Arquivo do mês: julho 2021

Hegemonia das Ruas

Essa foi a manifestação do professor Luis Felipe Miguel da UnB, sociólogo da esquerda liberal: “Há setores da esquerda que são presas de um tipo de machismo discursivo que equivale “violência” e “revolução”. Os neostalinistas ficam nas palavras, o PCO vai às vias de fato. Mas não tem nada de revolucionário nesta violência. É só uma compensação psicanalítica vulgar pela própria impotência.”

Desta vez estou em pleno desacordo.

O PCO – um partido diminuto e marxista – ganhou as manchetes do Brasil inteiro por fazer o que deveria ter sido feito em 2013: expulsar a direita das manifestações. Precisou ser feito por um grupo de corajosos que não se deixaram seduzir pela ideia de “frente ampla”. Existe uma confusão bem clara aqui: tirar a direita golpista das manifestações NÃO É o mesmo que afastá-la institucionalmente dos debates no congresso e no senado.

Que os líderes do PSDB se juntem nas votações pelo impeachment, tudo bem, mas não podemos permitir que eles sejam a VOZ DAS RUAS. O que estava em jogo era a HEGEMONIA das passeatas, e a infiltração da direita foi claramente planejada. Basta ver que foram às ruas fazendo provocações apenas grupos LGBT do PSDB, para colocar na esquerda a pecha de “homofóbicos”.

E mais: quanto tempo ainda vamos cair na falcatrua dos “black blocks”. Algumas fotos mostram claramente a incompetência dos farsantes de mimetizar um ativista. Usando botas da polícia e incapazes de fazer um simples símbolo de anarquia? Sério que vamos insistir em dar palanque para este tipo de armação velha, antiquada e espertinha, que visa apenas insuflar o terror no povo mais ignorante para colocá-los contra os movimentos de esquerda?

Acreditar que vamos fazer DE NOVO a mesma conciliação de 2013 e esperar resultados diferentes é ridículo. Pensem como seriam recebidos os grupos de direita nas manifestações do Chile ou da Colômbia. O PSDB é a fonte de onde surgiu o golpismo do Brasil, ou esquecemos todos do emblemático discurso de Aécio Neves negando a possibilidade de Dilma governar? Tudo começou com o PSDB, e ainda hoje eles apoiaram 92% das pautas apresentadas por Bolsonaro!!!! Como podemos aceitar a BASE DE APOIO de Bolsonaro como protagonista deste tipo de manifestação?????

Quem pode aceitar que o movimento das RUAS permita a infiltração de golpistas – que só estão lá para que esqueçamos a sua participação nos golpes e para posarem de “moderninhos” e democratas? Acha mesmo que é possível dialogar com os mesmos fascistas que espancam estudantes, professores, alunos e que roubam o dinheiro da merenda? Que tipo de civilidade subserviente é essa? Quantos tapas na cara é preciso que a gente tome até se dar conta que pedir para que parem não basta? Sim, precisamos ser “estratégicos e racionais” e retirar das ruas os grupos que tentam roubar o protagonismo das manifestações. Precisamos expulsar das manifestações os grupos que querem excluir o nome de Lula e levar o verde e amarelo dos conservadores para manchar a hegemonia vermelha. Precisamos retirar de nossas marchas os grupos que querem passar pano para as votações de desmonte do Estado que protagonizam no Congresso. Este sim é o exemplo mais claro de ENERGIA e RACIONALIDADE na construção de um movimento de rua forte e coeso.

Agora a esquerda liberal decide que temos que “juntas esforços” para derrubar Bolsonaro, como se ele fosse o problema!!! Bolsonaro é o SINTOMA de um golpe da direita para o desmonte do estado brasileiro e a manutenção do país como quintal do império. A infiltração da direita nos movimentos lhes garantiria legitimidade para colocar-se contra Bolsonaro e poder impulsionar o fascistinha do Leite, Dória, Huck ou mesmo Moro. E isso sendo feito pela nossa covardia em delimitar territórios.

Sobre a frase usada pelo cientista político Luis Felipe Miguel chamando as manifestações do PCO de “compensação psicanalítica vulgar sobre a própria impotência”…. talvez fosse mais justo dizer que os discursos que tentam normalizar e justificar a impotência e/ou a inação sejam, em verdade, a compensação discursiva e psicológica da covardia e da incapacidade de agir.

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Representatividade

Pergunto: de que adianta para a comunidade LGBT ter um governador gay? O que adianta para a comunidade negra de São Paulo ter um Holiday vereador? Que uso pode ter um Tammy Gretchen para a comunidade de trans da mesma cidade? De que vale ter mulheres como Janaína e Joyce para levar adiante a pauta das mulheres? Infelizmente nos deixamos seduzir pela forma e o aspecto externo, e muito menos pelo conteúdo e a consistência das propostas.

Como diria Chico Mendes, “Ecologia sem luta de classes é jardinagem”. Pois eu digo que “Representatividade negra, LGBT e Trans sem luta de classes é apenas a fantasia vazia e colorida da diversidade”. As vidas das pessoas dos grupos oprimidos não se modificarão substancialmente com a manutenção de pautas conservadoras, mesmo quando trazidas por sujeitos destes grupos, a não ser que sejam capazes de compreender as raízes profundas que sustentam estas lutas.

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Sinceridade

Aliás, Cabiria, eu sempre desconfio de gente que começa suas falas dizendo “Olha, eu sou bem sincera(o); digo mesmo, na cara.” Muitas vezes não há nada de sinceridade na fala dessas pessoas, mas tão somente um passe livre para a grosseria; uma liberação para a expressão da maldade e do ódio.

A sinceridade não precisa ser amarrada à brutalidade das palavras. É claramente possível ser justo enquanto amável, honesto e ainda assim ser doce. Mesmo diante de uma sentença dura e inexorável é possível reconhecer o crime, entender a necessidade da punição e ainda assim tratar o criminoso como alguém não muito diferente de nós, apenas inserido em um contexto doentio e vicioso que lhe deu muito poucas opções para agir na direção oposta ao seu destino.

A grosseria travestida de “verdade dura” nada mais é do que a licença que a verdade lhe oferece para deixar escapar seus verdadeiros sentimentos de desprezo, ressentimento e mágoa diante de algo ou alguém. Usar um fato verdadeiro para deixar que escapem seus piores sentimentos é prostituir sua verdadeira missão.

James Wilbur “Echoes of Cabiria”, ed. Patrus, pág. 135

James Wilbur é um jornalista canadense, nascido em Saskatoon, Saskatchewan. Escreveu vários romances, em especial romances históricos sobre a colonização do Canadá e a relação dos primeiros imigrantes com os habitantes originais, também chamados de “first nation”. Em “Ecos de Cabiria” James Wilbur presta sua homenagem ao grande diretor Federico Fellini em sua magistral obra de 1957 “Noites de Cabiria”. Neste filme, uma prostituta chamada Cabiria sonha encontrar o verdadeiro amor e uma vida plena, mas o choque com a realidade dura a faz sofrer desilusões e decepções. No romance de James Wilbur, Cabiria é uma transexual que cometeu um homicídio passional, mas é nebulosa a noção de que tenha ocorrido por legítima defesa. Na trama ela acaba se apaixonando pelo detetive que tenta investigá-la. A chocante descoberta da transexualidade de Cabiria – que de início respondeu aos seus avanços – fez com que o detetive McArthur questionasse seus sentimentos, sua própria sexualidade e, mais grave ainda, sua ética profissional. A história se desenrola através de um caleidoscópio de remorso, paixão e desejo, onde a lâmina fina da culpa aguarda qualquer mínimo desvio para cortar sem piedade.

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Maturidade

Sim, maturidade é apagar um parágrafo inteiro e dar como resposta apenas “ok”.

Faço isso literalmente todo santo dia. Escrevo uma enorme resposta e depois penso que não vale a pena. A maioria das vezes é porque acho que a pessoa na outra ponta tem suas razões e minha resposta pode estar sendo exagerada. Algumas vezes penso que o outro não vai conseguir entender meu ponto de vista. Outras vezes penso que estou fazendo tempestade em copo d’água. “Não é para tanto”, penso eu.

Outras vezes eu simplesmente suspeito que estou sendo vítima de um “bait”, uma armadilha, por alguém que quer trazer à baila uma discussão que interessa apenas a si próprio. Em outras situações eu vejo melhor o que a pessoa falou e penso que ela tem razão, e eu estava “torcendo a interpretação” por puro preconceito. O errado era eu.

Em todas as vezes o “ok” ficou bem melhor do que a minha resposta original.

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Solidão

Vamos deixar bem claro: solidão NUNCA é algo bom pois, por definição, a solidão é o sofrimento por estar só. Estar SOZINHO pode ser bom, desde que o sujeito assim o deseje, mas solidão é a descrição da dor de quem não tem companhia.

Pessoas não são necessariamente mais felizes sozinhas, mas podem sê-lo, sem dúvida. Colocar a felicidade atrelada à ausência dos outros é tão errado quando estabelecer que ela só pode ocorrer com a presença de alguém.

Se a pessoa é verdadeiramente mais feliz sozinha, então que assim seja. Buscarmos companhia pela ilusão que isso nos tornará felizes é um erro, e também uma enorme crueldade para quem nos acompanha.

Entretanto, a própria sexualidade humana já nos deixa explícito que a vida se faz na comunhão. Não fosse assim, a cissiparidade ainda seria a grande moda do verão. O que se vê nas artes e em qualquer manifestação humana é que essa necessidade de comunhão é da natureza mais íntima de todo ser humano.

É, portanto, natural que a vida seja uma eterna busca pela presença de alguém ao nosso lado, pelo conforto que nos traz, por sua companhia, seu prazer e seu carinho. Não acho justo desmerecer a necessária busca humana por parceria apenas em função dos traumas e feridas que possam ter ocorrido. Afinal, amar é sempre um risco, mas como em todo o bom jogo, esse risco torna a conquista ainda mais gratificante.

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Dudu Milk

No dia da consciência gay eu disse – de brincadeira – que seria uma ideia genial do Dudu Milk sair do armário no meio das homenagens e galvanizar a luta pela visibilidade dos homossexuais no Brasil, já que sua opção sexual é conhecida de todo mundo aqui (os gaúchos) há muitos anos. “Se é público e notório, por que não capitalizar em nome da causa gay?”

Era brincadeira, sim, porque essa não é – e nunca foi – sua causa, o que não é sua culpa. Cada um escolhe suas lutas e ninguém pode ser acusado de não escolher aquelas que NÓS desejamos. É injusto acusar um sujeito gay de não fazer de sua sexualidade uma bandeira. Muitos – creio que a maioria – preferem que sua vida íntima se mantenha privada e reservada. Como negar aos gays esse direito?

Por outro lado, também me parece justo suspeitar do “timing” especial do “outing”. (Sim, também concordo que dois anglicismos toscos na mesma frase seria uma razoável exceção à minha recusa à pena capital. Sim, foi de propósito). Por isso, sair do armário exatamente agora, quando a Globo desesperadamente tenta encontrar um personagem que ocupe a vaga do Bolsonaro no imaginário da direita é, no mínimo, digno de desconfiança. Lançar-se como candidato neoliberal usando essa plataforma – tentando conquistar os votos dos “progressistas” e/ou identitários – me parece um equívoco. Mais ainda, me soa desonesto…

Prefiro respeitar a proposta do próprio governador, que rejeita a ideia de ser um “governador gay”, mas sim um gay governador. Acho melhor dizer que ele é mais um político de direita, conservador, neoliberal, privatista e que se aliou explicitamente à perversidade de Bolsonaro quando da disputa ao governo do Estado.

Para mim Eduardo continua sendo um gay reaça, como tantos que conheço.

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Desapego

Eu posso entender as pessoas, como meu pai, que sofreu muito depois que mais de 60 anos de convívio com a minha mãe foram interrompidos pela sua partida. Talvez essa perda fez desgastar muito da sua vontade de permanecer nesse plano. Admiro esse amor que despreza o tempo e a senescência da carne. No caso dos meus pais houve uma união que se manteve firme e forte, algo cada dia mais difícil de encontrar em um mundo de amores fugazes e inconstantes.

Apesar da imagem positiva que sempre guardei dessas uniões, não vejo nelas um valor absoluto. Não há porque acreditar que os casamentos – de qualquer tipo – deveriam continuar para além do tempo em que são úteis e construtivos a ambos. Parece que todos admiram e invejam relações duradouras, mas poucos são aqueles que sabem os martírios que por vezes estão escondidos por trás dessas uniões.

É comum a gente se apiedar do sobrevivente que fica entre nós quando a morte leva o parceiro. A gente diz “coitado” ou “tadinha” porque sabe que a morte de um será devastadora para o outro. Já a morte de alguém que nos é indiferente não nos maltrata nem desanima. Parece que amar é investir na dor de perder.

“Amam-se tanto que o amor deles é sua maior fragilidade”. Como um avarento que, de tão apegado às posses, sofre por antecipação pelo medo de perder sua riqueza. Talvez o segredo esteja mesmo no despojamento. Desapegar-se não apenas das cargas e riquezas materiais, mas também dos afetos, dos ressentimentos, das mágoas e ódios… e dos amores. Quanto mais apego, mais dor

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