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Agendar o Inagendável

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Eu sou do tempo em que a cesariana era um recurso utilizado em circunstâncias especiais. Diante de uma impossibilidade de parto ela era usada, mas sempre com uma espécie de “pesar”. Para o obstetra a cesariana também era entendida como um  “fracasso”. Pensávamos: “O que poderíamos ter feito? Onde erramos? Fomos apressados? Insistimos demais? Foi a posição do bebê? Ou foi algo “entre as orelhas”?

Naquela época, em meados dos anos 80, operar um ventre estufado de vida era algo com muitos significados. Os professores de outrora ainda cultivavam a fama de “parteiros”. Haviam, muitos deles, aprendido com parteiras hospitalares, mulheres do povo que haviam ascendido à condição de “enfermeiras” (mesmo sem título) que atendiam partos em hospitais através do aprendizado direto. Eu mesmo, há 25 anos, conheci muitas parteiras que trabalhavam em hospitais da periferia da minha cidade e cujo aprendizado foi exatamente esse: olhando, auxiliando, comandando e depois fazendo.

Muita coisa aconteceu desde então, e o parto foi perdendo importância enquanto evento feminino. Mas uma transformação de tal monta nunca se processa sem que seja necessário alterar a forma como o entendemos. Era necessário retirar do parto sua importância na formação do ser feminino, passando a ser visto a partir de então como uma fragilidade, um erro, um equívoco natural e algo a ser modificado através do conhecimento científico. O mundo contemporâneo precisava arrasar os significados subjetivos de um parto, para que a modalidade cirúrgica de nascer pudesse ser vista primeiro como uma “alternativa”, e depois como “o padrão”.

Muito ainda se falará sobre a derrocada do nascimento feminino e a ascensão do nascimento tecnológico. Entretanto, nunca se dirá tudo o que é necessário para que se entenda a profundidade dos significados culturais desse movimento. Eu fui testemunha desta história, e estava presente quando esta mudança se procedeu. Da natureza em direção à tecnologia o nascimento foi reconstruído primeiramente pela palavra. Para quem tinha ouvidos de ouvir, ficava muito claro perceber que, para se mudar o nascimento de um evento feminino e natural para um evento médico e cirúrgico, era necessário transformar o olhar que tínhamos para o processo. Mudando o olhar tínhamos que transformar as palavras. Se ao princípio estas palavras tinham um som “duro” e causavam estranhamento, sua repetição acabava por dessensibilizar nossas concepções, agora entendidas como “ultrapassadas”.

Foi ainda no século passado que, pela primeira vez, escutei a expressão “parto cesáreo“. Não por acaso, “cesáreo” é uma palavra que não existe, mas que foi masculinizada pela palavra que o antecede. Os “partos” acabaram também se tornando uma extensão do universo masculino, apartados da lógica feminina. O tempo, as rotinas, os protocolos, a normatização e as intervenções “salvadoras” deslocaram a mulher do centro decisório dos nascimentos, colocando-as na periferia, alienado-as de si mesmas. Elas eram agora assistentes da arte médica, espectadoras de algo que ocorria em seus próprios corpos, expropriadas de si mesmas e nas mãos de profissionais altamente treinados na interferência cirúrgica dos processos biológicos.

Mas era necessário transformar a cesariana em uma “modalidade de parto“. Não mais o recurso último, a cirurgia que se explicava ao velho professor como quem confessa um pecado. Não, ela agora seria um tipo de nascimento, igual àquele criado há alguns milhões de anos a partir do surgimento da viviparidade. A cesariana é, na mente contemporânea, a sucedânea do parto vaginal, aquela que livra as mulheres das agruras de um procedimento cuja espera, tensão e dor não encontram nenhuma justificativa nas mentes positivistas atuais. Ela veio para livrar a mulher da crueldade imposta por uma natureza madrasta; algo pelo qual esperávamos há milênios, desde que as mulheres foram a ela condenadas pelo pecado da luxúria… e do saber.

Portanto, nada mais natural do que observar que os hospitais contemporâneos não tem mais nenhum pudor em “agendar partos”. Sim, nós sabemos que eles estão se referindo às cesarianas, e sabemos também por que elas são chamadas na “modernidade” de “Partos Cesáreos“. Mas a naturalidade com que estas coisas aconteceram nunca deixará de me espantar. Sou um velho, quanto a isso não há mais dúvida alguma. Mas, quando tudo puder ser agendado, previsto e conhecido por antecedência, o que mais restará para nos emocionar?

Ninguém se escandaliza com o fato de perdermos mais um pedaço da emoção que o bolo da vida nos oferece?

Como é possível agendar o imprevisível?

O que sobrará do nascimento quando retirarmos dele a circunstância inesperada, a surpresa, a alegria incontida de uma notícia e o telefonema cheio de lágrimas avisando, no frio da noite, a chegada de um bebê?

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As Cores da Humanização

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A humanização do nascimento é um movimento gestado a partir dos questionamentos sobre a sexualidade surgidos nos anos 60 e 70. Apesar dos trabalhos de Grantly Dick-Read terem sido produzidos nos anos 40 e Robert Bradley ter começado seu trabalho de “desmedicalização do parto” e a inserção do parceiro no ambiente do nascimento nos anos 50, foi após a publicação de “Birth Without Violence” de Fréderick Leboyer que a discussão de uma nova abordagem no parto tomou um forte impulso. Se o lema dos hippies era “Faça amor e não faça a guerra” – numa crítica aberta a participação americana na guerra do Vietnã – e a atitude era de franca liberação sexual, a abordagem não violenta do parto proposta por Leboyer estabelecia uma clara consonância com tais pressupostos.

Não por acaso a inquietação com a intervenção desmedida e a violência implícita nos atos médicos que ocorria em ambientes hospitalares disseminou-se pelo mundo inteiro com a força de uma “nova ordem”. Entretanto, a forma como estas ideias eram adaptadas a cada contexto cultural variava enormemente. Por exemplo: o termo “humanização do nascimento”, muito usado no Brasil, é quase desconhecido nos Estados Unidos. Lá a ideia se disseminou com os termos “amigáveis”: “Motherbaby Friendly Childbirth Initiative”, é como o movimento de humanização se chama por lá. Na Inglaterra, por seu turno, a associação que luta por partos mais suaves é “AIMS”, uma associação que luta pela melhoria dos serviços de maternidade, e a forma mais comum de se tratar do parto humanizado é chamando-o de “Parto Ativo”. Cada país imprime suas características específicas para estas ideias.

Por razões históricas a humanização entrou no Brasil junto com a contracultura hippie, que veio acoplada com o orientalismo que impregnou todo esse movimento, a começar pela aproximação dos próprios Beatles com Maharishi Mahesh Yogi. Aqui, o Yoga deixou o movimento com as cores do misticismo e das práticas orientais indianas. A introdutora desta discussão no Brasil foi uma professora de Yoga chamada Maria de Lurdes Teixeira, mas que atende pelo apelido de Fadynha. Em meados dos anos 80 ela criou um instituto de Yoga no Rio de Janeiro chamado “Instituto Aurora” que realizava encontros com casais grávidos de preparação para o parto natural. Desses encontros surgiu a necessidade de um encontro nacional de “parto natural e consciente”, que já está na sua 23ª edição. Estes encontros foram a porta de entrada para os debates sobre as humanização do nascimento, e foi dele que surgiu no ano de 1993, em Campinas, a ReHuNa – Rede pela Humanização do Parto e Nascimento.

A partir destes encontros foram se agregando ao movimento de humanização profissionais de várias áreas – obstetras, pediatras, enfermeiras, parteiras, obstetrizes, doulas, etc. – em torno de uma série de reivindicações que estruturam o ideário do movimento. De início eram ideias centradas nos problemas do excesso de intervenções e a necessidade de “suavizar” a prática médica. Não havia ainda uma clara noção do que deveria ser feito, mas uma indignação compartilhada do que não deveria continuar ocorrendo.

No final do século passado surgiu um novo fenômeno na cultura mundial que acabou por modificar de maneira inquestionável todas as relações sociais, inclusive a forma como entendíamos a humanização do nascimento. A Internet diminuiu distâncias e aproximou pessoas com ideias semelhantes. Um pouco antes da virada do século surgiram os “list servers” que eram listas de discussão temática na internet e que abordavam infinitos assuntos. A primeira de lista de discussão de nascimentos chamava-se “Parto Natural”, e ainda está ativa. Seguiram-se a ela a “Amigas do Parto” (nome criado para criar semelhança com o grupo Amigas do Peito, que luta pela amamentação livre) que depois viria a se chamar  Parto Nosso”, ainda em atividade. Estas listas foram multiplicadoras de vozes sobre o tema da humanização, congregando, como por encanto, ativistas distantes milhares de quilômetros, em diversas partes do Brasil.

A entropia gerada pelas listas de discussão acabou por fomentar um amadurecimento sem precedentes da estrutura ideológica dos movimentos de humanização do parto. Aquilo que anteriormente era indignação e desassossego com a tecnocracia obstétrica passou a oferecer alternativas de atenção centradas em um modelo de nascimento mais moderno e mais em sintonia com os desejos das mulheres. O surgimento, ainda nos ano 90, da “Casa de Parto 9 Luas” no Rio de Janeiro foi um exemplo desta nova atitude propositiva. Apesar da ideia não ter vingado – por problemas na própria concepção da casa de parto, que em verdade era uma pequena clínica e não uma Casa de Parto – este foi um dos primeiros modelos alternativos de atenção apresentados à sociedade. Se não continuou a oferecer atendimentos, pelo menos serviu como um exemplo de que muitas coisas eram possíveis de fazer em se tratando de modelos de atenção centrados na família, no afeto e no parto fisiológico.

A internet mudou a cara da humanização. Médicos obstetras, enfermeiras, doulas, psicólogas, pediatras, epidemiologistas e – principalmente – mulheres gestantes e seus companheiros juntaram-se no país inteiro através do espaço cibernético. As listas de discussão criaram um espaço amplo e democrático de encontro de ideias, e dos choques e embates gerados pelo conflito natural de propostas diferentes – por vezes divergentes – surgiu uma estrutura muito mais sólida, mesmo sem se pretender monolítica, que embasa as propostas de humanização do nascimento.

Em função de suas raízes, e da personalidade quem introduziu de forma sistemática este movimento, o Yoga impregnou a humanização do parto com as cores do misticismo e das práticas orientais indianas. Para alguns colegas de outros países isso soa muito estranho, talvez tão estranho quanto a relação estreita entre homeopatia e espiritismo, que entraram no Brasil pela mesma via, o médico lionês Benoit Mure, e acabaram se confundindo por muito tempo, o que causa uma rara estranheza em colegas franceses e alemães.

O que se questiona por ora é se essa específica vinculação entre a humanização do nascimento com sua origem ligada ao Yoga é natural, necessária ou deletéria. Para algumas pessoas, a humanização do nascimento caminha na mesma direção das ações “desmedicalizantes” do Yoga e outras práticas alternativas, e não é à toa que muitas mulheres que procuram partos humanizados também criticam o modelo médico contemporâneo ocidental e procuram formas de tratamento mais “suaves” e menos drogais. O Yoga é uma destas formas de procurar saúde sem a inserção de drogas no organismo.

Entretanto, para muitas mulheres cosmopolitas, a vinculação com essas práticas NÃO É natural e sequer desejada. Se acreditarmos que os pressupostos básicos da humanização sejam o protagonismo restituído, a visão interdisciplinar e a vinculação com a medicina baseada em evidências então nenhuma vinculação necessária existe com práticas não ortodoxas para a assistência humanizada ao parto. Podemos ser absolutamente ligados a uma medicina tradicional, alopática e endorcista sem ferir qualquer dos pressupostos fundamentais da humanização.

Isto parece certo, e parece não haver dúvidas quanto a este fato. Por outro lado, não vejo porque rechaçar a visão plural que estas práticas podem acrescentar, desde que entendamos que partos humanizados não significam (da forma como pejorativamente falam seus opositores) partos “naturebas”, em que se estimula um rechaço sistemático e dogmático à ciência oficial e aos tratamentos drogais e invasivos.

Assim, creio que a humanização do nascimento é uma casa grande e cheia de portas, por onde podem entrar várias formas de expressão do nascimento. Se as paredes forem mantidas de pé, com os pilares do protagonismo, a visão interdisciplinar e a vinculação com a medicina baseada em evidências, então as cores locais da humanização, sejam da Yoga, do budismo, ou até de um agnosticismo crítico, serão bem vindas.

A pluralidade das visões e o respeito às perspectivas diferentes devem ser pressupostos centrais no debate sobre o nascimento. Se existem infinitas maneiras de parir, tantas quantas forem as mulheres no mundo, então a forma como entendemos este movimento e suas expressões também precisa ser de incontáveis maneiras, tantas quantas forem as cabeças e mãos a construi-lo.

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Agenda Positiva

Apontar dedos

Participei de um debate há alguns dias – e que terminou ontem – sobre uma placa colocada no portão da frente de uma clínica veterinária a qual considerei abusivamente agressiva para as pessoas. Tratava-se de um aviso sarcástico e ameaçante para aqueles que deixavam animais na porta (ou abandonavam) para serem atendidos pela profissional que lá trabalha. Não vou repetir os dizeres, mas eram agressivos, uma espécie de xingamento misturado com uma ameaça fictícia.

O debate seguiu com algumas pessoas legitimamente clamando que o abuso contra pobres e indefesos animais precisaria de um contraponto violento como aquele, e que seria um absurdo criminalizar a atitude de uma médica veterinária, a qual estava movida por uma genuína indignação com os maus tratos dados aos animais. Sua “fúria”, portanto, se justificava pelo somatório de frustraçôes e pelo excesso de abusos que se acumulavam no que diz respeito à forma como são tratados os animais domésticos.

Acabei, como de costume, escrevendo muito sobre o tema a ponto de me exceder um pouco, para o quê peço desculpas aos debatedores. Por outro lado, creio que a minha ideia – mesmo reconhecendo que a forma como a transmito seja excessiva por vezes – ainda tem valor. Minha tese é de que “os fins não justificam os meios”, e jamais construiremos uma sociedade mais digna e respeitosa com violências, agressões e respostas desmedidas. Acredito que a veterinária tinha razões para se indignar com a crueldade que testemunhava todos os dias, mas sua reação foi desrespeitosa, violenta e totalmente desproporcional.

Ok, mas qual a relação desta história com a questão do parto no Brasil? Creio que esta discussão me tocou porque é exatamente este o estado atual do debate sobre humanização do nascimento no Brasil, e sobre isso já tratei algumas vezes.

Passado o furor inicial deste movimento social, que se caracterizava pela profunda indignação com a forma como as mulheres são tratadas no momento de parir, e com acusações de violências aparecendo por todo o lado, é importante que criemos espaço para o que chamo de “agenda positiva”.

Por este termo, que não é novo e sequer me pertence, me refiro a um movimento que vi acontecer há alguns anos conversando com Robbie Davis-Floyd. Dizia ela estar um pouco cansada das acusações contra o modelo patriarcal, machista, agressivo e acusatório existente em seu país e que partiam dos membros e das instituições ligadas à humanização do nascimento nos Estados Unidos. Havia muita tristeza no ar, um sentimento de raiva surda, que se expressava nos textos, livros, crônicas e discursos das ativistas. Era tempo de fazer uma virada no foco, “mudar o lado do disco”, e mostrar uma “agenda de positividade” ao invés de apontar dedos para o que existia (e ainda existe) de negatividade no cenário do nascimento.

Dessa ideia surgiu seu último livro “Birth Models that Work” (Modelos de Parto que Funcionam) em que ela lista experiências positivas na atenção ao parto no mundo, falando das coisas que ela admira, que dão certo e que, em última análise, “funcionam” no terreno da assistência às mães e bebês. O livro foi um sucesso, e continua inspirando ativistas no mundo inteiro a construir algo de positivo para a assistência mais humanizada e centrada nas necessidades da mulher, da família, comunidade e sociedade como um todo.

É assim que eu vejo o futuro da assistência ao parto no Brasil. Reconheço a importância dos esforços pela erradicação da violência institucional que estão ocorrendo no Brasil, a força das ONGs de proteção à mulher gestante, a importância de levar adiante as queixas de maus tratos das mulheres em unidades de saúde e a premência de escutar as mulheres, para que as suas vozes sejam levadas em consideração e não caiam no vazio. Chega de indiferença contra o arbítrio e a violência. Chega de agressões inaceitáveis contra a mulher em seu momento de maior fragilidade.

Entretanto, essa é uma parte apenas deste movimento social, e não pode ser a cara da humanização. Não podemos nos tornar Torquemadas do parto humanizado, mandando para a fogueira aqueles que ainda não foram tocados pelas teses do nascimento com amor. Se nos posicionamos contrários à violência temos que dar o exemplo e tratar esta questão de forma compreensiva, amorosa e superior. Se existe espaço para a justiça, existe um ainda maior para a compreensão das dificuldades em se adaptar a um novo ordenamento social, que jamais se processa da noite para o dia.

Nosso discurso deve ser em torno do que amamos e nos apaixona, e não centrado na indignação e no rancor. Não podemos fazer do nascimento humanizado uma bandeira de vingança e ódio, mas de lenta sedução para os nossos pressupostos. Como dizia meu colega Max, “Precisamos fazer do parto um momento tão gratificante e belo que a escolha por uma cesariana será a mais tola das decisões”.

Precisamos falar mais da beleza do nascimento em paz, e menos do terror de parir de forma violenta, entendendo que “falar menos” não significa calar-se. Mostrar o erro também faz parte das nossas obrigações como ativistas, mas esta ação não pode ser mais evidente e clara do que apontar caminhos para uma atenção gratificante, respeitosa e digna para todas as mulheres.

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Robert Bradley e a desmedicalização do parto

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Uma questão pertinente:

Robert Bradley, que trabalhou nos Estados Unidos nos anos 50 e introduziu o conceito de “Husband Coached Childbirth“, e a prática do “parto desmedicalizado”, atendeu mais de 14 mil partos durante sua carreira obstétrica. Estes partos, quando avaliados, mostram números absolutamente impressionantes. Mais de 90% dos partos ocorreram sem uso de medicação alguma, apenas com suporte emocional e a ajuda do marido (que na época atuava como uma “doula”), e a taxa de cesarianas foi de apenas 3%. Sim, 90% de partos totalmente fisiológicos e apenas 3% de intervenções cirúrgicas, algo absolutamente impensável hoje em dia.

Minha pergunta é: se Robert Bradley vivesse em São Paulo, Rio ou Porto Alegre nos dias de hoje, ele conseguiria estes índices, carregando consigo apenas as suas convicções e atitudes? Ou o mundo em que ele viveu (os Estados Unidos dos anos 50) é substancialmente diferente do mundo de hoje, a ponto de pressioná-lo a ter condutas diferentes? Que tipo de pressões ele sofreria, dos colegas e dos clientes, para ter uma atitude mais intervencionista?

Minha mãe tem 1.49m e teve 4 filhos de parto normal, nascimentos fisiológicos e desmedicalizados, apesar de serem no hospital. Ganharia ela os filhos dessa maneira se os tivesse hoje? Ou teria sido apavorada desde o nascimento pela sua “bacia estreita”, pela “baixa estatura” ou pelos riscos imensos de ter um bebê “esmagado” pelo canal vaginal.

Melhorar os profissionais (e o modelo de atenção) é suficiente para esta revolução, ou só teremos melhoria REAL quando a cultura como um todo se transformar?

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Manifesto

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“Algumas pessoas dotadas de muito rancor e pouca informação acusam-nos de sermos refratários ao uso de tecnologia. Enganam-se, pois somos abertos a toda aplicação de recursos que possa auxiliar mães e bebês. Entretanto, nos posicionamos contra quaisquer abusos praticados em nome de uma lógica mercantilista e corporativista na atenção ao parto. Da mesma forma temos uma posição firme e bem fundamentada quanto ao direito de escolha sobre o local de parto como um DIREITO HUMANO fundamental. Para isso usamos medicina baseada em evidências para fortalecer nossas posições, e não mitologias urbanas ou ideias preconceituosas. Não somos movidos por fantasias ou crenças religiosas, mas acreditamos no potencial transformador da liberdade, da autonomia e do conhecimento. Sabemos que a escolha de um modelo de parto pertence à mulher e sua família, e que nossa posição é de suporte e auxílio, jamais de expropriação de um evento sagrado, cuja expressão é parte essencial daquilo que nos constitui como humanos.”

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Homens, “doulos” e barreiras

Homem Doulo

As mulheres adoram “desvirtuar” os papéis historicamente determinados aos gêneros pelo patriarcado. Hoje em dia pilotam aviões, jogam futebol, praticam box e luta livre, andam de asa delta e até namoram outras mulheres.

Pior ainda: ousam abster-se de gestar e parir, sua função biológica por excelência, clamando que “uma mulher não se resume à maternidade”.  E de nada adiantam as queixas dos homens, invadidos em suas pretensas (e ilusórias) especificidades testosterônicas.

A invasão feminina sobre os espaços historicamente destinados aos homens sequer aceita contraditórios: o direito de romper as barreiras impostas pelos gêneros está acima de qualquer consideração essencialista. Não cabe mais restringir a ação das mulheres a uma “cartilha” e muito menos falar dos limites da ação das mulheres na cultura. Elas invadiram as universidades, a Academia, os juizados, a política e o espaço público. Não enxergamos mais nenhuma fronteira inexpugnável à invasão feminina.

Lembro que durante a minha época de estudante as meninas da faculdade de medicina resolveram que também fariam plantões em um pronto socorro privado da cidade. Porém, foram orientadas a não solicitar o ingresso no grupo de internos porque não havia dormitório feminino, apenas um quarto para todos os médicos e estudantes. Seria “indecente” colocar homens e mulheres dormindo no mesmo recinto durante as noites de plantão. Elas responderam: “Pois dormiremos aqui também, qual o problema?”. A reação dos colegas – fácil imaginar – foi truculenta: durante a noite trafegavam pelo quarto sem camisa e de cuecas, apenas para agredir, reforçando a ideia de que aquele era um espaço masculino, invadido por “novatas” que careciam de brio e coragem para assumi-lo.

Inútil. As meninas simplesmente viravam para o lado quando as grosserias aconteciam. Mostraram sua força e determinação, sem retroceder na luta por espaço. Mantiveram-se firmes diante do ataque machista, e venceram a guerra. Passaram a fazer parte do corpo de internos do Pronto Socorro.

Digo isso por uma questão de justiça e reconhecendo que a questão de gênero, nos últimos 30 anos (a partir da “queda de Stone Wall” em 1982), tornou-se crescentemente complexa e produziu modificações importantes na estrutura social. O mundo muda; não compre mais roupinhas cor-de-rosa para a sua filha; talvez ela queira usar azul, e talvez seu filho ache mais interessante acarinhar as bonecas do que chutar uma bola.

Entretanto, mais uma vez, vejo que a contrapartida também é complicada. Bastou que os homens tentassem “invadir” um território historicamente restrito às mulheres – a ação das doulas no cuidado com as gestantes – para que as próprias mulheres tragam de volta a discussão essencialista de que “isso é coisa de mulher”. Ora, sejamos coerentes. Quando falávamos que pilotar um caça e jogar bombas em asiáticos só poderia ser coisa para a fração da sociedade provida de hormônios viris, as mulheres vociferaram contra este determinismo biológico, algo entendido como um “encarceramento social” que impedia a livre expressão de suas vontades. “Não existem limites biológicos, apenas cerceamento cultural machista”, diziam elas, com força e disposição.

Pois então faz-se necessária a mesma postura libertária quando a ideia de “doulos” – homens atuando no suporte ao parto – emergir na cultura. Se os limites não valem mais para aprisionar as mulheres em sua ação social, porque tais barreiras seriam justas se aplicadas aos homens?

Deixemos que as gestantes decidam sobre a questão. Se elas aceitam a presença masculina nessa atividade – que implica proximidade, toque e encorajamento – então que a elas seja dada a última palavra. A nós cabe apenas compreender, analisar, respeitar e…. aceitar.

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Febrasgo e o Parto Domiciliar

Parto em Casa

Parabéns aos colegas da Febrasgo – Federação das Associações de Ginecologia e Obstetrícia – pelo reconhecimento do protagonismo da mulher em relação ao local de parto.

Para aqueles que reconhecem a importância do pleno protagonismo no parto restituído às mulheres, esta é uma data a se comemorar. Há apenas uns poucos meses milhares de brasileiros e brasileiras saíram às ruas para protestar contra uma atitude violenta e insensata de um grupo conservador da medicina que atacou um médico conceituado e respeitado de São Paulo por se posicionar favorável ao parto domiciliar planejado. Do ponto de vista da Medicina Baseada em Evidência, nada do que ele falou possui qualquer falha ou erro, mas isso não fui suficiente para que ele fosse atacado por seus próprios colegas, interessados em agredi-lo pelo crime de pensar livremente. Mais além dessa atitude grosseira, este grupo resolveu legislar contra outras profissões, como as parteiras profissionais, obstetrizes, enfermeiras e doulas. A razão era clara: encher de pânico os médicos humanistas e amedrontar as outras profissionais que procuram oferecer sua ajuda às grávidas. Nenhuma destas ações teve sucesso: todas foram veementemente rechaçadas pela justiça.

O tiro, todavia, sairia pela culatra. As ações violentas contra o colega que defendia o protagonismo da mulher provocaram o surgimento de um movimento inédito no Brasil. Pela primeira vez mulheres se manifestavam publicamente contra o arbítrio e o controle exercido sobre seus corpos. Era o momento para que a insatisfação contra um modelo de atenção – que negava os aspectos psicológicos, afetivos, emocionais, espirituais, sociais e fisiológicos do parto – tomasse corpo e se manifestasse.

Frases como “O Parto é Meu“, “Meu corpo, meu parto” apareceram estampadas em camisetas e barrigas por todo o país. Crianças com cartazes bradavam: “Eu Nasci em Casa“. Banners em apoio ao colega e sustentando uma medicina mais científica e humanista apareceram em ruas (de verdade e virtuais, como blogs, paginas do Facebook e sites). Artigos foram escritos. A revolução havia iniciado.

A postura autoritária deste setor conservador da medicina recebeu uma resposta popular como nunca antes havia ocorrido, expondo as contradições mais graves da prática médica contemporânea. Como poderia uma corporação calar-se diante da epidemia de cesarianas (comprovadamente perigosas, danosas e mais arriscadas) e atacar profissionais que tentavam resgatar o protagonismo historicamente expropriado das mulheres no momento do parto? Como poderiam estimular a invasão cirúrgica da cesariana e ao mesmo tempo ignorar os estudos que apontam o parto domiciliar planejado como igualmente seguro? Como seria possível sustentar um modelo centrado no médico e agredir aqueles que se mobilizavam na tentativa de colocar os holofotes novamente sobre a mulher?

A declaração da Febrasgo veio no momento certo, para reforçar as teses da autonomia feminina e a liberdade de escolha. Há poucos anos apenas as mulheres saíram às ruas para votar. Depois, para terem direito ao divórcio, e agora para que ninguém decida por elas onde terão seus filhos. Aos médicos cabe a tarefa de esclarecer as dúvidas e apontar caminhos, mas JAMAIS julgar os valores e as ideias de quem lhes pede auxílio. Em um mundo onde ainda existem mulheres que sequer podem escolher seus maridos é bom saber que a corporação médica reconhece o direito supremo que cada mulher tem de escolher onde seu filho vai nascer.

Entretanto, muito trabalho ainda há pela frente. A exemplo de sua irmã maior, a ACOG (Colégio Americano de Obstetras e Ginecologistas – EUA), a Febrasgo se baseia em estudos que não são reconhecidos pelas autoridades em epidemiologia como os mais corretos. Preferem ignorar as volumosas avaliações sobre a segurança do parto domiciliar planejado enquanto aceitam pesquisas falhas e mal feitas para dar sustentação ao seu preconceito. Por outro lado, para um otimista tais equívocos serão corrigidos em uma questão de tempo. Assim como os países europeus já ultrapassaram tais debates, e inclusive estimulam os partos extra-hospitalares, um dia o Brasil também terá esta prática incorporada à atenção do parto para as mulheres que assim o desejarem e que estejam habilitadas para tal.

Parabéns, mais uma vez aos colegas da Febrasgo. Este é um dia para ser comemorado por todos aqueles que pensam numa humanidade sem barreiras, com dignidade, liberdade de escolha e informação de qualidade.

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Medicina Baseada em Evidências

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É claro que a MBE (Medicina Baseada em Evidências) pode ser atacada, criticada, reavaliada ou até negada. Sem problemas. Eu posso criticar a face “biologizante” da Medicina Baseada em Evidências e sua “propensão” a virar uma “cartilha” de procedimentos médicos padronizados. Pode aparecer aos olhos desavisados como uma gigantesca “receita de bolo”. Ela pode ser criticada de servir como um “liquidificador de subjetividades”, que retira o poder médico de avaliar caso a caso de acordo com variantes sutis e pessoais.

Mas é claro que nós sabemos que MBE NÃO é isso. Sabemos que ela é a avaliação conscienciosa e explícita das melhores evidências aplicadas aos casos individualizados, isto é, para cada subjetividade sobre a qual ela pode oferecer subsídios. Todos nós sabemos que para um humanista a MBE é um roteiro, um mapa, uma orientação, e JAMAIS um catecismo rígido sobre que procedimentos utilizar. Portanto, os erros e usos equivocados da MBE podem ser passíveis de crítica, da mesma forma que podemos criticar de forma feroz a democracia da forma como ela se expressa e se aplica na cultura. Entretanto não acredito que seja razoável criticar a proposta do governo “para o povo e pelo povo” assim como não me parece razoável desreconhecer a importância do conhecimento sistemático e científico como ferramenta de entendimento e crescimento. Por isso é que fico curioso em saber como alguns médicos (principalmente da academia) sustentam seu rechaço a uma medicina menos mitológica e autoritária e que se sustenta no saber científico e nas análises sistemáticas para se expressar.

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Construindo a Maternidade

Menino Sorrindo

A maternidade é uma construção muito mais complexa do que aquela ditada pela biologia. Somos constituídos por um núcleo de medos, fantasias e crenças, cobertos por uma fina camada de intelecto, que nos faz pensar que estamos livres dos perigos ao nos oferecer uma ilusão de controle. Por outro lado, a linguagem nos oferece uma especial posição na criação: somos muito mais do que uma mera carcaça de ossos e tendões recoberta por uma tênue camada de pele.

No que diz respeito ao nascimento, uma criança pode ter sido adotada, nunca ter conhecido seus pais biológicos, até mesmo abandonada sem jamais ter recebido a carga de hormônios adaptativos relacionados com o vínculo, e mesmo assim ser amada, saudável e crescer com felicidade. Exemplos como este são fáceis de encontrar na cultura. Ao mesmo tempo, o presídio está cheio de adultos que nasceram de parto normal, assim como os manicômios estão lotados de mulheres que pariram naturalmente. Não existem linhas retas a nos guiar a trajetória. Se é lícito acreditar nas inúmeras evidências que demonstram a superioridade do parto fisiológico sobre qualquer alternativa cirúrgica, tanto para a mãe quanto para o bebê – e de uma forma abrangente (física, emocional, espiritual, social) – também é verdade que um parto conduzido sob estas diretrizes não é garantia de uma infância feliz ou livre de problemas. A sinuosidade da vida é o que faz dela um caminho a ser percorrido todos os dias, e sem garantias.

Da mesma forma, um nascimento com mais riscos (de toda ordem) ocorrido de forma operatória, pode produzir uma criança feliz e uma mulher plenamente realizada com sua maternidade. Basta para isso reverter as dificuldades que se apresentaram na “porta de entrada”. Se é verdade que reconhecemos a inexistência de determinismo no parto e nascimento, também é certo que valorizamos as evidências comprovando que os riscos diminuem quando adotamos uma conduta respeitosa com a natureza íntima que estrutura o nascimento humano. Se não temos nenhuma garantia como os partos mais dignos, temos a certeza de que esta escolha é a que mais facilmente leva o sujeito a receber a nutrição de afeto que será seu combustível para o resta da existência.

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Local de Parto

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Terminei de escrever uma entrevista para Fernanda Canobel, querida aluna do último Curso de Doulas em Campinas, a respeito de diversos aspectos relacionados à humanização do nascimento, assim como o espectro de atuação das doulas no novo cenário de atenção ao parto que se descortina para o Brasil. Creio que num futuro próximo possamos ver este trabalho da Fernanda, que ainda conta com a contribuição de outros profissionais. Vou publicar, apenas como “teaser” uma resposta que dei que parece ser absolutamente necessária. Esta semana fiquei sabendo que um professor de medicina de Porto Alegre disse que eu era um defensor do “parto domiciliar” (e não da humanização, que ele chamou de “animalização”), mas com isso tentava afirmar que esta defesa servia como um rechaço ao “parto hospitalar”, como se eu estivesse julgando as opções que as mulheres fazem de parir em uma maternidade. Por isso eu creio ser importante responder a esta questão, para não deixar dúvidas sobre a questão “local de parto”.

P – O parto domiciliar é melhor que o hospitalar?

R – Não, em hipótese alguma. É necessário reverter esta lógica “universalista” para uma lógica “subjetiva”. Seria o mesmo que perguntar “Música erudita é melhor do que música popular?”. A resposta seria a mesma para ambas as perguntas: “Depende de quem ouve e de quem está parindo!”. Para algumas mulheres, a tecnologia em abundância oferece uma sensação de proteção e conforto durante o processo de parto, em função do mergulho que as sociedades ocidentais fizeram na “mitologia da transcendência tecnológica”, que afirma que tudo que é tecnológico é superior à alternativa que a natureza oferece. Para outras, a tecnologia pode ter um efeito contrário, e se tornar elemento opressor para um evento natural e fisiológico. Para as primeiras os hospitais são os melhores lugares para receberem seus filhos. Para as outras, a própria casa, ou uma casa de parto, seriam ideais. Os sistemas, públicos e privados, de atenção ao parto devem prover as mulheres com TODAS as opções possíveis, para que elas possam parir com o máximo de segurança. Para aquelas que desejam parir em um hospital (no momento, a gigantesca maioria), há que providenciar atenção, humanização, vagas suficientes e suporte técnico. Para as que desejam as Casas de Parto, é necessário construir centenas, talvez milhares pelo país afora, e capacitar esta atenção com profissionais bem treinados, equipamentos corretos e um sistema ágil de transferência. Para os partos domiciliares, precisamos primeiramente respeitar os profissionais que atendem as pacientes que assim desejam ter seus filhos, sem ameaças e perseguições, mas com controle e aprimoramento técnico, principalmente no que diz respeito aos critérios de seleção para o parto domiciliar.

O discurso do professor se baseia em sua visão pessoal do nascimento como evento perigoso e que só pode ser cuidado adequadamente por cirurgiões, especializados nas piores tragédias que podem acontecer. Eu respeito esta visão, mas creio ter o direito de oferecer uma mirada alternativa. Acredito na capacidade intrínseca da mulher de gestar e parir com segurança, e vejo isso se repetir milhares de vezes todos os dias, mesmo nas condições mais adversas. Não desmereço a importância de termos cuidados com os eventos dramáticos, mas sei que podemos fazer muito pela sua diminuição com uma atitude mais branda em relação à atenção. Os perigos que o nobre professor menciona são em grande parte gerados pelo próprio sistema misógino e insensível de atenção que ainda existe em muitos lugares, de forma inconsciente, como parte da ideologia machista de nossa sociedade. Mas, sua posição como professor, faz com que sua particular visão sobre o nascimento seja captada por “osmose” pelos alunos, que de forma acrítica replicam os conceitos recebidos. Por esta razão é que a obstetrícia atual mantém-se insensível (apesar de muitos avanços, é importante admitir) às questões do protagonismo e a autonomia, que são assuntos do terreno da ética, e que nos países europeus do oeste – e mesmo nos Estados Unidos – já foram absorvidos pelos profissionais como obrigações inquestionáveis e direitos inalienáveis dos pacientes. Aqui ainda estamos numa fase muito autoritária, mas que apenas terminará quando as mulheres reivindicarem o papel que lhes cabe no processo: o protagonismo pleno no nascimento de seus filhos, com o auxílio de profissionais que respeitem esta posição.

Eu francamente não me importo de ver a humanização ser chamada de “animalização”, até porque não deixamos mesmo de ser “animais”, e pela mesma razão nunca achei errado o Michel (Odent) convocar o movimento para “mamalizar” o parto. Entretanto, o professor usou a palavra “animalizar” na tentativa de desmerecer os esforços pela humanização do parto. Por outro lado, a nossa “falta de defesa” – e o fato de que assumimos nossa “animalidade” e reconhecemos que muito temos a aprender com a “etologia do parto” (o estudo do comportamento animal aplicado ao processo da parturição) – já serve como uma boa resposta. Muitas vezes o silêncio esclarece mais do que um milhão de palavras. Somos MESMO animais, e temos nossas pegadas muito distantes: no barro cambriano dos oceanos quentes e na poeira das estrelas que nos aguardam. Se somos anjos e desejamos voar, também somos bichos e queremos dormir placidamente no colo da natureza.

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