adequada, feita por profissionais bem preparados, é o MELHOR CUIDADO possível para uma mulher que dá à luz. Entretanto, é importante perceber o quanto a “industrialização do parto”, e a visão fria e mecânica do evento, podem prejudicá-lo. A pergunta que fica é: por que não podemos ter o melhor de dois mundos? Por que insistimos num modelo tecnocrático e desrespeitoso, autoritário e cruel com as gestantes?

Bem, não existe resposta fácil para esta pergunta, mas também é ingênuo e injusto acreditar que esse é um problema dos médicos. Mesmo que entendamos que eles tem uma importância central no processo (porque detém e concentram poder) também é importante notar que médicos são representantes de um modelo construído por TODOS, numa geleia cultural onde a sociedade como um todo participa, acrescentando práticas que representam seus valores mais profundos.

Médicos também são reféns deste paradigma, vítimas da visão objetualizante que a cultura lança sobre as mulheres e suas gestações. Assim sendo, mais do que procurar culpados, é importante EDUCAR a população para que esta mude a cultura através de uma visão mais positiva sobre a mulher e o feminino. Depois disso, a mudança das práticas médicas ocorrerá por consequência. É exatamente o que estamos vendo agora: a evolução das consciências levando a uma transformação lenta – porém perceptível – nas práticas.

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Fotografia de Formatura

Formatura Medicina

É difícil que os médicos recém saídos das universidades consigam entender as reais necessidades da população que atendam, e por isso temos tantas dificuldades. Essas pessoas, os novos médicos, são de estratos sociais completamente diferentes daqueles a quem vão assistir e tratar. É complicado entender o sofrimento humano, principalmente as questões carenciais básicas, quando você tem uma casa, comida e afetos e não sabe o que é ter violência doméstica, falta de comida, crack, sujeira, tráfico, pobreza intensa e tantas outras mazelas contemporâneas.

Quando eu era residente escutei uma contratada dizer que achava que toda a ciência “psi” (da psicologia, passando pela psiquiatria até a psicanálise) era pura balela, pois que suas questões (sim, as dela…) eram todas resolvidas com um “banho de loja”, pois isso resolvia suas carências e conflitos. Não, ela não estava brincando; era verdade mesmo. Como ela poderia atender uma mulher em profundo sofrimento psíquico? Como ela poderia entender a dor de uma perda, de um remorso, de uma carência afetiva fundamental e trágica? Da mesma forma, como ela atenderia no posto de saúde uma mulher que não consultou antes porque não tinha dinheiro suficiente para pagar a passagem do ônibus? Será ela capaz de entender o que isso significa? Será ela capaz de entender a dor de ser negro em uma sociedade racista? Uma distância tão gigantesca entre perspectivas e visões de mundo pode ser superposta por boa vontade, empatia e uma visão “carinhosa” com os desvalidos? Ou seria fundamental que essas pessoas tivessem um mergulho nessas sub-culturas para que pudessem entender o que a saúde e os tratamentos significam para elas? Será possível esta visão em uma academia que prepara médicos (mormente especialistas) para dar atenção à burguesia através de tecnologias de ponta e tratamentos curativos terciários? Ou teremos que mudar radicalmente a abordagem à saúde e os sujeitos que a conduzem?

É inegável que existem médicos maravilhosos que conjugam valores técnicos com humanos, mas também é claro que a formação e o sistema abafam a real expressão desses valores. É difícil manter-se conectado a esses princípios diante de tantos estímulos em contrário. É quase impossível ser estudante universitário sem ser da classe média alta, principalmente em universidades públicas. As transformações estão acontecendo, mas uma REAL mudança demográfica nas universidades ainda levará uma geração para se consolidar.

A medicina e o direito, só para dar dois exemplos de cursos universitários clássicos, tradicionais e fáceis de entender, foram criados para servir uma burguesia que aos poucos se organizava. Estas instituições apenas a pouco começaram a ser oferecidas às classes populares. O direito, diferentemente da medicina, só há pouco tem “sistemas populares” de atendimento, como “pequenas causas” ou a defensoria pública. Meu pai me conta que só veio a conhecer um médico em sua vida com mais de 12 anos de idade, quando veio do interior para a capital. E “conhecer” é usado no sentido de “enxergar“, pois consultar com um desses profissionais era inviável há 70 anos.

Fazer essas profissões darem conta das necessidades do povo é um desafio cultural pois que, como eu disse anteriormente, os próprios atores sociais que as compõe não são – com raras e notáveis exceções – oriundos das classes mais baixas. Para se certificar disso basta olhar a história pessoal dos antigos médicos, os que hoje nomeiam enfermarias na Santa Casa, nomes de rua, professores catedráticos da universidade e ver de onde saíram: quase todos da burguesia abastada ou do latifúndio. Assim, democratizar a atenção oferecida por estas profissões – a saúde física da medicina e a saúde social do direito – é uma tarefa complexa e difícil, mas absolutamente necessária. Entretanto, para que ela atinja seus objetivos mais profundos, é fundamental que seus integrantes tenham pleno conhecimento da população que atendem, com seus dramas, valores, idiomas, tragédias e alegrias.

Para isso é necessário sentir na pele o que é ser como eles.

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