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Apagamentos

A ideia de falar sobre qualquer tema sem freios e com plena liberdade ainda causa controvérsias. Para muitos, em especial para a esquerda identitária, alguns debates são opressivos, pois ofendem grupos oprimidos e podem gerar dano. É o que se chama “palavras que matam”, ou “discurso de ódio”. Isso está por trás de projetos como o da Misoginia ou o famigerado projeto para criminalizar críticas a Israel, pois levariam ao antissemitismo e ao holocausto.

Para quem defende essas pautas existem temas que não podem ser expressos publicamente. Por essa lógica, não poderemos falar de coisas que podem afetar negativamente as pessoas. Tipo, comunismo. Não pode falar, afinal o comunismo “matou milhões”. Não podemos criticar Israel, pois…. ora, Holocausto. Não podemos falar da ditadura militar pois ela salvou o Brasil do… comunismo, ora. E a lista vai ao infinito, mas chama a atenção que o rol de proibições é feito sempre por quem tem poder de calar a voz dos outros.

Talvez alguns não entendam minha reação alérgica à censura, isso porque são muito jovens. Já eu sou do tempo em que as mentiras eram combatidas com a verdade e não com a censura. Aliás, levei borrachada da Brigada Militar por dizer “censura nunca mais”. Ora vejam só que ingênuo eu era. A censura, como debate público, ressurgiria com muita força exatamente na esquerda e entre os movimentos identitários ali inseridos, nos dando a entender que censurar, afinal de contas, poderia ser uma… coisa boa. “Vamos proteger minorias criando uma blindagem do discurso para eles”, mas só para eles. Homens héteros, brancos e cis são os nossos ‘inimigos” e para eles continua valendo a nossa natural virulência. Essa precisa permanecer assegurada.

Opressão mata mesmo, mas a opressão verdadeira, não os “gatilhos”, as “palavras mortais” ou o “discurso de ódio” – um conceito vago e impreciso exatamente para poder caber nele o que nos interessa. Opressão é matar palestinos, é fome, bloqueio, invasão, violência, miséria, e não chamar um cara de “viado”. O fato de algo ser ofensivo e preconceituoso não significa que ele é ilegal. As palavras precisam ser livres, incluindo aí as ofensas, pois sem isso obstruímos o debate, moralizando o discurso e impedindo que ele chegue nas feridas mais profundas da sociedade.

Por último, a ideia da “censura do bem” é um erro brutal sobre o funcionamento psiquico humano. Parte da ideia de que, se uma coisa não é dita ou não é escrita, ela pode enfraquecer e até desaparecer. Será que Freud precisa reencarnar para nos ensinar de novo sobre o “retorno do recalcado”? Será que as pessoas não viram que os partidos comunistas sempre foram proibidos e estão cada vez mais fortes? Não notaram o recrudescimento das células nazistas apesar de organizações e símbolos serem proibidos há décadas? Não perceberam o quanto proibir homossexualidade é absurdo? E, por fim,  não perceberam o quanto silenciar a expressão de inconformidade apenas atrasa o surgimento das ideias, fazendo-as retornar ainda mais poderosas?

Liberdade de expressão é quando alguém diz o que você não quer ouvir. Sem tratar esse valor como sagrado, todos os outros direitos fundamentais são atingidos. E quem não consegue combater nazismo, sionismo, machismo e qualquer outra ideologia apresentando argumentos tenho uma má notícia: você não acredita na sua verdade, por isso quer tanto destruir a fala de quem se opõem a ela.

Proust fala sobre isso em um de seus livros, “A Fugitiva” (Albertine Disparue). Nele, o narrador, Marcel, vive a perda de Albertine, que o abandona inesperadamente. A partir daí, ele tenta obsessivamente recuperá-la e compreender sua partida, recorrendo inclusive a intermediários e procurando descobrir detalhes sobre a vida dela. A situação muda radicalmente quando recebe a notícia da morte de Albertine. É aqui que quero chamar a atenção para a opção de Marcel. Ao invés de censurar seus sentimentos, jogou-se a eles para entender seu significado. Ele sabia que escondê-los seria um erro, pois sua fúria acabaria voltando. Ou seja, ao invés de apagar as lembranças e tentar esquecer a mulher que o abandonou fez exatamente o oposto: foi atrás dela para entender sua fuga, e só assim, confrontando a realidade dura, ser capaz de superar seu luto. Essa é uma aula memorável de Marcel Proust ao mundo (e à psicanálise): de nada adianta apagar ou calar aquilo que nos desagrada; a única solução é a superação, e esta só ocorre por meio da confrontação.
 

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Silêncio

Se você quiser saber onde existe uma fraude, vou te apresentar uma boa dica: procure os assuntos que você está proibido de debater. Tipo, holocausto judeu e palestino. Também agora o caso Maria da Penha. Quando pessoas são presas por dizer sua perspectiva ou porque desejam descobrir a verdade, isso deveria ligar um alerta. Quando sofrem agressões e boicotes simplesmente por tocar nesse assunto é porque alguma coisa está sendo escondida.

Ao que tudo indica, muitos ainda aprovam a censura, desde que seja para o que consideram ser “o bem”. O problema dessa seletividade é determinar quem determina o que é bem ou mal, verdade ou mentira. Hoje calam o marido da Maria da Penha. Amanhã será o comunista, como já fizeram milhares de vezes. Depois será o cidadão comum reclamando de qualquer coisa. Liberdade de imprensa é falar o que muitos não querem ouvir; sem isso teremos apenas censura. E quem acha que a liberdade só pode ser “relativa” apenas entenda que essa é a brecha lógica que um dia vai impedir que a verdade seja dita.

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É proibido…

Quando alguém lhe perguntar porque o proibicionismo não funciona podem citar o caso do marido da Maria da Penha. Aposto que 90% das pessoas não sabiam que o caso é cercado de inúmeras controvérsias, inclusive gravitando em torno do núcleo central do processo: a ausência de provas que confirmaram o dolo. As pessoas tomam a Maria da Penha como heroína e seu marido como um monstro, e as primeiras informações do caso realmente permitiam esta perspectiva. Entretanto, depois da proibição, muitas pessoas agora desejam se informar melhor sobre o caso e inclusive gostariam de assistir o tal documentário produzido pela fascistalha do BP.

A verdade é que estas proibições não funcionaram com o cristianismo, com os movimentos burgueses, com os separatistas, com os independentistas, com os nazi e muito menos com os comunistas. Pior: demonstram que quando se proíbe algo é porque existem interesses escusos na manutenção de uma única versão, e a investigação poderia trazer verdades inconvenientes à tona.

Sabe quem mais desejaria que o Herédia falasse? Maria da Penha. Seja porque ela nada teme ou porque impedi-lo de falar vai fazer todo mundo questionar porque o sujeito precisa ser calado.

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