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Robert Bradley e a desmedicalização do parto

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Uma questão pertinente:

Robert Bradley, que trabalhou nos Estados Unidos nos anos 50 e introduziu o conceito de “Husband Coached Childbirth“, e a prática do “parto desmedicalizado”, atendeu mais de 14 mil partos durante sua carreira obstétrica. Estes partos, quando avaliados, mostram números absolutamente impressionantes. Mais de 90% dos partos ocorreram sem uso de medicação alguma, apenas com suporte emocional e a ajuda do marido (que na época atuava como uma “doula”), e a taxa de cesarianas foi de apenas 3%. Sim, 90% de partos totalmente fisiológicos e apenas 3% de intervenções cirúrgicas, algo absolutamente impensável hoje em dia.

Minha pergunta é: se Robert Bradley vivesse em São Paulo, Rio ou Porto Alegre nos dias de hoje, ele conseguiria estes índices, carregando consigo apenas as suas convicções e atitudes? Ou o mundo em que ele viveu (os Estados Unidos dos anos 50) é substancialmente diferente do mundo de hoje, a ponto de pressioná-lo a ter condutas diferentes? Que tipo de pressões ele sofreria, dos colegas e dos clientes, para ter uma atitude mais intervencionista?

Minha mãe tem 1.49m e teve 4 filhos de parto normal, nascimentos fisiológicos e desmedicalizados, apesar de serem no hospital. Ganharia ela os filhos dessa maneira se os tivesse hoje? Ou teria sido apavorada desde o nascimento pela sua “bacia estreita”, pela “baixa estatura” ou pelos riscos imensos de ter um bebê “esmagado” pelo canal vaginal.

Melhorar os profissionais (e o modelo de atenção) é suficiente para esta revolução, ou só teremos melhoria REAL quando a cultura como um todo se transformar?

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Manifesto

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“Algumas pessoas dotadas de muito rancor e pouca informação acusam-nos de sermos refratários ao uso de tecnologia. Enganam-se, pois somos abertos a toda aplicação de recursos que possa auxiliar mães e bebês. Entretanto, nos posicionamos contra quaisquer abusos praticados em nome de uma lógica mercantilista e corporativista na atenção ao parto. Da mesma forma temos uma posição firme e bem fundamentada quanto ao direito de escolha sobre o local de parto como um DIREITO HUMANO fundamental. Para isso usamos medicina baseada em evidências para fortalecer nossas posições, e não mitologias urbanas ou ideias preconceituosas. Não somos movidos por fantasias ou crenças religiosas, mas acreditamos no potencial transformador da liberdade, da autonomia e do conhecimento. Sabemos que a escolha de um modelo de parto pertence à mulher e sua família, e que nossa posição é de suporte e auxílio, jamais de expropriação de um evento sagrado, cuja expressão é parte essencial daquilo que nos constitui como humanos.”

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Homens, “doulos” e barreiras

Homem Doulo

As mulheres adoram “desvirtuar” os papéis historicamente determinados aos gêneros pelo patriarcado. Hoje em dia pilotam aviões, jogam futebol, praticam box e luta livre, andam de asa delta e até namoram outras mulheres.

Pior ainda: ousam abster-se de gestar e parir, sua função biológica por excelência, clamando que “uma mulher não se resume à maternidade”.  E de nada adiantam as queixas dos homens, invadidos em suas pretensas (e ilusórias) especificidades testosterônicas.

A invasão feminina sobre os espaços historicamente destinados aos homens sequer aceita contraditórios: o direito de romper as barreiras impostas pelos gêneros está acima de qualquer consideração essencialista. Não cabe mais restringir a ação das mulheres a uma “cartilha” e muito menos falar dos limites da ação das mulheres na cultura. Elas invadiram as universidades, a Academia, os juizados, a política e o espaço público. Não enxergamos mais nenhuma fronteira inexpugnável à invasão feminina.

Lembro que durante a minha época de estudante as meninas da faculdade de medicina resolveram que também fariam plantões em um pronto socorro privado da cidade. Porém, foram orientadas a não solicitar o ingresso no grupo de internos porque não havia dormitório feminino, apenas um quarto para todos os médicos e estudantes. Seria “indecente” colocar homens e mulheres dormindo no mesmo recinto durante as noites de plantão. Elas responderam: “Pois dormiremos aqui também, qual o problema?”. A reação dos colegas – fácil imaginar – foi truculenta: durante a noite trafegavam pelo quarto sem camisa e de cuecas, apenas para agredir, reforçando a ideia de que aquele era um espaço masculino, invadido por “novatas” que careciam de brio e coragem para assumi-lo.

Inútil. As meninas simplesmente viravam para o lado quando as grosserias aconteciam. Mostraram sua força e determinação, sem retroceder na luta por espaço. Mantiveram-se firmes diante do ataque machista, e venceram a guerra. Passaram a fazer parte do corpo de internos do Pronto Socorro.

Digo isso por uma questão de justiça e reconhecendo que a questão de gênero, nos últimos 30 anos (a partir da “queda de Stone Wall” em 1982), tornou-se crescentemente complexa e produziu modificações importantes na estrutura social. O mundo muda; não compre mais roupinhas cor-de-rosa para a sua filha; talvez ela queira usar azul, e talvez seu filho ache mais interessante acarinhar as bonecas do que chutar uma bola.

Entretanto, mais uma vez, vejo que a contrapartida também é complicada. Bastou que os homens tentassem “invadir” um território historicamente restrito às mulheres – a ação das doulas no cuidado com as gestantes – para que as próprias mulheres tragam de volta a discussão essencialista de que “isso é coisa de mulher”. Ora, sejamos coerentes. Quando falávamos que pilotar um caça e jogar bombas em asiáticos só poderia ser coisa para a fração da sociedade provida de hormônios viris, as mulheres vociferaram contra este determinismo biológico, algo entendido como um “encarceramento social” que impedia a livre expressão de suas vontades. “Não existem limites biológicos, apenas cerceamento cultural machista”, diziam elas, com força e disposição.

Pois então faz-se necessária a mesma postura libertária quando a ideia de “doulos” – homens atuando no suporte ao parto – emergir na cultura. Se os limites não valem mais para aprisionar as mulheres em sua ação social, porque tais barreiras seriam justas se aplicadas aos homens?

Deixemos que as gestantes decidam sobre a questão. Se elas aceitam a presença masculina nessa atividade – que implica proximidade, toque e encorajamento – então que a elas seja dada a última palavra. A nós cabe apenas compreender, analisar, respeitar e…. aceitar.

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Febrasgo e o Parto Domiciliar

Parto em Casa

Parabéns aos colegas da Febrasgo – Federação das Associações de Ginecologia e Obstetrícia – pelo reconhecimento do protagonismo da mulher em relação ao local de parto.

Para aqueles que reconhecem a importância do pleno protagonismo no parto restituído às mulheres, esta é uma data a se comemorar. Há apenas uns poucos meses milhares de brasileiros e brasileiras saíram às ruas para protestar contra uma atitude violenta e insensata de um grupo conservador da medicina que atacou um médico conceituado e respeitado de São Paulo por se posicionar favorável ao parto domiciliar planejado. Do ponto de vista da Medicina Baseada em Evidência, nada do que ele falou possui qualquer falha ou erro, mas isso não fui suficiente para que ele fosse atacado por seus próprios colegas, interessados em agredi-lo pelo crime de pensar livremente. Mais além dessa atitude grosseira, este grupo resolveu legislar contra outras profissões, como as parteiras profissionais, obstetrizes, enfermeiras e doulas. A razão era clara: encher de pânico os médicos humanistas e amedrontar as outras profissionais que procuram oferecer sua ajuda às grávidas. Nenhuma destas ações teve sucesso: todas foram veementemente rechaçadas pela justiça.

O tiro, todavia, sairia pela culatra. As ações violentas contra o colega que defendia o protagonismo da mulher provocaram o surgimento de um movimento inédito no Brasil. Pela primeira vez mulheres se manifestavam publicamente contra o arbítrio e o controle exercido sobre seus corpos. Era o momento para que a insatisfação contra um modelo de atenção – que negava os aspectos psicológicos, afetivos, emocionais, espirituais, sociais e fisiológicos do parto – tomasse corpo e se manifestasse.

Frases como “O Parto é Meu“, “Meu corpo, meu parto” apareceram estampadas em camisetas e barrigas por todo o país. Crianças com cartazes bradavam: “Eu Nasci em Casa“. Banners em apoio ao colega e sustentando uma medicina mais científica e humanista apareceram em ruas (de verdade e virtuais, como blogs, paginas do Facebook e sites). Artigos foram escritos. A revolução havia iniciado.

A postura autoritária deste setor conservador da medicina recebeu uma resposta popular como nunca antes havia ocorrido, expondo as contradições mais graves da prática médica contemporânea. Como poderia uma corporação calar-se diante da epidemia de cesarianas (comprovadamente perigosas, danosas e mais arriscadas) e atacar profissionais que tentavam resgatar o protagonismo historicamente expropriado das mulheres no momento do parto? Como poderiam estimular a invasão cirúrgica da cesariana e ao mesmo tempo ignorar os estudos que apontam o parto domiciliar planejado como igualmente seguro? Como seria possível sustentar um modelo centrado no médico e agredir aqueles que se mobilizavam na tentativa de colocar os holofotes novamente sobre a mulher?

A declaração da Febrasgo veio no momento certo, para reforçar as teses da autonomia feminina e a liberdade de escolha. Há poucos anos apenas as mulheres saíram às ruas para votar. Depois, para terem direito ao divórcio, e agora para que ninguém decida por elas onde terão seus filhos. Aos médicos cabe a tarefa de esclarecer as dúvidas e apontar caminhos, mas JAMAIS julgar os valores e as ideias de quem lhes pede auxílio. Em um mundo onde ainda existem mulheres que sequer podem escolher seus maridos é bom saber que a corporação médica reconhece o direito supremo que cada mulher tem de escolher onde seu filho vai nascer.

Entretanto, muito trabalho ainda há pela frente. A exemplo de sua irmã maior, a ACOG (Colégio Americano de Obstetras e Ginecologistas – EUA), a Febrasgo se baseia em estudos que não são reconhecidos pelas autoridades em epidemiologia como os mais corretos. Preferem ignorar as volumosas avaliações sobre a segurança do parto domiciliar planejado enquanto aceitam pesquisas falhas e mal feitas para dar sustentação ao seu preconceito. Por outro lado, para um otimista tais equívocos serão corrigidos em uma questão de tempo. Assim como os países europeus já ultrapassaram tais debates, e inclusive estimulam os partos extra-hospitalares, um dia o Brasil também terá esta prática incorporada à atenção do parto para as mulheres que assim o desejarem e que estejam habilitadas para tal.

Parabéns, mais uma vez aos colegas da Febrasgo. Este é um dia para ser comemorado por todos aqueles que pensam numa humanidade sem barreiras, com dignidade, liberdade de escolha e informação de qualidade.

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Medicina Baseada em Evidências

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É claro que a MBE (Medicina Baseada em Evidências) pode ser atacada, criticada, reavaliada ou até negada. Sem problemas. Eu posso criticar a face “biologizante” da Medicina Baseada em Evidências e sua “propensão” a virar uma “cartilha” de procedimentos médicos padronizados. Pode aparecer aos olhos desavisados como uma gigantesca “receita de bolo”. Ela pode ser criticada de servir como um “liquidificador de subjetividades”, que retira o poder médico de avaliar caso a caso de acordo com variantes sutis e pessoais.

Mas é claro que nós sabemos que MBE NÃO é isso. Sabemos que ela é a avaliação conscienciosa e explícita das melhores evidências aplicadas aos casos individualizados, isto é, para cada subjetividade sobre a qual ela pode oferecer subsídios. Todos nós sabemos que para um humanista a MBE é um roteiro, um mapa, uma orientação, e JAMAIS um catecismo rígido sobre que procedimentos utilizar. Portanto, os erros e usos equivocados da MBE podem ser passíveis de crítica, da mesma forma que podemos criticar de forma feroz a democracia da forma como ela se expressa e se aplica na cultura. Entretanto não acredito que seja razoável criticar a proposta do governo “para o povo e pelo povo” assim como não me parece razoável desreconhecer a importância do conhecimento sistemático e científico como ferramenta de entendimento e crescimento. Por isso é que fico curioso em saber como alguns médicos (principalmente da academia) sustentam seu rechaço a uma medicina menos mitológica e autoritária e que se sustenta no saber científico e nas análises sistemáticas para se expressar.

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Construindo a Maternidade

Menino Sorrindo

A maternidade é uma construção muito mais complexa do que aquela ditada pela biologia. Somos constituídos por um núcleo de medos, fantasias e crenças, cobertos por uma fina camada de intelecto, que nos faz pensar que estamos livres dos perigos ao nos oferecer uma ilusão de controle. Por outro lado, a linguagem nos oferece uma especial posição na criação: somos muito mais do que uma mera carcaça de ossos e tendões recoberta por uma tênue camada de pele.

No que diz respeito ao nascimento, uma criança pode ter sido adotada, nunca ter conhecido seus pais biológicos, até mesmo abandonada sem jamais ter recebido a carga de hormônios adaptativos relacionados com o vínculo, e mesmo assim ser amada, saudável e crescer com felicidade. Exemplos como este são fáceis de encontrar na cultura. Ao mesmo tempo, o presídio está cheio de adultos que nasceram de parto normal, assim como os manicômios estão lotados de mulheres que pariram naturalmente. Não existem linhas retas a nos guiar a trajetória. Se é lícito acreditar nas inúmeras evidências que demonstram a superioridade do parto fisiológico sobre qualquer alternativa cirúrgica, tanto para a mãe quanto para o bebê – e de uma forma abrangente (física, emocional, espiritual, social) – também é verdade que um parto conduzido sob estas diretrizes não é garantia de uma infância feliz ou livre de problemas. A sinuosidade da vida é o que faz dela um caminho a ser percorrido todos os dias, e sem garantias.

Da mesma forma, um nascimento com mais riscos (de toda ordem) ocorrido de forma operatória, pode produzir uma criança feliz e uma mulher plenamente realizada com sua maternidade. Basta para isso reverter as dificuldades que se apresentaram na “porta de entrada”. Se é verdade que reconhecemos a inexistência de determinismo no parto e nascimento, também é certo que valorizamos as evidências comprovando que os riscos diminuem quando adotamos uma conduta respeitosa com a natureza íntima que estrutura o nascimento humano. Se não temos nenhuma garantia como os partos mais dignos, temos a certeza de que esta escolha é a que mais facilmente leva o sujeito a receber a nutrição de afeto que será seu combustível para o resta da existência.

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Local de Parto

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Terminei de escrever uma entrevista para Fernanda Canobel, querida aluna do último Curso de Doulas em Campinas, a respeito de diversos aspectos relacionados à humanização do nascimento, assim como o espectro de atuação das doulas no novo cenário de atenção ao parto que se descortina para o Brasil. Creio que num futuro próximo possamos ver este trabalho da Fernanda, que ainda conta com a contribuição de outros profissionais. Vou publicar, apenas como “teaser” uma resposta que dei que parece ser absolutamente necessária. Esta semana fiquei sabendo que um professor de medicina de Porto Alegre disse que eu era um defensor do “parto domiciliar” (e não da humanização, que ele chamou de “animalização”), mas com isso tentava afirmar que esta defesa servia como um rechaço ao “parto hospitalar”, como se eu estivesse julgando as opções que as mulheres fazem de parir em uma maternidade. Por isso eu creio ser importante responder a esta questão, para não deixar dúvidas sobre a questão “local de parto”.

P – O parto domiciliar é melhor que o hospitalar?

R – Não, em hipótese alguma. É necessário reverter esta lógica “universalista” para uma lógica “subjetiva”. Seria o mesmo que perguntar “Música erudita é melhor do que música popular?”. A resposta seria a mesma para ambas as perguntas: “Depende de quem ouve e de quem está parindo!”. Para algumas mulheres, a tecnologia em abundância oferece uma sensação de proteção e conforto durante o processo de parto, em função do mergulho que as sociedades ocidentais fizeram na “mitologia da transcendência tecnológica”, que afirma que tudo que é tecnológico é superior à alternativa que a natureza oferece. Para outras, a tecnologia pode ter um efeito contrário, e se tornar elemento opressor para um evento natural e fisiológico. Para as primeiras os hospitais são os melhores lugares para receberem seus filhos. Para as outras, a própria casa, ou uma casa de parto, seriam ideais. Os sistemas, públicos e privados, de atenção ao parto devem prover as mulheres com TODAS as opções possíveis, para que elas possam parir com o máximo de segurança. Para aquelas que desejam parir em um hospital (no momento, a gigantesca maioria), há que providenciar atenção, humanização, vagas suficientes e suporte técnico. Para as que desejam as Casas de Parto, é necessário construir centenas, talvez milhares pelo país afora, e capacitar esta atenção com profissionais bem treinados, equipamentos corretos e um sistema ágil de transferência. Para os partos domiciliares, precisamos primeiramente respeitar os profissionais que atendem as pacientes que assim desejam ter seus filhos, sem ameaças e perseguições, mas com controle e aprimoramento técnico, principalmente no que diz respeito aos critérios de seleção para o parto domiciliar.

O discurso do professor se baseia em sua visão pessoal do nascimento como evento perigoso e que só pode ser cuidado adequadamente por cirurgiões, especializados nas piores tragédias que podem acontecer. Eu respeito esta visão, mas creio ter o direito de oferecer uma mirada alternativa. Acredito na capacidade intrínseca da mulher de gestar e parir com segurança, e vejo isso se repetir milhares de vezes todos os dias, mesmo nas condições mais adversas. Não desmereço a importância de termos cuidados com os eventos dramáticos, mas sei que podemos fazer muito pela sua diminuição com uma atitude mais branda em relação à atenção. Os perigos que o nobre professor menciona são em grande parte gerados pelo próprio sistema misógino e insensível de atenção que ainda existe em muitos lugares, de forma inconsciente, como parte da ideologia machista de nossa sociedade. Mas, sua posição como professor, faz com que sua particular visão sobre o nascimento seja captada por “osmose” pelos alunos, que de forma acrítica replicam os conceitos recebidos. Por esta razão é que a obstetrícia atual mantém-se insensível (apesar de muitos avanços, é importante admitir) às questões do protagonismo e a autonomia, que são assuntos do terreno da ética, e que nos países europeus do oeste – e mesmo nos Estados Unidos – já foram absorvidos pelos profissionais como obrigações inquestionáveis e direitos inalienáveis dos pacientes. Aqui ainda estamos numa fase muito autoritária, mas que apenas terminará quando as mulheres reivindicarem o papel que lhes cabe no processo: o protagonismo pleno no nascimento de seus filhos, com o auxílio de profissionais que respeitem esta posição.

Eu francamente não me importo de ver a humanização ser chamada de “animalização”, até porque não deixamos mesmo de ser “animais”, e pela mesma razão nunca achei errado o Michel (Odent) convocar o movimento para “mamalizar” o parto. Entretanto, o professor usou a palavra “animalizar” na tentativa de desmerecer os esforços pela humanização do parto. Por outro lado, a nossa “falta de defesa” – e o fato de que assumimos nossa “animalidade” e reconhecemos que muito temos a aprender com a “etologia do parto” (o estudo do comportamento animal aplicado ao processo da parturição) – já serve como uma boa resposta. Muitas vezes o silêncio esclarece mais do que um milhão de palavras. Somos MESMO animais, e temos nossas pegadas muito distantes: no barro cambriano dos oceanos quentes e na poeira das estrelas que nos aguardam. Se somos anjos e desejamos voar, também somos bichos e queremos dormir placidamente no colo da natureza.

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Portas Fechadas

Bisturi

Paciente adentra no meu consultório junto com a mãe. Antes de falar rompe em prantos. A mãe, amorosamente, lhe diz “Não precisa ficar nervosa, acalme-se“, ao que eu explico “Podes chorar. Não sei o que tens, mas deves ter tuas razões“. Ela me explica que eu sou o sétimo médico em que ela vai a procura de um parto normal. Sim, apenas um parto normal. Ela não queria um parto domiciliar, nem com luzes coloridas, velas perfumadas ou um tocador de cítara. Não, apenas que seu filho “saísse por onde entrou”, como ela mesma disse.

As outras médicas (sim, todas mulheres) simplesmente se negaram a atender um parto normal. Menos mal que ela tenha evitado os “falsos vaginalistas“, aqueles que dizem: “Olha, até faço parto normal, desde que Vênus esteja alinhada com Saturno num ângulo de 37 graus, num céu com boa visibilidade. Ah, para isso não pode estar chovendo, porque sair de casa com chuva ninguém merece, né?“

Seis mulheres se negaram…

Fui obrigado a dizer: “Nenhuma delas foi forte suficiente para encarar atender o teu parto normal, né?”. Uma piada dura, mas que carrega um questionamento sério e importante. Por que logo as mulheres são as que mais disseminam a misoginia da obstetrícia contemporânea? Elas é que deveriam ser a mudança, mas parece que a força da corporação é mais forte do que a sua natural feminilidade. No embate entre o masculino e o feminino, aquele se sobrepõe a esta. Triste isso…

Seis mulheres que fecharam a porta…

E ninguém diz nada sobre este tipo de violência. Ninguém, além de nós, se escandaliza. Eu pergunto: onde estão os defensores que lutam pela mulher e que as defendem contra as violências cotidianas? Acaso este tipo de agressão à autonomia não merece ser combatido por este movimento? Onde está o Ministério Público, que silencia diante do fechar de portas? E os conselhos profissionais, porque não se indignam diante de profissionais que expõe voluntariamente suas pacientes a um risco reconhecidamente aumentado?

Ah, eu já ia esquecendo. Esta pobre moça veio aqui porque viu o filme O Renascimento do Parto. Ela e o marido saíram do cinema determinados a receber seu filho nesse mundo como cidadão, e não como objeto. É isso. É assim que será a revolução silenciosa que faremos. Uma mulher de cada vez. Um nascimento digno e respeitoso espalhando uma onda de afeto e carinho para todos que puderem sentir, e se permitam modificar.

Essa moça estava totalmente desesperançada. O marido nem veio à consulta, mas as razões eram boas: “Porque vou me frustrar de novo? Pergunte a ele se ele aceita atender um parto em fevereiro. Se ele não te cortar as esperanças de imediato, eu vou na próxima consulta“. A mãe foi uma boa ajuda, pois respeitava e acolhia os desejos da filha. As desculpas para as negativas de parto seriam cômicas, não fossem trágicas e dramáticas. Você tem a “pelve infantil”, disse uma. Como assim?, pergunto. “Tem que levar o diploma da bacia para poder ter parto?” pensei. Outra pérola: ” Você quer mesmo passar por toda essa dor?“. A paciente ainda tentou “explicar” para a médica a respeito das dores de uma cesariana, mas percebeu que era inútil e sem sentido. Outra médica fez algo incrível. Quando ela entrou na sala, ainda antes de se sentar, a médica disparou: “Olha, se você está procurando parto normal já vou avisando que só faço cesariana. Não tenho tempo a perder em trabalhos de parto. Só realizo cesarianas com hora marcada e, se quiser, tenho horário para o dia 20. Caso não queira, peço que procure outro médico“. Assim mesmo, na lata. A gente até fica feliz por não ter sido enrolado, mas é o mesmo tipo de felicidade que temos ao sermos assaltado sem levar uma coronhada. “Pelo menos não bateu“, ou a já famosa “estupra mas não mata“.

Eu não tenho muitas restrições à livre expressão das preferências dos profissionais. Prefiro até que os médicos sejam sinceros e não enrolem pacientes até 40 semanas, quando então se inicia a catilinária do pouco líquido, cordões enrolados, falta de encaixe, bacias “infantis”, pente fechado, colo grosso, etc. Por outro lado, o que percebo é o fechamento do cerco: a incompetência e o desinteresse pela fisiologia do nascimento assumem proporções inaceitáveis. Não há mais nenhum pudor, vergonha ou receio de expor de forma desabrida a rejeição ao parto normal. Os partos são repudiados como um modelo antiquado de telefone celular.

O problema é o MODELO, e isso não vou cansar de repetir. Estão errados os que pensam que eu considero essas médicas as “culpadas” do processo, as vilãs. Não!!!! Elas também são vítimas de uma sociedade que entrega a responsabilidade de atender partos para pessoas completamente desinteressadas e despreparadas para esta atividade sutil e delicada. Elas são formadas por 9 longos anos na escola médica para intervir no nascimento, e na hora do parto tudo o que se deseja é a não intervenção, a paciência , a delicadeza a doçura e o respeito à fisiologia. Médicas obstetras carregam o bisturi na mão quando deveriam ser ensinadas a levar uma flor. Não é culpa delas; é de um modelo que avilta a natureza em nome da idealização e exaltação da intervenção tecnológica, através do “Mito da transcendência Tecnológica” que Robbie Davis-Floyd tanto falava em seus livros.

O que eu desejo é que as mulheres que sonham com um parto sem intervenções possam tê-los sem esta romaria indecente, numa mendicância indigna por um nascimento de acordo com seus valores. Para isso, de nada adianta apontar dedos para os profissionais. Eles estão no lugar errado, fazendo o que melhor podem dentro do seu sistema de crenças. O parto deve voltar para as mãos das pessoas que acreditam nele, que se apaixonam por ele, e que desejam oferecer uma vivência livre e respeitosa para as mulheres e seus filhos. Essa é a nossa tarefa, nossa missão. Que nenhuma mulher mais tenha que sofrer desta maneira pelo simples desejo de parir em paz. E que assim seja…

Amém.

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Escolhas e Recusas

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As mulheres devem ser livres para tomar decisões informadas relativas ao modo de parto, mesmo correndo o risco de fazerem escolhas tolas, em todos os sentidos – psicológico, emocional, físico, bacteriológico e espiritual – como é a escolha pela cesariana. Todavia, ainda prefiro erros que surgem na liberdade aos acertos que emergem da tirania. Eu ainda prefiro ver mulheres com liberdade para escolher, mesmo estando submersas em informações equivocadas, cheias de preconceitos e desorientadas a respeito dos riscos e benefícios da cesariana. Isso, apesar de ser triste e duro de aceitar, ainda é melhor que a tutela e a supressão da liberdade de escolha.

Não cabe a mim julgar os valores daqueles que se tratam, mas apenas zelar para que eles tenham o melhor atendimento possível dentro do seu universo de crenças e valores.

Tal discussão é deveras complexa, e que em muito extrapola a prática da Medicina, mas tem a ver com algo MUITO mais profundo que é a ÉTICA, na qual a própria medicina se fundamenta e embasa, assim como muitas outras artes humanas. Por isso afirmo que nossas ações não podem se sobrepor aos desejos livremente expressos dos pacientes, por mais justas e coerentes que estas sejam. Médicos não estão acima do bem e do mal, e não podemos nos colocar na posição de “reguladores da vida e da moral”. Mesmo que uma atitude dramática – como deixar de usar um medicamento ou procedimento potencialmente salvador – possa nos ferir e entristecer, ainda assim creio que o paciente não pode ter sua liberdade e autonomia solapadas por valores externos a si. Já senti na pele este tipo de dilema ardente e corrosivo, mas ainda assim prefiro a estrada longa e tortuosa da busca pela liberdade.

Robbie Davis-Floyd dizia que “A humanização do nascimento não pode se tornar a Gestapo do parto normal“. É isso o que eu defendo: liberdade para as escolhas, mesmo para aquelas que se mostram equivocadas e prejudiciais. Não acredito na repressão como projeto pedagógico de longo prazo e prefiro o lento aprimoramento através da conscientização, pois que esta leva o indivíduo no rumo da liberdade, enquanto a outra o aprisiona na dependência e na tutela.

Mas e quanto aos “direitos do nascituro”, perguntarão alguns. Pois eu afirmo que se arguirmos em nome do “feto” então o “Estado” (ou a Igreja) assaltarão o corpo da mulher e a privarão da liberdade sobre ele (como sempre o fizeram ao longo da história). Com este tipo de argumento é que se realizaram cesarianas por demanda judicial, com mulheres algemadas por ordem de um juiz, e em nome do “bem estar do feto”, de acordo com visões parciais de alguns “peritos” que nada mais estavam fazendo do que impondo seus preconceitos e visões parciais da realidade sobre o direito de uma mulher de dispor do próprio corpo.

Garantir direitos é tarefa árdua e pressupõe um especial amadurecimento da sociedade. Se bem que o caminho é longo também é verdade que essa trilha é essencial. Não há caminho que não seja em direção à liberdade, pois que ela é nossa meta última.

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Cala boca…. negro!

Ela ainda não acabou em nossos corações
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Até quando vamos fechar os olhos para a realidade dos excluídos?

Estávamos, eu e meu irmão Roger, assistindo uma partida de futebol nos anos 80, em um estádio da capital gaúcha. Os chutes incertos, as pisadas na bola, a monotonia do placar não ajudavam a melhorar aquela noite de quarta-feira. Não era a ruindade dos times, era…. a fase. Talvez uma sinistrose, uma falta de conjunções estelares adequadas, ou mesmo uma falha do esquema tático.

Fossem os anos 90 e diríamos: “Tem que jogar com três zagueiros para liberar os alas”. Mais recentemente diríamos: “Também, eles fizeram duas linhas de quatro, assim não dá para furar a retranca”. Talvez alguma dessas explicações pudesse se adequar à partida. Ou tratava-se simplesmente de azar. “Mau humor da Deusa Álea”, diria Max, referindo-se à Deusa que coordena os eventos inesperados e imprevisíveis.

O jogo morfético repetia lances banais, sem que a periculosidade eminente de um gol nos oferecesse um estímulo para despertar. Com os queixos apoiados nas mãos devaneávamos deixando o jogo como pano de fundo para pensamentos mais produtivos.

Subitamente, o centroavante do nosso time, um negro possante, comprido e que não tinha na velocidade o seu mais forte atributo, vê escorrer por baixo dos pés a bola que, fosse dominada, poderia produzir calafrios no guarda-balas adversário. Ouviu-se um “Uuuuu”, pelo estádio, seguido de uma série de palavrões usuais em estádios de futebol. Coisas desopilativas, exonerativas e fundamentais na catarse coletiva do esporte bretão. Passados alguns segundos, quando já se fazia o silêncio e as pessoas voltavam a se sentar, escuto o grito de um torcedor que estava sentado dois lances de arquibancada acima de nós.

“TE MEXE… NEGRO!!”

Voltei a cabeça para ver de onde vinha, e pude ver um jovem, não mais de 30 anos, sentado ao lado de um senhor mais velho. Ele apenas sorriu de forma debochada quando viu que sua exclamação chamou a atenção de muitas pessoas em volta. Olho para o meu irmão, um tanto incrédulo, e pergunto: “Ele disse isso mesmo?”

Meu irmão baixou os olhos e aquiesceu. Depois olhou para mim e disse: ”Não te mete. Fica quieto”.

Sempre que escuto histórias de racismo e violência eu imediatamente recordo dessa cena da minha juventude. Curiosamente, o que mais me chamava à atenção não era a palavra grosseira, aquela mesma que os americanos chamam de “n word”, mas o hiato violento e obtuso que a precedeu. A brutalidade de um espaço entre as palavras corrói meus ouvidos e me envergonha até hoje. A distância entre “mexe” e “negro” é que tornou essa cena violenta, estúpida e inaceitável. Para mim soava como “Mexa-se, porque você é negro!!” A ênfase na cor funcionava como uma viagem de um século e meio para trás. Lá, em muitas partes desse país, um senhor de escravos teria dito a mesma coisa, e com as mesmas palavras, e por sobre os mesmos direitos presumidos. “Mexa essa carne escura que me pertence, Negro. Não esqueça que eu te dou de comer para que trabalhes na minha terra. Anda, negro, levanta. Deixa de ser mole.”

Naquele dia senti vergonha de ser branco. Mais ainda, senti vergonha de ser humano. Senti vergonha do meu silêncio e da minha cumplicidade. Senti pena do homem que a disse, mas raiva por ter me omitido. Passou, agora eu lamento.

Esses pensamentos todos vieram a minha mente ao ler um relato de parto de uma mãe negra que foi publicado no blog “Blogueiras Negras” , de autoria de Raíssa Gomes.

(http://blogueirasnegras.org/2013/08/12/negra-gravida/)

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As discussões sobre humanização do parto e nascimento eram praticamente novidade total para mim quando me descobri grávida, em janeiro de 2011. Apesar de não ter muita informação, de cara eu já sabia que queria que meu filho ou filha viesse ao mundo por parto normal. Mal sabia eu a luta que precisaria enfrentar para que isso fosse possível.

A realidade dos atendimentos nos serviços de saúde não é animadora de um modo geral, e o quadro piora quando se trata de atendimento a mulheres negras. De acordo com Alaerte Martins (2000), as mulheres negras tem 7,4 vezes mais chances de morrer antes, durante ou pouco tempo após o parto, do que mulheres brancas. Além de doenças pré-existentes e falta de acesso a serviços de saúde, o atendimento prestado às mulheres negras pode ajudar a explicar esses números.

Eu comecei a me deparar com este tipo de atendimento quando, ao sofrer um sangramento, com apenas cinco semanas de gestação, imaginei, como a maioria das mulheres em início de gravidez, que aquilo significava que eu estava perdendo o filho que tinha acabado de descobrir que teria. Corri com a minha mãe para a emergência de um hospital particular de Brasília, demorei muito para ser atendida e, quando conseguimos realizar uma ecografia, o técnico responsável pelo exame, que foi grosseiro desde o início do atendimento, me disse: “Não tem NADA aí dentro de você.”

Não sei dizer exatamente o que me fez ficar calma naquele momento. Perguntei pra ele se eu havia perdido meu filho e ele disse, sem olhar nos meus olhos, que eu nunca havia estado grávida. Algo me dizia que eu deveria desconsiderar as palavras daquele homem. Vesti-me e fui para o consultório do obstetra que me acompanhava, sem saber direito o que pensar. “Durante a consulta, o médico me disse para ficar calma e fazer exames de sangue nos próximos dias, se as taxas que indicam a gravidez continuassem subindo, eu estava grávida, senão, não.”

Realizei os tais exames, a gravidez se desenvolveu muito bem. As consultas com o médico eram sempre tranquilizadoras e práticas, como eu achava que gostava. Mas sempre me colocavam num lugar de coadjuvante da gravidez. O que interessava era o bem estar do bebê e quem sabia tudo o que eu deveria fazer, era o médico.

Já aos nove meses de gravidez, esperando Malik chegar a qualquer momento, tive uma infecção urinária. Fui a uma emergência para conseguir tratar a infecção o mais rápido possível para que não fosse necessário cair numa cesariana por conta disso. Fui atendida por uma médica, que mais uma vez não olhou no meu rosto. Fez perguntas sobre porque estava ali, eu disse que estava com cistite. Ela disse com um tom irônico (sem me olhar): como você sabe? Eu respondi que já tinha tido isso anteriormente, solicitei o exame e saí da sala. Quando voltei com o resultado do exame, ela me passou um antibiótico fortíssimo, que eu tinha certeza que não poderia tomar estando grávida. E questionei: “Doutora, mulheres grávidas podem tomar esse medicamento?” e ela disse: “Você não me disse em momento nenhum que estava grávida”. Não sei se vocês vão concordar comigo, mas eu achei que com uma barriga dessas, não seria necessário avisar que estava grávida.

Eu grávida aos 9 meses de gestação

Naquele momento não consegui nem questionar a médica. Apenas disse que achei que minha gravidez era evidente tomei a receita da mão dela e saí totalmente revoltada do consultório. Tudo o que já tinha ouvido falar, lido, escutado e vivido na minha trajetória como mulher negra militante veio com toda força. Até que ponto conseguimos ser invisibilizadas mesmo com uma barriga deste tamanho? O que me tornou tão invisível? Chorei. Primeiro por passar por isso a essa altura e perceber que a minha vida e a do meu filho não valem nada na mão de pessoas que supostamente deveriam cuidar da nossa saúde, e depois porque não consegui reagir, não consegui me defender e nem defender meu filho desse racismo atroz contra o qual eu decidi dedicar a minha vida.

Algumas semanas depois, chegou o momento de Malik nascer. Eu tinha feito muitos exercícios, caminhada, subi e desci ladeiras. Já estávamos com 40 semanas e 3 dias de intimidade e eu morrendo de ansiedade para conhecê-lo e sofrendo os “avisos” do médico de que ele não deixaria a gravidez passar de 41 semanas (a OMS orienta que uma gestação normal pode chegar até 42 semanas sem risco para mãe e bebê).

Chegou o dia da consulta, o médico estava operando algumas mães para tirar os filhos dela via cesariana, e iria se atrasar. Fui então, para o hospital que tinha uma propaganda de humanização. O site mostrava salas com bolas, música ambiente, banqueta, um monte coisas. Corri pra lá. Fui atendida por uma médica plantonista, que fez um detestável exame de toque e me disse que eu estava com 4 centímetros de dilatação, mas que eu tinha que chamar meu médico, porque meu filho não poderia nascer naquele hospital, já que ela não ia deixar de atender 18 pessoas no plantão só para fazer UM parto. E que se fosse realmente necessário eu ter meu filho ali, ela iria me submeter a uma cesariana porque não poderia ficar esperando.

Saí, mais uma vez, indignada do hospital. Meu filho nasceu algumas horas depois, num parto muito diferente do que eu havia imaginado pra gente, mas, imagino, melhor do que o que poderia ter acontecido, com o auxílio do médico que acompanhou a gestação inteira, mas que imaginei que não estaria presente no momento do parto. Enquanto sentia a ocitocina sintética nas minhas veias e quase perdi o controle da situação, respirei fundo e conversei com Malik sobre como o momento que tanto esperávamos havia chegado. Não poderia permitir que as intervenções naquele momento fossem mais fortes e importantes do que o nascimento do meu filho e o meu nascimento como mãe. Respirei fundo, e enquanto sentia o meu corpo se mobilizando para o encontro de Malik com este mundo. Quando ele nasceu, olhando tudo e chorando forte, veio para os meus braços, nos olhamos e conversamos. Naquele momento, renasceu em mim toda a força e desejo de transformação possível. Com todo o medo e a responsabilidade de criar uma criança negra no Brasil, mas com a certeza de que eu e outras companheiras podemos transformar o mundo ao nosso redor, por nós e pelas que vieram antes de nós, por todos os meios necessários.

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