Arquivo do mês: setembro 2026

Onde estão os espíritas?

Tenho visto alguns pensadores questionando o vazio de sociedades espíritas, em especial a ausência de jovens frequentadores. Falam da violência urbana, problemas para estacionar, dificuldades variadas para o acesso. Entretanto, eles mesmos dizem que tais explicações não são suficientes para dar conta do fenômeno.

Minha visão desse problema talvez não agrade os próprios espíritas. Eu frequentei sociedades espíritas na época em que Dr. Fritz, Arigó, Chico Xavier, Gasparetto, João de Deus e depois Divaldo Franco eram ícones culturais. Roberto Carlos e outros artistas se diziam admiradores do espiritismo. A doutrina espírita estava “na crista da onda”. Era legal e charmoso ser espírita, algo que atraía intelectuais e artistas. Todavia, o espiritismo cristão, que cultura personalidades e se comporta como uma seita cristã reencarnacionista, está fadado a este destino: ser uma versão progressista do catolicismo. Nada mais do que isso. Esta alternativa não atrai mais a juventude como antes. Na sociedade contemporânea é muito mais sedutor para os jovens a versão evangélica, que se adapta de forma precisa ao modelo neoliberal, ao ethos capitalista e “desmoralizador” (isento de conteúdo moral) das vertentes pentecostais. Ninguém alcança sucesso e dinheiro no espiritismo, porém esta proposta está implícita no chamado das igrejas evangélicas. Os evangélicos assumiram – por méritos – a posição que o espiritismo tinha no imaginário social há 50 anos.

Perceba como a juventude espírita floresceu na minha época, final dos anos 70 e início das anos 80. Lembro bem das “tardes juvenis” com 200 jovens, e CONJERGS (congresso da juventude espírita do RS) lotadas de jovens de todo canto do Estado, mas começou a declinar exatamente com o surgimento das igrejas evangélicas, como a Igreja Universal do Edir Macedo. Ao meu ver, lá estão agora os antigos jovens espíritas, seduzidos pelas promessas de redenção da narrativa neoliberal que se iniciou com Reagan e Thatcher, exatamente nesta época, início dos anos 80. Por outro lado, qual o grande problema do vazio das instituições espíritas? O espiritismo não é uma religião, e muito menos uma religião de massas. Reclamar que somos poucos é o mesmo o que questionar porque as salas de música erudita estão vazias e os bailes funk estão sempre lotados. As razões são semelhantes: no primeiro uma proposta de estudo, aprofundamento de ideias, dúvidas, pesquisas, enquanto no segundo a sedução inescapável da vida fulgurante de som, dança, alegria e erotismo. Não há como competir. O espiritismo produz uma seletividade natural, e necessariamente minoritária na cultura.

Entretanto, as mudanças estão aí para serem, testadas Convocar pessoas para estudar espiritismo num sistema horizontal e aberto é um bom caminho, mas para isso a versão espírita laica e científica é a melhor (única?) solução. Para iniciar, seria muito bom abandonar o igrejismo, como alguns espiritas progressistas apontam. É fundamental se afastar da cristolatria espírita, das vinculações com as crenças místicas cristãs, assumir uma postura verdadeiramente universalista e que seja útil e compreensível a todas as culturas. Para além disso, é essencial estimular o estudo científico, o debate filosófico e abandonar a visão moralista que sempre caracterizou nossas instituições.

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Carma

O ano era 1937. Na sala de estar da casa de paredes altas, o tempo parecia correr mais devagar, ditado pelo tique-taque do relógio e pelo chiado baixo de uma vitrola antiga. Alheia à severidade do pequeno busto de gesso de Beethoven que a observava de cima de um móvel, uma menina de apenas quatro anos esticou o braço por baixo do sofá. Buscava um brinquedo — talvez uma boneca de louça, talvez uma bola de couro. Ao recolher o membro com o objeto em mãos, o antebraço trancou-se contra a madeira maciça do móvel. O peso do próprio corpo forçou a articulação. Houve um estalido seco.

A menina não deu muita importância na hora. Voltou a brincar, ignorando a pontada incipiente. Mas a dor, silenciosa e persistente, fincou raízes. Dias depois, o braço começou a mudar de cor e a inchar de forma alarmante. O choro, antes contido, tornou-se evidente. Diante do inchaço crescente, seu pai, meu avô Olinto Blum, tomou uma decisão difícil. Naquela década, uma visita ao médico era um evento raro para um cidadão comum, um luxo ou um sinal de extrema gravidade.

Aflito, meu avô levou a filha até o Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre. O diagnóstico dos médicos foi um golpe brutal: uma infecção profunda no osso — o que hoje a medicina presumiria ser uma osteomielite severa. Na era pré-antibiótica, sem a existência da penicilina para combater as bactérias, a infecção era uma sentença de morte por sepse. A única solução apresentada para salvar a vida da menina era a amputação imediata do braço esquerdo.

Arrasado e sem chão, Olinto deixou o quarto de hospital. Sentia-se esmagado pela culpa e pela impotência. Caminhou mecanicamente até a cafeteria da instituição, desabou em uma cadeira e ali ficou, tentando colocar os pensamentos em ordem enquanto o mundo desmoronava ao seu redor.

Foi quando um jovem médico, percebendo o sofrimento profundo daquele homem, aproximou-se. Com um gesto simples de empatia, convidou Olinto para tomar um café. No calor daquela mesa, o pai abriu o coração e relatou a tragédia iminente. O jovem doutor ouviu com atenção e se apresentou. Ele acabara de retornar do exterior, onde testemunhara o uso de uma técnica médica experimental na Europa: uma raspagem minuciosa do osso infectado combinada com a aplicação de substâncias antissépticas recém-descobertas. É provável que se tratassem das sulfonamidas, recém descobertas. Era uma aposta arriscada, dolorosa e cara, mas era a única esperança de manter o braço da menina. Olinto aceitou imediatamente. O tratamento esvaziou as poucas economias da família, mas funcionou. A menina preservou o membro, carregando para o resto da vida uma cicatriz vistosa no antebraço.

Anos mais tarde, já adulta, aquela menina explicava o infortúnio sob uma ótica espiritual profunda. Dizia que estava traçado que ela deveria perder o braço devido ao seu carma. Em existências passadas, em campos de guerra esquecidos pelo tempo, usara aquele mesmo braço para cometer atos condenáveis. Essas ações haviam gerado um escurecimento magnético, uma falha e uma fragilidade em seu envoltório perispiritual que se manifestaram fisicamente naquele acidente de 1935.

Contudo, ela sempre enfatizava: o carma não é um destino imutável, mas uma dívida. E a dívida pode ser amortizada. Pelas boas ações, pelos pensamentos elevados e pelos sacrifícios diários ao longo da vida, aquele resgate severo que exigia a perda de um membro foi sendo suavizado pelas leis maiores, transformando-se em uma infecção curada e em uma cicatriz vistosa.

Mas existe mais um elemento extra nessa história: como eu interpretei o acidente e sua explicação para ele. Pelo relato da minha mãe eu sempre achei que ter a mim como filho foi uma forma de saldar essa conta. Assim, minha mãe deve a mim a chance que teve de terminar seus dias com os dois braços. Minha existência em sua vida – arteiro e contestador – foi o peso que ela teve que suportar para amortizar sua dívida.

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Quanto?

Ele me falou o preço sem me olhar no rosto. Disse em voz baixa, por desintetesse ou quiçá descaso. O número era quebrado em noves, para enganar os sentidos, mas não podia fazer brotar algo da aridez dos meus bolsos. O vendedor já tinha me avaliado de cima abaixo quando entrei na loja. “Chinelão”, pensou, mas foi educado o suficiente para evitar que o pensamento descesse à boca. Não tentou sequer falar de parcelamentos, facilidades, prestações ou descontos. Era evidente que aquilo estava muito além das minhas possibidades.

Mas era preciso. Eu tentava não demonstrar, mas era evidente o quanto eu desejava aquilo. Ele também sabia, mas não podia descer o valor. Cumpria ordens, e a sua margem de desconto não faria muita diferença.

– É caro – falei, olhando para baixo. – Não digo que não tenha o valor que você diz, mas está muito distante da minha realidade.

O vendedor levantou o olhar da planilha à sua frente e o olhou para o homem com uma espécie de benevolência. Falou quase com doçura.

– Esse nem é o modelo mais caro, mas elas normalmente custam os olhos….

Interrompeu a frase pela metade para não ferir os sentimentos de um homem com óculos tão grossos, quase ofensivos.

O homem manteve-se em silêncio por alguns instantes. Olhou para o rosto do vendedor atrás do balcão, que se mantinha dividido entre a planilha e o monitor que cuspia dígitos à sua frente. Finalmente, o homem colocou os óculos “fundo de garrafa” no bolso do casaco, virou-se de costas, colocou as mãos sobre o rosto e ficou a remexer na sua face. Repetiu o gesto até escutar um clique seco. Voltou-se novamente para o vendedor, mostrou a mão espalmada à frente e falou:

– Vou ficar com ela. Pode embrulhar.

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