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Memórias do Homem de Vidro – 13

O Masculino Ameaçado

— Nadine, preste atenção no que vou lhe dizer. Não existe isso de “homens têm uma vida mais fácil”. Isso é sexismo, tão grave quanto o tipo que nós, homens, lançamos historicamente contra as mulheres. Se você combate os preconceitos, seja contra todos, e não somente contra aqueles que particularmente te afetam.

Max parecia irritado, mas só para quem não o conhecia. Ele tinha essa forma apaixonada e teatral de apresentar seus argumentos. Quando elevava demasia­damente o tom de sua voz, eu simplesmente fazia um sinal com a mão junto com as palavras “menos, Max, menos”, e ele entendia a necessidade de dosar sua emoção. Nossa conversa já durava algumas horas, mas até então um não se atrevia a olhar para o relógio. O cheiro do café que sobrara do meu “expresso” sobre a mesa misturava-se com o suave perfume de Nadine, que sentara ao meu lado. Ambos éramos a plateia de Max. Tanto nós gostávamos de escutá-lo quanto ele adorava suas “apresentações”. Nadine estivera provocando-o, dizendo que a maternidade, o parto e a menstrua­ção tornavam, inequivocamente, a vida das mulheres muito mais complexa e so­frida. Dizia ela que a natureza fora injusta com a distribuição de sofrimento im­posto aos gêneros. Nadine claramente defendia, mesmo sem saber, a tese da “queda do paraíso”, afirmando que o sofrimento das mulheres no parto e no ciclo menstrual estava diretamente ligado a um “defeito de fabricação”, que o Divino havia determinado e a cultura, ratificado. Max não aceitava essa visão do feminino, e sempre que essa questão aparecia nas nossas conversas sua reação era emocional. Ele continuou a sua explanação:

— Desde que nos decidimos pela diferença sexual, há alguns milhões de anos, as coisas sempre foram assim, digamos, complicadas. Somos dois, caminhando juntos em uma estrada que sequer sabemos ao certo onde leva. Nessa aventura de criarmos a complementaridade no outro, o que nos sobrou de concreto é que apenas um dos gêneros engravida, e isso é um fato biológico com repercussões tremendas. Assim, todos nós, homens e mulheres, somos “nascidos de mulher”. Essa diferença da biologia nos separa inexoravelmente. Entramos nessa vida egressos da calidez escura de um ventre feminino.

— Por milhares de anos, a nossa estrutura social propiciou uma formatação está­vel de papéis, em que mulheres e homens nasciam com uma trilha predetermi­nada na existência. Por milhares de gerações, isso não foi questionado. Era tão “da vida” como o nascer e o pôr do sol, a sucessão das estações e a lua trocando sua face. Hoje as coisas mudaram, e a insegurança veio no pacote da liberdade de escolhas.

— Por outro lado, a entrada das mulheres no mercado de trabalho, adentrando bolsões de exclusividade em que apenas os homens tinham acesso, acabou pro­vocando um efeito dominó, em que, obviamente, os homens acabaram sendo atingidos. É impossível mudar as mulheres sem que os homens sejam afetados.

— Na sociedade, estamos interconectados através de “vasos comunicantes”. Quando alguém se modifica, imediatamente provoca uma reação em quem se en­contra próximo. A busca das mulheres por autonomia e liberdade acabou produ­zindo nos homens uma necessária, e por vezes complexa, adaptação a esta “nova mulher”.

— Mas o que houve com os homens? — Max deu ênfase na pergunta. — Erram os que pensam que os homens continuam em uma “vida boa”, enquanto as mu­lheres estão sofrendo por jornada tripla, excesso de trabalho, filhos, casamento, etc. Homens sofrem hoje, agudamente, de um processo crônico de insegurança. Somos condenados a mostrar incessantemente nossa função no planeta. Como diriam os psicanalistas, precisamos “matar um leão por dia para mostrar ao nosso pai”.

— Com a evidente emancipação das mulheres, a situação piorou. Se antes éra­mos os guerreiros e provedores necessários, somos o que agora? Se antes matá­vamos o javali na floresta e trazíamos o suprimento de proteína fundamental à alimentação do bando, para o que somos realmente necessários neste mundo em transformação?

— O aparecimento na TV de séries que discutem as fragilidades masculinas é apenas um sintoma de uma mudança grave e profunda na sociedade, em que o único resultado previsível é o medo e a insegurança. É pura ingenuidade achar que os homens não sofrem! A questão dos “nomes, descendências e patrilineari­dade” que foi por nós tantas vezes discutida levanta a ponta do véu da insegu­rança masculina. Henci Goer, nos capítulos finais de Obstetric Myths…, desen­volve a tese de que a configuração de nossa sociedade se ergue em função da inveja ancestral que os homens nutrem pelo processo feminino de parturição. Di­ante da magia e do maravilhoso espetáculo do nascimento, o homem primitivo teria dito:

“Isso eu não posso fazer, mesmo com a mais refinada racionalidade. Diante da minha impotência frente à magia do nascer, só me resta sair por aí, construindo cidades, impérios, culturas, instituições, e conquistando o espaço cósmico.”

— E agora, Ric? O que resta aos homens? Estaríamos nos umbrais de uma soci­edade em profunda e dramática transformação? Rompidos os liames que nos prendiam ao processo gestatório natural, qual a utilidade dos homens na face da terra?

Nadine escutava com viva atenção, mas percebi no seu olhar uma expressão de clara curiosidade. Em um mundo dominado pelo patriarcado, era no mínimo curi­oso escutar um homem falar das normalmente inconfessas fragilidades do gênero masculino. Max continuou sua explicação, com a mesma mistura de coreografia e mise-en-scène.

— E agora, meus caros amigos, não falta mais nada. No Japão, pesquisadores conseguiram fazer a reprodução de um camundongo utilizando o material genético de duas fêmeas. O processo de criação dessa vida em laboratório dispensou completamente a parcela masculina da fecundação. Nenhuma colaboração do camundongo macho. A vida se reproduzindo como nunca havíamos imaginado anteriormente. Que significado tem isso para o mundo? O que veremos a partir de agora? O que falta para nos assombrar? Será que estamos mesmo às portas de um “Admirável Mundo Novo”, e ainda sem “tranca e sem porteira”, no dizer dos gaudérios?

Olho para Nadine e lanço um sorriso. Ela me devolve um levantar de sobrancelhas e um arregalar de olhos, demonstrando certo espanto com as palavras e profecias de Max. Por outro lado, parecia se divertir com o discurso do nosso enfático co­lega. Ambos tentávamos descobrir até onde aquela conversa poderia nos levar. Max nos olhou e disse que iria nos contar uma história.

*   *   *

Vou contar para vocês um sonho revelador que tive alguns anos atrás. Nesse so­nho, eu acordo como o “Dorminhoco” de Woody Allen, em um local desconhecido e frio, deitado em uma cama dura e coberto com um alvo lençol. Não foi necessá­rio muito tempo para me dar conta de que estava em um hospital. Os equipamen­tos sofisticados e desconhecidos pendurados nas paredes, assim como os arte­fatos ligados aos meus braços e minha cabeça, deixavam claro que, mais do que em um simples hospital, eu estava em uma clínica do futuro. Alguns minutos de angustiante atordoamento se passaram até que um grupo de jovens mulheres, médicas ou talvez enfermeiras, adentrassem a sala em que eu me encontrava. Uma delas, a mais velha, aproximou-se de mim e após algumas explicações inau­díveis levantou de um só golpe a minha camisola, expondo minhas vergonhas. Eu não conseguia me mover mesmo ordenando às minhas pernas que se mexessem, o que é uma característica nos meus pesadelos. As “estudantes” examinavam meus órgãos externos com uma clara curiosidade científica. Escutava cochichos e comentários, mas me era impossível entender seu conteúdo. Notei que não havia nenhum estudante homem, mas aos poucos percebi que naquele hospital inteiro parecia não haver nenhum representante do sexo masculino. As pessoas que en­travam e saiam constantemente do quarto também eram todas mulheres. Talvez eu estivesse em um hospital ginecológico ou coisa assim. Passados alguns minu­tos, as mulheres deixaram a sala, com exceção da mais velha que, aproximando-se de mim, falou com uma voz firme e pausada:

— Caro Dr. Maximilian, você veio do passado, resgatado por uma das nossas má­quinas do tempo. Desculpe pelo incômodo e pela situação embaraçosa em que o colocamos. Você faz parte de nossa aula de história natural, e essas moças que o examinaram são alunas do curso. Não se preocupe, pois em breve voltará para a sua era, que nós chamamos de “pré-história”, e de nada se recordará. Somos a sua civilização, em um futuro distante. Como deve ter percebido, você é uma curi­osidade em nossa aula por ser homem. Nossa sociedade aboliu os homens há muitos anos.

Minha percepção estava correta. A ausência de homens entre as pessoas pre­sentes na aula era mais do que uma coincidência. Realmente não havia mais ho­mens no mundo. Comecei a suar e tremer.

— Não há mais homens na terra — continuou ela. — Há alguns séculos, eles aos poucos se tornaram pouco úteis, sendo utilizados apenas para específicas tarefas nas quais o seu conteúdo exagerado de testosterona ainda era necessário. Com o tempo, foram escasseando, principalmente em função dos sistemas modernos de seleção cromossômica, até que, sob o reinado da Rainha Madonna XII, eles foram oficialmente extintos. Aqui nesse hospital são guardados espécimes de sêmen, congelados há séculos, para o processo de fecundação. Há muitos anos, desen­volvemos a capacidade de escolher geneticamente os espermatozoides, e apenas os que contêm carga X são aproveitados, sendo o resto desprezado. Nossa soci­edade é composta apenas de mulheres. Casamos, fazemos nossas filhas em la­boratório e gestamos bebês em chocadeiras artificiais; temos uma vida sexual agradável e não temos guerras há muitos séculos.

A tudo eu escutava com horror. Tentei me beliscar, mas não conseguia me mover, atado que estava aos equipamentos de transporte espaço-tempo. Resignei-me: era impossível fugir do sonho. Com visível comiseração, ela continuou sua expla­nação.

— Perto da sua era, nós, mulheres, começamos a nos evidenciar em vários seto­res antes dominados por vocês. As tarefas sociais, outrora divididas por uma falsa “especificidade”, passaram a ser compartilhadas plenamente por ambos os sexos. Cada vez mais percebíamos que a diferenciação sexual já havia cumprido sua parte no desenvolvimento e no aperfeiçoamento da espécie, mas sua importância era cada vez mais questionada. A tecnologia estava às portas de nos oferecer um grande avanço, e talvez o mais dramático de todos: a seleção cromossômica, que nos ofereceria a ferramenta derradeira para o controle da reprodução. A partir de então, podíamos escolher o sexo de nossos filhos através da tecnologia que sepa­rava os espermatozoides.

— Foi o que aconteceu. Os homens começaram a ser preteridos ao nascer, por­que sua força se tornara desnecessária em um mundo absolutamente mecani­zado. As mulheres, por ainda serem “matrizes”, passaram a ter mais valor nas op­ções de reprodução do que os homens. Estes continuaram a conviver conosco, mas aos poucos seu número foi diminuindo. Algumas mulheres até se casavam com homens e tinham seus filhos da maneira primitiva — chamada “biológica” — mas eram discriminadas e encaradas com preconceito. Eram tratadas como ‘sel­vagens’, adoradoras do passado, e sofriam um processo de exclusão social. Com o tempo, poucas mulheres ainda se aventuravam a fazer seus filhos de forma na­tural. O sexo passou a ser um componente de recreação, e não mais uma parte fundamental da reprodução.

— Separamos sexo de procriação; gravidez de maternidade e amamentação de maternagem. Finalmente estávamos livres do nosso destino cruel. Nossa tecnolo­gia resgatou-nos inclusive do pecado original, pois não mais sangrávamos há muitas décadas, até que o próprio processo de parto deixou de ser um fardo para nós com o advento das modernas “chocadeiras humanas”.

— Os homens tornaram-se claramente inúteis, e com o passar do tempo foram escasseando. Os que sobravam moravam em guetos, afastados das cidades, e eram rudes, ignorantes e decadentes. Por fim desapareceram, como tantas espé­cies na história do nosso planeta.

A professora respirou fundo e, mirando bondosamente meus olhos, concluiu seus comentários:

— Por isso você foi trazido aqui. Veio para ser mostrado como uma curiosidade às alunas de história natural. Não se preocupe, a aula já acabou. Entrará em sono profundo e despertará em sua cama, no passado, sem se recordar de nada. Obri­gado por sua colaboração.

Passou a mão sobre meu rosto e sorriu. Saiu sem olhar para trás, deixando na sala um perfume de “Patchouli”. Fechei os olhos e tentei entender. Somos então os últimos de nossa raça! Somos o ocaso de uma linhagem de guerreiros, gênios, mártires e tiranos. Somos os últimos homens na terra. A tecnologia acabou com os cromossomos Y, relegados a ficar apenas em laboratórios assépticos e serem descartados na lixeira por falta de uso. Derramei uma lágrima por meus filhos e netos…

Nossa busca por sentido e significado após a revolução sexual resultou nisso: nada. Não fomos capazes de descobrir uma função digna e específica para a masculinidade no nosso planeta. Fadados ao desaparecimento, acabamos exter­minados pela nossa própria inutilidade. Nossa decadência foi paulatina e culminou com um inglório término. Derramei mais algumas lágrimas pela honra masculina do passado, por Einstein, Aníbal, Gengis Kahn e Gandhi. Meu pranto imóvel foi interrompido pela chegada de uma mulher alta e corpulenta, usando um avental comprido e branco. Ela se postou ao meu lado, colocou-me um garrote no braço e sorriu.

— Você vai dormir agora, companheiro. Em breve não se lembrará de nada. Mas tenha fé. Existe esperança.

Senti a agulha fria penetrar minha veia e o líquido gelado resfriar meu braço. An­tes de cerrar pela última vez minhas pálpebras, olhei para a enfermeira corpulenta para, pelo menos em pensamento, dizer “adeus”. Pensei na expressão “compa­nheiro” e no significado que emprestávamos a essa palavra em “nossa época”.

Ela então, sorrindo, abriu seu avental branco e me mostrou sua intimidade. Quase gritei ao ver. Em verdade, se pudesse, gritaria.

Era um homem. Com todos os apetrechos que um homem deve ter. Estava tudo ali. Como? Tentei falar, mas ela (?) me impediu. Fechou imediatamente o avental e sussurrou em meu ouvido:

— Não faça força, amigo. Logo, logo você vai dormir. Tenha apenas esperança. Somos a “resistência”. Trabalho para a espionagem do nosso grupo. Roubamos os cromossomos “Y” das lixeiras do laboratório e estamos construindo uma pe­quena comunidade de homens e mulheres. Tenha fé. Temos mulheres que nos apoiam. Somos poucos, mas um dia reverteremos o mal que o sexismo causou a este mundo.

Mais uma vez tentei lhe responder, mas o líquido que fluía através das veias do meu braço começou a atingir meu cérebro. O sono, qual manto aveludado de amortecimento, veio vindo lentamente. As imagens foram a princípio se tornando turvas, para finalmente desaparecerem na bruma densa, mas terminei minha “passagem” pelo futuro com um tênue e tímido sorriso de esperança nos lábios.

Acordei em minha cama, ainda sentindo uma apreensão no peito e a camiseta encharcada de suor. Meus olhos paralisados na brancura do teto do quarto e mi­nha posição de braços abertos me provavam que o sonho fora certamente “real”. Eu ainda sentia no meu corpo os aparelhos que me prendiam à cama do hospital, mesmo sabendo que nada havia. Levantei ainda assustado e corri para o ba­nheiro. Abri os botões do pijama com nítida afobação e senti alívio ao constatar que tudo estava no lugar. Fiz xixi de pé, e nunca na minha vida urinei com tanto orgulho e satisfação.

*   *   *

Não pude conter uma sonora gargalhada no final da história de Max. Ele era um palhaço. Adorava contar histórias recheadas de humor e teatralidade. Nadine olhou para mim e depois voltou seus lindos olhos azuis em direção ao nosso cria­tivo colega. Sorriu do sonho de Max, que ela chamou de “versão misógina do Pla­neta dos Macacos”, mas disse que os homens eram especiais demais para sim­plesmente desaparecerem. Segundo ela, havia muito mais na masculinidade do que apenas uma necessidade procriativa. O olhar meramente pragmático e utilita­rista é capaz de, pela sua absoluta incompletude, produzir as aberrações que Max apresentara. Pensar em sociedade e cultura sem levar em consideração os valo­res que nós cultivamos só pode produzir uma visão distorcida e unimodal da reali­dade.

— Nadine acredita no masculino, Max. Não seja tão duro — disse-lhe eu. — Em verdade, penso também que as razões meramente genéticas não seriam sufici­entes para, em um futuro distante, produzir uma sociedade sem gêneros. Mesmo com a tecnologia nos oferecendo a oportunidade da gestação sem os pares, existe uma necessidade muito mais significativa para as diferenças entre os se­xos, desde o advento da racionalidade, qual seja, o relacionamento. Eu acredito que homens e mulheres podem oferecer a diversidade psicológica fundamental para o equilíbrio e, em se falando de natureza e genética, “diversidade” é um con­ceito fundamental.

Nadine concordou e ainda arrematou dizendo que não só acreditava no masculino como tinha por ele notável admiração. Disse que só se alcança força e estabili­dade através da combinação dos polos opostos da biologia humana. Os homens mais admiráveis eram aqueles que misturavam em si ambos os componentes, feminino e masculino, enriquecendo-se das experiências possíveis. O mesmo ocorria com as mulheres, em que o trânsito no universo da masculinidade lhes oferecia a oportunidade de entender o mundo também pelo olhar masculino.

Ainda tive a oportunidade para mais um comentário.

— Pelo sim pelo não, é melhor não facilitar, Nadine. É possível que sejamos mesmo, como Max nos mostrou, “animais” em extinção. Apresse-se. Talvez em muito pouco tempo, será difícil encontrar algo de bom no mercado.

— Patu Saleh, tolinho — respondeu ela.

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Gravidez precoce

Há muitos anos fui convidado para participar de um programa de rádio na condição de obstetra, para debater com outros profissionais um tema muito importante: gestação na adolescência. Havia na mesa sociólogas, feministas, jornalistas e eu, no papel do médico. Lembrei disso a propósito de uma crônica de Juremir Machado da Silva sobre gravidez na menopausa e a perversidade capitalista implícita nas propostas de retardar o projeto das mulheres de terem filhos em nome de uma maior produtividade nas empresas. Voltando ao programa de rádio, depois de longos prolegômenos, entremeados com propagandas do “Chá Jamaiquinha” e do “Coscarque”, fui instado a responder a primeira pergunta do debate que, por óbvio, não podia ser outra:

– Doutor, qual a idade ideal para a mulher ter seu primeiro filho?

Lembrei imediatamente da piada de Woody Allen em um conto seu no qual um homem simples da roça, que precisava encontrar Abraham Lincoln para livrar seu filho da forca, ao se aproximar do presidente nervosamente pergunta: “Qual o tamanho ideal das pernas de um homem”, ao que Lincoln responde “Ora, o ideal para que alcancem o chão”.

Diante da pergunta da jornalista minha resposta foi igualmente incontinenti: “A idade ideal para ter o primeiro filho é por volta dos 15 anos”. Todos na sala ficaram parados, em silêncio constrangido; já eu me mantive com a mesma cara de tolo que me caracteriza. A jornalista gaguejou, segurou nervosamente o papel do roteiro com as duas mãos e repetiu a inquirição:

– Mas, mas… doutor, com 15 anos ela é apenas uma adolescente. Esse programa foi criado especificamente para debater isto, que consideramos um mal social. O senhor não acha?

Ofereci um sorriso tímido e tentei responder de forma o mais didática e simples possível.

– Ora, eu fui convidado para debater na perspectiva da mulher enquanto ente biológico. As questões sociais devem ser debatidas por sociólogos, feministas, antropólogos, políticos, etc. Minha perspectiva social sobre o tema é igual a de qualquer outra pessoa, e só estou aqui por ser obstetra. Do ponto de vista obstétrico – portanto, nos aspectos orgânicos e psíquicos – posso dizer que 15 anos é uma boa idade porque foi o tempo escolhido para a primeira gestação em 95% do tempo em que habitamos o planeta. Não à toa ainda hoje celebramos a “festa de debutantes”, um ritual de origem pagã elaborado para apresentar à sociedade as meninas que já haviam menstruado, estando, portanto, aptas para o casamento e sua óbvia consequência: filhos. Assim sendo, a época biologicamente mais bem estudada e avaliada durante muitos milênios foi essa. Ela, aliás, tem várias vantagens: força, juventude, criatividade, energia, etc. Além disso, na ocorrência de um aborto ou uma perda neonatal, a pouca idade oportuniza décadas de novas possíveis tentativas. E por fim, quem procria cedo tem muito mais novas chances para se tornar avó – e até bisavó – que nos tempos primevos da nossa espécie, o que oferecia uma garantia acessória fundamental para a sobrevivência de crianças. Isso tanto é verdade que sua existência no núcleo familiar foi chamada de “efeito avó”, que pode estar na raiz do fenômeno da menopausa – que oferece a chance de não poder mais ter filhos e com isso ter tempo para cuidar de netos. E antes que me perguntem, eu disse para minha filha tomar precauções e só engravidar quando fosse conveniente, porque eu também vivo em uma sociedade capitalista onde o sucesso profissional tem uma enorme relevância. Porém, ela também foi bem orientada sobre todas as alternativas e o preço alto de adiar indefinidamente o projeto de ter filhos. Mas lembrem: minha filha recebeu essas orientações do pai, não do médico.

Sei que as pessoas naquela mesa desejavam penalizar o desejo juvenil de ter filhos. Queriam combater a “gestação extemporânea” e abrir guerra contra a “gravidez indesejada”, mas achei que valia a pena mostrar que a estrutura social, em nome da produção e do progresso individual, penaliza as gestações que ocorrem cedo na vida, criminalizado este desejo, apenas porque não se adapta a um modelo de sociedade voltada à produção e ao sucesso pessoal. As feministas e jornalistas que estavam na sala se escandalizaram e não me perdoaram por expressar esta visão contra hegemônica. Nada que eu já não estivesse acostumado.

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Cultura do cancelamento

A cultura do cancelamento, que sacrifica pessoas culpadas ou inocentes, não produz uma sociedade mais moral ou ética, mas fomenta uma cultura de falsidades e mentiras.

Um caso típico é o cancelamento de um famoso diretor americano por grupos feministas com a falsa alegação de que, há 20 anos, teria abusado sexualmente de sua filha. Todas as investigações apontaram para a sua inocência, incluindo o depoimento do seu filho que estava presente na cena em questão. Nunca houve qualquer evidência que comprovasse este crime, e nunca ocorreu nenhum fato semelhante em sua biografia, seja antes ou depois do fato. Investigações independentes da polícia, psicólogos, assistentes sociais foram unânimes: o depoimento da menina é falso e foi ensaiado. Todavia, isso não impediu uma perseguição implacável que dura até hoje.

Entretanto, os atores e atrizes de Hollywood sentem tanto pânico de cancelamento por parte dos “liberais” que quase ninguém ousa enfrentar essa gigantesca patrulha midiática, formada de pessoas ávidas em destroçar carreiras e reputações e prontas a cancelar o futuro desses artistas, políticos, escritores e figuras públicas. E pensar que a “Fatwa” decretada contra Salman Rushdie já foi tratada pelo Ocidente como “barbarismo”, mas hoje vemos que não passa de um cancelamento levado às últimas consequências.

Existe uma prepotência da voz diminuta, o súbito esplendor do “popular”, o sujeito sem brilho que descobre o poder da internet para atacar os ícones da cultura, que tanto ama quanto odeia, por se sentir oprimido pelo seu brilho. Moldados à sua semelhança, os artistas morrem de medo de desagradar a imensa plateia que os sustenta. É por esta razão que os grandes formadores de opinião tem posturas “chapadas” em relação aos temas espinhosos. Ou, muitas vezes, unem-se à turba furiosa acriticamente, apenas para não arriscar a perda de seus benefícios.

Se muitas mulheres preferem acreditar que determinado personagem é machista é melhor concordar do que ser vítima de um ataque massivo por parte desse grupo. O mesmo com a homofobia ou o racismo. Quem ousa denunciar abusos dos liberais? Sim, só a direita.

O resultado é uma cultura de falsidades, não uma sociedade justa ou equilibrada. Um modelo que joga para o extremo e rotula dissidências de forma peremptória e inexorável produz mártires ou covardes, mas não estimula o debate livre ou a oxigenação de ideias. Basta uma simples discordância com os cânones dessas áreas para lhe condenar (eternamente!!) como racista, homofóbico, machista ou fascista, bastando para isso discordâncias simples em detalhes colaterais.

Prisioneiros da opinião pública, pouco resta de sinceridade no que se escreve e se diz. Amordaçados pelo politicamente correto ninguém ousa arriscar, pois que um passo em falso pode determinar o cancelamento total e a ruína. O pior é reconhecer que as vozes mais firmes contra o império da hipocrisia estão à direita, pois que a esquerda facilmente sucumbiu ao discurso dos identitários e às falas politicamente corretas.

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Cancelamento

“Se você não for exatamente como quero eu vou lhe destruir”.

O cancelamento é um ritual característico de nossa época apesar de que a Inquisição já cancelava gente por pensar diferente quando tudo aqui era – literalmente – mato.

Existe um determinado roteiro para cancelar um sujeito. Primeiro ele precisa ser um expoente em sua área. Não é necessário nem que tenha qualidade ou profundidade, mas é importante que seja referência. Ninguém diz “estou cancelando o motorista do ônibus porque descobri que ele é homofóbico”. Não, “no one gives a sh*t”. Precisa ser alguém relevante para a cultura e/ou para um determinado segmento dela.

Via de regra funciona assim: o sujeito passa a vida defendendo abertamente os setores oprimidos, sejam gays, trans, mulheres, indígenas, imigrantes, etc, seja no foco específico do seu trabalho ou seja por declarações que faz por sua condição de celebridade. A partir disso seus fãs constroem uma imagem idealizada, da qual ele fatalmente se torna prisioneiro. Todas as suas falas passam a ser vigiadas, milimetricamente construídas. Alguns contratam consultores de imagem para monitorar suas ações e suas falas. Tudo para se manter dentro da caixa estreita que foi construída para si, mas que, ao mesmo tempo que o oprime, fomenta sua fama, seu poder e seu dinheiro.

Algumas vezes, por distração, falta de cuidado ou de propósito, estes sujeitos se rebelam contra essa “condição de confinamento pela opinião pública”. Resolvem falar algo que acreditam ou sentem, mas que ofende seu fã clube. Como FHC dizendo que fumou maconha ou que é ateu. Como um presidente americano dizendo que não foi à igreja no domingo, ou como alguém questionando o termo “pessoas que menstruam”.

As vezes fico curioso de saber como seriam as opiniões de algumas pessoas públicas não fossem elas presas ao controle social da opinião. Muitas vezes seria o oposto do que acreditamos.

Pois o cancelamento, via de regra, acontece pelo detalhe. Mesmo que a vida inteira de um sujeito tenha sido dedicada à diversidade, contra o racismo, contra o sexismo e a favor de minorias, basta uma piada, uma observação, uma discordância do núcleo duro dos movimentos para que seja decretado o cancelamento. J. K. Rowling foi assim. Para Woody Allen bastou uma mentira repetida à exaustão. Para outros o uso de uma palavra proibida, como “denegrir”. Para muitos apenas uma frase em momento de descontração.

Quando o processo se inicia ele atinge a moral do sujeito. Assim, retira-se o fundamento espiritual profundo do acusado, como a peça da base do jogo da Jenga, fazendo toda a vida do sujeito desabar. A obra, seu trabalho, suas relações, seus prêmios, suas conquistas são imediatamente destruídas, incineradas na fogueira da opinião pública.

É facil perceber nesse processo o gozo de quem acusa, pois que ele oferece uma imensa satisfação à pessoa comum, aquela que sempre se sentiu secretamente oprimida pelo gigantismo do seu ídolo.

“Se você não for exatamente como quero eu vou lhe destruir”. Essa é a vingança do fã que se sentiu traído quando sua idealização foi rompida. Essa vingança aparece na internet todos os dias quando personagens são cancelados, destruídos, atacados por apresentarem-se como verdadeiramente são, ou por não cumprirem o acordo tácito criado pela idealização: “Você será como eu quero, e eu lhe dou meu amor”.

Na verdade os ídolos contemporâneos são construções sociais em que cada um coloca um pouco de suas projeções e aguarda que ele se comporte de acordo com elas.

Em suma, uma vida insuportável.

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Nostalgia

Na minha juventude era comum ouvir. “Sabe que vai passar Woody Allen no Corujão de sábado na Globo?” e a gente ficava acordado para assistir o filme porque a benevolência de uma emissora de TV era a única forma de rever um filme que se gostava ou assistir um que não conseguiu ver quando passou no cinema.

Em meados dos anos 80 surgiram os videocassetes e a consequente proliferação das “locadoras de vídeo”, as quais tornaram possível assistir filmes antigos que tivessem cópia para alugar. Primeiro os vídeos eram piratas ou “bootlegs” (filmados no cinema) e mais tarde as cópias precisavam ter o selo da Ancine para serem alugados. Foi também o “boom” da pornografia. Era possível assistir filmes pornôs sem passar pelo constrangimento de ir num cinema. As locadoras chegaram a ser um grande negócio e até meu irmão teve uma, mas hoje desapareceram por completo (lembram da Blockbuster?)

Aí chegou a internet, Napster e o Torrent. Uma vez uma amiga me mandou um arquivo pelo ICQ e disse para eu clicar. Era uma música no padrão .VQF, que nem existe mais. Era “Coração Bobo”, com Zé Ramalho e Alceu Valença. Escutei a música mas fiquei mais impressionado ainda por uma visão que eu tive, uma espécie de epifania. Chamei meu filho Lucas, menino na época, e lhe disse: “Acabou a indústria fonográfica”. Expliquei para ele que, se já é possível mandar músicas P2P (entre pessoas), não haverá mais porque comprá-las. Isso mudaria definitivamente a relação das pessoas com a música e com o mercado de discos e CDs.

Eu estava certo. Quebraram todas. O passo seguinte foi a venda de CDs piratas com filmes baixados na internet, o que selou em definitivo o destino das locadoras, mas garantiu a todos nós o acesso direto a toda a criação musical e cinematográfica da história dentro de nossas casas. Agora, até no celular. Hoje em dia podemos assistir qualquer obra a qualquer momento, bastando para isso um acesso a uma conexão wi-fi. Porém, quem hoje tem menos de 25 anos não sabe o que significava esperar para saber o que seria o Temperatura Máxima, Domingo Maior, Cinema em Casa, Cine Belas Artes etc…

Era todo o cinema que o mundo nos oferecia para assistir dentro de nossas casas.

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Ainda sobre Jean

Comecei a gostar das crónicas (com “ó” mesmo) de Alexandra Lucas quando ela escreveu uma emocionante defesa de Woody Allen, rechaçando as mentiras e difamações que muitas mulheres americanas, sedentas de sangue, lançaram contra ele – a exemplo de bolsominions, sem provas e prenhes de convicções. O linchamento das radicais americanas me enojou quando percebi o ódio manifesto contra um homem, branco, rico e maduro cujo único crime foi se envolver com uma mulher mais jovem e com quem está unido há mais de 30 anos. A história do abuso, uma criação fantasmática rechaçada pela polícia e pelos especialistas, povoa a imaginação dessas acusadoras há 3 décadas. Ainda hoje atrizes como Ellen Page e Susan Sarandon espalham estas mentiras sem jamais demonstrarem uma prova sequer de que uma violência tenha sido cometida. O ódio, e só ele, as motiva.

Agora Alexandra escreve sobre a tristeza, que compartilho com ela (veja aqui), de ver uma figura tão importante para a imagem das esquerdas e do universo LGBT escrevendo tolices inimagináveis sobre a Palestina, vítima de um engodo criado sobre a “liberdade gay de Israel”. Em um texto escrito após ser criticado pela visita imprópria a Israel, Jean Wyllys, este personagem, conseguiu em poucos parágrafos reunir uma infinidade de clichês, bobagens, desinformações, preconceitos, ingenuidades e lugares comuns sobre a Palestina, mostrando que sua luta contra a opressão gay e trans em seu país não foi intensa o suficiente para se estender ao sofrimento e opressão a que são submetidos os palestinos, massacrados pelo exército racista de Israel. Sua deplorável conivência com o sionismo apenas mostra que, sem um aprofundamento sobre o tema, qualquer um pode ser vítima da sedução, do “pinkwashing” e da propaganda dos opressores.

Meu desejo – e o de Alexandra – é que Jean viva o suficiente para se desculpar do estrago que produziu na imagem da esquerda brasileira na luta Palestina por liberdade e autonomia. Sonho com o dia em que um texto seu comece com as palavras:

“Sobre a Palestina, eu peço perdão…”

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Eu (também) acredito em Woody Allen

Sobre Woody Allen

No mundo da pós verdade qualquer acusação que esteja de acordo com os linchamentos da época assume estatuto de verdade. Em certo tempo a moda era linchar judeus, agora os palestinos – e árabes em geral – são os escolhidos. No Brasil os petistas são o prato predileto. A partir de agora aos homens poderosos é lícito jogar qualquer infâmia pois quem teria coragem de duvidar? Se você criar uma acusação com um mínimo de lógica as provas tornam-se desnecessárias devido ao convencimento que se obtém com milhões de compartilhamentos em redes sociais. Quem pensaria em questionar um abuso cometido declarado em lágrimas por uma vítima que nos desperta empatia? Quem ousaria discordar do boato de que um político poderoso é dono da Friboi, possui uma mansão e um jatinho particular? Basta repetir indefinidamente, milhões de vezes, centenas de capas de revistas, milhares de memes e pronto… Nenhuma evidência se torna necessária.

O extermínio de reputações é uma praga contemporânea que se intensificou exponencialmente com a Internet. Ela dá um poder desmedido ao acusador, em especial se este fizer parte de um grupo minoritário e historicamente oprimido. Experimente questionar a veracidade de uma acusação (por mais forçada que seja) de racismo, homofobia ou machismo. O simples fato de você solicitar uma prova, ou pedir as fontes – para confirmar uma acusação tão grave – já o coloca na berlinda e o torna “cúmplice” da barbárie denunciada. Não há saída: ou você se associa à massa indignada ou sobe ao cadafalso junto com o acusado.

Eu sempre defendi Woody Allen porque acompanhei o caso quando aconteceu, no início dos anos 90. O relato da acusação me parecia absurdo, inverossímil, fantasioso, carente de provas e claramente calcado em vingança. O depoimento da menina parecia imerso no que depois se chamou de “Falsas Memórias” (veja aqui e também aqui), e totalmente desprovido de valor. Já as declarações de Woody Allen convenceram a mim e a todos os peritos envolvidos no caso e, por esta razão, o caso jamais seguiu adiante.

Fica claro que, se é lícito destruir a reputação de um artista famoso sem qualquer prova, nenhuma pessoa estará livre de ser destruído por estas ferramentas. Não esqueçam quantas mulheres na história foram destruídas e mortas por insinuações, que variavam de bruxaria, ninfomania até adultério. Sem provas. Pensem nisso antes de jogar a pedra.

Fico feliz de ler artigos (como este aqui) que colocam em ordem os sentimentos que sempre nutri contra essa perseguição imoral e perversa. Salve Woody Allen, e que seus detratores sejam punidos.

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Orgasmos

Será possível ainda acreditar que a abordagem sobre as dificuldades sexuais – tanto para homens quanto para mulheres – pode ser de ordem cognitiva? Vejo gente falando sobre “as mulheres não conhecem o próprio corpo,” dando a entender que a “ignorância” sobre ele acarretaria em dificuldades para obter prazer. Quando leio isso eu lembro das opiniões médicas sobre “homossexualismo” de alguns poucos anos que afirmavam que tal “desvio” poderia ser “curado” pela perspectiva racionalista.

Pessoalmente, não acredito nisso. Creio que sexo não mora nos genitais e sequer no neocórtex; para homens e mulheres ele dormita nas profundezas do inconsciente e só com uma abordagem que abra as cancelas que protegem as suas profundezas será possível mudar seu destino. Não há nada que possa ser “ensinado” às mulheres e aos homens que seja capaz de mudar a rota do seu próprio prazer. Buscar na razão esta resposta é como procurar a chave perdida debaixo do poste de luz, mesmo sabendo que ela foi deixada mais abaixo, num ponto escuro da rua.

Para mim afirmar que as agruras da sexualidade podem ser motivadas com cursos ou “informação” tem o mesmo valor que dizer que o vício de fumar pode ser vencido se ensinarmos aos fumantes os os malefícios do cigarro. Ou ainda – na mesma direção e em sentido oposto – se acharmos que um treinamento ou uma “formação” poderiam curar uma compulsão sexual (como uma parafilia, por exemplo). Acho que isso nada mais é do que procurar no lugar errado.

Cursos e vivências sobre a temática da sexualidade podem melhorá-la não pelo que se “aprende“, mas pelo que se “apreende“.

O problema sempre ocorre com abordagens prescritivas, ao estilo “Nunca faça isso“, “faça assim“, “dar prazer sem receber é errado“. Errado para quem? Como podemos julgar a subjetividade nesse nível? Uma compreensão rasa e limitada do que seja prazer pode nos fazer julgar o prazer do outro como “errado“.

A melhor e mais preciosa história que conheço a este respeito vem do filme Manhattan, de Woody Allen, pela voz da personagem de Tisa Farrow (irmã de Mia).

Ela chega na festa e diz para um grupo de convidados:

Queridas, queria comunicar a vocês que, depois de 20 anos de análise, ontem eu tive pela primeira vez um orgasmo.

As amigas a abraçam eufóricas, mas ela diminui o entusiasmo delas com um olhar condoído.

– Calma, meninas. Infelizmente meu psiquiatra informou que eu tive um orgasmo do tipo errado.

Ohhhh“, dizem e se apressam em consolá-la.

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História Fabricada

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Acabei de descobrir, em uma postagem do prof Luis Felipe Miguel, que a frase “Quem gosta de miséria é intelectual” não é de Joãozinho 30, mas do jornalista Elio Gaspari, que a colocou na boca de Joãozinho em uma entrevista fabricada. Esta era uma estratégia do velho jornalismo: criar fábulas, entrevistas inexistentes (mesmo que baseadas na verdade) e depois apresentar aos entrevistados para que concordassem. É claro que nem todos os jornalistas agiam desta forma, mas a esperteza destes velhos jornalistas me chamou a atenção.

Por outro lado eu lembro de uma história (ou lenda) de que um dos primeiros empregos do Woody Allen foi criar frases inteligentes e espirituosas para serem proferidas – com falsa originalidade – por atores de Hollywood, celebridades emergentes e políticos americanos. É provável que muitas reputações na época tenham sido forjadas por este artifício. É possível também que muitos “grandes” jornalistas do passado usavam estratégias deste tipo; talvez fosse mais usual do que imaginamos. Imensas entrevistas prontas eram entregues ao “entrevistado” apenas para conferência. Mentiras que se eternizaram pela criatividade de quem tinha a atribuição de (d)escrever a história.

E as biografias históricas de personagens do passado distante, escritas pelos colunistas sociais da época? Que verdades podemos retirar de tais textos? Quantos canalhas perversos recebem estatuto de santidade hoje em dia por histórias fabricadas dessa forma? Quantos sujeitos íntegros foram destruídos em vida, e após ela, por estas artimanhas?

Eu também não sabia da real autoria da frase sobre os intelectuais e a miséria e jurava que a frase era de Joãozinho 30.

A propósito de Woody Allen, ele escreveu um conto em que o presidente dos Estados Unidos diz a um assessor direto:

– Quando estivermos em reunião mais tarde pergunte-me “Qual o tamanho ideal das pernas de um homem”. Entendeu?

– Mas por que essa pergunta, senhor, indagou o assessor surpreso. 

– Ora, porque tenho uma ótima resposta: “Ideal para que alcancem o chão”. Não é maravilhoso?

Eu sempre interpretei essa piada do Woody Allen como um resquício do tempo em que ele fazia exatamente isso para políticos,  celebridades e atores. Entregava uma piada pronta, ou uma observação espirituosa, e pedia para alguém servir de “escada” para que fosse dita em público.

Isso não é a história sendo descrita ou contada; é a história sendo fabricada.

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