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O que (não) fazer

A respeito de exames exagerados e abusivos lembrei da minha velha tese sobre as ecografias, que em nosso meio são de 3 categorias diferentes:

  • Recreativas
  • Sedativas
  • Médicas

A primeira é uma criação cultural relacionada com a angústia criada pela indústria para descobrir tamanhos, formas e genitálias de bebês. A segunda é para oferecer alívio às mulheres bombardeadas pelo terrorismo cultural sobre as barrigas em crescimento. Ambas não tem nenhuma base científica que justifique seu uso; são criações da cultura para vender aparelhos (caros) e fortalecer a dependência das mulheres à “tecnologia redentora”. Apenas o último ultrassom é justificável, mas para ser solicitado precisaria de 3 elementos essenciais: uma pergunta, uma possível resposta e uma ação. Só assim ele poderia ser medicamente útil.

Posso garantir que na obstetrícia 99% (talvez mais) pertencem às primeiras duas categorias. Portanto, inúteis e perigosas. Concordo com a tese de que “exames matam”. Em verdade, palavras também, mas um exame pode fazer com que os julgamentos e a confiança na paciente – e dela consigo mesma – seja destruída ou fatalmente ferida.

Asim sendo, antes de pedir quaisquer exames durante a gestação pense:

  • Além da indústria médica e seus tentáculos (laboratórios, drogas, reagentes, equipamentos, profissionais, etc), quem mais se beneficia desse pedido de exames?
  • É possível que este exames mude sua estratégia no caso? Como? Ou está pedindo só para “ver como está”?
  • Tem validação científica?
  • Vai realmente trazer luz a este caso ou será um desperdício de recursos? É muito caro? Vale a pena o recurso investido?
  • Não seria possível trocar este exame por uma anamnese melhor ou por mais meia hora de prosa?

Pense melhor. Menos é mais…

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Arquivado em Ativismo, Medicina

DNA

Não, o socialismo não veio no meu DNA. A minha família é toda de conservadores direitistas e pseudo aristocratas, infelizmente. Mas o triste é perceber que boa parte dela nunca entendeu o que eu escrevi aqui no Facebook. Não sou petista e Lula nem é meu candidato. Sou socialista e o PT não é;  o PT é um partido de centro-esquerda. Meus ideais socialistas não tem plena expressão nesse partido o qual tenho muita admiração, apesar de ter sido vítima dele em um episódio difamatório.

Minha defesa de Lula, entretanto, se dá pela importância do Estado Democrático de Direito e pela defesa de um julgamento justo para qualquer cidadão. Lula é vítima de um massacre injusto e cruel, conduzido por pessoas que o condenam por ter ofendido o sistema de classes brasileiro e ter questionado a divisão entre Senzala e Casa Grande. Poderia ter sido o Aécio ou até o Cunha, e eu os defenderia igualmente.

Eu me solidarizo com sujeitos que lutam por seus ideais e, em especial, aqueles que descobriram que existe um outro Brasil, que precisa ter voz e vez, e que não faz parte dessa burguesia atrasada, burra, incompetente, racista e fascista a qual eu pertenço. Se não criarmos a oportunidade para que este outro Brasil tenha chances teremos convulsão social, ou melhor, teremos um estado policial e uma constante luta pela dignidade dos esquecidos. Isso já vemos agora e só podemos esperar uma piora se membros dessa burguesia – atrasada e raquítica, que usa botox, slogans anacrônicos e atitudes dissimuladas – continuar a controlar a vida de milhões de pessoas.

Sim… eu me preocupo com isso enquanto boa parte da minha família se detém em difamar um sujeito cuja acusação é ser dono de um triplex vagabundo em uma praia decadente cujas provas apontam claramente de que não lhe pertence. Sim, enquanto minha família apoia um sujeito de camisa preta que planeja a destruição da representação dos trabalhadores eu me solidarizo com quem sai à rua para lutar por justiça e pelo direito de sonhar com equidade e uma vida digna.

Precisamos de símbolos para tudo, assim como de rituais. A perseguição infame a Lula SIMBOLIZA que qualquer um de nós pode ser caçado covardemente por ousar questionar a perversidade da estrutura social brasileira. Lula é o símbolo de uma resistência corajosa e nobre contra o arbítrio. 

Por isso não é preciso gostar dele como pessoa ou como político, basta respeitar o lugar que ocupa nos nossos sonhos por liberdade e justiça social. Pela mesma razão, não é preciso gostar da pessoa do Ronaldinho ou Neymar para, mesmo assim, torcer pela seleção.

Lula, neste momento, incorpora a luta do povo contra um judiciário corrupto – pelo partidarismo – e um governo canalha – pelo golpe e pela entrega imoral de nossas riquezas.

Força Lula!!!

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Arquivado em Política

Telefonema

celular roubado

Minha filha foi novamente assaltada e teve o celular roubado. Estava na passeata contra o golpe porco e sórdido que nosso país sofreu quando foi abordada por um jovem com uma faca que lhe solicitou o celular. Como ela é uma pessoa inteligente, não reagiu e o entregou.

Por uma mistura de curiosidade mórbida e a ilusão de fazer uma negociação qualquer liguei para o número dela logo após saber do roubo, e quem me atendeu foi o próprio ladrão. Disse a ele que sabia que ele havia roubado o telefone da minha filha. Ele deu uma risada com um linguajar super “bagaceiro” e me disse: “Ah meu, a mina deu mole, azar né…” e desligou.

Para minha surpresa hoje pela manhã ele me devolveu a ligação. Titubeei antes de atender, mas resolvi pagar para ver. Ele iniciou a conversa com um papo muito bobo, em um lugar onde parecia estar rodeado por uma galera fuleira. Iniciou a conversa dizendo:

– O seu merda, por que me ligou ontem? Eu vou aí na tua casa e vou te encher de bala. Vai te f* seu idiota. Tu vai ver o que vou fazer contigo”.

Senti o clima de deboche ao redor dele mas resolvi não aceitar o jogo. Respondi com toda a calma.

– Só liguei ontem porque você roubou o telefone da minha filha. E você não vai me pegar coisa nenhuma. Você é um ladrão de celular que ataca meninas; não ia se arriscar comigo. E eu não tenho medo de você.

Eu vi que ele ficou brabo, e os amigos ao redor começaram a gritar. “Filho da p*, otário, vai tomar no c*…

Expliquei a eles que me xingar não faria diferença alguma; isso não me atinge e sequer me irrita. Falei ainda que me agredir era inútil, mas fui duro com ele:

– Escuta cara, você roubou um celular velho. Na sua mão isso não vale nada. Vou bloquear em minutos e você vai ganhar talvez 100 reais por ele no mercado negro. Entretanto, se você continuar assim em 10 anos só existem 3 possibilidades: vai estar preso, morto ou ainda estará roubando celular para ganhar míseros 100 reais, correndo o risco de apanhar, ser linchado ou preso. Tem certeza que esse é o futuro que você pensou para si mesmo?

Ele interrompeu sua fala debochada e arrogante. Percebeu que os xingamentos não me irritaram e que não poderia se divertir me ameaçando. Tentou me dizer que eram mais de 100 reais que conseguia, e que fazia isso porque tinha que sustentar seu vício, o que é uma desculpa usada por todo tipo de adito: das drogas aos remédios, bebidas ou cigarro. Terminou seu curto discurso com um outro clichê previsível: “Essa sociedade não me dá outra possibilidade. Não tenho alternativa“.

Sabia que ele usaria essa desculpa fácil, mas também entendia que não poderia responder um clichê batido com outro pior.

– Você tem razão ao dizer que essa sociedade é injusta e não lhe dá oportunidades. Também parece claro para mim que a sociedade olha de maneira diferente para você e para a minha filha. Mas você pode sair desse jogo perverso. Existem, sim, alternativas para criar uma vida digna. Roubar pessoas dá essa sensação passageira de ser malandro, esperto e ter “vencido” os “manés” pela força. Mas basta você ser humilhado numa delegacia para ver que isso é uma ilusão, que o mané é você mesmo e que o seu destino é ser tratado como traste em uma cadeia abarrotada. É isso que você quer para você? É essa a sua resposta para uma sociedade injusta? Acha que o roubo desse telefone prejudica a minha filha mais do que você? Olha meu, você está enganando. Quem foi roubado foi você.

Ele insistiu nas desculpas manjadas, numa derradeira tentativa padronizada e estereotipada de justificar seu crime.

– Roubei o celular para pagar meu aluguel, disse ele.

– Nada justifica ameaçar uma menina para roubar um celular velho. Entenda… não tenho raiva de você. Em termos econômicos, isso não fará diferença alguma para a minha vida, e nem para a minha filha. O que a gente perde mesmo é a confiança nos outros, aumentando nossa sensação de insegurança. Minha tristeza é ver um jovem ser enganado pela ilusão de que roubar um celular pode lhe trazer alguma coisa boa na vida. Isso sim é triste.

– Bem, desculpe qualquer coisa. Eu realmente roubei, mas…

Ele não sabia o que dizer. Aliás, que poderia ele falar diante do que fez?

– Meu amigo, não se lamente. Pense apenas no que eu lhe disse. Como vê sua vida no futuro? Seja feliz, siga sua vida. Abraços e boa sorte.

Ele se despediu de forma sincera.

– Ok. Um abraço para sua família e desculpe o transtorno.

Dito isso, desligou.

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