Arquivo da categoria: Ativismo

Mitos ruidosos

Mitos que caem ruidosamente.

É curioso como o surgimento desses mitos médicos sempre coincidem com benefícios e privilégios para os setores que detém o poder. O mito da “segurança” superior da cesariana em várias circunstâncias (gestação a termo, cesariana anterior, pélvicos, gemelares) só consegue prosperar e florescer porque beneficia médicos e instituições. As vantagens do parto vaginal, em contrapartida, não conseguem se estabelecer com facilidade exatamente pela mesma razão: o parto vaginal agride o desejo e a própria formação tecnicista dos médicos.

Para a atenção a um parto múltiplas habilidades são requeridas, enquanto para uma cesariana bastam as qualidades técnicas. Mas, como os profissionais médicos detém o poder autoritativo, as evidências só produzem diferença quando reforçam este poder, e não quando se contrapõe a ele.

Veja aqui o estudo que demonstra a segurança de provas de trabalho de parto para gestantes com 3 ou mais cesarianas.

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Ofensas e injúrias

(Texto de resposta no Facebook)

Fiquei sabendo por terceiros de graves ofensas e injúrias a que fui submetido por um vídeo postado na internet por uma moça com a qual tive uma discussão pública há alguns dias.  No vídeo ela me trata com inúmeros palavrões e outras palavras de baixo calão, mas acrescenta mentiras graves, sendo a principal delas a de que eu a teria ameaçado assim como a amigas suas. Escrevi tudo publicamente na minha página da internet e em nenhum momento ofendi a honra de quem quer que seja. Tive uma postura clara de discordância mas em momento algum baixei o nível ou ofendi os que discordaram de mim. Em função disso estou acionando na delegacia de crimes cibernéticos a senhora em questão por ofensa grave à honra.

Tive dois contatos em privado com ela. Eu procurei conversar com ela desta forma para que ela não fosse exposta, e nem seu filho. Na primeira expliquei que não era inimigo dela, mas que expor a vida sexual de um filho menor de idade podia ser problemático. Disse explicitamente “não sou seu inimigo”. Pedi que tivesse cuidado e mostrei artigos do ECA para ela ver que isso é algo muito delicado. Nessa altura já sabia que ela mora em outro país, mas talvez lá a lei seja até mais severa. Não falei de forma ameaçante e sequer irritado. Estava preocupado com os desdobramentos das suas atitudes. Tenho no meu celular esse texto e levarei à delegacia para análise e para que conste nos autos.

A segunda mensagem inbox foi para tentar interromper sua escalada de ódio. Entendi que poderia escrever algo que encerrasse a discussão e parassem as ofensas. Também temia por ela. O segundo texto é esse:

“Sabrina… Eu queria escrever um texto para me desculpar de algumas coisas e acho que deveria ser público. Para isso eu queria te mostrar e ver se você se sente contemplada com ele. Você pode vetar ou sugerir uma modificação em que você se sinta bem. Se você achar que vale a pena eu escrevo e peço a sua licença para publicar.”

Minha ideia era escrever algo como “Desculpe se você se ofendeu. Não era pessoal e eu estava debatendo um fato, não sua pessoa. Não desejava colocar dúvidas na sua condição de mãe. Não conheço você mas me desculpe se isso a feriu de alguma forma”. Era um texto genérico para aparar palavras ásperas que surgem em qualquer debate, mesmo quando se mantém a discordância do tema central.

Ela não respondeu nenhuma mensagem.

Infelizmente ela fez um vídeo com acusações graves e terá que comprovar isso. Tenho a cópia das duas únicas mensagens privadas a ela.  NUNCA AMEACEI A ELA OU QUALQUER AMIGA SUA. Se ela me acusa disso terá que provar, e as provas de minha inocência as tenho comigo e no post da Internet. Infelizmente serei obrigado a uma ação enérgica e isso acabará repercutindo de uma maneira que nunca quis (por isso queria terminar o embate em ambiente privado, exatamente por envolver menores de idade).

Obrigado pela compreensão.

Abaixo um resumo do caso.

Há dois dias passados escrevi um texto em resposta a um artigo que li no Facebook de uma moça que falava de sua experiência com o filho de 15 anos. Este queria ter relações sexuais com a namorada de 17 anos e pediu que fosse na casa que mora com sua mãe.

Achei que a iniciação sexual de menores de idade podia ser um tema interessante para debater e pensei que muitas pessoas podiam contribuir com ideias e posicionamentos. Não citei a pessoa em nenhum momento, nem mesmo a cidade, o país ou qualquer outro elemento que a pudesse identificar. Também não critiquei a mãe, mas critiquei sua decisão por achar – está é minha tese, bem simples – que a vida sexual se constrói por conquista e não por concessões, e que um menino menor de idade deveria ser protegido.

Fiquei surpreso ao ver que a autora do texto adentrou meu Facebook profundamente indignada dizendo que eu não tinha o direito de critica e sua decisão. Eu discordei e expliquei porque não concordava com sua decisão. A partir de então houve uma chuva de críticas e – certamente – ofensas pessoais, mas achei que essas coisas são naturais no ambiente cibernético e por tocar em pontos delicados como sexo, infância, educação e mulheres. Depois de 24 horas de argumentos eu solicitei que a conversa se encerrasse porque os argumentos estavam se repetindo – contra e a favor – e não havia nada mais a ser dito.

Infelizmente meu filho me avisou que ela publicou um vídeo recheado de ofensas e acusações e distribuiu pela internet e ter suas seguidoras. Entre as ofensas há a acusação de que eu a teria “ameaçado” e também suas amigas. Na verdade eu até mandei uma mensagem inbox (veja abaixo) mas está longe de ser uma ameaça, pois é uma tentativa clara de conciliação.

Diante do exposto esclareço que:

1- Nunca expus publicamente esta moça e nem sabia seu nome, nem mesmo de onde escreveu. Escrevi sobre um FATO: como lidar com a iniciação sexual de menores de idade e me posicionei em desacordo com sua ideia. Não há no meu texto qualquer ataque pessoal a ela, nenhuma forma fácil e simples de identificá-la e – obviamente – nenhuma ameaça ou ofensa pessoal.

2- Não fiz nenhum tipo de ameaça a ela mas escrevi em privado para que ficasse atenta com o que publica na internet pois o tema é muito delicado. Enviei a ela um trecho do ECA para que ela ficasse alerta e deixei claro: “não sou seu inimigo”.

3- Não considero o texto machista porque todos os personagens no texto poderiam ter o gênero trocado e minha opinião seria a mesma.  Disse – em sua defesa – que o fato de não ter um homem para dividir essa decisão a obrigou a tomá-la sozinha. “Duas cabeças pensam melhor que uma”, e que se tivesse ajuda talvez fosse diferente. Não fiz nenhuma crítica a sua qualidade como mãe ou à sua maternagem.

4- Usei um termo feio no início do texto e imediatamente o retirei, pois poderia  gerar confusão. Pedi desculpas pela comparação imediatamente. Foi um erro, mas foi corrigido muito no início.

Por outro lado aceito que errei

Eu deveria ter no mínimo esperado mais para debater o tema. Creio que se trata de um tema importante para mães, país e até avós como eu. Esse tipo de dilema que ela enfrentou muitos irão se deparar e em idades até mais precoces. Acho que ela se ofendeu por ter lido o meu texto como uma crítica às suas qualidades como mãe. Mesmo que eu não tenha feito isso, imagino que ela tenha se sentido mal e por isso a explosão de indignação.

Por fim peço desculpas a ela e espero que ela tome as atitudes adequadas com o vídeo ofensivo que injurioso que postou. Gostaria que a solução fosse a mais branda civilizada possível, sob pena de termos que discutir em outros patamares.

Deixo o meu pedido de desculpas para todos se no debate houve algum excesso de minha parte. Se eu o fiz peço humildemente perdão e o farei explicitamente a quem se sentiu ofendido.

Obrigado
Ric

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Mais ecografias

Sobre o abuso cada vez mais descarado de ultrassonografias na gravidez:

Não existe NENHUMA base científica para justificar essa barbárie ultrassônica. Isso é uma mistura de capitalismo abusivo com ignorância ancorada na insegurança. Esta insegurança, por sua vez, é produzida pela cultura e amplificada pelo discurso médico, porque os médicos se fortalecem e empoderam quanto mais alienada e assustada estiver uma gestante.

Todos ganham: médicos, clínicas, especialistas, enfermeiras, hospitais, indústria farmacêutica e de equipamentos (a que mais lucra) e a medicina como biopoder. Só perdem mães, bebês e a sociedade. Justo, não lhes parece?

É um absurdo. Cada vez que um médico chefe ou um gestor estabelece esse protocolo insensato e sem embasamento o seu Toshiba e o seu Siemens abrem uma garrafa de Champagne Moet Chandon e caem na gargalhada.

Quando uma mulher chora ao ver seu bebê no aparelho de ultrassom ela quase sempre chora de alívio, e não de emoção. O trabalho de destruir sua autoconfiança como mulher e gestante a leva a depender das máquinas para construir uma segurança que a medicina e a cultura retiram dela.

Peço licença para fazer uma analogia: Se houvesse um leite que fosse absolutamente igual ao leite materno sem NENHUMA diferença entre as composições, acreditas que não faria diferença alguma entre essa variedade e a natural?

Existe muito mais do que um exame em qualquer exame. Um exame, assim como o ato de amamentar carregam significados que extrapolam sua operacionalidade. Eles agem no simbólico, ultrapassando os limites de sua ação física e funcional. Dar uma mamadeira e fazer ecografias simbolizam a defectividade essencial da mulher, que precisará dos recursos outros (a tecnologia) para dar conta de suas questões fisiológicas de gestar e maternar. Esses símbolos REFORÇAM a imagem diminutiva da mulher na cultura por colocá-la como essencialmente incompetente para dar contas, por si mesma, dos seus desafios de mulher.

Não se trata de permitir ou não a realização de um exame. Nesse aspecto é igual ao abuso de cesarianas. É óbvio que existem malefícios nesses abusos e que precisam ser criticados à exaustão, mas ainda prefiro mulheres livres para tomar decisões erradas e tolas (na minha perspectiva e na da ciência). O texto não tangencia a questão de cercear escolhas, mas infere que essa “escolha” NUNCA é totalmente livre e sofre condicionamento da cultura e do médico enquanto significante. E este médico tem muito a lucrar com isso, por esta razão estas opções tem aspectos éticos relevantes.

Uma ultrassonografia expropria simbolicamente a gestação de uma mulher ao colocar esta relação intermediada por uma máquina. Tudo o que ocorre depois disso é marcado por essa intervenção invasiva, em maior ou menor grau.

O discurso médico é a tradução da visão de mundo da medicina ocidental contemporânea com a qual convivemos. Mesmo sendo diverso e plural não é difícil traçar uma linha que nos conduz à fala da Medicina na cultura. O mesmo e pode dizer do discurso jurídico ou político.

Dizer que não existe um discurso médico dominante – que é iatrocêntrico, etiocêntrico e tecnocrático – porque existem médicos que “respeitam pacientes e evidências” é o mesmo que negar a supremacia da visão alopática porque conhece alguns homeopatas; é o mesmo que negar o machismo porque alguns amigos lavam a louça…

Na obstetrícia a existência de hospitais com 90% de cesarianas sepulta essa discussão. Houvesse respeito pelos pacientes como DISCURSO HEGEMÔNICO e isso jamais seria admitido ou tolerado.

Eu entendo o cuidado para não afastar os bons médicos com essa perspectiva e esse conceito mas na minha opinião os bons profissionais são capazes de fazer mea culpa e exercitam a autocrítica. Nenhum bom médico que conheço nega a crise ética da medicina, que nada mais é do que um dos milhares de braços da crise do capitalismo mundial.

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Liberdade, liberdade

Recordo que há alguns anos escrevi um artigo que falava criticamente do racismo que sobrevive no nosso meio e das suas conexões com a escravidão no Brasil. Para ilustrar o texto coloquei uma imagem da internet com um torso negro masculino envolto em uma grossa corrente. Recebi alguns elogios pela iniciativa (um obstetra falando de racismo institucional não é muito comum), mas no dia seguinte um famoso grupo identitário virtual me escreveu dizendo terem gostado do texto, mas que não aprovavam a imagem. Disseram que era hora de desvincular os negros da escravidão. Respondi explicando que o texto falava explicitamente da escravidão e suas repercussões, quase um século e meio após sua abolição, mas elas ficaram irredutíveis em sua proposta.

Eu troquei a imagem por outra (achei que não valia a pena a animosidade por um detalhe). Coloquei uma barriga grávida e negra, mas percebi o risco que havia nessa proposta de censura (que se limitou a um pedido). E se eu tivesse me negado? E se eu insistisse na imagem? Que tipo de represália eu poderia sofrer?

Quando escrevi meu capítulo no livro “Birth Models that Work“, da antropóloga Robbie Davis-Floyd, recebi um “sinal de luz” da revisora que achava que meu texto “essencializava” a mulher ao exaltar suas capacidades de gestar e parir, e isso podia incomodar algumas feministas. Desta vez bati pé e tive uma áspera discussão ao telefone que terminou com “então pode retirar o capítulo do livro“. Não foi necessário e minha contribuição nunca fui criticada por ter essa característica.

Liberdade de expressão é uma falta que eu vejo de maneira muito clara no discurso das esquerdas. As estúpidas expulsões de bolsominions de manifestações, ou mesmo negando-lhes o direito de falar, mostram a face autoritária que ainda sobrevive nesse meio. Cabe a nós, do campo progressista, eliminar qualquer forma de autoritarismo e censura, e para isso precisamos pagar o preço que se fizer necessário.

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Nomear e Apoiar

Creio que um dos principais problemas que permeia os debates sobre parto é confundir nomeação e suporte. Muitas mulheres e homens – e boa parte dos ativistas – ainda não entenderam que existem dois temas envolvidos nessa discussão e insistem em confundi-los.

É fundamental a importância de NOMEAR uma cirurgia abdominal, como uma cesariana, para conter seus abusos e combater sua banalização, que tantas vidas ainda coloca em risco e tantas frustrações gera nas mulheres. Por outro lado, e de forma concomitante, há a necessidade de APOIAR as puérperas em qualquer circunstância. Estas etapas são INDEPENDENTES, mas criamos a ilusão de que são uma só.

Infelizmente acreditamos que mentir – para mulheres ou crianças – é uma forma de acolhimento e carinho.

Assim sendo, podemos (devemos) nomear com precisão o que aconteceu com uma mulher que pariu e ao mesmo tempo lhe oferecer apoio empático e incondicional. Podemos usar a correta nomeação seguida de apoio, como em: “Você teve infelizmente uma cesariana mas lutou bravamente por dar o melhor ao seu filho”. Alternativamente você pode não nomear e apoiar, mas isso permite facilmente cair na banalização, como em “Tanto faz a via de parto o importante é mãe e bebê estarem bem.” Sabemos como isso é usado por cesaristas. Outra possibilidade é nomear e não apoiar, como em: “Você teve cesariana e nenhuma mulher é verdadeiramente mãe se não passou por um parto”, e sabemos o quanto de crueldade esta afirmação carrega. Finalmente, você pode não nomear e não oferecer apoio, de maneira igualmente cruel e infantilizante, como em: “Não importa como foi o parto, nada justifica toda essa sua manha”.

Continuar a confundir estas etapas não ajuda em nada nos debates, além de atrapalhar demais a discussão sobre os caminhos a seguir. Desconsiderar a importância da VERDADE e do SUPORTE – que NÃO SÃO excludentes – é grave e continua produzindo tristeza e rancor, cobertos por uma grossa camada de culpa. Tratar as mulheres como adultas já não é mais uma “opção”, mas um dever de todos nós.

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Consciência e mudança

Por debaixo de um ato qualquer existe uma construção social e inconsciente que nos impele às ações. Mesmo quando o ato nos parece incongruente existe uma lógica que o sustenta além da nossa rasa compreensão. O que os torna fortes e longevos é sua conexão com o desejo, e não com a razão.

A episiotomia ocupa um lugar no próprio imaginário feminino, que aceita tais mutilações como o “preço a pagar” por ser mulher e trazer seu filho ao mundo com segurança. O mesmo ocorre com as mutilações genitais na África, onde as próprias mulheres ainda aceitam esse destino como justo, talvez como culpa ancestral pela própria condição feminina, sempre ligada ao pecado e ao erro.

Na China nenhuma das alunas enfermeiras obstetras de diversas províncias chinesas realizava episiotomia de rotina. Ficaram escandalizadas quando falei da nossa taxa global de 56% (e de estados do centro-oeste com 70% de taxa de episiotomia). E isso em um país em que quase todos os partos são em litotomia. Para elas episiotomia é uma conduta estranha e violenta. Conseguiram manter a ideia de um períneo intocado mas infelizmente sucumbiram aos modismos ocidentais como parto deitado, máscara, esterilização, separação mãebebê, hospitalização, etc.

Mudar essa condição será possível quando trouxermos tal construção histórica à luz. A simples evidência de sua inutilidade e malefício (cujos estudos comprobatórios já contam mais de 30 anos) não é suficiente para erradicar uma prática violenta, por mais evidências apontadas. É preciso mais do que razão; é necessário consciência política e organização social para pressionar pela extinção das más práticas.

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Rotinas hospitalares

As rotinas hospitalares são usadas, no dizer de Robbie Davis-Floyd e Brigitte Jordan como “tecnologias de separação“. Se existem raros casos em que esta distância e o confinamento de recém-nascidos são necessários o uso alastrado dessa prática tem muito mais significado pelo que carrega de forma invisível e simbólica. Esse afastamento manifesta uma atitude autoritária dos poderes delegados do Estado contra a autonomia da mulher sobre seu filho. O objetivo inconsciente destas condutas e rotinas é despojar a mulher do controle sobre seu filho, estabelecendo uma tirania da técnica e do conhecimento sobre a conexão mãe-bebê que recém se estabelece. Nesse momento especial é lançada a pedra fundamental para a construção de um sujeito subserviente ao Poder.

Nesses momentos sempre lembro a frase da minha amiga Mary, parteira da Holanda: “Você quer que seu filho nasça como paciente ou como cidadão?”

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Profissionalização

Creio que um dos principais problemas que permeia os debates sobre parto é confundir nomeação e suporte. Muitas mulheres e homens – e boa parte dos ativistas – ainda não entenderam que existem dois temas envolvidos nessa discussão e insistem em confundi-los.

É fundamental a importância de NOMEAR uma cirurgia abdominal, como uma cesariana, para conter seus abusos e combater sua banalização, que tantas vidas ainda coloca em risco e tantas frustrações gera nas mulheres. Por outro lado, e de forma concomitante, há a necessidade de APOIAR as puérperas em qualquer circunstância. Estas etapas são INDEPENDENTES, mas criamos a ilusão de que são uma só.

Infelizmente acreditamos que mentir – para mulheres ou crianças – é uma forma de acolhimento e carinho.

Assim sendo, podemos (devemos) nomear com precisão o que aconteceu com uma mulher que pariu e ao mesmo tempo lhe oferecer apoio empático e incondicional. Podemos usar a correta nomeação seguida de apoio, como em: “Você teve infelizmente uma cesariana mas lutou bravamente por dar o melhor ao seu filho”. Alternativamente você pode não nomear e apoiar, mas isso permite facilmente cair na banalização, como em “Tanto faz a via de parto o importante é mãe e bebê estarem bem.” Sabemos como isso é usado por cesaristas. Outra possibilidade é nomear e não apoiar, como em: “Você teve cesariana e nenhuma mulher é verdadeiramente mãe se não passou por um parto”, e sabemos o quanto de crueldade esta afirmação carrega. Finalmente, você pode não nomear e não oferecer apoio, de maneira igualmente cruel e infantilizante, como em: “Não importa como foi o parto, nada justifica toda essa sua manha”.

Continuar a confundir estas etapas não ajuda em nada nos debates, além de atrapalhar demais a discussão sobre os caminhos a seguir. Desconsiderar a importância da VERDADE e do SUPORTE – que NÃO SÃO excludentes – é grave e continua produzindo tristeza e rancor, cobertos por uma grossa camada de culpa. Tratar as mulheres como adultas já não é mais uma “opção”, mas um dever de todos nós.

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Esperança

“Não esmoreça. Passe pela vida e deixe seu testemunho. A vida é curta demais para covardias e vaidades. Faça esse tempo curto de convívio conosco valer a pena. Deixe seu tijolo para a construção de um mundo melhor e permita que sua consciência e sua ética guiem seus passos em meio à artilharia pesada das forças do atraso. Siga em frente de peito aberto. Não se iluda: muitos acompanham teus passos em silêncio e seguem teu exemplo.”

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Dos nojos contemporâneos

Cada vez que vejo gestantes que passaram muitas horas em trabalho de parto e foram incapazes de ultrapassar asp dilatações mais iniciais fico a questionar o quanto a sociedade contemporânea contribui para este bloqueio . A razão para esse “rechaço” à parturição – potente porque inconsciente – é um mistério, mas acredito que se trata de algo do inconsciente relacionado fortemente à cultura contemporânea. O que aconteceria com essas mulheres no século XVI? Bem….provavelmente as mulheres deste tempo estavam inseridas em um conjunto de valores e experiências do seu tempo, radicalmente diferentes das experiências pelas quais passam na pós-modernidade.

Por certo que não há sociedade sem sujeito e não existe sujeito sem sociedade.

Quando conversei com parteiras do Tibet – que atendem mulheres pobres do campo – cuja Casa de Parto tem 1% de transferências hospitalares e uma taxa de mortalidade neonatal baixíssima, me dei conta que elas estão submetidas à uma sociedade “pré-moderna” que, ao mesmo tempo em que lhes sonega as benesses da modernidade, da liberdade, da autonomia, do acesso ao conhecimento e instrução, lhes retira também uma conexão mais plena e completa com seus corpos e seus ciclos.

Claro que nem toda mulher dilata, mas o que eu pergunto é: por que as tibetanas “dilatam” e tem filhos com facilidade, enquanto as ocidentais tem tanta dificuldade? Não é uma diferença física, por certo. Ninguém vai conseguir me provar que as pelves, músculos e demais tecidos moles das tibetanas são diferentes daqueles de uma brasileira ou americana. Portanto, a diferença BRUTAL precisa ser algo ligado à cultura, aos valores e à própria expressão da sexualidade.

Não se trata de uma crítica à atenção obstétrica como a conhecemos mesmo sabendo que essas coisas acontecem. Todavia, para estas existe em causa explicável e objetiva. Minha busca está para as situações cotidianas em que o trabalho de parto não anda, estanca e fica interrompido sem que para isso haja qualquer razão evidente. São aquelas situações corriqueiras em que os médicos dizem “ela não houve dilatação”. Por outro lado se reforça a constatação de que a mulher contemporânea burguesa, inserida nessa cultura tecnológica e cosmopolita, acaba se comportando de forma diferente e com dificuldades e impedimentos no parto que antes eram raros ou desconhecidos.

Esta sociedade atual se tornou cheia de nojos e de bloqueios. As mesmas mulheres que cortam seus pelos pubianos, rechaçam os gritos do parto e não suportam odores e fluidos orgânicos são as que também vão rechaçar o parto e toda a sua sexualidade animal, profunda e primitiva.

Criamos uma sexualidade estéril em todos os sentidos, bacterianos e emocionais.

Costumamos procura as respostas a estas perguntas onde elas normalmente não estão. O que comanda o parto – e todos os aspectos da sexualidade – é o mundo das sombras, do breu, do inconsciente. Lá, onde guardamos nossas lembranças mais primitivas, é onde se escondem as forças que nos impulsionam.

O patriarcado (não confundir com “os homens”) não suporta um modelo que questiona as bases constitutivas do seu sistema de poder. Parir com autonomia tem o mesmo efeito perturbador – e potencialmente devastador – de fazer sexo com total liberdade. Por isso as instituições poderosas como igreja, medicina e política sempre que possível tentam impedir a expressão da potencialidade sexual humana.

Meu questionamento sincero é: como ajudar as mulheres a redescobrir – resgatar, despertar – suas capacidades inatas e ancestrais de parir com tranquilidade e suavidade SEM retroceder nas conquistas de autonomia e liberdade, as quais foram duramente conquistadas nos últimos dois séculos? Mais ainda: como fazer que isso seja acessível a todas as mulheres e não apenas àquelas pertencentes a uma determinada casta social?

Outra possibilidade é admitir que a sociedade tecnológica fechou as portas para a vivência plena da sexualidade – pelo menos a feminina, mais complexa e delicada. Pergunto: Haverá como compatibilizar partos tranquilos e suaves com uma vida burguesa moderna? Sim ou não?

Se a resposta for negativa, valeu a pena o IPhone, a isonomia salarial, as famílias pequenas e a TV de plasma?

Se, ao contrário for positiva, qual a solução para recuperarmos os partos perdidos?

Os anos vindouros talvez nos mostrem uma síntese dos paradigmas digladiantes, onde será possível garantir os ganhos de autonomia para as mulheres sem que elas precisem perder a vivência com o sagrado de seus corpos, seus ciclos, seus partos e seus mistérios.

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