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10 Dicas para PowerPoint

Algumas regras gerais para apresentações em PowerPoint:

1 – Mude o formato para 16:9 pois ele oferece mais espaço e também porque a maioria dos projetores e TVs hoje em dia são preparados para “wide screen“. Se não forem, e a única possibilidade de tela for 4:3, a imagem ficará com uma faixa escura acima e abaixo, sem atrapalhar o conteúdo..

2 – Não coloque texto na tela. Não escreva uma história que você poderia contar, e que concentraria a atenção em VOCÊ. Tire o olhar das pessoas da tela, e as conduza para lá só quando for importante. Não coloque quadros estatísticos com letras miúdas. Ninguém enxerga e tampouco memoriza isso. Coloque figuras simples e frases curtas!!! Imagens valem mais que mil palavras!!! Mude as letras para um padrão de apresentação. Uso Tahoma porque ela é gorducha e permite visualização à distância. Times é uma fonte para jornal, jamais para apresentações, pois à distância ela produz confusão. Lembrem-se que quando as pessoas não enxergam o que está na tela elas olham para o lado e se dispersam, e essa dispersão é o pânico de todo professor ou palestrante.

3 – Ajude o aluno a organizar as ideias de forma coerente!! Estabeleça critérios simples e facilmente compreensíveis para os subtítulos das páginas (por exemplo: vermelho, 40 pixels e superior à esquerda). Diante disso o aluno saberá que se trata de um novo tema, uma nova ênfase ou um novo assunto para pensar, e não a simples continuação de algo que viu na tela anterior. Dessa forma ele organizará mentalmente de uma forma mais simples o entendimento da aula ou da palestra.

4 – Organize as gravuras e os textos de acordo com configurações espaciais harmônicas e que quebram a rotina do observador. O aluno precisa ser surpreendido com a forma como as imagens e letras aparecem. É como uma estrada: se ela for reta demais torna-se monótona e produz sono; se a aula for previsível demais o mesmo fenômeno vai ocorrer.

5 – O mais importante e trabalhoso: estabeleça movimento e ritmo para a apresentação, o que a torna “profissional”. O grande problema dos slides “chapados” com bullets é que eles tendem a tornar a apresentação enfadonha e chata. Algumas aulas que assisti funcionam muito melhor que Rivotril, não pelo conteúdo ou pelo professor, mas pela forma. Normalmente quando você apresenta 5 (ou mais) itens ao mesmo tempo em uma tela alguns poucos alunos na plateia acompanham a sua leitura, enquanto a maioria faz uma leitura privada dos itens de acordo com sua própria velocidade e interesse. Com isso, boa parte da audiência para de lhe escutar, pois está lendo outro item, e não o que você está descrevendo. Se você puder controlar o que eles leem, fica mais fácil garantir a atenção e o foco de todos. Além disso, você poderá interromper em cada item e explicar o assunto, ou dar um exemplo para o que está sendo falado, pois eles estarão lendo o mesmo que você. O aparecimento das gravuras também deve ficar sob o seu controle. Essa alteração implica que VOCÊ precisa ficar com o “passador” na mão, ditando o SEU ritmo, a sua velocidade e determinando suas ênfases e paradas estratégicas. É como contar uma piada ou fazer amor: RITMO é tudo. Uma das coisas mais irritantes e criadoras de distração é a monotonia de um apresentador que diz “seguinte” para quem está controlando o computador a cada vez que precisa trocar um slide. Isso quebra o ritmo da palestra e distrai as pessoas. Aprenda a usar o passador e controlar a entrada do texto e verá que a sua aula ficará muito mais interessante.

6 – Regra geral de QUALQUER aula ou palestra: VOCÊ é o centro, não o powerpoint. As pessoas precisam focar em seus gestos, suas palavras, suas ideias e seus exemplos, e apenas olhar para a tela quando VOCÊ QUISER. A tela é apenas um acessório, e não o centro de sua aula. Nunca permita que a apresentação comande você; você precisa estar sempre à frente. Por isso estude cada slide antes e pense nos ritmos, nas ênfases e nas histórias possíveis de contar. Quando a tela é mais importante que o apresentador as pessoas imediatamente perdem o foco e começam a conversar. Isso é muito difícil de recuperar. Só os palestrantes muito geniais controlam uma audiência depois de dispersões. Eu já vi isso, mas de tão raro nunca mais esqueci.

7 – Coloque seu nome em letras bem menores no início da apresentação. Fica muito melhor e passa a ideia de que você é apenas o mensageiro, uma pessoa humilde que traz uma ideia. É importante passar o conceito de que você reconhece sua função diante da grandiosidade do tema, a qual é tão somente ser o veículo de uma mensagem importante cujos conteúdos podem até salvar vidas.

8 – Resista sempre à tentação de aparecer demais em uma aula ou palestra: coloque o foco na ideia, nos paradigmas, no conhecimento e nas necessidades dos alunos. Seja humilde, reconheça sua parte ínfima na construção e difusão de um conhecimento. Por outro lado, seja vibrante e deixe-se contaminar pela paixão que as ideias podem fazer eclodir.

9 – Termine sua aula/palestra com uma palavra de estímulo e otimismo. Ninguém suporta pessimistas e discursos apocalípticos. Se tiver alguma crença seja grato ao Universo pela possibilidade de distribuir seu humilde conhecimento para os outros.

10 – Agradeça a quem o convidou. É sempre gentil e bonito saber que seu nome foi lembrado e agradecer pela oportunidade de fazer parte da construção de algo novo e desafiador.

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Constrangimentos futuros

– Papai
– Sim filho…
– Eu estava olhando essas fotos de muitos anos atrás no seu computador…
– Sim….
– Achei essas aqui, muito bonitas. Você estava me segurando no colo com a camisa da CBF. Era jogo da seleção?
Arram, bem, não… era uma outra coisa.
– Vejo um cartaz engraçado escrito atrás: “Somos todos Cu…“, mas não aparece o resto.
– Ahhh, isso é uma bobagem. Eu nem me lembrava mais. Coisas da juventude.
– Tem essa foto aqui que aparece “Adeus querida“, era a despedida de alguém?
– Ora meu filho…. é que, veja bem… naquela época lá em casa todo mundo assistia a Globo e era difícil ter uma informação melhor. A internet recém tinha começado. A gente acreditou em muita coisa que não devia, até em Triplex e pedalinho.
– Triplex? Pedalinho???
– Sim, outra hora te explico.
– Papai…. essas fotos… essas imagens…. essas camiseta e esse pato amarelo aqui atrás. Isso tem a ver com o “Golpe de 2016”?
– Pera lá…. calma aí filho. Não foi “golpe”, foi impeach….
– Mas pai, a minha professora de história disse que…
– Maldita professora!!! Maldita escola!!! Tinha mais é que ter votado o “Escola sem Partido” quando tivemos chance com Temer!!!!
– Papai!!! Você foi à rua pra derrubar Dilma? Pelo Temer?
– Sim!!! E bati panela!!! E votei no Aécio, mas depois que tudo foi descoberto, desvotei; e chamava Bolsonaro de “mito”!!!! Sim, eu achava Gentili engraçado!!! Por que? Vai me criticar, seu pirralho??? Ahhh, eu prefiro um filho morto que um filho de esquerda!!!
– ……..
– Filho, vem cá. Volta aqui, deixa eu explicar. Não é nada disso que você está pensando. E não dê ouvidos pra tua mãe, ela é outra maluca!!!

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Realidades chinesas

Quando das minhas visitas à China, para trabalhar junto às parteiras chinesas, as questões que mais me impressionam são sobre dinâmica familiar. Elas me perguntam muito sobre fatos e situações corriqueiras entre as famílias. Não esqueçam que aqui as famílias são minúsculas. Raros cunhados, quase nenhum irmão (só os mais jovens tem) e gente muito isolada. Elas querem saber miudezas, detalhes, coisas que nunca paramos para questionar.

Por exemplo, elas me perguntaram se “saiu muito caro para o meu filho se casar“. Diante da minha estranheza com a pergunta elas me dizem que para um filho homem se casar os pais precisam pagar tudo: cerimônia, convites, comilança, casa própria, carro, e sustento (mesada mesmo), caso ele ainda não ganhe o suficiente. Eu disse que para o meu filho dei um abraço e um chute na bunda, mas o humor chinês não consegue fazer sinapse com esse tipo de piada. Tive, então, que explicar que não nos sentimos responsáveis neste nível, e que o casamento é uma forma de estabelecer a autonomia por parte dos jovens, e que pagar para eles casarem não parece ser um bom início de vida independente.

Outra pergunta que fazem é “Quem cuida das crianças?” e eu explico que a família ajuda quando pode e que temos creche (baby care) para quem trabalha fora. Elas me explicam que na China essa tarefa é sempre da mãe da moça, quase que uma obrigação social que ela tem que cumprir; não é uma ajuda, mas uma tarefa culturalmente determinada – e cobrada

A outra pergunta é: “Como a sua nora se relaciona com a Zeza?”, e eu respondo que sempre me pareceu a melhor relação possível. Elas dizem que na China as relações da sogra com a nora são sempre conturbadas e belicosas, e existem muitas piadas e histórias sobre este relacionamento. Dizem que genro com sogra é, via de regra, uma relação muito tranquila, mas entre as “mulheres que amam o mesmo homem” ela é conflituosa e complicada. “Que sorte tem sua nora”, disseram elas. Eu disse que a relação da Zeza com a sogra dela também sempre foi ótima, mas fundamentalmente por um fato essencial: minha mãe teve a sabedoria de jamais se intrometer na vida econômica ou afetiva dos filhos sem ser convidada. Creio que Zeza tem a mesma política.

Mac Tavish, meu tradutor, me contou que, quando os chineses viajam para o exterior com seus amigos e se comportam mal na rua (adolescentes), eles fingem que são japoneses e começam a falar “saionara” e “arigatô“. Contei para ele que fazemos o mesmo com os argentinos e ele caiu no chão de tanto rir. Nunca imaginou que essa trolagem fosse internacional.

Conversando com Gillian, minha tradutora chinesa e professora de inglês me atrevo a fazer algumas perguntas da vida na China. Afetos, profissão, família, dinheiro, etc. Ela me disse que recentemente rompeu um namoro de 8 anos. Perguntei se estava deprimida por isso e ela disse que as vezes se sentia triste e só. Ela é uma menina e tem a idade da minha filha.

– Você é jovem e bonita. Não fique triste; daqui a pouco aparece um príncipe encantado.
–  Ah, tem até um menino que eu gosto, muito mais é baixinho.
– Sério?
– Sim, mais baixo que eu (ela tem 1.64m)
– Mas isso é tão importante assim?
– Bem…. eu gosto de homens altos. E, acima de tudo, as meninas chinesas gostam de homens com pernas compridas.
– Ah…. as pernas…

Lembrei da pergunta do camponês ao presidente Lincoln, no conto de Woody Allen:
– Qual o tamanho ideal das pernas de um homem?, perguntou o camponês em desespero.
– Ideal para que cheguem até o chão, respondeu de forma marota o presidente.
A partir da conversa com Gillian tenho outra resposta:

– Ideal para alcançar o coração de uma bela menina (mas esta resposta só vale na China)

Em relação ao parto e nascimento, apesar de testemunhar tantos avanços na China, me impressiona o atraso no debate sobre as posições de parto. Em 1986, há 30 anos atrás, eu comecei a utilizar a posição de cócoras na atenção ao parto, ainda como residente no Hospital de Clínicas. Para mim foi o processo de entrada no universo da humanização, que na época não tinha esse nome e ainda aparecia como “sofisticação de tutela”. Muito tempo depois é que o protagonismo garantido às mulheres se tornou o eixo central ao redor do qual todos os outros valores gravitam. Entretanto, aqui ainda não se fala de parto vertical, e todos os partos são realizados como nos anos 50: perneiras, estribos, gente torcendo ao lado, etc. Minhas aulas todas se centraram na importância de mudar a posição do parto para que esta atitude venha abrir as portas para mudanças mais significativas.

Por outro lado, alguns encontros que eu testemunhei foram extremamente gratificantes. Um desses presentes que a vida me deu foi conhecer a chefe da única Casa de Parto da China, na região do Tibete. Ela se diz parteira mas sua formação é em medicina. O hospital de referência para a casa de parto em que atendem fica há 5 minutos de distância. O número de atendimentos é de 900 por ano, por volta de 2 a 3 por dia. Os maridos nunca assistem partos, mas ela explicou que se trata de uma questão cultural (maridos nunca enxergam a mulher ir ao banheiro). Além disso, nenhum marido jamais pediu para assistir, apesar de que esta solicitação já é muito comum em cidades maiores como Linyi, Qingdao ou Beijing. Lembro do meu pai me falando que assistir o parto de seus filhos nos anos 60 jamais passou por sua cabeça. A taxa de transferência para o hospital é (preparem-se) 1%. Eu perguntei três vezes para confirmar e não dar informação errada. Mortes neonatais acontecem 1x cada dois anos. A clínica é privada e todos pagam o mesmo valor, inobstante a classe social a que pertencem. O valor pelo atendimento completo é ao redor de 1000 yuan (R$ 500.00).

Essa parteira teria muito a ensinar sobre os malefícios que a sociedade moderna (onde a obstetrícia tecnológica é apenas uma das suas manifestações) produziu sobre as mulheres, seus ciclos vitais e sua sexualidade.

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Bebel

Ontem andando pelas ruas de New Orleans com minha filha Bebel passei por dos sujeitos negros e mais velhos do que eu sentados na soleira de uma porta no centro da cidade. Quando nos viram lado a lado um deles olhou para mim e disse com um sorriso malicioso nos lábios:

Hei man, I gotta tell you. You are a very lucky man!

Sorri de volta e agradeci. Afinal, ele estava certo, mas pela razão errada.

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Fins e Meios

Vou contar então uma história que me ocorreu agora.

Menino 7 anos com corte profundo na testa, próximo do supercílio esquerdo. Travessura. O pai o traz ao Pronto Socorro onde eu estava de plantão. Menino estava em pânico, chorava sem parar, não pela dor, mas pelo susto e pelo local. O pai estava bêbado e enrolando a língua. Tentei todas as conversas e manobras possíveis e imagináveis para acalmá-lo e assim poder para infiltrar a pele e fazer a sutura, mas o menino balançava a cabeça para os lados constantemente e fiquei com medo de trazer a agulha para perto dos seus olhos.

Chamei mais pessoas para auxiliar. Num determinado momento havia 5 pessoas segurando a pobre criança. Ele usava todas as suas forças para escapar. Estava esgotado, mas continuava se debatendo. Finalmente o pai se aproximou do ouvido do menino e sussurrou algo. Ele parou imediatamente de chorar e parou de se agitar. Logo eu consegui infiltrar e suturar.

Depois do curativo perguntei ao pai o que havia lhe dito. Ele respondeu: “Eu disse a ele que ficasse quieto porque depois da costura na testa eu daria uma porrada em cada um dos médicos da sala“.

Funcionou. Será mesmo?

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Produtividade

Uma das coisas que mais me dá prazer ao visitar o Texas é escutar rádio. Sim, a maravilhosa KUT (kut.org 90.5). É a rádio da Universidade do Texas, para mim a melhor rádio do mundo. Todos os dias são transmitidos programas excelentes e variados, culturais e com profundidade em suas abordagens. Faz um tempo escutei um programa sobre “puns”, a antiga e maravilhosa arte dos “trocadalhos”. Maravilhoso programa. Uma hora depois deste um debate que me chamou a atenção: o que é produtividade e como chegar lá.

Uma das coisas que aprendi escutando o especialista convidado foi o real significado da palavra “motivação”. Dizia ele que uma das regras básicas para motivar uma pessoa é colocá-la na posição de SUJEITO de seu sucesso ou processo transformativo. Por isso, ele nos explicava que é absolutamente contraproducente elogiar uma pessoa por ser bonita, simpática ou inteligente, em razão de que essas qualidades são inatas e não há esforço algum em alcançá-las. O contrário é quando você exalta e elogia o esforço de uma pessoa que não tem qualidades evidentes para uma tarefa. Um exemplo é a menina gordinha que dança balé, ou quando escutamos na escola a manifestação de uma criança declaradamente tímida e que, através do seu esforço em vencer suas próprias barreiras, consegue se apresentar em público. Essas pessoas precisam e merecem ser elogiadas publicamente, pois estão sendo premiadas por algo que ativamente FIZERAM e não por algo que passivamente SÃO.

Outro aprendizado foi com reuniões. Muitas pessoas reclamam que as reuniões sempre tem uma parte inicial em que as pessoas contam seus problemas com marido, mulher, filhos, trânsito etc. Muitos dizem que há uma grande perda de tempo com esse interregno que poderia ser mais bem utilizado indo direto para as razões pelas quais marcamos uma reunião. Todavia, as pesquisas dizem exatamente o contrário: com o tempo, e pela possibilidade de conhecer melhor aqueles com quem convivemos, as reuniões tornam-se mais produtivas e com melhores resultados exatamente porque incentivamos encontros entre PESSOAS, ao invés de focar tão somente nos participantes de uma reunião técnica de negócios. Portanto, pense bem antes de reclamar do amigo que conta piadinhas antes da reunião começar. Por certo que há limites nos devaneios, mas o princípio de permitir a exposição de elementos subjetivos e emocionais deve ser preservado.

Outro ensinamento sobre reuniões produtivas. Qual o melhor time? Onde todos são amigos? Desconhecidos? Extrovertidos? Extrovertidos misturados com introvertidos? Forte líder ou decisões horizontais?

O resultado foi interessante: as reuniões dependem muito menos de como se faz a liderança e quem são os componentes do que como interagem os elementos. Isto é: a regra fundamental é que exista “proteção emocional” dos participantes. Assim, as reuniões tendem a apresentar produtividade e resolutividade maior quando as pessoas presentes tem a oportunidade de se manifestar livremente, sem julgamentos ou violências simbólicas. O chefe é menos importante pelo que faz e mais pelo quanto protege seu time.

Outro elemento é a questão do controle. Um exemplo interessante é quando estamos trancados em um engarrafamento e resolvemos tomar uma via alternativa que é muito mais longa, e na melhor das hipóteses levará o mesmo tempo da via engarrafada. Entretanto, exatamente porque estamos fazendo algo ativamente – ao invés de esperar passivamente no engarrafamento – é que temos a “sensação de controle” que diminui nossa angústia diante de fatos sobre os quais não podemos interferir.

Como bem sabemos, o mesmo acontece na atenção ao parto, quando fazemos qualquer coisa (os protocolos, as rotinas e por fim as intervenções) porque a sensação de controle nos produz alívio e uma sensação de segurança, mesmo que ilusória e falsa.

Sempre que em uma reunião podemos ter controle sobre os eventos através de nossas decisões teremos uma sensação mais clara de realização, e esse sentimento humano precisa ser reconhecido quando fazemos grupos e montamos equipes de trabalho.

Por fim, é importante termos sempre em mente a questão dos objetivos. Eles são divididos em dois grupos principais: os grandes objetivos e os objetivos parciais. Os grandes são aqueles relacionados com a “missão” a que o grupo se propõe, como montar um hospital, derrubar um governo, criar um partido político ou simplesmente organizar uma comunidade autossustentável e ecológica voltada para o nascimento humano. Por outro lado, ninguém acorda pela manhã com essa imagem em sua cabeça: é necessário que os objetivos parciais nos façam ter o estímulo para o trabalho e a construção de algo grandioso. Por isso, ter como objetivo arrumar a cerca, pintar as paredes ou estudar para uma prova são igualmente importantes, pois são as etapas sem as quais as grandes tarefas jamais são concluídas.

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Maçaneta

A cafeteria jogava sobre nós seus vapores de café enquanto Max ajeitava o cabelo cada vez que aproximava a boca da xícara. Tive ímpetos de dizer-lhe, pela milésima vez, que já era hora de cortar seu cabelo. Max mantinha o mesmo penteado desgrenhado de quando estava na faculdade, mas agora os fios de cabelos brancos estavam em franca vantagem contra os originais. Logo me dei conta de que este comentário seria apenas mais uma tolice minha; criticar os cabelos de Max era uma intromissão em um assunto absolutamente privado. Pior, temo que sua resposta seria: “respeite seu lugar de fala, careca”. Dizer-lhe para cortar o cabelo seria o mesmo que pedir para Salvador Dali aparar o bigode, ou para Einstein pentear seu cabelo. Não se mexe em marcas tão fortes de uma personalidade. Ainda prefiro o incômodo de vê-lo ajeitando o cabelo insistentemente do que correr o risco de ver seu espírito questionador e inquieto esvair-se no chão de um barbeiro

– Eu sei do que falas, Ric. Se o que move estas pessoas. Sei como sofrem e porque é tão complexo o perdão. Sei também que, por mais que estas pessoas sejam confrontadas com a realidade, tal encontro não é capaz de produzir nenhuma transformação significativa. O que se obtém de forma irracional e afetiva não pode ser extirpado pela razão.

– Sim, eu compreendo, e me resigno. Sei que não há muito o que dizer diante de uma construção emocional tão poderosa. Não se joga fora uma bengala de uma hora para outra. O ódio e o desprezo servem como potentes apaziguadores da alma quando a dor é intensa e sobre ela não existe consolo possível.

Max jogou-se para trás na cadeira e ficou me olhando fixamente por alguns instantes. Nunca entendi exatamente o sentido destas paradas abruptas, o enquadramento do corpo como a preparar um bote seguido de um movimento rápido para frente em que arrojava seu corpo sobre a mesa e dizia algo sem tirar seus olhos dos meus. Funcionava como um script preestabelecido do qual ambos sabíamos como funcionava.

– Eu já te falei a história de Dulcinéia? Não a namorada de Dom Quixote, uma outra, muito mais triste.

Neguei com a cabeça, sem desviar os olhos de Max. Ele sabia que eu não desviaria o olhar até o final de sua narrativa. Max domina a arte de criar suspenses e contar histórias.

– Dulcinéia era uma mulher triste. Era casada e tinha três filhos. Eu a conheci nos primeiros anos depois de sair da residência em um ambulatório da prefeitura.  Nos primeiros quinze minutos da consulta ela me contou as mentiras previsíveis que as pessoas contam na frente do médico, como um teatro tosco de olhares cruzados, histórias escolhidas, pausas, palavras sonegadas, atos falhos e enganos.

Interrompi Max abruptamente com a mão espalmada à frente.

– Para lá, Max. Não venha me dizer que as pessoas procuram médicos para mentir. Você não pode reduzir as consultas a interrogatórios, como se os pacientes estivessem acossados por um agente da lei, procurando encontrar as palavras menos incriminatórias, buscando subterfúgios para não dizer a verdade.

– Caro Ric, você descreveu muito bem como funciona uma consulta. Este encontro está regulado pelas necessidades humanas, por suas dores e medos e pelo nosso sentido de urgência. Entretanto, o que o paciente nos traz como demanda, como queixa e como sofrimento, é tão somente a parte visível de um gigantesco Iceberg. Aquela pontinha branca que desponta da imensidão aparentemente calma do oceano é apenas uma fração minúscula do que se esconde por debaixo das suas águas plácidas. Infelizmente, o que aparece como gelo na superfície deveria ser o guia para a descoberta da massa gigantesca que o sustenta. O que o paciente traz como queixa deveria ser um sinalizador para que um cuidador isento de preconceitos pudesse investigar o que se esconde por debaixo da superfície do seu discurso dissimulador.

Como eu um flash milhares de pacientes, palavras, histórias, gestos, expressões e sorrisos passaram diante dos meus olhos confirmando a tese de Max. Havia muito mais do que a nossa vã observação era capaz de apreender em um encontro breve e tímido. Os pacientes escondem, até de si mesmos, um tesouro de emoções escondidas debaixo de grossas capas de proteção e o adoecimento, qualquer que seja, enfraquece essas barreiras e nos oferece a oportunidade única de encontrar o que se esconde por “debaixo do véu que nos separa do meramente manifesto aos sentidos grosseiros”. Repeti para Max a frase que ele havia me dito há muitos anos e pela qual tinha uma certa afeição. Sim, Max se afeiçoava a frases como alguns tem paixão por cães e gatos. Pedi que continuasse a história de Dulcinéia.

– Permiti que Dulcinéia continuasse a contar as naturais mentiras enquanto nutria a esperança de que ela fizesse a “manobra da maçaneta” que é tão comum nesses casos.

Pedi que continuasse, mas com o compromisso de descrever a tal manobra mais tarde.

– Dulcinéia era triste, como já lhe disse. Tinha olhos azuis profundos e frios. Seu rosto era magro e seu corpo esguio. A pele era de um brancor ofuscante, onde ressaltava o azul de suas veias delicadas decorando de mármore a face interna de seus braços de cera. Seus gestos eram delicados, mas seu olhar para mim dizia muito mais do que suas pequenas mentiras. Ela carregava uma dor que não cabia em suas palavras, que não aparecia em suas queixas e que devia estar dormindo nos porões úmidos e escuros do inconsciente. Tentei buscar alguma Dulcinéia em meu arquivo de imagens, mas preferi que a descrição pormenorizada de Max me ajudasse a criar uma nova. Siga, Max.

– Em um determinado momento, e não recordo exatamente porque a conversa chegou a este ponto, suas mãos se espalmaram sobre o granito da mesa e ela me disse com uma voz dura: “Eu sei o que é sofrer por um erro!

Max, depois de uma breve pausa – ele conhece como contar histórias com seus altos e baixos e esperando o momento certo para encaixar as palavras da narrativa – continuou.

– Preferi ficar em silêncio. Havia naquele momento um instante raro nos encontros adornados de puerilidades que somos obrigados a testemunhar. Uma vaga do oceano chocou-se contra a torre gelada que aparecia altiva no meio do oceano de placidez, e com isso descobriu uma porção maior do iceberg que a sustentava. Ali estava algo verdadeiro, uma emoção clara e forte; uma dor que não se conteve e mostrou sua face.

Esperei mais alguns momentos de silêncio e ela resolveu continuar. Disse-me que sua irmã foi vítima de um erro médico há muitos anos, e que este fato acabou por fazê-las desconfiar de todos os médicos com quem consultou desde então. Um médico do Pronto Socorro foi o responsável pelo sofrimento terrível que se abateu sobre sua pequena irmã, na época com sete anos. A dor produzida naquele momento de sua vida jamais a abandonara e ela não se sentia capaz de perdoar aquele que tanto mal havia causado à sua irmãzinha e à toda sua família. Aguardei sem nada falar pelo seu relato, pois via que ela estava tocando uma parte dolorosa de sua vida, um momento de profunda dor e angústia. Ficava claro que deveria ser algo de muitos anos passados, mas a emocionalidade da descrição mostrava que a dor ainda era atual, apesar da distância de décadas que a separava do evento.

A tudo eu ouvia com atenção, mas meu coração disparava quando eu sentia na própria carne as emoções contidas no relato de Max.

– Que idade você tinha quando isso ocorreu? continuou Max em seu relato. Ela respondeu que tinha 16 anos quando sua irmã sofreu o grave acidente. Ela era uma irmã “temporona”, a mais mimada, a mais amada, a mais querida por todos na família. “Um anjo que a vida presenteou a todos nós”, disse ela.

Olhando seus olhos úmidos perguntei se ela desejava falar sobre esse caso, caso isso pudesse lhe trazer algum conforto ou consolo. Ela respondeu que sim com a cabeça, como que a desejando economizar palavras que lhe custavam a sair da boca rósea de lábios finos, que mais pareciam uma linha a cruzar transversalmente o rosto.

Foi um erro terrível do médico, disse ela. Ela foi atropelada quando voltava para casa de um passeio e levada imediatamente ao hospital. Chegou lá muito mal, entre a vida e a morte. Sofreu várias fraturas, em vários ossos, e chegou no Pronto Socorro inconsciente. Foi internada e começaram a fazer cirurgias. Uma depois da outra; nem lembro quantas foram feitas no período em que estivemos no hospital, lembro apenas que foram muitas. Ossos, hemorragias internas, reintervenções, drenos, soro, sangue, anestesias. Depois as complicações, os antibióticos e as febres. Ela foi desenganada várias vezes, os médicos foram perdendo as esperanças.

Dulcinéia continuava sua descrição da tragédia de ver uma irmã lutando contra um infortúnio, que não apenas se apossou de sua saúde, mas acabou levando consigo o brilho dos olhos azuis de sua irmã. Ela prosseguiu em sua narrativa.

Eu rezava todos os dias e fazia todas as promessas. Chorava copiosamente nos corredores do hospital. Não conseguia aceitar que uma criança sofresse tanto, alguém que jamais fez qualquer ato ruim contra ninguém. Agarrava-me a tolas crendices e palavras de estranhos, todas bem-intencionadas, mas essencialmente vazias. Subitamente, algo aconteceu. Em princípio não quis acreditar pois não queria me agarrar a falsas esperanças. A febre cedeu, os rins voltaram a funcionar, as cirurgias não mais supuravam, a respiração parecia melhor e mais calma. Até seu rosto voltou a se parecer com a menina alegre e vívida que todos conheciam. Chorei demais de alegria, mas ainda mantinha minhas orações e meus pés no chão.

Os dias se seguiram e ela aparentava franca recuperação, e depois de mais de dois meses internada pela primeira vez os médicos usaram a expressão “alta hospitalar”. Conseguia sair do quarto na cadeira de rodas e, apesar das dores, ensaiava alguns sorrisos com as brincadeiras das enfermeiras e dos médicos. Meu coração exultava de alegria e esperança. O dia finalmente chegou. Apesar de ainda restrita à cama e com muitos cuidados o médico nos procurou e avisou que daria a alta no dia seguinte. Ela precisaria de controle cuidadoso e muita atenção. Estava se alimentando com cuidado, havia perdido muito peso, não podia fazer nenhum esforço. Passei a noite no hospital aguardando para levar minha irmã de volta para casa no dia seguinte.

Então sobreveio a sombra que nunca mais me abandonou, disse ela com uma voz pausada e grave. Durante a noite minha irmã pediu um copo de suco de laranja. Solicitei a enfermeira que lhe fosse dado, já que iria para casa na manhã seguinte e havia passado o dia inteiro tomando uma dieta líquida; devia ter sido  apenas um esquecimento do médico. A enfermeira voltou com a informação de que ela estava sem dieta. Insisti com a enfermeira de que ela estava com sede e precisava beber algo “energético”, e ela respondeu que ligaria para o médico de plantão para saber se ele liberava o suco, diante do fato de que pela manhã ela iria para casa. A autorização do médico foi dada. Ela bebeu seu suco, me deu um beijo de boa noite e dormiu. Nunca mais falei com minha irmã. Na manhã seguinte ela se sentiu mal, ficou com falta de ar, reclamou que estava difícil respirar e logo depois pude ver que estava ficando pálida. Chamei a emergência e ele foi imediatamente removida para a UTI. Ainda pela manhã, uma enfermeira conhecida voltou para o quarto onde eu aguardava informações, me deu um abraço e chorou comigo, avisando que minha irmã havia morrido. Não havia causa conhecida ainda, e só com o tempo poderiam descobrir.

Fez uma pausa para secar as lágrimas e levou as mãos ao rosto. As emoções de tantos anos voltavam como se tivessem ocorrido há poucos dias.

Que Deus a houvesse levado no dia em que morreu, Dr Max. Que tivesse ela ficado no chão, sem vida, atirada no asfalto quente da rua, mas porque foram me dar as esperanças de ter minha irmã de volta para depois ser arrancada dos meus braços assim? Não foi difícil entender que a culpa era o suco de laranja. Sim, doutor, deram a ela um suco que não poderiam ter liberado. Deram para ela um “veneno” que a matou. Foi um erro grosseiro do médico por ter liberado um suco que não devia ter recebido.

Max pausou a narrativa nesse momento e voltou a colocar o corpo para trás, encostando a vasta cabeleira na parede atrás.

– O que você disse a ela Max? Acredita mesmo que aquele suco de laranja poderia estar implicado no que me parece uma embolia?

– O que eu penso não importa muito, Ric. A dor dela era verdadeira e a melhor resposta que eu tinha a lhe dar era o meu silêncio. Ela continuou sua triste história.

Processei o médico. Virei uma fera. Contratei um advogado que imediatamente encampou a minha causa. Levei o caso ao conselho de medicina. No dia da audiência eu o encontrei, alguém que eu jamais havia visto mas que odiava do fundo do meu coração. Ele se levantou e me cumprimentou constrangido, mas certamente foi capaz de ver as faíscas de ódio que saíam dos meus olhos. Sem saber o que falar, ele se limitou a dizer, sem raiva ou indignação, apenas com uma espécie de assombro.

– Por que está fazendo isso comigo?

Não consegui lhe responder tudo o que tinha em minha cabeça pois meu advogado me puxou pelo braço e pediu que eu sentasse e me acalmasse. Foi a única vez que o vi em minha vida.

Perguntei a ela o que havia acontecido com o caso e ela respondeu com uma risada de sarcasmo.

Ora, Dr Max, você sabe muito bem o que houve. Simplesmente nada. O conselho de medicina disse que não havia prova alguma de má conduta diante de um caso tão grave como o dela e encerrou o caso. Cheguei a pensar em levar adiante e processá-lo em todas as instâncias, mas meu advogado disse que a visão do conselho era muito forte, os juízes são muito incompetentes para entender casos médicos, haveria um desgaste ainda maior para a família e os custos subiriam, etc. Aceitei seu conselho e virei essa página, mas a minha dor e a minha indignação jamais terminaram, e sei que vou morrer com elas.

Fiquei olhando para aquela paciente sem saber o que dizer, sem ter como ajudá-la e sem poder debater sobre um caso que lhe trazia tanta dor, mais de 25 anos passados. Tinha vontade de lhe falar que não acreditava que o suco de laranja tivesse qualquer participação no óbito, que o mais provável era uma embolia, o que seria um diagnóstico provável diante de tanto tempo imobilizada e das fraturas que teve. Mas, de que adiantaria mexer nessa ferida sem ser capaz de lhe oferecer uma luz qualquer, e sem ter condições de trazer razão para um caso em que havia um domínio total das paixões? Disse apenas que sentia muito por tudo que havia acontecido e que ela podia contar comigo sempre que tivesse o desejo de contar uma história que compõe o tecido sutil de sua vida. Ela sorriu, secando uma última lágrima dos olhos azuis. Levantou-se e dirigiu-se à porta. Neste instante, sem saber exatamente o porquê, resolvi lhe fazer a derradeira pergunta. Em verdade, creio que a fiz apenas para tentar me solidarizar com sua dor, ou para encher de palavras o pequeno trajeto que separava a mesa onde estávamos até a porta.

– Como ela foi atropelada?, disse eu.

– Ela desceu do ônibus e atravessou a rua sem olhar. Soltou-se e correu para a calçada à frente, mas foi atingida por uma motocicleta em alta velocidade e arremessada há mais de 20 metros de distância.

– Soltou-se?, perguntei eu sem refletir

Dulcinéia colocou a mão na maçaneta e, olhando levemente para trás, respondeu

– Soltou-se da minha mão, Dr Max. Era eu quem havia saído com ela para passear. Foi de minha mão que ela se desprendeu.

Meu olhos se arregalaram diante do fim da história. Olhei para Max como a entender a manobra que ele me havia anunciado.

– A maçaneta, Max…. agora eu entendi.

Max ajeitou seus cabelos caóticos mais uma vez e sorveu o último gole de seu cappuccino. A brisa sombria entrava pelas frestas da porta à frente enquanto os sons da noite nos convidavam a um abraço e um até breve.

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Orlando

Só a pressão lenta e insidiosa das forças culturais é capaz de modificar os costumes. Sou de uma geração que dizia “negrice” com absoluta impunidade e naturalidade, para descrever trabalhos mal feitos ou esteticamente inadequados. No início, quando alguém reclamava, a pessoa se defendia dizendo que estava “sacramentado na cultura”, da mesma forma como “judiaria” ou “judiação”. Além disso, diziam eles, isso não passa de uma “brincadeira”, deixando claro que se você não aceitar é porque é um sujeito mal humorado ou grosseiro.

Ninguém mais fala essas expressões de forma impune. As forças sociais expurgaram estas nossas manifestações inconscientes de racismo, relegando-as apenas aos bolsões mais reacionários e racistas da extrema direita. Lembro bem da postura do meu pai que, diante desses dilemas, desenvolveu uma atitude ao estilo “bateu-levou”. Dizia ele: “Se fizer uma piada racista vai ouvir um sermão; se o sujeito não tem vergonha de contar eu não preciso ter vergonha de estragar a festa”.

Quando tento me lembrar de como aprendi a respeitar os negros eu recordo de algumas cenas da vida estudantil. Dentre elas uma partida de futebol, e desde então agradeço ao meu colega de escola Orlando, que me ensinou, quando eu tinha 15 anos de idade esta perspectiva. Ele veio transferido de outro colégio e não o conhecíamos muito bem, mas ele era um jovem muito sério e até tímido. Certa feita, no meio de uma partida de futebol na escola, gritei para ele a plenos pulmões:

– Passa a bola, negão!!

Orlando era um negro comprido, magro e alto. Era mais velho que nós, talvez tivesse 16 ou 17 anos. Quando me lembro dele penso em um menino muito bonito e de postura madura. Tinha uma voz grave de barítono e fazia curso de teatro. Quando ouviu meu grito, parou exatamente onde estava, como se tivesse escutado uma sirene de alerta. Pisou sobre a bola, abaixou-se e a segurou entre as mãos. Deu três passou em minha direção e fitou-me diretamente nos olhos. Sem expressar ódio ou raiva, mas com uma firmeza pedagógica intensa, ele me disse pausadamente, do alto da sua voz grave e profunda, enquanto me entregava a bola:

– Meu nome não é “negão”. Meu nome é Orlando.

Não chamou a diretora, disse olhando nos meus olhos. Não esperou que uma instância outra, uma lei ou uma regra, resolvesse a questão. Calmamente tomou para si a responsabilidade de se posicionar. Por sua postura altiva, obrigado, Orlando.

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Fogueira das Vaidades

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Quando eu fiz residência em um hospital escola da minha cidade – há 30 anos – era do conhecimento de todos, desde quando você entrava no estágio do sexto ano de medicina, que o departamento era dividido ao meio. Havia dois “clãs”, dois grupos distintos de professores que historicamente se digladiavam e disputavam o poder de forma explícita e as vezes agressiva. O grupo que chamarei de “A” era o mais novo e o mais conectado com evidências e estudos, enquanto o grupo “B” era mais tradicional e conservador.

A chefia do serviço estava com o grupo “A”, mas sabíamos de processos judiciais que um grupo movia contra o outro pela primazia nas publicações. Havia um jovem e ambicioso  professor do grupo “A” que contava fofocas altamente comprometedoras de professores do outro grupo, e fazia isso na base da “camaradagem”, durante um plantão, um cafezinho no bar do hospital ou uma conversa privada. Eu achava aquilo estranho e antiético,  mas era difícil se posicionar quando existia um valor incomensurável depositado nessas figuras de autoridade. Preceptores de residência eram, e ainda o são hoje, figuras que concentravam um enorme poder.

Não havia escrúpulos. Era uma fogueira de vaidades e havia a todo o momento um convite para tomar partido. Se você era de um lado não podia ser do outro.

Certa feita fui testemunha de um fato curioso no plantão, que me fez repensar toda a minha profissão e o meu destino após a residência. Uma paciente acompanhada de sua mãe procura um professor do clã “B” e lhe faz um estranho pedido. Ele havia atendido o seu próprio nascimento há 20 anos e agora, grávida,  gostaria que ele a atendesse,  sendo o responsável pela assistência das duas gerações. Como era um atendimento privado o professor aceitou sem pestanejar.

O que a o paciente não sabia é que este professor nunca foi obstetra. Havia atendido o parto de sua mãe logo após se formar, mas imediatamente depois se dedicou à ginecologia e infertilidade. Não atendia um parto há no mínimo duas décadas.

No dia do parto a paciente internou durante o meu plantão, e só por isso soube de todos os detalhes. Avisei o professor que se limitou a dizer por telefone: “fiquem atendendo aí e me liguem quando ameaçar coroar”. Foi o que fizemos. Quando o parto se aproximava chamamos o professor, que efetivamente chegou quando o bebê despontava no introito vaginal.

O parto foi uma tragicomédia. O professor havia esquecido como segurar um bebê, e este escorregou de suas mãos. Para que  não caísse aparou com a perna. Sem saber o que fazer entregou o bebê ao pediatra, mas se esqueceu de cortar o cordão, e quase o bebê vai ao chão de novo. Nós, atônitos, assistíamos constrangidos. No final, “entre mortos e feridos salvaram-se todos”, mas rolou Kristelller,  episiotomia Transamazônica, corte prematuro do cordão, etc. Violência e despreparo.

Contei para a nossa turma que estava no plantão o que havíamos testemunhado e achamos graça, apesar do absurdo do atendimento.

Muda a cena para uns meses depois e durante um churrasco de confraternização dos residentes com professores do Clã “A” o jovem professor carreirista pede que eu vá até a sua mesa. Quando cheguei lá ele disse para todos:

Conte para nós o parto que o Dr Nosferatu atendeu no seu plantão.

Nosferatu” era como chamava o professor inimigo para nós. Havia chegado aos seus ouvidos o parto bizarro atendido por um professor do Clã “B”, e que eu tinha relatado aos colegas do plantão. Sem saber o que dizer contei as peripécias do parto para o público de colegas ávidos por uma fofoca.

Terminei a história e voltei para a minha mesa. Imediatamente me dei conta que eu havia sido usado como massa de manobra na luta das facções adversárias. O professor carreirista me usou para difamar um inimigo, que em verdade era um colega. Fui apenas “bucha de canhão”.

Tive uma sensação de culpa muito forte por participar daquela cena. Percebi também que não aceitaria viver minha vida profissional envolvido nas labaredas de vaidade do mundo acadêmico. Não queria pertencer a nenhum grupo ou facção, mas tudo me mostrava que não havia outro modo de  sobreviver.

O professor carreirista conta fofocas até hoje, e se mantém poderoso. O professor do grupo “B” já faleceu e eu, naquela churrascaria, fechei as portas da academia para mim para nunca mais querer abrir.

Eu não vejo esses personagens como desumanos ou perversos. Até no movimento de humanização do nascimento existem “clusters”, grupos que rivalizam, ressentimentos antigos e mágoas estimuladas a crescer pelo único adubo legitimamente humano: a vaidade.

Logo após minha saída da residência percebi que a maioria dos meus colegas tinha o sonho de trabalhar na Universidade. A tentação era muito grande pois tudo o que víamos era uma enorme concentração de poder nos professores, e todos os benefícios de prestígio social daí advindos. Minha dúvida era: como evitar o fato de que a motivação inevitavelmente se chocaria com a realidade.

A vida de um professor da universidade é ensinar, atualizar-se, dar aulas, acompanhar alunos e fazer pesquisa, mas estes aspectos eram os MENOS importantes para a seleção. É como se você fizesse um concurso para “body building” seduzido pelos músculos lustrosos dos Arnolds da vida e ao ser aprovado percebesse que precisava levantar peso todos os dias.

Talvez por esta razão específica da minha vivência, minha formação acadêmica foi pobre. Meus professores não tinham nenhum interesse – quanto menos talento – para o ensino. Usavam a universidade como insígnias de valor e poder, e não como ferramentas de transformação social. A seleção para estes cargos era feita de forma política e não levava em consideração a capacidade pedagógica ou o próprio desejo de ensinar.

Por outro lado o surgimento nos últimos anos de alguns professores de obstetrícia ligados às correntes de humanização do nascimento é a prova de que existe a possibilidade de reverter o  processo por dentro.

Se é possível produzir um papa um pouco mais aberto como Francisco emergido das entranhas do Vaticano, a Medicina também pode produzir – mesmo que lentamente – seus renovadores.

Quem viver, verá.

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Sociopatia

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Há quase 50 anos, durante uma festa de São João no prédio onde morava, percebi meu pai sentado em silêncio em um canto do recinto  com o olhar preso no infinito cósmico. Perguntei a ele se estava bravo ou triste, e ele me respondeu que não. Perguntei se ele estava se divertindo e ele novamente disse “não”.

Fiquei surpreso,  pois era uma festa. Música,  fogueira, crianças correndo, piadas, “quentão”, broas e pinhão. O que poderia ser melhor e mais divertido que isso?

– Eu não consigo achar festas divertidas, mas não me pergunte o porquê. Qualquer explicação será parcial e incompreensível. Não se preocupe, estou bem.

Fiquei triste, sem saber o que dizer e, de uma certa forma, fiquei decepcionado. Ao meu lado via outros pais dizendo bobagens, cantando músicas e exagerando na bebida, enquanto meu pai apenas observava e, quando muito, ensaiava um tímido sorriso. Seu rosto demonstrava toda a distopia e toda a falta de conexão com a alegria fugaz, superficial e explícita do ambiente.

Por muitos anos não consegui entender meu pai e sua sociopatia. Por um tempo eu o culpei por ser como era. Todavia, minha incompreensão não durou muito tempo. Lembro que os primeiros sintomas percebi na adolescência, e na entrada da vida madura eu podia reconhecer em mim a mesma patologia em graus crescentes de manifestação. O destino se ocupara de me amaldiçoar com a mesma sina.

Hoje vi uma cena de carnaval de rua e fiquei pensando “Como eles podem se divertir saltitando assim e se vestindo como tolos?”, mas me calei antes que tal sintoma emergisse como palavra. Tenho vergonha da minha doença. Felizmente eu não falo para muitos o meu diagnóstico e minha enfermidade fica a maior parte do tempo escondida, como um eczema coberto pelas mangas compridas no tempo frio.

É uma maldição, e dela a única saída é o derradeiro fechar de pálpebras.

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