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Dudu Milk

No dia da consciência gay eu disse – de brincadeira – que seria uma ideia genial do Dudu Milk sair do armário no meio das homenagens e galvanizar a luta pela visibilidade dos homossexuais no Brasil, já que sua opção sexual é conhecida de todo mundo aqui (os gaúchos) há muitos anos. “Se é público e notório, por que não capitalizar em nome da causa gay?”

Era brincadeira, sim, porque essa não é – e nunca foi – sua causa, o que não é sua culpa. Cada um escolhe suas lutas e ninguém pode ser acusado de não escolher aquelas que NÓS desejamos. É injusto acusar um sujeito gay de não fazer de sua sexualidade uma bandeira. Muitos – creio que a maioria – preferem que sua vida íntima se mantenha privada e reservada. Como negar aos gays esse direito?

Por outro lado, também me parece justo suspeitar do “timing” especial do “outing”. (Sim, também concordo que dois anglicismos toscos na mesma frase seria uma razoável exceção à minha recusa à pena capital. Sim, foi de propósito). Por isso, sair do armário exatamente agora, quando a Globo desesperadamente tenta encontrar um personagem que ocupe a vaga do Bolsonaro no imaginário da direita é, no mínimo, digno de desconfiança. Lançar-se como candidato neoliberal usando essa plataforma – tentando conquistar os votos dos “progressistas” e/ou identitários – me parece um equívoco. Mais ainda, me soa desonesto…

Prefiro respeitar a proposta do próprio governador, que rejeita a ideia de ser um “governador gay”, mas sim um gay governador. Acho melhor dizer que ele é mais um político de direita, conservador, neoliberal, privatista e que se aliou explicitamente à perversidade de Bolsonaro quando da disputa ao governo do Estado.

Para mim Eduardo continua sendo um gay reaça, como tantos que conheço.

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Somos nós

O perdão nada mais é do que a capacidade de produzir empatia, e esta só ocorre quando existe identificação. Por isso vemos tantos textos que perdoam a mãe que causou a morte do filho ao esquecê-lo e quase nenhum sobre o pai que perdeu a cabeça e bateu na mulher.

Não é o crime, somos nós.

Do livro de Jeff Barrett, “Under my skin”, na voz do personagem Jack Menendez, ed. Parnaso, pág 135

Jeffrey Edmond Barrett é um escritor canadense, nascido em Regina no estado de Saskatchewan no Canadá em 1946. Foi amigo pessoal de Jack Kerouak e fez parte da geração de escritores de contestação surgida em meados do século passado. Homossexual assumido e panfletário, socialista e defensor dos direitos LGBT, foi preso na manifestação de 28 de junho de 1969 em Nova York, que se tornou conhecida como “Stonewall Uprising”. Ficou dois anos encarcerado, condenado por “chutar o rosto de um policial”, acusação nunca contestada e que carregou com orgulho por toda a vida. Tem uma larga produção literária na poesia, crônicas e contos. Escreveu “Under my Skin” – sua única obra de ficção – como um libelo contra a repressão sexual. Morreu de Aids em 1987.

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Ainda sobre Jean

Comecei a gostar das crónicas (com “ó” mesmo) de Alexandra Lucas quando ela escreveu uma emocionante defesa de Woody Allen, rechaçando as mentiras e difamações que muitas mulheres americanas, sedentas de sangue, lançaram contra ele – a exemplo de bolsominions, sem provas e prenhes de convicções. O linchamento das radicais americanas me enojou quando percebi o ódio manifesto contra um homem, branco, rico e maduro cujo único crime foi se envolver com uma mulher mais jovem e com quem está unido há mais de 30 anos. A história do abuso, uma criação fantasmática rechaçada pela polícia e pelos especialistas, povoa a imaginação dessas acusadoras há 3 décadas. Ainda hoje atrizes como Ellen Page e Susan Sarandon espalham estas mentiras sem jamais demonstrarem uma prova sequer de que uma violência tenha sido cometida. O ódio, e só ele, as motiva.

Agora Alexandra escreve sobre a tristeza, que compartilho com ela (veja aqui), de ver uma figura tão importante para a imagem das esquerdas e do universo LGBT escrevendo tolices inimagináveis sobre a Palestina, vítima de um engodo criado sobre a “liberdade gay de Israel”. Em um texto escrito após ser criticado pela visita imprópria a Israel, Jean Wyllys, este personagem, conseguiu em poucos parágrafos reunir uma infinidade de clichês, bobagens, desinformações, preconceitos, ingenuidades e lugares comuns sobre a Palestina, mostrando que sua luta contra a opressão gay e trans em seu país não foi intensa o suficiente para se estender ao sofrimento e opressão a que são submetidos os palestinos, massacrados pelo exército racista de Israel. Sua deplorável conivência com o sionismo apenas mostra que, sem um aprofundamento sobre o tema, qualquer um pode ser vítima da sedução, do “pinkwashing” e da propaganda dos opressores.

Meu desejo – e o de Alexandra – é que Jean viva o suficiente para se desculpar do estrago que produziu na imagem da esquerda brasileira na luta Palestina por liberdade e autonomia. Sonho com o dia em que um texto seu comece com as palavras:

“Sobre a Palestina, eu peço perdão…”

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Dimitri morreu

Hoje se completam 35 anos da morte de Dimitri. Lembro da data porque estava de no trabalho e meu telefone tocou. Era Vladimir me trazendo a notícia. “Súbito”, me disse. Dimitri não tinha mais do que 28 anos. Era psicótico, e eu mesmo o havia visitado em um hospital durante um surto. Já algum tempo morava só. O pai também sofria de transtornos mentais, assim como o irmão mais novo. Foi encontrado três dias depois de ter morrido. “Ouvi falar de uma ruptura de aneurisma”, emendou Vlad.

Acho que Dimitri era gay, mas não havia como saber naquela época. Ele tinha 4 anos a mais do que eu, e provavelmente sequer ele se sabia homossexual. Certa vez me convidou para jantar e ficamos conversando sobre nossas famílias e planos. “Pago o jantar”, insistiu. Eu tinha 18 e ele 22. Dimitri era dono de uma inteligência fina, raciocínio rápido e humor ácido. Sim, tinha uma certa afetação e um gosto por se vestir bem, mas na minha juventude a homossexualidade era como espinha no rosto: se tornavam evidentes na puberdade e se tentava escondê-las, ou se possível fazer de conta que não existiam. A homossexualidade cursava silenciosa, como uma pleurisia que se disfarçava suprimindo a tosse. Coloco a imagem do amigo à minha frente e escuto sua risada, seus comentários jocosos e seus trejeitos apenas para me surpreender com nossa cegueira diante de tantas evidências. Dimitri era gay, mesmo sem o saber.

Sua morte me surpreendeu. A voz carregada de Vlad ao telefone me tomou de assalto. Nada pude dizer, e o resto da tarde fiquei adornando minhas ideias com as nossas últimas falas. “Seu pai o tem em grande conta”, disse ele. “Você não é o patinho feio que pensa ser”. Dimitri gostava do velho Sergei, e o tinha como um pai substituto para os assuntos mais complexos, já que seu pai estava sempre envolvido com a bebida e sua paranoia megalomaníaca. O velho Sergei o escutava como podia, mas havia coisas que o fosso das gerações o impedia de entender.

Dimitri não teve um acidente vascular; ele tirou a própria vida, mas esta realidade foi de todos sonegada pelo tabu do suicídio. Quando alguém chega a este ponto muitos dedos são apontados para todos aqueles que, estando por perto, nada fizeram. Não fui ao enterro, pois não suporto tanto a dor quanto a estupefação pela morte de um jovem. Todavia, entendo porque nos contaram a versão adocicada de sua morte. Tanto antes, quanto hoje, o suicídio é marcado pela mancha da vergonha e da culpa. Como Marc-Antoine, o filho de Jean Calas – no famoso erro judiciário de Toulouse tão bem descrito por Voltaire – tirar a própria vida é uma vergonha que se espalhava para cima, para baixo e para os lados, atingindo tanto a memória de quem se foi quanto a respeitabilidade daqueles que com ele convivia.

Dimitri não conseguiu suportar uma vida de dedos apontados e desejos sufocados. Apenas o velho Sergei um dia escutou dele uma tênue confissão. Não de uma visão clara, mas de uma ponta que se erguia do iceberg de sua alma. Sergei lhe perguntou o que sentia, e porque tanto se angustiava, e tudo o que Dimitri conseguiu responder foi “Eu não sei. Meu desejo é apenas um fragmento de caos deslocado no universo”.

Dimitri teria hoje 63 anos.

“Anatoli Kuznetsov “Contos de Novosibirsk”. Ed. Fydorov, pag 135

Anatoli Kuznetsov é um escritor russo nascido em São Petersburgo em 1962. Escreve basicamente contos e crônicas em especial do universo LGBT. É um dos mais conhecidos ativistas russos contra as leis de censura à homossexualidade, em especial às prisões, constrangimentos, humilhações públicas, perseguições políticas e até mesmo assassinatos. Anatoli Kuznetsov foi preso por “desordem pública” em 1990 ao liderar uma passeata em favor das minorias, tendo sido mantido preso sem julgamento por mais de dois meses, sendo liberado a seguir sem uma acusação formal. Faz parte – e foi fundador – da Coalizão Russa pelos Direitos LGBT e milita nesta causa até hoje em sua cidade. Escreveu mais 4 livros e um ensaio de fotografias sobre a história e a vida reclusa dos velhos homossexuais.

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Coligay

Coligay

Para todos que me perguntam se era verdade, aqui está a prova documentada no livro de Leo Gerchmann. Houve um tempo, há 35 anos, que não havia homofobia no futebol. Existia uma torcida alegre, “gay”, assumidamente gremista e que circulava no estádio sem nenhum constrangimento. Essa era a Coligay, mistura de “Coli”, da boate gay Coliseu que havia na cidade e “Gay” que vem do fato de serem…. alegres.

Isso acabou, e uma torcida assim em qualquer canto do Brasil seria repudiada pelos homófobos, muitos deles – como Freud ensinou – nada mais do que “meninas que tem medo de seus próprios impulsos”. Mas como explicar essa mudança radical, para o lado oposto do que se imaginaria pela sofisticação da cultura, em direção ao preconceito e à intolerância?

A “culpa”, ao meu ver (leiam as aspas quando olharem a frase) é da própria conscientização da comunidade gay. Quando o “homossexualismo” caducou e deu origem à homossexualidade, deixando os manicômios e consultórios para ocupar as casas e ruas, a antiga “doença” deixou de existir, dando lugar a uma simples variação da infinita diversidade da orientação sexual humana. Sendo assim, o que era patologia virou comportamento, fazendo com que todos nós estivéssemos sujeitos a ele, e não apenas os “pederastas”, degenerados e doentes.

A partir desse novo conceito a homossexualidade virou uma ameaça para o cidadão comum. Ninguém estava livre de que alguém descobrisse um pensamento, um desejo escondido ou uma vontade inconfessa. A masculinidade precisava ser constantemente provada, nem que para isso fosse necessário usar da nossa costumeira brutalidade testosterônica. Era preciso exorcizar tal perigo, uma ameaça terrível à nossa persona social. E qual seria a melhor forma de se livrar desse peso?

Ora, expurgando e negando os desejos, jogando-os no outro. Os outros. A torcida adversária, os gaymistas, os coloridos, as Marias, as frangas, os pó de arroz, bambies, etc. A liberação dos costumes e a aceitação da homossexualidade como uma orientação de objeto sexual deixou-nos a todos inseguros. Este pânico, em especial nos jovens que frequentam futebol, manifestou-se como flagrante sentimento homofóbico.

Eu sonho com o dia em que renasça a Coligay, e juro por Alah que no dia que ela aparecer no estádio estarei ao lado, seja para torcer alegremente ou para fazer um círculo de proteção aos gays que desejam expressar seu amor pelo time do coração. Sei que Bebel, minha filha, estará lá comigo. Talvez esse dia, em que ultrapassarmos o preconceito e a miséria humana, nem esteja tão longe de acontecer.

Será uma data memorável, e queria muito que meu time fosse, mais uma vez, pioneiro.

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