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Síndrome de Estocolmo

Há muitos anos eu já usava a metáfora da Síndrome de Estocolmo para descrever o relacionamento entre as mulheres e os representantes do modelo tecnocrático de atenção ao parto. Ela cabe – mesmo reconhecendo os limites de qualquer analogia – por mostrar a delicada tessitura de relacionamento entre mulheres “cativas” e as figuras de poder que governam suas ações.

A metáfora também é útil para desvelar o fato de que, mesmo sendo uma relação claramente opressiva, existe um circuito de afeto que circula entre oprimido e opressor. Para que isso seja implementando muitas histórias e mitos são criados, em especial as “histórias de hospital”, reforçadas pelo pessoal de apoio como enfermeiras e suas auxiliares, onde os médicos são, via de regra, pintados como cavaleiros heroicos que salvam donzelas condenadas pela crueldade de sua natureza madrasta. Nada que já não esteja nos contos de fada.

O problema, segundo Marsden, é que esse afeto exagerado, por sua natureza amorosa profunda, facilmente se transforma em ódio.

Meu bebê quase morreu por ser muito grande (quase 4 kg), mas foi salvo por uma cesariana” ou também “Graças ao Dr Frotinha estamos vivos pois ele notou na palpação que o cordão estava enforcando minha bebê“. Quem é da área conhece centenas dessas histórias de auto glorificação contadas pelos profissionais, e sabe também o quão difícil – por vezes impossível – desfazer noções erradas nas pacientes por causa desses mitos criados pelos próprios protagonistas, e sobre fatos que muitas vezes eles mesmo criaram.

Mulheres são cativas de um sistema misógino e depreciativo de suas qualidades e a maneira mais engenhosa de manter esse sistema funcionando é faze-las acreditar que a sua servidão e cativeiro lhes beneficia, e que tudo é feito para seu próprio bem. Logicamente alguns vão se insurgir contra esse paradigma e tentarão mostrar que o Rei está nu, mas serão facilmente esmagados e engolidos pela máquina que controla o sistema, como o protagonista Winston Smith, de Geroge Orwell, em “1984”. Nunca esquecerei que Winston não foi executado pelo Big Brother, apenas deixado livre a vagar para ser considerado por todos como um “louco”.

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Sobre o mundo virtual

Sobre continuar…

(…ou snowflake activism)

Desculpem a breve intromissão, mas vocês realmente achavam que poderia ser diferente? Acreditavam mesmo que iam mexer nas inseguranças sexuais das mulheres, seus remorsos e culpas, suas alegrias, suas angústias e medos e ninguém ia reclamar? Achavam mesmo que iam tocar no abelheiro dos “podres poderes” da corporação e os “senhores da guerra” não iam atacar com violência desproporcional?

O problema não é a ofensa, nem a grosseria. Também não é a violência de quem não suporta o contraditório. O problema é a ingenuidade de querer fazer omelete sem quebrar a casca do ovo. “Mercenário“, “frio”, “dinheirista, “fingido”? Ora… isso é ofensa? Achavam mesmo que às pessoas iriam respeitar? E por quê? Por serem mães e cuidarem de filhos, portanto “mulheres de bem“?

Ingenuidade. Mexer nas questões do parto é “tiro, porrada e bomba”. Foguete de todos os lados. As mulheres que fizeram cesariana, as que não podem pagar, os cesaristas ofendidos, os neo-humanistas em busca de espaço, os verdadeiramente mercantilistas que acharam um nicho pra grana, as doulas feridas e as abençoadas, enfermeiras e obstetrizes, quem odeia médico e quem os ama demais.

Construir esse caminho é para quem consegue levantar todo ensanguentado, tirar a poeira do corpo, limpar o sangue, cuspir o dente quebrado, levantar a cabeça e seguir em frente no caminho do protagonismo garantido à mulher.

Resiliência.

Não se iludam; um patife virtual é um canalha na vida real. Não me refiro a ninguém em especial mas esta definição está em sintonia com o que vivi nos últimos 20 anos de redes virtuais. Esperar que o mundo virtual seja melhor e mais civilizado que o mundo real é a mais suprema das ingenuidades. Pelo contrário: aqui no Império duro e inexorável dos signos a vida tem muito menos matiz. E o dilema para a manutenção de comunidades temáticas é sempre esse: de um lado o “princípio primordial” (porque estamos aqui? que pode ser parto humanizado, vacinas, amamentação ou tipos de cabelos) e do outro lado “minha expressão subjetiva, meus direitos e minhas necessidades“.

Já participei de grupos que questionam as vacinas em que pessoas entravam para debater o calendário vacinal e onde fazer “aquela nova vacina do HPV”. Em outros grupos de apoio à amamentação algumas mães perguntavam qual o melhor NAN para uma criança de 1 ano. Quando eu (geralmente) ou outro participante questionava a pertinência de tal debate em grupos que combatem o modelo vacinas, fórmulas lácteas e desmames as respostas eram exatamente estas conhecidas por todos. “Eu tenho o direito, não sejam radicais, isto é um culto, é uma religião, não me sinto respeitada etc“. Outra resposta (das mulheres) era: “Vocês precisam ser mais acolhedores com quem traz esses questionamentos“.

Max diria: “Proselitismo equivocado. Seleção pobre de participantes. Excesso de bondade. Falha de função paterna”.

Acho que precisamos acolher tanto quanto educar e colocar limites… mas de qualquer forma a minha larga experiência no assunto determina que ser maleável neste nível ou ser acolhedor e amoroso em demasia só tem um resultado previsível: a morte do grupo. Quando o núcleo duro dos princípios norteadores de qualquer grupo ou associação é atingido então o grupo naturalmente se desfaz; sua razão de existir se destrói. É a explosão da pequena e delicada parte central no coração da Estrela da Morte, mas que constitui sua identidade e seu sentido essencial.

Por esta razão gosto de grupos com administradores sem culpa e que mandam os chatos tomar no fiofó. Eles percebem que mais do que problema pessoal de uma mocinha com “medo de parto normal mas que consulta com o Dr Frotinha” existe a questão da própria sobrevivência de um canal para a difusão de uma determinada ideia ou perspectiva.

No fundo, a dinâmica dos grupos e comunidades sempre será o enfrentamento entre o os ensejos do coletivo e as necessidades individuais.

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Mensageiros Solitários

Fui lavar as mãos no lavabo de casa e percebi a pequena estatueta de vidro por sobre o balcão fazendo companhia à saboneteira e aos livros empilhados. O brilho imponente do objeto me jogou imediatamente para um espaço da memória distante e para uma cidade do interior do Brasil onde ela foi feita. A estatueta foi um presente que ganhei após fazer uma palestra em um hospital, algo que se repetiu mais de uma centena de vezes nos últimos 10 anos.

No último dia de estada na cidade a simpática esposa de um colega me ofereceu o objeto como presente pela minha exposição do dia anterior para um grupo de médicos, enfermeiras, e doulas da cidade. O tema foi “Amamentação e o continuum da Humanização“.

Este colega havia passado recentemente por uma espécie de “epifania humanizadora”, a exemplo de tantas outras que eu testemunhei em minha vida. A partir de experiências traumáticas pessoais ele conseguiu desfazer a capa de insensibilidade que construiu por sobre a atenção ao parto e percebeu o quanto dos seus insucessos eram devidos à inadequação e ao anacronismo de sua prática profissional. Acreditem, esta é a autocrítica mais penosa e dolorida. Também ele havia descoberto esta e tantas outras verdades ao se aproximar da prática das enfermeiras obstetras, as quais lhe ensinaram o valor superior do cuidado e da delicadeza. Marsden, Michel e eu mesmo passamos pela mesma experiência.

Suas ideias eram grandiloquentes e entusiásticas. Com vívida alegria me levou por um “tour” no novo centro obstétrico do pequeno hospital onde, por iniciativa sua, uma banheira de parto estava sendo instalada, assim como vários aparelhos simples e funcionais para o auxílio ao parto humanizado. Ele era puro entusiasmo. Na condição de diretor havia conquistado poder para fazer as mudanças. Falava dos partos ocorridos após sua “conversão” e as lágrimas lhe escapavam dos olhos. Disse que aquela pequena cidade em breve seria um polo de boas práticas para toda a região, a começar pela abolição das episiotomias de rotina, o parto na água, o trabalho das parteiras profissionais, as doulas, os acompanhantes, etc. Seu entusiasmo e sua energia eram contagiantes.

Despedi-me de sua família com a sensação do dever cumprido e com a esperança de que aquela cidade simpática do interior do Brasil pudesse realmente se tornar um exemplo para todo o estado – quiçá o país – irrigando com humanização a aridez tecnocrática daquelas maternidades.

Passam alguns poucos anos e encontrei a doula que estabeleceu o contato inicial entre o colega entusiasmado e eu. Perguntei-lhe como estava meu amigo e como iam os planos de renovação da maternidade e do centro obstétrico.

Sua resposta não poderia ser mais esclarecedora. Disse em apenas algumas palavras, mas que foram um grande ensinamento e uma importante aula de humildade.

– Não sobrou pedra sobre pedra, Ric. Mudou a direção do hospital e ele foi retirado da chefia da maternidade. O novo diretor mandou destruir tudo o que havia sido feito. Desfez a banheira de parto, impediu o trabalho livre das doulas e acabou com a relação de cooperação com as enfermeiras obstetras. Ao ser indagado o novo diretor disse que havia sido pressionado pelos médicos, os quais há tempos estavam insatisfeitos com as mudanças. Sinto muito.

“Mudanças de cima para baixo”, pensei. Meu colega, em seu surto humanizante, estava à frente do seu tempo. Estava inclusive adiante das próprias gestantes a quem desejava ajudar. Bastou ele ser afastado e tudo se perdeu. “Atire no mensageiro”, deviam ter dito seus colegas obstetras ao diretor. Sem ele a liderar as mudanças não haveria massa crítica e muito menos lideranças femininas para dar continuidade às suas mudanças. O tiro foi certeiro; com o mensageiro derrubado a mensagem se apagou junto com a última chama de entusiasmo que carregava.

Ficou doente, teve um AVC e se aposentou,  completou ela com resignação. Agora teremos que começar do zero.

Suspirei fundo e respondi que não seria do “zero”, pois agora já sabiam que nenhuma revolução pode florescer confinada em uma única cabeça. Agora já é possível entender que a luta precisa surgir do coração de cada mulher oprimida por um sistema violento e arbitrário. Se lutadores como o meu colega são importantes e bem-vindos muito mais essencial é cultivar um movimento que não dependa de uma única alma liberta e esclarecida. É preciso formar uma consciência tal que a troca de um líder não afete a progressão das mudanças.

A verdadeira revolução do parto virá das mulheres, ou não virá.

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Invasão Fascista

É verdade que a decisão sobre o aborto acaba sendo tomada por um punhado de homens brancos, burgueses e ricos que conhecem as clínicas clandestinas “classe A” para levar suas mulheres, namoradas, filhas ou amantes. Esta decisão nunca está na mão da mulher negra e pobre que será submetida ao risco e à indignidade das agulhas, pílulas do mercado ilegal e dos aborteiros da favela.

Entretanto, muitas dessas mulheres votaram no pastor sedutor e no empresário falastrão, os mesmos que agora roubam sua esperança de dignidade e segurança na atenção à saúde. Só existe uma forma justa de mudar esse cenário: encarar a invasão da direita fascista evangélica como uma real ameaça às mulheres e seus direitos.

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Congressos Médicos

Li com atenção e cuidado o texto do psicólogo Alexandre Coimbra do Amaral (veja aqui) sobre um congresso de Medicina de Família que ele havia participado alguns dias antes. Seu relato é de vívido encantamento com a convivência entre médicos e agentes de saúde, o respeito à amamentação, o contato com outros discursos, a abordagem corajosa e respeitosa da questão de gênero e a quebra do paradigma do “palestrante como dono de um saber”, rompendo sua verticalidade e propondo um ambiente de trocas horizontais, onde a plateia era constantemente convidada a participar do debate e questionar as ideias propostas.

O texto emocional, sensível e otimista escrito pelo Alexandre desnuda dois aspectos fundamentais: em primeiro lugar aponta para a esperança de uma medicina mais integrada com os outros saberes e menos encastelada no Olimpo das castas superiores. Em segundo lugar a dura realidade de reconhecer que este tipo de congresso é uma ínfima amostragem, um grão de areia perdido na praia dos congressos médicos. Arrisco afirmar que 99% dos médicos nunca ouviram falar de um ambiente de saudável encontro profissional como este e suspeito que a imensa maioria, ao ler este relato, sentirá desconforto com a promiscuidade descrita em suas poucas linhas.

A Medicina não é apenas um saber construído pelos milênios de contato com a dor e o sofrimento, onde a ciência é tão somente a ferramenta mais nova; ela é principalmente um sistema de poder – o biopoder – que age para moldar a sociedade de acordo com os valores vigentes. De uma certa forma ela é uma potente mantenedora e disseminadora dos valores do patriarcado. A Medicina é conservadora e “careta”, e não por acaso seus próceres são assim escolhidos. Basta olhar uma foto dos representantes da corporação – quase a totalidade de homens, brancos e de classe média alta – para adivinhar quais valores impregnam seu entendimento da arte de curar.

Congressos de Medicina de Família (já palestrei em alguns) e de humanização do nascimento (algumas centenas) são fatalmente marginais; situam-se à margem do poder e surgem como sua sombra. Onde quer que o autoritarismo e o dogmatismo médico prevaleçam lá estarão aqueles que discordam dessa visão de mundo e que ousam apresentar sua alternativa. Entretanto, o moedor de carnes da escola médica – como ritual transformativo – vai moldar os médicos para o que desejamos que se tornem: legítimos defensores dos nossos valores a quem, em troca, daremos um assento especial no Olimpo das castas. Somente uns poucos corajosos ousarão questionar as normas e códigos que regem sua prática. São eles os hereges e párias, a quem a corporação olhará com desdém e tratará como ameaças.

Para mudar os médicos é necessário mudar a sociedade e os valores nela inseridos, pois que aqueles são o reflexo desta cultura, e a ela respondem. Em um futuro distante, a Medicina ainda vai existir, pois que ela também se expressa como “fraternidade instrumentalizada”, porém os encontros daqueles que se preocupam com seus resultados e seus rumos estarão muito mais próximos da descrição do Alexandre do que os festivais de vaidade e mercantilismo que testemunhamos hoje em dia.

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Barulhos de fundo

Não é fácil e posso entender quando o peso nos faz vergar os joelhos. Eu só entendi o bullying que sofri durante 30 anos quando parei de atender, pela mesma razão que a gente só percebe o silêncio quando alguém desliga o ventilador e interrompe o barulho. O bullying na minha vida era o “ruído de fundo” que, de tão constante e insistente, parecia inseparável do cotidiano. Só o desligar de todas as máquinas me deu sua verdadeira dimensão.

É possível compreender a angústia daqueles que desistem no meio da batalha ou que lamentam terem um dia escolhido a pílula vermelha. Entretanto, isso em nada muda a necessidade da luta ou sua urgência, apenas trocamos os personagens.  

“Não chores meu filho, não chores, que a vida é luta renhida. Viver é combate que aos fracos abate, mas que aos fortes e bravos só sabe exaltar.” (Ijuca Pirama)

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Não me obrigue a…

Li mais uma matéria sobre o “direito de não amamentar” e que se coloca ao lado de tantas outras que li nos últimos anos queixando-se de uma espécie de “patrulha” por parte do ativismo da amamentação. Essas queixas atuam como sombras de qualquer movimento social que promova uma mudança nas suas estruturas. Se você cria um movimento de boa alimentação perceberá imediatamente o surgimento de sua sombra, “não me obrigue a comer vegetais”, ou “eu como junk food e sou feliz”. Coloque aí parto, feminismo, poluição, sexo livre, liberdade de expressão e democracia. Todos têm suas sombras, criadas uma fração de segundos após o surgimento dos movimentos que combatem.

Não há dúvida que estes movimentos tem suas razões, até porque é impossível que a paixão que estimula o surgimento de movimentos sociais não crie também exageros e visões afuniladas, aquelas que tentam traduzir o mundo todo a partir de uma única questão humana. É função desses contra-movimentos servir de anteparo aos exageros naturais. São, portanto, úteis no progresso das ideias.

Entretanto, é importante entender como se situam esses movimentos que tentam criticar a amamentação e qual seu sentido. Conheço essa retórica desde que começamos a lutar contra os abuso de cesarianas e no combate à violência obstétrica há 25 anos. Logo percebi que, mesmo diante do escândalo internacional de termos 85% de cesarianas no setor privado, ainda havia espaço para escritos, relatos e discursos alinhados com “não me obrigue a um parto normal”, como se o nosso problema não fosse a taxa pornográfica de cirurgias de extração fetal, mas relatos esparsos e sem comprovação de alguma mulher sendo impedida de ser operada como desejava.

A acusação recorrente que surge de forma recorrente é de que os defensores da humanização não se importam com o sofrimento das mulheres que não pariram e/ou não amamentaram. Ora… o sofrimento de qualquer mulher nos é importante, mas o FOCO de nossa luta é o fracasso do parto e da amamentação para aquelas mulheres que assim o desejavam. Essas são mulheres traídas pela cultura e que recebem apoio das militância do parto e da amamentação, mas de forma cíclica vejo estes movimentos sendo acusados de criar cartilhas de “parto correto” ou “leite correto”, o que deixa as que não conseguiram deprimidas e desconsideradas. Essa acusação é simplesmente falsa.

Para mim essas manifestações representam – em grande proporção – o sentimento de culpa por parte de quem, desejando amamentar, assim não conseguiu. O sentimento de falha – por algo que sequer tem culpa – acaba gerando uma reação de ataque àqueles que defendem a amamentação. O pior efeito colateral dessa inadequação é colocar naqueles que lucram com o desmame a máscara injusta de “lutadores pela liberdade de escolha”.

Minha tese é que nós, que lutamos pela humanização, precisamos escutar essas mulheres; em verdade devemos escutar qualquer mulher, pois todas tem algo muito importante a dizer. O erro é achar que a insistência para amamentar é o “problema”, quando na verdade é um exagero inerente a qualquer luta por mudança de um cenário sombrio . Não, o problema é o desmame, o machismo, o abuso de cesarianas, a falta de democracia, a violência policial. O problema é o racismo, e não algum branco que foi barrado em uma banda de pagode, ou um homem que se sentiu ofendido por uma queima de sutiãs (pra ver como minha iconografia é dos anos 60). Todavia, é claro que a queixa de uma mulher que se sentiu constrangida em sua decisão de não parir ou não amamentar é justa e deve ser levada em consideração.

É preciso escutar o discurso que essas pessoas trazem, sem dúvida, mas sem cair no erro de acreditar que existe um real problema de constranger pessoas a amamentar quando o grande drama nesse país ainda é o desmame precoce e nossa luta por elevar a média de amamentação para além de míseros 54 dias.

Também precisamos debater excesso de cesariana, machismo, comida envenenada e tantas outras causas nobres sem medo de ver suas sombras surgirem logo depois.

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Copos limpos

“Humanização pode parecer um “plus a mais” quando em verdade deveria ser a condição “sine qua non” de qualquer atendimento à saúde.”

“Não confundir autonomia com protagonismo. Autonomia é decidir ter um filho por cesariana. Protagonismo é usar o bisturi para isso.”

 


 

Isso me lembra a história (fictícia ou não) que meu amigo Daniel Grassi me contou de uma aventura sua num restaurante na Índia.

Sabendo das condições não muito higiênicas do local um ocidental se aproxima do garçom e lhe diz:

– Traga para nós o menu e copos com leite. Mas, por favor, copos limpos!!

O garçom gira nos calcanhares e volta alguns minutos depois com os menus e uma bandeja de copos com leite. Coloca os menus na mesa e fala ao grupo:

– Aqui está o seu leite senhores. O copo limpo era para quem mesmo?

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Carros de duas rodas

Uma cesariana depois de um tremendo esforço, luta, dedicação, orientação e uma atitude de respeito pelos profissionais CONTINUA SENDO UMA CESARIANA. E não tem nada de errado em ser assim. Mas uma cesariana é um ato médico que tem esse profissional como protagonista. Acredito que devemos parar de chamar de “cesariana humanizada” apenas porque foi bem indicada, porque se não for bem indicada ela é apenas ABUSIVA.

Nessa definição que utilizamos, para um evento ser humanizado ele precisa ter o protagonismo do sujeito, o que é impossível numa cesariana. Só isso. Isso não torna o nascimento menos importante ou menos bonito, apenas define o que ele é. Acima de tudo, sabemos o quanto temos progredido nos projetos de humanização no mundo inteiro e na luta contra as cesarianas abusivas. O uso da expressão “cesariana humanizada” é UM TRUQUE dos cesarianas para entrar no clube da fisiologia e do respeito ao corpo pela porta dos fundos. É uma margarina que se finge de manteiga, um leite que se finge de materno, uma geleia com sabor artificial de morango.

Não caiam nesse discurso que quer vender cesariana como se fosse a última flor da humanização.

Outra coisa, precisamos parar de tratar mulheres como crianças, dourando a pílula das cesarianas. Não há porque usar artifícios de linguagem para “proteger”  mulheres do fato de que a cesariana é uma cirurgia, e que um parto é um processo completamente diferente. As mulheres são fortes e maduras o suficiente para suportarem a frustração de um não-parto.

“Venha comprar um automóvel de duas rodas e ganhe um capacete de brinde”

– Mas não é uma motocicleta?”

– A gente chama de automóvel de duas rodas para o proprietário não se sentir chateado por não ter um carro. Afinal, auto + móvel, ora… por que não?

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Cesarianas humanizadas

Não…. eu não acredito em “cesarianas humanizadas”. Esse é um termo historicamente utilizado para trazer a cesariana para próximo da seara da humanização. É uma mensagem para o inconsciente: “Tanto faz se for cesariana ou parto normal, o importante é ser humanizado”. O objetivo é retirar o peso da cesariana e equalizar as experiências humanas de dois processos absolutamente diferentes e que só tem como ponto em comum o nascimento de uma criança. Para justificar minha recusa ao termo apresento meu conceito de humanização, que consiste de 3 pontos fundamentais:

1- Garantir o pleno protagonismo à mulher
2- Visão interdisciplinar (o parto não é um evento médico, mas humano)
3- Conexão com a SBE – Saúde Baseada em Evidências

Como se pode ver uma cesariana retira o protagonismo da mulher e o coloca nas mãos do profissional. Ela não tem o controle do parto; mais ainda, ele deixa de existir sendo transformado em um evento cirúrgico. Assim a expressão “cesariana humanizada” carece do elemento fundamental que sustenta as propostas de humanização: o protagonismo garantido à mulher em suas escolhas.

No meu modesto ver as pacientes submetidas a uma cesariana serão sempre objetos do procedimento, jamais sujeitos. Podem ser sujeitos da escolha, mas não do ato cirúrgico, que é médico. Não vejo, porém, erro algum em ser objeto de intervenção médica quando necessário, desde que haja boas razões para que esse protagonismo seja confiscado. Repetindo: cesarianas salvam vidas, mas seu abuso as retira. Não é demérito algum para uma mulher que precisa de uma cirurgia, mas uma perda enorme para aquelas que, sem verdadeiramente precisar, acabam sendo a ela submetidas.

Uma cesariana pode ser “humana” no sentido de gentil, cuidadosa, adequada e justa. Deve ser, acima de tudo, bem indicada, apenas como última alternativa a um parto fisiológico – quando todas as outras alternativas para o sucesso de um parto vaginal falharam. Entretanto, não pode ser “humanizada” por não oferecer a característica mais essencial da humanização, qual seja, o protagonismo feminino no processo.

Sei que debatemos semântica, mas sei também o que existe por trás dessa confusão. O mesmo truque de palavras se usa com a “amamentação artificial”, cuja propaganda procura produzir confusão com o verdadeiro leite, aquele de quem usa a “mama”. Assim como a indústria do “leite artificial”, a indústria da cesariana usa o termo “humanizada” para qualificá-la e aproximá-la do parto normal, com o mesmo objetivo de dissimular a diferença brutal entre o processo fisiológico e o artificial que observamos em todos os aspectos envolvidos: segurança, (re)adaptação, conexão com o bebê, fisiologia respeitada, perda sanguínea, amamentação, etc.

É exatamente para fugir desde tipo de confusão linguística proposital que procuramos alertar sempre que tal expressão aparece.

Protagonismo é uma palavra grega que se compõe de dois elementos: proto (primeiro) e agonistes (ator, lutador). O protagonista é o ator primeiro, principal. Em uma cesariana este ator é o médico, não mais a paciente. Protagonismo é ter autonomia para tomar decisões. Numa cesariana a paciente não pode mais “fazer seu parto”; o médico é quem tem essa tarefa. Portanto, se brigamos tanto pelo protagonismo – sem o qual teremos apenas sofisticação da tutela – a cesariana jamais será algo de pleno protagonismo, já que a paciente é objeto da arte do profissional que a opera, e não o sujeito de suas ações.

Mas, por favor, percebam o que se esconde por detrás do meramente manifesto. Ao dizermos “cesariana humanizada” existe um conceito escondido que não se atreve a aparecer. É dessa dissimulação que falo. Nada disso impede que ela faça escolhas conscientes. Pode até escolher, sem nenhuma justificativa médica, fazer uma cesariana. Considero essa uma opção válida, mesmo que mais arriscada para a mulher e seu bebê. Só não pode – no meu modesto ver – qualificá-la como humanizada.

Cesarianas, por serem atos médicos, não podem ser protagonizadas pelas mulheres. Assim sendo, e se acreditamos que o protagonismo está na essência da humanização, uma cesariana será sempre uma cirurgia que, mesmo quando justa e delicada, não pude ser “humanizada”. Estou debatendo o TERMO e não a qualidade de partos e cesarianas. Não posso admitir a utilização equivocada e oportunista de um termo que nos é muito caro.

Recordem apenas que esse termo era ODIADO pelo stablishment médico até poucos anos, com a tosca argumentação de que era redundante, já que o parto era feito em humanos e, portanto, era impossível não ser “humanizado”. Argumentação chula de quem nunca entendeu que a expressão se relacionava ao movimento humanista do século XVIII, e não ao fato de sermos do gênero humano. Pois agora, passada a rejeição, advém a “apropriação indébita” da expressão por nós construída, para confundir as intervenções (mesmo justificadas) com o processo fisiológico em que a paciente é a protagonista. Isso eu não vou aceitar.

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