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Propaganda de Margarina

Meu pai era um autodidata, um sujeito muito culto, mas nunca teve a oportunidade de fazer um curso superior. Na sua juventude, esta formação era reservada às classes abastadas da sociedade. Durante toda sua vida foi funcionário de nível médio da CEEE, as centrais elétricas do estado, e quando tinha 35 anos comprou sua casa própria. Quem tem condições de fazer isso hoje em dia? Minha mãe atingiu seus mais altos objetivos na vida através da maternidade e da criação de seus quatro filhos. Formavam um casal típico dos anos 60, quando o mundo respirava um pouco de liberdade depois de um início de século cheio de guerras.

Quando eu tinha 6 anos nos mudamos para a casa nova, um apartamento no bairro Menino Deus que tinha à frente da janela do meu quarto uma praça de 10 mil metros quadrados ao lado de uma escola pública. Se alguém pudesse criar mentalmente um cenário ideal para criar uma família de 4 filhos pequenos, não conseguiria algo tão perfeito como isso. Naquela época as famílias todas ao nosso redor tinham no mínimo 3 filhos, o que nos garantia uma turma gigantesca de crianças com quem brincar. Na escola pública havia a mistura altamente criativa de crianças pobres com jovens da classe média crescente, o que nos oportunizava conhecer um Brasil com maiores dificuldades do que a vida de propaganda de margarina que tínhamos.

Logo meu pai comprou um carro, um DKW azul de teto branco e estofamento vermelho, uma joia da indústria automobilística, com seu motor dois tempos que qualquer um reconhece a quadras de distância. Depois disso veio um marco essencial da modernidade: uma linha de telefone da antiga CRT instalada em casa. No inicio dos anos 70 o supremo luxo: uma televisão colorida, para poder assistir “O Bem-Amado” com todas as cores da obra de Dias Gomes. Nossa infância – e, por certo, falo pelos meus irmãos – é o quadro mais acabado de perfeição, o sonho mais acabado para as famílias da minha geração.

Todavia, como em todo sonho, um dia a gente é forçado a acordar. O meu despertar se deu ao reconhecer a bolha em que nossa vida infantil floresceu. Enquanto vivíamos uma vida de segurança e harmonia havia uma brutal ditadura no Brasil, além de uma crescente disparidade na riqueza do país. O ministro Delfim Neto afirmava que primeiro faríamos o bolo crescer, para só depois dividi-lo, mas esta divisão sempre funcionou como um contínuo “na volta a gente compra” em nível nacional. O que eu passei a reparar foi o número enorme de pessoas pobres ao meu redor, e como o sofrimento delas era visível quando havia disposição para ver. E, naturalmente, eu passei a perceber suas carências, não apenas de caráter econômico e material, mas deficiências de ordem afetiva e simbólica.

Com o tempo percebi que, por mais que houvesse uma tendência em valorizar minhas pequenas conquistas, elas eram fruto direto de uma criação especial, o somatório de inúmeras condições, como uma criação cheia de facilidades, com pais estudiosos, livros nas estantes de casa, escola gratuita, comida na mesa, irmãos para nos ensinar limites, harmonia psíquica e até alguns luxos de classe média. Muito pouco, ou quase nada, é possível encontrar em mim que não seja efeito direto das facilidades que a vida me ofereceu, enquanto sonegava a tantos ao meu redor. Assim, desde muito cedo ficou claro que não há nada de realmente especial em mim, e sou apenas o produto de uma sociedade que me ofereceu inúmeras facilidades, enquanto estas eram negadas à maior parte do país.

Reconhecer o quanto somos o reflexo do nosso entorno e das condições materiais e emocionais que recebemos – ou não – é essencial para reconhecer a necessidade de justiça social e equidade. Quando percebemos o quanto fomos felizes na primeira fase de nossas vidas fica mais fácil entender o quanto essa felicidade deveria ser um direito de todos.

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Travesseiros

Sou de uma família de imigrantes ingleses que vieram para o Brasil no fim do século XIX para auxiliar na construção de ferrovias, em especial no nordeste brasileiro. Meu pai nasceu em Gravatá, em Pernambuco, e veio para o Rio Grande do Sul de navio, aos 6 anos de idade. Claro, Deus é um cara gozador e adora brincadeiras, e achou muito engraçado me botar cabreiro e só por isso acabei nascendo gaúcho. Mas esse é o lado paterno. Do lado materno sou alemão, de uma mistura das famílias Wagner, Aurich e Blumm.

Disse meu pai que os tios da minha mãe eram muito simpáticos a Adolf Hitler. Verdade seja dita, na minha cidade muitos eram, pois nossa colonização foi marcadamente alemã. Era tão forte a influência que na casa da minha avó só se falava alemão, a única língua que minha mãe falou até entrar na escola aos 6 anos. Não seria nada estranho a alemoada daqui se apaixonar pelas ideias de extrema direita do grande líder do Partido Nazista. Em verdade, o Brasil teve maior partido nazista fora da Alemanha, e o próprio presidente Getúlio Vargas, em várias ocasiões, demonstrou simpatia pela implantação do nazismo neste país, por seu forte nacionalismo e seu anticomunismo ferrenho. Não por outra razão tivemos uma carta constitucional outorgada em 1937, no auge do fervor nazista na Europa. Esta foi a 4ª Constituição brasileira e a 3ª do período republicano e ficou conhecida como a Constituição “Polaca” por ter leis de inspiração fascista, tal qual a Carta Magna polonesa de 1935. O texto foi elaborado pelo jurista Francisco Campos e outorgada em 10 de novembro de 1937.

A verdade é que, por seu amor ao mandatário alemão de triste memória, muitos destes tios da minha mãe se tornaram membros da Ação Integralista. Esse movimento, cujos grandes nomes foram Plínio Salgado e Gustavo Barroso (este último um famoso antissemita) era de caráter nacionalista e defendia “a luta contra o materialismo proveniente tanto do capitalismo quanto do comunismo, além da necessidade de uma reforma espiritual do homem brasileiro”. Os integralistas afirmavam que o grande capital internacional é uma faceta tanto do capitalismo quanto do comunismo, baseados na mesma estrutura, que controla os países do Ocidente desde a Revolução Francesa usando o poder do dinheiro, a “Internacional Dourada” ou a “Internacional Vermelha” devido às revoluções proletárias. Ao mesmo tempo, a tríade “Deus, pátria e família” continua a ser a base da doutrina integralista. Possui algumas semelhanças com o Bolsonarismo, mas esta corrente fascista contemporânea é predominantemente imperialista, ligada ao poder americano.

A verdade é que por uma série de pressões Getúlio Vargas, a despeito de sua admiração pessoal pelo Führer, entrou para o grupo de países que combateriam a Alemanha na segunda guerra. Este fato levou muito medo à comunidade alemã do Rio Grande do Sul. Meu avô Olinto, pai de minha mãe, chegou a ser preso por suspeitas – que se mostraram infundadas – de colaboração com os alemães. Por esta razão, os integralistas entraram em descrédito, a ponto de serem perseguidos por estarem ligados ao fascismo europeu. Com isso, os tios da minha mãe se livraram do uniformes integralistas e jamais voltaram a tocar no assunto. Entretanto, essa era um história que se manteve viva pelas conversas que corriam à “boca pequena” na família, mas foi sempre tratada como algo para ser esquecido, um erro cometido no passado.

Quando meu pai se casou, levou para nossa casa uns travesseiros que estavam na casa da minha mãe, e que foram usados por algum tempo pela sua família. Muitos anos depois, quando já estavam muito velhos, um deles se rasgou, rompido pela gastura do tecido, frágil e puído. Foi então que meu pai encontrou, entre as espumas do travesseiro, pedaços cortados dos uniformes verdes dos integralistas, transformados em retalhos de pano, enchimentos para esconder a velha vinculação de seus antigos usuários com o fascismo “made in Brasil”.

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Extrema unção

Entre as atividades dos estudantes de Medicina estava fazer a constatação de morte quando algum velhinho partia para o mundo espiritual no meio da madrugada. É claro que a maioria dessas atividades seriam vistas com outros olhos hoje em dia, mas esta é uma história do início dos anos 80, com várias décadas a nos separar.

Em uma oportunidade fui chamado no meio da madrugada para fazer a constatação de óbito de uma senhora de quase 100 anos que estava no hospital só para fazer esta passagem. Acordei assustado com o telefone do quarto e saí caminhando ainda com os olhos fechados. Não havia tempo para dormir, e no dia seguinte ainda teria que pegar um ônibus intermunicipal para chegar à minha cidade e voltar às aulas. Caminhei a passos trôpegos até o andar de cima, onde ficava a enfermaria de clínica médica. Atravessei o corredor às escuras e me deparei com três enfermeiras postadas à porta do único quarto com as luzes acesas. Elas apontaram para dentro do aposento e eu adentrei nele com uma certa solenidade, mas ainda incomodado pela iluminação do ambiente.

Reinava o silêncio. Entrei no recinto e pude ver as 5 ou 6 camas ocupadas com senhoras muito velhas que dormiam em sono profundo. Na minha frente, na primeira cama à esquerda, uma senhora tinhas os olhos fundos e a boca aberta. O rosto pálido denunciava emagrecimento pronunciado e a degenerescência do corpo. Ainda no umbral da consciência, tentando me desvencilhar do sono mórbido, segurei sua mão e resolvi cumprir o ritual que me acostumei a realizar nestas situações. A morte é uma passagem, penso eu. Mais do que o abandono da carne, o espírito que dela se desprende passa por um rito, um fenômeno energético a conduzir o desligamento do invólucro material. Tinha eu, na época, a ideia de que este momento deveria ser ritualizado para que pudesse ser marcado, não apenas para o benefício da alma que partia, mas também para as almas que ficam, nós mesmos. Para entender a vida, sempre repetia Max, é necessário buscar compreender a morte.

Segurei sua mão e disse algumas poucas palavras, que se perdem na brisa gelada das memórias distantes, mas que certamente seriam algo como “Espero que neste momento em que sua alma se separa do corpo estejam contigo os amores que cultivou por sua passagem terrena, e que seja recebida como uma filha que volta ao convívio dos seus. Espero que, do lado de lá, a recepção seja calorosa e afetiva, para que os que aqui ficam não se sintam tão tristes ao saberem do reencontro feliz com as pessoas amadas que te esperam”.

É possível que fossem estas as palavras que eu diria, mas a verdade é que não pude dize-las como desejava. Segurei a mão da pálida paciente e, mal terminando de dizer a primeira frase, a “defunta” abriu os olhos e gritou, um grito estridente, que me deixou em pânico absoluto. Ainda com os olhos arregalados ela me olha fixamente e pergunta:

– Doutor, o que o senhor faz aqui? O que houve comigo? Alguém me ajude!!

Sem entender nada olho para a porta e encontro três enfermeiras dobrando-se em gargalhadas silenciosas. Seguravam as panças tentando se conter e uma delas, acocorada ao solo, ria e se contorcia sem parar. Uma outra, mais caridosa, apontou o dedo para outra cama, onde a verdadeira falecida se encontrava deitada, já fria pela morte que havia ocorrido alguns minutos antes da minha chegada.

Sem saber o que dizer, e tentando tranquilizar a paciente, eu apenas continuei falando como se estivesse ali para uma “ronda de bem aventuranças” na madrugada. Permaneci segurando sua mão e disse que minha presença ali era apenas para me assegurar que as “mocinhas” estavam bem e dormiam tranquilas. Sua boca repleta de vazios sorriu para mim, fechou os olhos e voltou a dormir, enquanto eu me dirigia à verdadeira paciente para constatar o óbito.

Enfermeiras sacanas. Elas me pagam, nesta ou em outra vida…

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Mediocridade

Meu pai certa vez me contou que estava numa fila de banco e pode observar uma cena curiosa. Claro, isso ocorreu na época em que as pessoas frequentavam agências bancárias para sacar dinheiro vivo, pagar suas contas, falar com o gerente, etc. Enquanto esperava sua vez de ser atendido, ficou por alguns minutos observando as expressões faciais da moça que atendia no balcão. Claro, isso aconteceu algumas décadas antes da criação do celular. As expressões da jovem bancária variavam da quase absoluta inexpressividade até o sorriso aberto e incontido. Ele, então, se deu conta que a reação da moça era modulada pela pessoa a quem atendia: quando era um homem feio ela se mantinha sisuda, mas diante de um homem muito bonito e jovem, ela se tornava a “moça dos sorrisos”, e se tornava solícita e afável.

Por certo que sua reação era instintiva e automática. Não haveria como – e nem porquê – ser mais atenciosa ao entregar um envelope de dinheiro para um cliente esperando algo em troca. Não, sua ação não tinha interesses objetivos, era tão somente sua resposta natural a um estímulo. O estímulo, para ela, era a beleza das pessoas com quem interagia, em especial os rapazes. Meu pai repetiu a observação pelo tempo em que ficou na fila e viu o quanto era evidente essa conexão.

Diante disso discorreu sobre o quanto era vantajoso para um sujeito ser bonito. Por certo que tal valor ainda era mais importante para as mulheres, pela estrutura patriarcal que sustenta nossas sociedades. Fosse um jovem bancário e talvez a reação à beleza das clientes seria ainda mais evidente. De qualquer forma, muitas portas se abrem à beleza, e não há como duvidar disso. Num mundo visual e guiado pelo desejo, a atração sexual cumpre uma função primordial na relação que estabelecemos com os outros, mesmo que estes sentimentos corram por trás da cortina do meramente manifesto ao olhar.

Por outro lado, a beleza e muitos outros talentos – e mesmo a riqueza – também fecham portas. Lembro de uma vez que fui ao casamento de uma paciente e houve um recital, onde um tenor, com raro brilhantismo, cantou uma ária de ópera. Fiquei encantado com a apresentação e sussurrei para Zeza “Queria poder cantar assim”, ao que ela respondeu: “Se você cantasse assim, teria que deixar de lado muitas outras coisas na sua vida. Estaria preparado?”. Ela insinuava que um talento assim teria a possibilidade de eclipsar outras virtudes que porventura pudessem existir. O mesmo ocorrem com aqueles cuja fortuna, beleza e charme hipnotizam e magnetizam todos à sua volta: para que investir na cultura, no conhecimento e na sua formação pessoal se o mundo já está aos seus pés pelo seu dinheiro, sua formosura, seu charme e sensualidade?

Essas conversas do passado me tornaram um apologista da mediocridade. Hoje eu valorizo sobremaneira o sujeito mediano, porque ele não se ocupa em investir em um talento isolado. Sua condição média o faz se esforçar tanto em ajeitar seu pouco cabelo e fazer uma dieta quanto ter algum conhecimento, leitura e formação para não dizer tolices. O sujeito mediano é totipotencial; o superdotado ou milionário é manco, pois seu talento especial, via de regra, atrofia suas outras possibilidades de expressão. Por isso vemos tantos milionários arrogantes, tantas modelos incultas e esnobes e tantos homens bonitos e vazios.

O sujeito que mais aproveita a vida é o que se equilibra entre suas faltas e suas habilidades. Talvez não seja o mais útil, pois crescemos através da beleza das formas e da genialidade de alguns, mas certamente é o mais equilibrado. Se me fosse permitido escolher um perfil para uma próxima vida seria bem claro: me livrem da exuberância das formas, da beleza estonteante, da abundância obscena de riqueza, do conhecimento de uma única especialidade na infinidade dos saberes ou do carisma arrebatador. Por mais que sejam chamativos e sedutores, eles são verdadeiros fardos a carregar pela vida.

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Os idosos

A maioria das pessoas da minha idade são conservadoras na política e nos costumes; isso é um fato que não é difícil de constatar. “Eu gosto desse político porque ele não é radical”, dizem. Ou, em contrapartida, “não gosto do fulano; ele é um radical, e os extremos são sempre ruins”. Quando elogiam uma personalidade pública fica nítido que se deixam ofuscar pela imagem de mídia que é produzida sobre ela, na maioria das vezes fantasiosa, produzida nos laboratórios de imagem das empresas que se ocupam da vida de celebridades. “Ahh, o fulaninho é uma pessoa super simples. Sabe que ele doou 1 milhão para os flagelados?”. Nessa fase da vida é muito comum que os “maduros” comecem a se interessar pela religião, pela morte, pelo cristianismo e coisas afins. Também os coroas se tornam céticos em sua visão política, alguns no nível do negacionismo; tornam-se ranzinzas, rabugentos e não acreditam haver possibilidade de que suas utopias da juventude possam se materializar.

“É sempre a mesma coisa, os políticos são todos iguais, é a roubalheira de sempre”. Via de regra, colocam os problemas políticos como afecções de caráter, máculas morais, não estruturais. Muitos acreditam na ideia de um “messias” no governo, no “bom ditador”, na “censura do bem”, “na ação enérgica da polícia”. Para estes, as pessoas que chegam ao poder político são corruptas, egoístas, espertas e desonestas. Curiosamente, não dizem o mesmo dos banqueiros, dos mega empresários, dos herdeiros, dos rentistas e nem sequer do próprio empresário que corrompeu o político. “Ahh, mas ele só fez isso para sobreviver e manter o emprego dos seus empregados”. Os políticos são sempre os que mais apanham: “Não sobra um, é preciso acabar com tudo isso que está aí, e colocar pessoas técnicas em posição de comando”. Assim, o Ministério da Indústria seria de…. um industrial, o da saúde deveria estar na mão de um médico, o ministério da agricultura, controlado por um latifundiário, etc., mas os coroas não pensam que estas posições sejam ocupadas por um operário, uma técnica de enfermagem ou um agricultor familiar, por certo. Seria radical demais.

Na maturidade o vigor das utopias e o colorido dos sonhos de uma sociedade mais igualitária vão desbotando paulatinamente. Não passa um dia sequer que eu não veja um colega de escola ou faculdade fazendo coro às manifestações mais reacionárias do momento, agindo de uma forma absolutamente individualista, falando de seus interesses próprios e sem qualquer perspectiva para a sociedade. Seu pensamento parece ser “Bem, já que meus sonhos de igualdade não vão acontecer, melhor que eu garanta um pouco de conforto na minha velhice; afinal, quem mais do que eu merece um descanso digno?”

Os antigos já diziam que o grande avaliador da honestidade é ter em mãos a possibilidade de efetuar o delito e mesmo assim recusar (ou recuar), o que me parece justo. Afinal, denunciar o suborno de alguém quando nunca teve sua honestidade realmente colocada à prova é sempre tarefa muito fácil. Da mesma forma eu digo que a grande prova do idealista e do sonhador é envelhecer mantendo jovens e vibrantes os seus ideais, sem deixar-se sucumbir pelo negativismo, pelo derrotismo e pelo cinismo. Manter suas ideias joviais, nutridas pela esperança e pela visão positiva do mundo é o que nos mantém jovens, mesmo quando a carroceria já não tem mais o vigor dos anos dourados. Por isso eu aceito ser comunista, espirita laico, internacionalista, anti-imperialista e ativista pelo parto normal, mesmo tendo plena consciência de que não estarei aqui para ver nenhum dos meus sonhos de adolescência se tornarem realidade.

Tomem aí, meus netos, a semente que vos deixo…

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Sonho

Hoje eu tive um dos melhores sonhos com o meu pai; pelo menos posso afirmar que foi o mais vívido de todos. É possível que esse sonho seja o reflexo de um pedido mental que fiz a alguns dias, para que ele mandasse o sinal que havia me prometido. No sonho, encontrei-o na sala pequena de uma escola que tinha uma janela de frente para um parque gramado muito grande. Cumprimentei-o efusivamente e começamos a conversar. Perguntei como estavam as coisas e disse que ele estava muito bem. Passei a mão no seu rosto e me dei conta que ele era mais jovem do que eu. Seus cabelos estavam negros, como lembro pelas fotos, e parecia muito jovial. Perguntei o que ele estava fazendo naquela escola, e ele respondeu “Ora, eu trabalho aqui”. Isso seria coerente com sua vida, já que a melhor maneira de definir o meu pai seria como um pedagogo.

“Que bom que trabalhas aqui!!”, disse eu. Pedi a ele que me dissesse algumas coisas sobre o funcionamento do plano espiritual, ao que ele me respondeu de forma jocosa, como que a dizer “Se eu te dissesse tu não entenderias”. Eu traduzi isso como a resposta dada a uma criança de 5 anos que ousasse perguntar aos adultos porque as pessoas fazem sexo. Não faria muito sentido, pois este fato da vida está além da experiência sensorial de uma criança. Logo depois, perguntei pela minha mãe, e alguns amigos que nos deixaram nos últimos anos.

– Sua mãe está ótima. Vamos nos casar em maio.

Também faz sentido. Antes de morrer ele me confessou que pretendia casar com a minha mãe muitas outras encarnações, pois não conseguia imaginar uma companheira melhor. Por fim eu perguntei se aquela cara dele foi escolhida por ele mesmo ou algum mecanismo automático fez com que a conformação corporal adotasse sua “melhor versão”. Ele apenas sorriu….

E eu acordei…

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Dor

Ela talvez coubesse no estereótipo mais comum das professoras da escola secundária. Velha, por certo, mas para um garoto de 14 anos esse conceito começa nos 40 anos e segue em diante. Portanto, não há como saber com exatidão. Lembro apenas do seu rosto redondo, cabelos curtos, saia comprida, óculos, sempre rodeada por uma pilha de pastas com a chamada das várias turmas. Naquela manhã sua imagem não estava tão diferente do que eu havia me acostumado a ver, mas algo no seu caminhar mais lento que o normal denunciava algo. Chegou na nossa sala enquanto a resenha ainda corria solta. Colocou os cadernos de chamadas sobre a mesa à frente e ficou olhando por alguns instantes para a parede ao fundo da sala, sem dizer nada.

Ela era professora de psicologia, uma cadeira inusitada no segundo grau. Foi através dessa professora que encontrei os conceitos de eu, supereu e id pela primeira vez. Foi com ela que a turma debateu as motivações inconscientes de nossas atitudes, o mal estar na sociedade e as fases iniciais do desenvolvimento psíquico das crianças. Talvez ela tenha desempenhado um papel importante no despertar das crianças para os mistérios e os segredos da mente, mas jamais teve a oportunidade de comprovar. Talvez essa seja a sina dos professores: nunca saber o quanto impactaram o futuro daqueles a quem ensinaram. Continuou a olhar por um longo tempo em silêncio para um ponto invisível do infinito cósmico, enquanto aguardávamos a chamada. Depois de alguns minutos olhou para os papéis empilhados e delicadamente abriu a primeira pasta. Antes de dizer o primeiro nome, suspirou fundo e falou com a voz embargada.

– Vocês desculpem a professora. Eu não deveria ter vindo dar aulas hoje, mas percebi que ficar em casa sozinha seria muito pior. Não sei o que eu faria olhando para as paredes. É muita tristeza, mas não sei como lidar com isso. Desculpem, desculpem.

Ficou mais alguns segundos imóvel e com os olhos marejados. Depois deixou sair uma frase que mais parecia um gemido do fundo da alma.

– Ontem à noite meu filho morreu.

A sala, repleta de adolescentes barulhentos e cheios de vida, congelou. Ninguém disse palavra alguma. Era possível ouvir a respiração entrecortada da professora. Dos seus olhos brotou uma lágrima e eu senti no peito uma dor estranha que só conheceria décadas mais tarde. A dor surda da perda, da inevitabilidade da morte, o vazio a preencher cada espaço da vida. O som escuro e abafado do silêncio mordaz. Uma porta que se fecha, ou como diria Chico:

“Oh, pedaço de mim
Oh, metade exilada de mim
Leva os teus sinais
Que a saudade dói como um barco
Que aos poucos descreve um arco
E evita atracar no cais”

Não havia o que dizer. Olhei para o lado e vi meus colegas paralisados. Não era comum para nós vermos adultos chorarem. Ninguém ali poderia acudir aquela alma sofrendo a mais tormentosa das dores. Éramos crianças diante de uma realidade de adultos. O silêncio foi quebrado apenas após a professora retirar da sua bolsa um lenço delicado e secar as lágrimas e o óculos. Olhou para a turma, sorriu timidamente, pediu desculpas mais uma vez e falou…

– Amanda?

E seguiu dizendo em ordem alfabética o nome de todas as testemunhas de sua dor.

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Carteira de trabalho

Esta foto acima é a carteira de trabalho do meu pai, com a foto da família à época, antes do nascimento dos meus irmãos Roger e Nice Jones. Infelizmente a minha data de nascimento está errada, já que é público e notório que nasci em 1984. Reparem a angulação, ao estilo Hollywood, que a minha mãe se posicionou para a foto, e o bigodinho “limpa-trilho” do meu pai.

Sobre as fotos está o carimbo do IAPFESP – Instituto de Aposentadorias e Pensões dos Ferroviários e Empregados Públicos, que eram um dos múltiplos institutos de aposentadoria e pensões que existiam na minha infância. O INPS – Instituto Nacional de Previdência Social – foi criado no ano de 1966, originando-se da fusão de todos os Institutos de Aposentadoria e Pensões existentes à época. Já o Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social (INAMPS), autarquia federal, foi criado em 1977, pela Lei nº 6.439, que instituiu o Sistema Nacional de Previdência e Assistência Social.

Por sua vez o SUS, Sistema Unificado de Saúde, foi criado pela Lei 8080/1990 que desde então levou a uma trajetória de muito esforço e desafios enfrentados, diariamente, para proporcionar e garantir o direito universal à saúde como dever do Estado.

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Filhos

São os filhos que nos deixam velhos; os netos apenas passam a régua e fecham a tampa do esquife. Isso é uma verdade insofismável, o destino inescapável que a geração que nos segue oferece como maldição. Não fosse o fato do meu filho estar completando hoje 42 anos eu mesmo poderia passar por esta idade, bastando para isso uma brilhantina no cabelo, uma roupa prafrentex, um raibã, uns pisantes ajeitados e ninguém repararia que tenho um pouco mais. Porém, como dissimular uma idade assim quando meu próprio filho já ultrapassou a barreira dos “enta”? Como explicar às pequenas que tenho a mesma idade do meu filho? Não colaria; eles nos denunciam, apontam seus dedos miúdos contra nós e desvelam o que tanto tentamos esconder.

Os filhos nos condenam à velhice. Eles nos lembram o tempo que passou. Eles nos apontam a linha do horizonte que se aproxima a cada dia, como um meteoro que se acerca da terra a cada giro diário, nos avisando do fim inexorável. É o ciclo que se refaz. Mas aparte de tantas denúncias, eles nos lembram do que nos tornamos e como isso ocorreu. Cada vez que dizem e fazem algo, não passa um dia em que não lembre “isso eu também já fiz”, ou “também já vi o mundo com esses olhos“. Vejo a mim mesmo nos passos dos meus filhos em cada fase da vida. Penso que todas as suas besteiras eu também as fiz, e suas alegrias também foram minhas, apenas umas poucas décadas antes. Entretanto, eles também são o farol a nos guiar na escuridão da senectude, lembrando o quanto de esperança ainda sobrevive.

Minha avó, Mammy, não permitiu que nenhum de seus netos a chamasse de vovó. Determinou que os netos a chamassem como seus filhos o faziam, a palavra inglesa para “mamãe”. Essa era sua forma de evitar a palavra que denunciaria sua idade. Na última conversa lúcida que tive com meu pai, no hospital onde veio a falecer, ele já estava bastante confuso. Ainda assim, me apresentei a ele dizendo meu nome “Ricardo, seu filho”. Ele voltou o rosto para mim, olhou fundo em meus olhos procurando o foco e, com um sorriso maroto, disse: “Ricardo? Como tu estás velho!!”, e riu gostoso, para depois mergulhar de novo em seu mundo que aos poucos se apagava. Para mim a mensagem ficou clara: ao se despedir da vida decidiu guardar as imagens reconfortantes dos filhos ainda pequenos e jovens, presentes nos seus momentos mais felizes. Quando confrontado com a realidade, preferiu sorrir e acreditar se tratar de uma ilusão. Escolheu a imagem idealizada, aquela que levaria para o outro plano.

Não há dúvida de que farei o mesmo. Mesmo nos 42 anos que hoje meu filho e minha nora Nani completam, eles continuarão sendo os meninos e meninas da João Bonumá, felizes e despreocupados jogando bola na rua, e na minha derradeira cama, quando se acercarem para a despedida deste velho, também sorrirei dizendo: “Como vocês estão velhos!!”, mostrando que também eu levarei para o além suas faces infantis e felizes, oferecendo a eles a esperança e a alegria que lhes deixo como herança.

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Surpresa

O quarto era bastante acanhado. Ao lado da cama de solteiro havia uma mesa e uma cadeira, absolutamente básicas. Uma TV, que passava o dia ligada em volume baixo, estava situada na parede contígua, ao lado da porta que levava ao banheiro, onde do chuveiro elétrico uma gota teimava em cair em intervalos regulares o dia inteiro, mas que tornava a noite dos mais sensíveis em uma tortura. Não havia qualquer luxo no quarto do plantonista de um centro obstétrico nos anos 90, em especial em um hospital de periferia que atendia 99% de pacientes do SUS.

Naquela época havia uma espécie de contrato por “produtividade”. Fazíamos plantões e ganhávamos pelo número de partos atendidos. Ou seja: o pagamento vinha pelos papéis assinados, e não pelo efetivo trabalho realizado. Poderíamos passar 24 horas trabalhando incessantemente, fazendo consultorias nos andares, atendendo intercorrências na maternidade, avaliando pacientes na emergência obstétrica ou acompanhando os trabalhos de parto. Todavia, só o parto e o nascimento dos bebês, era pago; todo o resto do trabalho era invisível e, portanto, não pago.

Assim, todo o plantão era uma loteria. Já tive plantões zerados, sem atender ninguém e sem receber um tostão, tendo ainda que pagar a gasolina para ir até o hospital (que ficava uns 40 km da minha casa). Por outro lado, houve plantões em que “herdei” do plantonista anterior 4 ou 5 pacientes prestes a parir, o que me garantia um razoável pagamento. Lembro que naquela época a economia estava em frangalhos e a inflação era descontrolada, e por essa razão era comum dolarizarmos tudo. Claro, nos anos 90 o dólar tinha um significado diferente do que tem hoje. Eu não tinha mais do que 29 anos de idade, mas tinha uma face muito infantil. Não foram poucas as vezes que, após avaliar uma paciente em trabalho de parto e pedir para ela voltar mais tarde – quando as contrações estivessem mais frequentes – ela se voltasse para o marido dizendo: “Olha, não me leve a mal, mas prefiro esperar a avaliação do médico”. Eu apenas ria, e entendia o engano da paciente como sendo natural. Eu realmente não tinha cara de doutor.

Em um desses plantões, no meio de um cochilo superficial perturbado pelo irritante pingo do chuveiro, fui chamado para avaliar uma paciente na emergência do centro obstétrico. Enquanto eu me ajeitava no meu pijama de plantão, perguntei à “enfermeira” se ela estava com muitas contrações. É importante lembrar que não havia reais enfermeiras no plantão, apenas auxiliares de enfermagem sem qualquer formação; muitas delas entravam como auxiliares de limpeza e adquiriam habilidade de cuidado com o tempo. Diante da minha pergunta, ela respondeu: “Na verdade ela veio do andar de cima, da internação. Nos papéis dela vi que está com diagnóstico de trombose venosa. Tem prescrição de anticoagulante, mas a enfermeira da Clínica Médica acha que ela pode estar grávida e ficou com medo de aplicar a medicação. Dá para o senhor avaliar?” Resmunguei, inevitavelmente. Ora, fazer às 3 horas da manhã uma avaliação que deveria ter sido feita à tarde quando da internação? E porque só agora resolveram trazer a paciente? Ainda reclamando – em pensamento – caminhei os poucos passos que separavam o quarto dos médicos da sala de exames.

Quando cheguei à sala iluminada, que ficava na frente da nossa humilde maternidade, encontrei a menina já deitada na maca, e os sinais vitais – todos normais – estavam escritos em um papel que repousava sobre a pequena mesa de metal. Sim, uma menina; depois descobri que tinha apenas 16 anos. Levantei o lençol que cobria suas pernas e vi o quadro diagnóstico que a havia trazido ao hospital: a perna inchada e levemente avermelhada, que levantou a suspeita de uma trombose venosa profunda. A indicação era de usar warfarina sódica, mas a enfermeira suspeitava de uma gravidez, apesar da menina não confirmar, e por isso não quis aplicar antes de uma avaliação do obstetra. Levantei mais um pouco o lençol e lá estava o abdome globoso, porém escondido atrás da compleição volumosa da paciente. A menina era gorduchinha: pés, mãos, rosto e barriga. Perguntei a ela se ela estava com a menstruação desregulada, ao que ela respondeu que “sim”, apesar de não lembrar quando havia sido seu último sangramento. “Cinco meses, talvez; quem sabe sete doutor. Não lembro bem”.

“A enfermeira acha que você pode estar grávida, meu anjo. Acha possível?” perguntei eu. Foi após o silêncio, que preencheu de dúvidas a acanhada sala de exames, que eu atentei para o seu rosto e alguns detalhes do seu corpo. Os olhos estavam fixos no teto da sala, imóveis, crispados. Em torno deles a pele juvenil estava pálida e úmida. Na ponta do nariz bem desenhado, gotículas de suor brotavam como pequenas lentes, e estas mesmas bolinhas de água adornavam o contorno de seus lábios vermelhos. Levantei mais um pouco e o lençol e vi que sua mão agarrava com força a grade da maca. Todos aqueles sinais sutis demonstravam algo para além de uma simples trombose de membros inferiores. Ela continuava em silêncio diante da minha pergunta, mas poderia ser por pudor ou vergonha. “Afinal”, perguntava ela em pensamento, “o que esse menino de pijama tem a ver com isso?“

“Vou escutar sua barriga. Se você estiver mesmo grávida o aparelho vai nos dizer”, disse eu laconicamente. Ela nada respondeu. Coloquei o transdutor do sonar empapado de gel em sua barriga. Foram necessários apenas poucos segundos para encontrar o cavalgar tão característico de um batimento fetal. “Aqui está ele. Você está grávida menina, e pelo tamanho da barriga, bastante grávida”. Ela levantou a cabeça do travesseiro da maca e me olhou incrédula. “Grávida? Não pode ser!!” Dizendo isso contraiu o rosto como se estivesse sentindo dor. Olhei imediatamente para as duas enfermeiras que estavam ao meu lado e pedi um par de luvas. “Abra as pernas garota. Preciso lhe examinar. Eu suspeito que você está tendo contrações”. Com a ajuda das auxiliares fiz o toque vaginal e não pude evitar de uma expressão de surpresa. Não apenas ela estava em trabalho de parto, como seu bebê estava praticamente coroando.

“Sim, você está grávida e seu bebê vai nascer agora. Por favor, fique de pé e me acompanhe”. Pedi às auxiliares que acendessem a luz da sala de parto e me trouxessem um “pacote de partos” – um conjunto de materiais esterilizados e campos para atenção ao parto. Segurando suas mãos com cuidado, caminhei com a menina uns poucos passos para a sala ao lado e pedi que ficasse de cócoras, segurasse com firmeza as minhas mãos e empurrasse o bebê, caso sentisse vontade. “De fazer cocô?”, perguntou ela. Respondi afirmativamente, ao que ela disse: “Pois eu estou sentindo muito essa vontade!!!” Foram necessárias apenas duas forças bem intensas para que o bebê viesse para as minhas mãos, antes mesmo que as enfermeiras tivessem tempo de buscar o material esterilizado. Nasceu no chão da sala de partos, protegido por lençóis limpos arrancados da maca. “Então eu estava mesmo grávida!!”, exclamou ela. Não pude conter um sorriso; do diagnóstico de gravidez ao nascimento não haviam se passado mais do que dois minutos; uma gravidez inteira e todo um trabalho de parto que duraram menos de 120 segundos.

Os instantes que se seguiram ao parto foram como se aos poucos a menina estivesse voltando à realidade. Disse para mim que estava mesmo desconfiada, com o aumento de peso, com a falta da menstruação, mas temia que fosse realidade o que ela tanto temia. “Por que tanto medo?” perguntei, mas ela se manteve em silêncio, e eu respeitei sua insegurança em me contar o que havia ocorrido. Completei todas as etapas da atenção ao parto, avaliei o períneo examinei a placenta e confirmei a rigidez do seu útero. Ajudei que se levantasse e ela se deitou na maca, para ser levada ao quarto, apenas alguns metros adiante. Caminhei ao seu lado enquanto ambos em silêncio escutávamos o barulho das rodinhas mal azeitadas da maca cantando uma canção monótona e repetitiva. Quando chegamos à porta do quarto, me despedi com um sorriso, esperando retomar o que restava de sono para aquela noite. Entretanto, o que ela me disse ao se despedir impediu que Morfeu pudesse me recolher, mais uma vez, em seus braços.

“Foi o William, doutor. Foi ele. Ele não é uma boa pessoa. Ele é o namorado da minha mãe”.

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