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Bruxas

Apesar da minha promessa de início de ano, baseada em inúmeros erros do passado, voltei a cometer o mesmo equívoco lamentável de tantos anos: debater com as vítimas.

Ainda hoje vi a notícia do assassinato de uma mulher (servidora pública da guarda civil) dentro do seu automóvel enquanto aguardava a chegada de sua filha de 7 anos. Uma morte estúpida, inaceitável e dolorosa, pois atinge todo aquele que vive em uma cidade. A morte de Ana Paola é um pouco a morte de todos nós.

O pior, como sempre, são os comentários, mas isso pode ser entendido como a explosão de sentimentos advindos da identificação dessas pessoas com a mulher que foi vítima, ou com seus familiares enlutados. O problema é que a dor e a indignação de muitos acaba se transformando numa explosão de ressentimento e ódio, sem que haja qualquer tipo de anteparo civilizatório, pelo menos em tempo de debate cibernético. Qualquer forma de linchamento é válida; julgamentos sumários são propostos e a vingança contra o meliante passa a ser muito mais importante do que a solução de um problema – a violência urbana – que existe há séculos e que se incrementou nas últimas décadas.

Pior: qualquer tentativa de estabelecer um diálogo, ou mesmo um pedido de que haja ponderação acarreta o rechaço imediato dos vingadores e justiceiros. A frase clichê nessas circunstâncias é: “Ah, está com pena? Então leve para casa.” Pedir que as pessoas entendam que um crime não justifica outro parece, aos ouvidos das vitimas, o mesmo que defender a prática criminosa. Dizer que o assassinato dessa moça não significa que temos que baixar a idade penal para 10 anos (sim, isso foi proposto), ou que a pena de morte deveria ser instituída, é o mesmo que dizer que essa morte não representa nada e que o criminoso é inocente.

Para a vítima, movida pela intensa emocionalidade do momento, não existe ponderação ou razoabilidade, apenas paixão e dor. Nestes casos somos TODOS vítimas, e a manifestação popular é a síntese dessa sensação de medo e insegurança.

Resolvi que nada deveria dizer, além de um breve comentário: “Os comentários fascistas acima são tão tristes quanto a notícia. Os defensores do linchamento são apenas criminosos que ainda não tiveram sua oportunidade ou circunstância para delinquir. É muito triste ver do que é feita a “opinião pública” do nosso povo. Assassinos em potencial.” Escrevi e me retirei.

Podia ter ficado quieto, até que uma ativista da humanização escreveu um texto dizendo que o parto não é lugar para “doulos“, pois este espaço é feminino e deve ser assim preservado. Imediatamente reconheci nesse texto uma forma característica de sexismo com sinal trocado: a imposição externa de uma “cartilha”, feita para que as mulheres sigam um comportamento de acordo com o ideário feminista, mas sem levar em consideração o que aquela específica mulher entende como sendo sua necessidade ou desejo. Tentei explicar que nós homens fomos obrigados a testemunhar a invasão feminina de espaços historicamente destinados aos homens e que esta ocupação de funções e posições ocorreu pela luta por igualdade e equidade que as mulheres empreenderam. A entrada das mulheres na medicina, no direito, na administração e na política – mesmo estando ainda longe do ideal – foi um movimento especial na história da cultura ocidental, que ainda está atrasada no oriente. Minha posição, entretanto, é que, assim como as mulheres puderam empreender esta benfazeja invasão, também os homens poderia ocupar os espaços que historicamente as mulheres detinham.

Entre eles o cuidado de gestantes.

Se achamos que a equidade deve ser buscada e incentivada ela certamente é uma via de duas mãos. Se desejamos ocupar espaços antigamente determinados como fixos para o sexo masculino (lutas, guerras, cirurgia, futebol, mecânica, etc.) porque não admitir o parto como um território livre para a escolha das mulheres? Porque criar uma “reserva de mercado” para a ação feminina, quando nenhuma destas reservas se admite para os homens?

Pareceria até um argumento razoável, mas lembrei que numa sociedade machista como a nossa, ainda dominada pelo patriarcado, as mulheres são todas vítimas. Pressionadas e constrangidas por uma sociedade injusta podem debater da posição subjetiva de vítimas, usando de forma liberal a emocionalidade e a violência verbal que jamais é adequada em um debate racional, principalmente se considerarmos que os debatedores eram amigos.

Erro grosseiro da minha parte. Fui criticado e ofendido de forma desnecessária, em agressões “ad hominen“, por pessoas que deveriam estar do mesmo lado na luta pelas mulheres. Meu engano foi, mais uma vez, tentar tratar de forma racional temas que são extremamente doloridos para algumas mulheres. Mostrar as contradições do discurso de algumas feministas é, para elas, o mesmo que queimar parteiras e bruxas. Não há meio termo: ou você participa do linchamento ou é um “mascus” asqueroso enganador de mulheres.

Sim, a história estabeleceu estes espaços para os homens, como a política, a guerra e os esportes em geral. A cultura, em sua dinâmica, deixou as mulheres confinadas à família, aos cuidados com os filhos, à culinária e ao lar. Esta é a história do patriarcado que, ao meu ver, foi uma brilhante solução cultural adaptada ao paleolítico superior e todos os séculos de guerra que o seguiram. A crise desse sistema só agora, felizmente, pôde aparecer. Essa mesma dinâmica cultural adaptativa proporcionou a decadência do patriarcado criando as condições para a invasão que hoje vemos, fortuita e bem vinda, como disse anteriormente. Por isso advogo que as invasões no outro sentido sejam também respeitadas.

O uso da palavra “invasão” se justifica por ser a que mais claramente traduz a luta das mulheres para conquistar (e não simplesmente “ocupar”) espaços na sociedade ocidental contemporânea. Aliás o MUNDO não é masculino nem feminino, mas algumas funções foram assim determinadas. Essas “funções” nada mais são do que acertos temporários de adaptação às condições internas e externas dos grupamentos humanos. O patriarcado determinou uma delimitação em que muitos afazeres ficaram com os homens, como citei acima. Mas basta você trocar a fralda do sei filho ou entrar na cozinha da sua casa para ver como as mulheres dizem (jocosamente, mas nem tanto) que ali quem manda são elas. O que o mundo pós-pílula fez foi questionar os lugares alocados pela cultura, oferendo oportunidade para que as mulheres invadissem locais antes tradicionalmente masculinos. A palavra “invasão” é boa exatamente porque a ocupação não foi (e não é) pacífica. Vejo beicinho por todo lado quando uma mulher ocupa um posto que sempre foi ocupado por homens, e vi muxoxos quando afirmei que somente a mulher pode decidir se quer ou não um homem como “doulo“.

Haveria muito mais a ser dito sobre este tema e de forma profunda, mas existem pessoas feridas pelo machismo que não suportam qualquer referência ao tema sem responderem com emocionalidade, o que é plenamente compreensível, mas impede o progredir dos debates. Lembro do Déda, meu vizinho russo, que fugiu do seu país durante a guerra, e que acompanhou o totalitarismo stalinista nos seus primórdios. O tema “Stalin” e a Revolução de 17 eram absolutamente insuportáveis para ele, que se alterava bastando para isso tocar de leve nestes assuntos. Ele foi vítima, e também com ele me dei conta que é inviável tentar debate racionalmente. A carga emocional era tanta que Babá, sua esposa, me fazia sinais pelas costas avisando para não falar no tema. Com alguma mulheres, vítimas de um machismo cruel e abjeto, muitas vezes é melhor calar e esperar que as feridas se fechem, para que, com o tempo, elas sejam capazes de debater sem serem vencidas pela dor e pelas lágrimas.

Minha tese, por defender postulados feministas sem sê-lo, é que as bem vindas invasões não podem causar estranheza apenas quando os homens são deslocados de suas exclusividades. Que as mulheres sejam militares, políticas, guerreiras ou matadoras de aluguel, sem problema. Invadam e tragam feminilidade e diversidade psicológica a estes campos. Todavia, aceitem que homens queiram ser babás, professores infantis, educadores de creche, cuidadores de berçário e…. doulas! Aceitem esta invasão também, pois, assim como as outras, ela vai ajudar a trazer ensinamentos masculinos para um campo em que as mulheres sempre dominaram.

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Palmada

Violência Crianças

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6 de outubro de 2014 · 04:24

Saber Parir

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Tentem imaginar minhas tentativas de explicar as múltiplas vantagens das posições verticalizadas (cócoras, joelhos, em pé com apoio) em meu primeiro ano de residência, há 28 anos, para os meus colegas. Depois de ler “Aprenda a Parir com os Índios”, do obstetra Moysés Paciornik, um mundo enorme de possibilidades se abria à minha frente, e meu entusiasmo era grande, quase tão grande quanto a minha ingenuidade. Eu só conseguiria entender a razão para a rejeição a estas ideias muitos anos depois. Após me escutar discorrendo de forma emocionada sobre o parto de cócoras, um destes colegas, hoje um famoso mastologista, me fuzilou com os olhos e calmamente falou: “Ric, você só não cai no meu conceito porque de onde você está não há como cair“. E isso apenas porque eu achava que a posição de parir era inadequada, absurda, insensata e “ilegal” (pois ia contra a mais antiga das leis deste planeta: a “lei da gravidade”).

Porém, a posição em que o médico se coloca durante o segundo estágio do parto (da dilatação completa até a expulsão do bebê) tem muito mais a ver com questões semióticas e políticas do que com a biomecânica do parto. Médicos “acima” e pacientes “abaixo” transmite uma potente mensagem para a paciente: “Obedeça, seja dócil, estou aqui em cima, controlando tudo. Eu sou o médico e tudo está em minhas mãos, mesmo que você não as possa ver”.

Essa postura física implica, por sua vez, uma “postura” subserviente e subalterna das pacientes, e isso é tudo o que desejamos: docilidade e complacência. Por isso é que, mesmo que TODAS s evidências científicas do mundo demonstrem há décadas – e por várias maneiras e perspectivas – as posturas verticais como sendo melhores para mães e bebês, basta fazer uma visita por qualquer maternidade no Brasil para perceber que o parto deitado (posição de “frango assado”) ainda é preponderante. Conheço colegas que me confessam que “nuca fiz diferente, ademais não saberia como conduzir um parto que não fosse com a paciente deitada na cama e com as pernas amarradas“.

Mas porquê tanta resistência e dificuldade? Ora, a razão para isso é porque não se trata de uma questão racional, que possa ser combatida com evidências e estudos, mas ligada ao desejo. Assim, a posição da paciente em um parto cai na definição clara de um ritual, conforme a visão de Robbie Davis-Floyd: uma ação caracteristicamente repetitiva, padronizada e simbólica, carregada de valor cultural. O simbolismo expresso na posição de parto é a dominação sobre o corpo da mulher e a manipulação deste pelo saber racional, desconsiderando a sabedoria intrínseca que a mulher carrega (o “chip” de parto nativo) sobre os modos de parir e, em especial, o SEU modo específico de fazê-lo.

Mudar este padrão é tarefa difícil, pois há muito mais do que simplesmente uma posição. A própria visão que os profissionais tem da mulher e suas habilidades é que precisa mudar…

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Massa Crítica

Mulheres greve

Enquanto a “massa crítica” daquelas que percebem a violência obstétrica for assunto para poucas mulheres estas continuarão a ser apenas vítimas, passivas e submissas. Quando conseguirmos – através da conscientização e da educação (por isso mesmo é um processo lento) – elevar este número, os próprios perpetuadores da opressão do sistema vão se sentir desconfortáveis com as ações que cometem – conscientes ou inconscientes – que expropriam o protagonismo das mulheres. Se é complexo sair da zona de conforto e assumir uma postura ativa e protagonista diante do próprio corpo e da gestação, também é a ÚNICA forma de romper o modelo opressor.

Como eu disse anteriormente em diversas oportunidades, existem MILHARES de desculpas que qualquer mulher pode usar para se acomodar na posição de vítima, a imensa maioria delas válida e compreensível. Todos nós alguma vez já ouvimos isso: “Ah, sou pobre, fui educada assim, nunca me valorizaram, sempre fui depreciada, sempre fui desconsiderada, nunca fui elogiada, sou mulher, ninguém me escuta, não se valoriza nada do que faço, etc.” Quem poderia negar a importância dessas marcas na estruturação da personalidade feminina? Como não ser compassivo com este tipo de imposição cultural a que se submetem as mulheres e seus corpos?

Tudo isso é verdade. Entretanto, somente quando ROMPERMOS AS BARREIRAS impostas pela condição de vítima é que despertaremos para uma sociedade mais justa e igualitária. Apenas quando tivermos 3, 4 ou 10, quem sabe 30 ou 50 de cada 60 mulheres plenamente conscientes de seus direitos sobre seus corpos e suas gestações poderemos mudar verdadeiramente o panorama do parto neste país.

Todavia – podem ter certeza disso!! – elencar desculpas (mais uma vez, válidas e compreensíveis) não vai transformar vítimas em protagonistas!! Isso só se faz com trabalho e luta; coragem e determinação. Muita cara vai levar tapa, muita mulher ainda será mal tratada nos serviços de saúde, mas é preciso que elas se ergam, insistam, falem alto e proponham um novo modelo.

Não existem alternativas… Somente a postura combativa e consciente nos retira da submissão e da alienação.

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Amamentação, Ativismo e o Futuro

FRANCE BREAST FEEDING
Entrevista da escritora e feminista Elisabeth Badinter…

Primeiramente eu acreditei se tratar de um texto muito antigo, talvez dos primórdios do movimento feminista contemporâneo, lá pelos anos 60. Quando vi que era uma entrevista de 2010 eu fiquei surpreso, pois percebi que a autora está absolutamente defasada no seu discurso de crítica às medidas de incentivo à amamentação, contrária a tudo que se escreveu e publicou sobre os benefícios desta ação. Ok, ela fala que amamentar é bom, mas que este estímulo só deveria ser para os países pobres com problemas de saneamento.

Como? Europeias não tem vantagens em amamentar e ficar com seus filhos? Ora, Dra Elisabeth… De onde a senhora tirou elementos para criticar tais ações? Que estudos sustentam isso?

Eu gostava muito do seu trabalho, em especial um livro que li nos anos 80 chamado “O Um é o Outro“. , mas esta sua entrevista sobre amamentação, apesar de ter já 4 anos de idade, é extremamente superficial e equivocada. As perguntas, em verdade, são muito mais conscientes e elaboradas que as respostas. Se tivesse sido escrito por uma estudante de jornalismo, ou alguém totalmente distante do tema, eu entenderia. Mas um depoimento como esse vir de uma feminista é no mínimo estranho. Ela desqualifica TODAS as pesquisas que demonstram a qualidade da amamentação não apenas do ponto de vista biológico, mas igualmente psicológico. Trata a amamentação como algo bom para “pobres” e o contato com o bebê como uma espécie de “frescura burguesa”. Tenta colocar aqueles que lutam pela humanização do parto e da amamentação como retrógrados e machistas, mas aponta para um futuro obscuro. Sim, “mulheres não são chimpanzés”, mas afinal… o que são? Se não podemos aprender com a etologia – o estudo do comportamento animal – como poderemos definir o ser humano numa era pós Darwin? O contato desses animais com seus filhotes não nos aponta para uma importância fundamental dessas atitudes? Deveríamos nós, numa demonstração de arrogância típica do século XVIII, acreditar que nada temos que ver com os milênios que nos antecederam e que moldaram nossa essência animal e mamífera?

Pois eu responderia a ela que temos muito mais de chimpanzés do que ela imagina. Nosso comportamento é marcadamente “animal”, no sentido de buscarmos vias inconscientes para a satisfação de nossas necessidades, para além do que a nossa tênue racionalidade é capaz de abranger.

Quanto aos exageros dos ativistas…

Ora… quem não os comete? Aqui no Brasil, mas creio que também em Portugal, muitos ativistas por vezes erram o alvo ao culpabilizar mulheres por não obedecerem um ideário de parto normal, sem drogas, sem intervenções e com amamentação prolongada. É claro que este não é um roteiro único, mas um mapa para que se chegue a uma satisfação no processo de maternagem. Ele NÃO é constituído de um caminho único, mas de infinitas alternativas. Entretanto, ainda é comum vermos colegas indignados com os desvios de algumas mulheres, e isso é capaz de culpabilizá-las.

Entretanto, mesmo com esses contratempos, não há como esconder que o parto normal humanizado e a amamentação efetivas oferecem benefícios inequívocos para o binômio mãe bebê. Portanto, deve ser sim uma política de governo, da mesma forma que deve ser diminuir o consumo de açúcar (principalmente por crianças), publicidade infantil e consumismo, pois, mesmo sabendo que as famílias tem o DIREITO de criar seus filhos a partir dos seus valores, é DEVER do poder público oferecer as informações e o estímulo para uma educação mais saudável e segura.

Podemos concordar com Elisabeth Badinter quando ela reclama do cerceamento de opções e de uma espécie de “patrulha ideológica” sobre a amamentação. Não devemos criminalizar estas opções, pois nunca temos pleno conhecimento dos determinantes (conscientes e inconscientes) para a sua adoção. Por outro lado, a pensadora erra feio ao deixar de enxergar os benefícios inquestionáveis conseguidos com o ESTÍMULO à amamentação e ao parto normal. Fazer que as mulheres REGRIDAM às teses feministas dos anos 60 – onde o objetivo era uma igualdade irreal e ingênua com os homens – é um desserviço ao feminismo, que abandonou estas teses em nome de uma valorização das características femininas mais preciosas, como a gestação, parto e amamentação. Se estas características femininas NÃO SÃO determinantes do feminino (que em muito extrapola estes elementos) também não são algo que deve ser extirpado das mulheres, como defeitos, fraquezas ou equívocos da natureza.

A entrevista da Sra Elisabeth Badinter pode ser encontrada aqui:

Mulheres não são Chimpanzés – Elisabeth Badinter

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A necessidade das Doulas

RenataFrohlich044a

Creio que quando falamos de doulas e suas tarefas na assistência ao parto precisamos deixar papéis e funções bem claras. Muito já foi dito sobre o quanto uma doula pode ser importante no parto, pela vinculação emocional que ela produz com a mulher que está parindo, assim como muito já se disse sobre os limites desta atuação. Doulas NÃO fazem nenhuma ação médica ou de enfermagem. Doulas não substituem o pai, e não discutem determinações médicas. Doulas não receitam droga de espécie alguma e não assumem o protagonismo pela mulher. Doulas são ajudantes, amigas, parceiras compassivas e auxiliares experientes na tarefa de fazer nascer.

Mas são elas fundamentais?

Eu acho que nós precisamos contextualizar. O movimento de doulas no Brasil já tem mais de 10 anos, e muitas doulas no Brasil saem dos cursos de capacitação todos os dias com o real interesse de ajudar gestantes na tarefa de parir. Para muitas mulheres, com suas histórias, contextos e circunstâncias, uma doula será fundamental, mas para que isso aconteça deveremos respeitar o sentimento dela sobre o evento. Caso contrário criaremos apenas outra invasão sobre a autonomia das mulheres.

Quando eu fui pai – há mais de 30 anos – não havia doulas. Minha mulher não teve este tipo de ajuda e apenas pude estar presente porque era estudante de medicina. Ela deu a luz em um parto grosseiro, em uma sala cheia de profissionais pouco afeitos a trabalhar com a magia do nascimento. Entretanto, ela pariu. Posso dizer que, para ela uma doula não foi “fundamental”, o que não significa que, se uma doula estivesse presente, ela não poderia ter uma experiência muito mais gratificante e menos angustiante.

É possível que a grande dificuldade quando tratamos da presença de uma doula esteja na ideia de que isso seja “fundamental”. Essa expressão nos leva aos fundamentos, à essência, condições sine-qua-non. Por exemplo: uma bola é fundamental para o futebol; um juiz não. Assim, podemos dizer que para o nascimento de uma criança apenas a mãe e o seu bebê são “fundamentais”; todo o resto vem por acréscimo. Desta forma, para um parto é necessário que haja uma grávida, mas não uma doula. É importante, entretanto, que entendamos quando as ativistas dizem: “Toda mulher TEM que ter uma doula“. Nesse caso, trata-se de uma emoção, uma maneira muito mais simbólica do que real de tratar a importância que elas percebem na ação de uma doula. É apenas a expressão de uma alegria e de uma gratidão, e não um tratado sobre a ontologia do parto.

Ter uma doula em um parto PODE ser espetacular para o desenvolvimento do parto, por que tem a ver com as necessidades básicas humanas de carinho, suporte, apoio e afeto. Entretanto, para algumas mulheres a presença de qualquer pessoa pode produzir um efeito contrário, e nesse caso uma doula NÃO deveria estar presente. Essa é a tese que eu mais me dedico no momento: o “Parto na Perspectiva do Sujeito“. Nós, profissionais de saúde e gestores, temos o DEVER de oferecer uma doula para todas as gestantes, tanto quando oferecemos cesarianas para casos patológicos, analgesias para dores acima do limite ou antibióticos nas infecções. Eu até acredito que não disponibilizar uma doula um dia será considerado antiético, se forem proféticas as palavras do Dr John Kennell. Todavia, utilizar uma doula como ajudante na atenção ao parto só pode ocorrer quando estiver em sintonia com as características do SUJEITO que está parindo, e não pela imposição de protocolos coisificantes, objetualizantes e homogeinizantes. Uma doula é um DIREITO, e jamais uma rotina hospitalar ou uma peça de mobiliário, que estará junto à gravida quer ela queira ou não.

Somos muito mais do que mamíferos, e nossa conformação racional nos impõe características ímpares. Somos agentes da natureza, e não apenas submetidos à sua vontade. Somos seres de linguagem, vagamos no universo da palavra, volitamos sobre significados e significantes e não podemos ser analisados apartados da consciência que conquistamos. Assim, determinar uma doula como “essencial” é desreconhecer nossa característica única de “humanos”, tanto quanto impor analgesias ou decretar a privacidade como igualmente “fundamentais”.

Deixemos nas mãos das mulheres as escolhas, este é o caminho. Se é importante oferecer a elas o que o conhecimento nos mostra como válido, mais fundamental ainda é permitir que cada mulher faça suas escolhas como desejar, baseadas em sua vida, desejos e valores.

PS: Esse é um debate que aconteceu em 2012, reformatado…
Na foto, Zeza Jones, Doula Zezé e Renata Fröhlich no nascimento de Flora, em 29/12/2007

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Medicina e Ideologias

Pesquisa

Tive há dois dias uma amigável discussão com um jovem colega médico que – entre algumas provocações e palavras ásperas – me afirmou que “Não existe “ideologia médica”. Medicina de verdade é praticada com base em fatos (…) e evidentemente não existe zona de conforto na medicina.”

A ideia de que a medicina é uma ciência baseada em “fatos” é curiosamente muito disseminada dentro das faculdades de medicina. Para nós, estudantes, parece-nos óbvio que as pesquisas, os estudos e as evidências são elementos “matemáticos” que nos aproximam da verdade. A frase do meu jovem colega, em verdade, retrata um modelo de pensamento hegemônico entre os médicos. Nós realmente vemos a medicina através dessa perspectiva positivista e cientificista, onde o conhecimento e o aprimoramento tecnológico por fim vencerão o obscurantismo e nos elevarão ao conhecimento pleno, o conhecimento da Verdade e do Real.

Eu também me deixei embevecer por esta visão por muitos anos. Basta que você veja qualquer livro da história da medicina e a construção dos fatos históricos nos levará a este entendimento. Parecemos estar vencendo as doenças através da invasão ininterrupta do saber racional sobre a economia orgânica, seja pelas drogas, infusões, cirurgias, quimioterapias, etc. O porvir da medicina parece claramente ligado a um controle exógeno cada dia mais intenso. Entretanto, a bela construção de uma “medicina positivista” esbarra nos próprios acontecimentos da prática médica, onde a ciência é desconsiderada e elementos outros (o poder, o patriarcado, a política, a economia, a moral e a religião) ocupam o lugar central no direcionamento das condutas.

As ideologias controlam a medicina. Os paradigmas são vinculados a questões históricas e contextuais, e eles são os geradores da própria pesquisa e suas interpretações.

Todavia, a ideia de uma ciência médica “pura” – não contaminada pela ambiência e pelas brisas políticas que sopram, ora de bombordo, ora estibordo – sempre me incomodou. A própria produção científica e sua matriz preferencial – a Academia – me parecem claramente influenciadas por modelos ideológicos relacionados à sua época e às circunstâncias onde apareceram. As grandes descobertas médicas só podem ser entendidas de forma abrangente se pudermos entender o contexto histórico e político em que foram encenadas, da mesma forma que apenas a compreensão mais ampla das circunstâncias políticas da Guerra Fria pode nos explicar as viagens à lua, da mesma forma como a queda da boate “Stone Wall” em Nova York pode nos fazer entender as pesquisas sobre o “vírus da AIDs”.

Imaginar uma “medicina sem ideologia” é imaginar um corpo sem “alma”, comandado pelo mundo real, excluído da formatação da linguagem. A medicina SEMPRE foi um campo para a aplicação de controle social e autoridade política.

A ideia de que os procedimentos se baseiam em experiências e “fatos” (fatos não existem, apenas interpretações – Nietzsche) deveria fazer as episiotomias terminarem quando os fatos científicos demonstraram a sua inutilidade como procedimento de rotina, e isso aconteceu em 1987, há décadas. No entanto, “Nascer no Brasil” apontou 53% de episiotomias entre aquelas afortunadas que conseguem um parto normal no Brasil. As cesarianas abusivas, que determinam o AUMENTO da mortalidade materna em alguns países, entre eles os EUA, também deveriam ser freadas com as evidências e os estudos. Entretanto, como essa clara assincronia entre “o que se sabe e o que se faz” demonstra, a medicina NÃO se expressa necessariamente através da ciência, mas pelos caminhos mais tortuosos da ideologia e da política. A destruição da parteria no Brasil e nos Estados Unidos – e NÃO na Europa – é outra prova de que a construção dos modelos de atenção se baseia em elementos alheios às pesquisas, e muito mais ligados às forças que favorecem umas corporações em detrimentos de outras.

Dizer que praticamos “medicina baseada em fatos” é uma ingenuidade. Pensar que deveríamos agir assim é um objetivo e uma utopia, tão nobres quanto inalcançáveis. Existem forças invisíveis (e as ideologias são exatamente “agir sem se dar conta do que nos move”, no dizer de Slavoj Zizek) que fazem com que a mão corte uma episiotomia ou prescreva um antibiótico, mas nos iludimos ao acreditar que a razão foi a condutora magna de tais movimentos.

As ideologias, que se ligam mais aos desejos do que à razão, são o que está por trás dos fios invisíveis que nos guiam.

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Voiceless Women

Human Rights in Childbirth

Excerpts from a discussion on the Facebook page “Human Rights in Childbirth”

Ric Jones

“I still prefer the foolish free choices than the wise things women are obliged to do for their own safe”.

Plus, are we really thinking on women and baby’s safety when we demand them to be in a hospital instead of remaining at home? Are we “pure scientists” offering pregnant couples the best our knowledge is able to give? Or, in fact, are the decisions that we – doctors and midwives – make based in other interests, like money, time, convenience, power, political and moral pressures? The differences we see today concerning the violent practices from the past happened because the medical staff became more “human” and “respectful” or because now women can make choices and (also) complaints?

For a humanistic obstetrician it’s a pain on the heart to witness a woman choosing an unnecessary abdominal surgery without using her perfect and ancient own equipment. But, for me, that’s the price to pay for free choice. That’s the same feeling I have when I meet my daughter’s boyfriends. I guess I could find a better guy for her, but I still prefer that she chooses that, even if she makes terrible mistakes…

A clear example for what I call “ideological violence” is when a woman makes a “free choice” for a c-section based in the fear that her baby will get “stuck” in the birth canal or the cord wrapped around the neck will sufocate the newborn. Or even based in the notion that c-sections are cleaner, safer and more “humane” than the “animalistic births” she sees on TV. So, my question is: How free are her choices? How deep is the misunderstanding of birth she carries thru her entire life, based on media and doctor’s wrong informations? How can she receive TRUE and unbiased (as far as it is possible) information about risks, but also about pleasure and empowerment during the transcedental experience of birth?

The problem is not just “rational information”, the ones we can find in pamphlets or books, but the entire society that percieves birth as an emergency and a terrible threat to babies. So, along with the information we need “education”, and that begins in early stages of life, like in the kindergarten. Besides that, I totally agree with Robbie’s famous quote: “We shall not become the Gestapo of normal birth”. That’s it.

One of the problems I see a lot in the birth movement is the widespread notion that “she decided for a c-section because she is….. (stupid, weak, bad informed, decieved by doctors, etc…)” and in these situations women are ALWAYS victims of someone else. But, in fact, many of these decisions were done AGAINST doctor’s best advices, done by well informed women !!! They did it by themselves, and they had their reasons (what Penny Simkin once stressed on her book “When survivors give birth”). So, we need to respect these choices and stop saying that women make them for “silly” reasons. Good practices, good births, natural births, orgasmic births can’t become a “dogma” or, again, something that we must submit women to do, “on their best interest”.

“Many of the things you can count, don’t count. Many of the things you can’t count really count.” Albert Einstein (and that has to do with birth, as far as we cannot – yet – measure love, empowerment, affection, and faith)

I can describe technically – based in hormonal, physiological, mechanical and behavioral measurements – a sexual relationship, that even results in a healthy baby as a very successful one. But, at the same time, I may listen to that specific mother’s description of the sex, pregnancy and birth as the most horrifying experiences she has ever experienced in her life. So, what counts here (the biological parameters) are meaningless in a world ruled by language and symbolic values.

Why is it SO difficult to talk about “free informed choices” for women?

See… I can decide to climb the Everest, even thou the risks I am running by doing such a “foolish choice” (concerning the fact that I can get to the top without my toes or my own life) are “evidence based”. No one discuss that playing chess at home is safer than mountaineering. But no one dares to question me!! Men’s choices are sacred !

Ok, there’s a baby in a woman’s womb, and I respect that difference. But even when the woman is not pregnant we see that they don’t have the same spectrum of choices that a man has. And, when we discuss that issue (and that’s the point of view that I totally agree) we always put somebody else to decide for her, as the best person to make “good” decisions. The mother is always seen as unreliable.

There’s no humanization of childbirth with voiceless women…

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A Cesariana da Celebridade

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Mais um pouquinho sobre as críticas à cesariana da cantora Sandy…

Bem… Muitas ativistas exageram mesmo, mas isso é normal quando se luta por ideias. Eu já sofri na carne o ataque de algumas pessoas por ter uma postura mais aberta nas questões feministas, mas entendo que seja normal o exagero diante da barbárie da condição da mulher. Como diria John Lennon, “A mulher é o negro do mundo”. Como não perder o rumo diante de tanta energia para a mudança? A injustiça, mesmo condenável, tem um sentido, que é a transformação social. Mas essa energia precisa ser domada e controlada, para que não sirva de armamento contra pessoas que fazem suas escolhas, certas ou não.

Mas a proposta de não atacar as escolhas das “celebridades” me parece adequada. Acusar as mulheres que fazem cesarianas é continuar a agredir a vítima, e isso não podemos admitir.

A escolha pela cesariana é triste, mas é uma escolha como tantas outras que fazemos na vida. Mulheres que “escolhem” cesarianas sofrem do que eu chamei anteriormente de “violência ideológica”. O mesmo tipo de violência silenciosa que fazia as chinesas esmagarem seus pés para deixá-los pequeninos e delicados. O mesmo tipo de agressão ideológica que faz mulheres escolherem cesarianas por acreditarem que elas são “limpas, civilizadas, indolores e seguras”. Também se expressa na pressão que as meninas sofrem para ter um corpo magro e perfeito, até que a anorexia as conquiste. É também aquela usada contra mulheres que optam pelo parto normal. De longe parece mesmo que estas mulheres fizeram escolhas: malhar, comer pouco, esmagar seus pés ou abrir o ventre para extirpar um bebê, mas quão livres terão sido elas? Que tipo de pressão foi exercida para que elas tomassem estas decisões? Que carga tiveram elas que suportar – psicológica, emocional, física – para optar por um caminho com a qual não concordamos? Afinal, quem atira esta pedra?

É o que penso: que tipo de forças houve em cada caso de cesariana a ponto de fazer uma mulher esquecer sua escolha anterior pelo parto normal e refugiar-se na cirurgia? Culpá-la por ter sucumbido a estas pressões não é justo. Precisamos cultivar uma postura compreensiva, onde o parto será exposto como uma forma segura, tranquila e bonita de parir, mas jamais um modelo imposto por um grupo fechado em sua ideologia. Para isso já temos os cesaristas…

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Violência gera violência

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Eu entendo a indignação de quem se horroriza com algumas atitudes que são cometidas contra mulheres e seus filhos. Eu também me solidarizo com todas as mulheres que tiveram seus sonhos rasgados por uma cultura que criminaliza o afeto, a proximidade, a doçura e estimula o autoritarismo. Entretanto, concordo com o meu amigo Luis Tavares de que a nossa resposta NÃO pode ser no mesmo nível vibratório. Xingar profissionais, atacá-los, processá-los (como algumas pessoas estão sempre prontas a sugerir) pode apenas recrudescer a violência, fazendo com que aumente a distância entre cuidadores e clientes.

Nos Estados Unidos temos exatamente este cenário: processos diários, e por qualquer razão, cheios de ódio, ressentimento e (como evitar?) oportunismo de pacientes e advogados espertos. O resultado é uma catástrofe: médicos encaram seus pacientes como potenciais inimigos, e os pacientes desconfiam de seus médicos, imaginando-os torturadores arrogantes e insensíveis. Desarmamento dos espíritos – e não a insensata e compulsiva confrontação – é a chave. Sei que minhas palavras podem parecer uma fraqueza, mas já vi como a guerra funciona. Não há saída para este tipo de cilada: “eu desconfio de você e por isso você age apenas para se proteger, e não para NOS proteger”. Por favor: prestem atenção nas palavras dos poetas, pois ele tem muito a nos ensinar. Aliás, onde o entendimento cru e racional patina, a poesia desliza.

Há muito que se critica a passividade feminina diante dos desmandos sobre seus corpo, sua autonomia, sua liberdade e sua sexualidade. Ninguém suficientemente honesto deixa de perceber o quanto ainda temos que progredir para alcançar uma sociedade igualitária para os gêneros. Mas lembrem-se, que reagir a uma situação como essa não significa usar as mesmas armas do agressor. Reagir não é o mesmo que “contra-atacar”. Indignar-se não é o mesmo que usar a Lei de Talião, onde um olho vazado se trocava por outro, um dente também. Reagir significa agir em resposta, mas esta resposta PODE SIM ser repleta de compreensão, carinho ternura e…. FIRMEZA. Em Gandhi, temos a resposta e o exemplo de sucesso; a resistência pacífica dos Palestinos desarmados, também. Podemos responder aos médicos cesaristas com palavras, críticas de nível, artigos, blogs, páginas do Facebook e tantas outras formas de ativismo sem generalizar (os “médicos maus”, as “pacientes vítimas”) e sem crucificar.

Existem sim alternativas. A violência gera mais violência. Podemos educar (os médicos, os pacientes e a sociedade) sem PALMADAS !!! Para isso é importante paciência e “paralaxe” (a capacidade de ver o que o outro vê, por suas próprias perspectivas).

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