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Fogueira das Vaidades

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Quando eu fiz residência em um hospital escola da minha cidade – há 30 anos – era do conhecimento de todos, desde quando você entrava no estágio do sexto ano de medicina, que o departamento era dividido ao meio. Havia dois “clãs”, dois grupos distintos de professores que historicamente se digladiavam e disputavam o poder de forma explícita e as vezes agressiva. O grupo que chamarei de “A” era o mais novo e o mais conectado com evidências e estudos, enquanto o grupo “B” era mais tradicional e conservador.

A chefia do serviço estava com o grupo “A”, mas sabíamos de processos judiciais que um grupo movia contra o outro pela primazia nas publicações. Havia um jovem e ambicioso  professor do grupo “A” que contava fofocas altamente comprometedoras de professores do outro grupo, e fazia isso na base da “camaradagem”, durante um plantão, um cafezinho no bar do hospital ou uma conversa privada. Eu achava aquilo estranho e antiético,  mas era difícil se posicionar quando existia um valor incomensurável depositado nessas figuras de autoridade. Preceptores de residência eram, e ainda o são hoje, figuras que concentravam um enorme poder.

Não havia escrúpulos. Era uma fogueira de vaidades e havia a todo o momento um convite para tomar partido. Se você era de um lado não podia ser do outro.

Certa feita fui testemunha de um fato curioso no plantão, que me fez repensar toda a minha profissão e o meu destino após a residência. Uma paciente acompanhada de sua mãe procura um professor do clã “B” e lhe faz um estranho pedido. Ele havia atendido o seu próprio nascimento há 20 anos e agora, grávida,  gostaria que ele a atendesse,  sendo o responsável pela assistência das duas gerações. Como era um atendimento privado o professor aceitou sem pestanejar.

O que a o paciente não sabia é que este professor nunca foi obstetra. Havia atendido o parto de sua mãe logo após se formar, mas imediatamente depois se dedicou à ginecologia e infertilidade. Não atendia um parto há no mínimo duas décadas.

No dia do parto a paciente internou durante o meu plantão, e só por isso soube de todos os detalhes. Avisei o professor que se limitou a dizer por telefone: “fiquem atendendo aí e me liguem quando ameaçar coroar”. Foi o que fizemos. Quando o parto se aproximava chamamos o professor, que efetivamente chegou quando o bebê despontava no introito vaginal.

O parto foi uma tragicomédia. O professor havia esquecido como segurar um bebê, e este escorregou de suas mãos. Para que  não caísse aparou com a perna. Sem saber o que fazer entregou o bebê ao pediatra, mas se esqueceu de cortar o cordão, e quase o bebê vai ao chão de novo. Nós, atônitos, assistíamos constrangidos. No final, “entre mortos e feridos salvaram-se todos”, mas rolou Kristelller,  episiotomia Transamazônica, corte prematuro do cordão, etc. Violência e despreparo.

Contei para a nossa turma que estava no plantão o que havíamos testemunhado e achamos graça, apesar do absurdo do atendimento.

Muda a cena para uns meses depois e durante um churrasco de confraternização dos residentes com professores do Clã “A” o jovem professor carreirista pede que eu vá até a sua mesa. Quando cheguei lá ele disse para todos:

Conte para nós o parto que o Dr Nosferatu atendeu no seu plantão.

Nosferatu” era como chamava o professor inimigo para nós. Havia chegado aos seus ouvidos o parto bizarro atendido por um professor do Clã “B”, e que eu tinha relatado aos colegas do plantão. Sem saber o que dizer contei as peripécias do parto para o público de colegas ávidos por uma fofoca.

Terminei a história e voltei para a minha mesa. Imediatamente me dei conta que eu havia sido usado como massa de manobra na luta das facções adversárias. O professor carreirista me usou para difamar um inimigo, que em verdade era um colega. Fui apenas “bucha de canhão”.

Tive uma sensação de culpa muito forte por participar daquela cena. Percebi também que não aceitaria viver minha vida profissional envolvido nas labaredas de vaidade do mundo acadêmico. Não queria pertencer a nenhum grupo ou facção, mas tudo me mostrava que não havia outro modo de  sobreviver.

O professor carreirista conta fofocas até hoje, e se mantém poderoso. O professor do grupo “B” já faleceu e eu, naquela churrascaria, fechei as portas da academia para mim para nunca mais querer abrir.

Eu não vejo esses personagens como desumanos ou perversos. Até no movimento de humanização do nascimento existem “clusters”, grupos que rivalizam, ressentimentos antigos e mágoas estimuladas a crescer pelo único adubo legitimamente humano: a vaidade.

Logo após minha saída da residência percebi que a maioria dos meus colegas tinha o sonho de trabalhar na Universidade. A tentação era muito grande pois tudo o que víamos era uma enorme concentração de poder nos professores, e todos os benefícios de prestígio social daí advindos. Minha dúvida era: como evitar o fato de que a motivação inevitavelmente se chocaria com a realidade.

A vida de um professor da universidade é ensinar, atualizar-se, dar aulas, acompanhar alunos e fazer pesquisa, mas estes aspectos eram os MENOS importantes para a seleção. É como se você fizesse um concurso para “body building” seduzido pelos músculos lustrosos dos Arnolds da vida e ao ser aprovado percebesse que precisava levantar peso todos os dias.

Talvez por esta razão específica da minha vivência, minha formação acadêmica foi pobre. Meus professores não tinham nenhum interesse – quanto menos talento – para o ensino. Usavam a universidade como insígnias de valor e poder, e não como ferramentas de transformação social. A seleção para estes cargos era feita de forma política e não levava em consideração a capacidade pedagógica ou o próprio desejo de ensinar.

Por outro lado o surgimento nos últimos anos de alguns professores de obstetrícia ligados às correntes de humanização do nascimento é a prova de que existe a possibilidade de reverter o  processo por dentro.

Se é possível produzir um papa um pouco mais aberto como Francisco emergido das entranhas do Vaticano, a Medicina também pode produzir – mesmo que lentamente – seus renovadores.

Quem viver, verá.

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Sociopatia

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Há quase 50 anos, durante uma festa de São João no prédio onde morava, percebi meu pai sentado em silêncio em um canto do recinto  com o olhar preso no infinito cósmico. Perguntei a ele se estava bravo ou triste, e ele me respondeu que não. Perguntei se ele estava se divertindo e ele novamente disse “não”.

Fiquei surpreso,  pois era uma festa. Música,  fogueira, crianças correndo, piadas, “quentão”, broas e pinhão. O que poderia ser melhor e mais divertido que isso?

– Eu não consigo achar festas divertidas, mas não me pergunte o porquê. Qualquer explicação será parcial e incompreensível. Não se preocupe, estou bem.

Fiquei triste, sem saber o que dizer e, de uma certa forma, fiquei decepcionado. Ao meu lado via outros pais dizendo bobagens, cantando músicas e exagerando na bebida, enquanto meu pai apenas observava e, quando muito, ensaiava um tímido sorriso. Seu rosto demonstrava toda a distopia e toda a falta de conexão com a alegria fugaz, superficial e explícita do ambiente.

Por muitos anos não consegui entender meu pai e sua sociopatia. Por um tempo eu o culpei por ser como era. Todavia, minha incompreensão não durou muito tempo. Lembro que os primeiros sintomas percebi na adolescência, e na entrada da vida madura eu podia reconhecer em mim a mesma patologia em graus crescentes de manifestação. O destino se ocupara de me amaldiçoar com a mesma sina.

Hoje vi uma cena de carnaval de rua e fiquei pensando “Como eles podem se divertir saltitando assim e se vestindo como tolos?”, mas me calei antes que tal sintoma emergisse como palavra. Tenho vergonha da minha doença. Felizmente eu não falo para muitos o meu diagnóstico e minha enfermidade fica a maior parte do tempo escondida, como um eczema coberto pelas mangas compridas no tempo frio.

É uma maldição, e dela a única saída é o derradeiro fechar de pálpebras.

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Erro e perdão

Uma paciente conta para seu médico, durante uma consulta, que seu filho de 2 anos dorme na cama com ela. Desfia uma série de justificativas e explicações para a cama compartilhada, que são conhecidas de todos. “É mais tranquilo para atender, ele dorme melhor, amamenta mais fácil etc”. A mãe estava separada do marido faz pouco e parecia óbvio que havia mais explicações e muito mais interpretações para sua atitude em relação ao filho. Necessidade de companhia, medo, carência talvez. O médico escuta suas razões e, sem dar a ela muito tempo para continuar as explicações, dispara:

– Se quiser recuperar o seu filho do estrago que já foi feito, retire-o imediatamente dessa cama. Crianças não devem compartilhar o leito com adultos. Se quiser que seu filho se torne um histérico mimado e egocêntrico continue assim, caso contrário coloque-o no seu próprio quarto. Imediatamente!!

A mulher manteve-se em silêncio sem dizer nenhuma palavra. Baixou os olhos como que a pedir desculpas. Ele devia estar certo, afinal era um médico, preparou-se para isso. Como poderia uma mulher pobre e sem estudo questionar o que um doutor dizia? Suas explicações simples eram insignificantes diante do conhecimento e da autoridade do jovem profissional à sua frente.

– Está bem, doutor. Assim farei se o senhor diz que é o melhor.

O médico sorri com sua benevolência aristocrática e superior. Coloca uma folha de receituário à sua frente e desenha com letra bonita um remédio que lhe pareceu adequado. Levanta-se e conduz a mulher até a porta. Ela se despede ainda cabisbaixa e caminha em direção à saída da clínica. Missão cumprida. Uma aula de arrogância e prepotência. Uma mulher que deixa um recinto sagrado de cura muito pior do que entrou. Carrega consigo uma folha de papel e uma tonelada a mais de culpa nas costas por ser uma mãe relapsa, egoísta e irresponsável. Talvez nunca mais volte, mas não por estar bem, e sim por sentir vergonha. Não sinto pena nenhuma desse profissional, mesmo que possa entendê-lo. Ele precisava ter ouvido umas boas reprimendas pela sua absurda falta de sensibilidade e ausência total de empatia. Mas, quem poderia lhe dar essa lição se, ao seu redor, tantos achavam sua atitude correta?

Esse médico era eu, há 25 anos, e o fato realmente ocorreu. Uma vida só é muito pouco para recuperar tantas tolices e erros cometidos. Resta esperar que, assim como tantos outros equívocos e tolices cometidas, essa falha também possa ser perdoada. É tudo que posso pedir.

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Morrer

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A face atual da medicina é como a de uma mulher eternamente insatisfeita com sua aparência. Pela impulsividade de seu desejo não interdito submete seu corpo a inúmeras cirurgias plásticas em sequência, as quais obedecem à lógica de consertar o que antes era – ou parecia – falho ou insuficiente. Quem com ela convive no cotidiano não percebe plenamente a intensidade da desfiguração; entretanto, quem a encontra depois de algum tempo, percebe que pouco restou da pessoa de outrora.

Existe um texto de Eliane Brum  (vide aqui) que é uma tocante descrição da morte, o morrer e suas circunstâncias. Fala do poder absoluto dos médicos e sua frieza arrogante. Descreve a insensibilidade dos profissionais que tratam da passagem sem a devida consideração das histórias e falas das quais somos feitos. Deixa clara a necessidade de mudar o médico e sua formação, para que o morrer seja reintegrado à vida e a entrada no mundo dos espíritos seja carregada de respeito e dignidade.

Infelizmente Eliane ainda não percebeu que mudar os médicos é INÚTIL e INEFICAZ se não houver ao mesmo tempo uma mudança nos pacientes. A sociedade forma os médicos que deseja e cultua. A frieza médica é ADMIRADA pelos pacientes; sua fala pretensiosa é valorizada e venerada. Ou, como se dizia no meu tempo: “Ele é um cavalo, mas um excelente médico”.

“Como assim?“, pensava eu, entre ingênuo e idealista. Era importante reconhecer que os médicos não vem de outro planeta; nem os políticos. Médicos e políticos são construções sociais. Temos os profissionais que merecemos e desejamos. O médico que agir em uma UTI – como pedem aqueles que desejam uma medicina mais humana – será destruído em pouco tempo, e pelos próprios pacientes cuja humanidade tenta defender. Não podemos ser ingênuos de propor mudanças em apenas um lado do muro; estas precisam ocorrer na CULTURA para só depois verter para as ações cotidianas.

Sobre isso lembro de uma história de minha época de escola médica. Havia um senhor da Santa Casa que estava em estado terminal há várias semanas. Inconsciente, velho, emagrecido e fraco. Recebia visita de uma filha apenas. Mulher pobre, morava em uma cidade vizinha e pegava duas conduções para vir ao hospital apenas para ver o pai-objeto como carne inerme sobre a cama cuja pintura descascava sem dó. Em uma das visitas eu estava ao seu lado quando confrontou o médico responsável. Disse-lhe que a situação do pai era injusta, que era crueldade mantê-lo naquele estado e que seria muito mais decente “acabar com seu sofrimento”.

Os rodeios eram inevitáveis ao falar de uma morte que era desejada, mas cuja expressão era constrangida. O médico, entretanto, foi duro. “Enquanto houver uma centelha de vida lutaremos por ela“. Despediu-se secamente e foi-se embora, deixando a pobre mulher comigo no corredor.

São uns animais insensíveis“, disse ela secando as lágrimas.

Uma semana depois o velho pai desencarnou e encontrei o médico atendente na enfermaria. Ele me contou que a senhora, filha do paciente que faleceu, veio ao hospital e ao encontrá-lo o acusou de ter “matado” seu pai. Disse que foi negligente, irresponsável, um verdadeiro assassino. Disse também, como ameaça final, que iria à polícia e ao CRM.

Por que ela agiu assim, a mesma mulher que uma semana antes pedia por um fim digno para o seu pai?” perguntou meu colega.

“Culpa”, respondi. “Alguém deveria pagar pela culpa que ela sentia por desejar a morte do próprio pai. Nada melhor que o médico que funciona como um “comedor de pecados”. É uma atitude devastadora para os profissionais, mas muito mais comum do que gostaríamos.”

Ele completou:

“Você tem razão, por isso mesmo é necessário entender as atitudes dos médicos também através desse prisma. Agimos como robôs insensíveis, mas assim o fazemos como uma forma de proteção“.

Se todos os familiares fossem sensíveis e compreensivos diante das perdas seria fácil ser humano diante da morte de um paciente. Mas eles não são…

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O Carnaval das Classes

Uma amiga foi visitar pela primeira vez o Carnaval da Bahia e resolveu comprar um abadá – uniforme especial do Carnaval baiano – que permite a ela brincar dentro do encordoamento que separa os que pagam (bastante) para ficar próximos ao trio elétrico dos “pipocas”, que por nada pagarem seguem a folia do lado de fora. Não saiu barato, mas suas economias do ano anterior foram suficientes para garantir essa extravagância colorida de verde e amarelo.

A festa corria solta e animada até que algo inesperado aconteceu. Quando o trio elétrico se aproximava da Praça Castro Alves, e a banda começava a cantar a música de Caetano em sua homenagem, todos os cordeiros (seguranças que controlam as cordas de separação) foram acionados para conter uma confusão próxima, e com isso muitos “pipocas” invadiram a parte exclusiva da turma do abadá. Como a invasão foi muito abrupta, rapidamente a área reservada se viu pintada de muitas cores, em especial a dos soteropolitanos mais pobres e escuros que se misturaram aos sulistas e aos turistas estrangeiros de pele avermelhada pelo sol da Bahia. A banda torpedeava “A Praça Castro Alves é do povo, como o céu é do avião” enquanto uma súbita democracia de raças, credos e castas tomou conta da rabeira do trio elétrico. Enquanto o povo se divertia na mistura inesperada a cantora abria o grito, alheia ao que estava acontecendo.

Aos poucos a alegria genuinamente popular que ocorreu com a invasão deu lugar a um crescente desconforto. A entrada do povo na parte restrita às elites começou a desagradar aqueles que se sentiam invadidos. Não que estivessem perdendo algo (já haviam pago mesmo), até porque nada lhes foi retirado. Sequer era espaço o que lhes faltava, pois antes já estava bastante lotado. Não, a inconformidade se dava pela invasão de um espaço que consideravam seu, o qual estava sendo usurpado por aquelas pessoas mais pobres. Não era nenhuma perda objetiva, mas a sensação desagradável e subjetiva de dividir espaço com aqueles a quem não julgavam como iguais. Afinal, tinham pago; portanto, tinham mérito. Tinham, por esta razão, direito a um lugar exclusivo.

A nenhum deles ocorreu, no meio da folia, das músicas, dos beijos roubados, da dança frenética e dos goles de cerveja questionar porque uma festa popular dividia o povo entre os que podem mais e os que podem menos. Muito menos ocorreu a qualquer um dos que vestiam abadá se perguntar as razões e as circunstâncias profundas que lhe permitiram estar do lado de cá da corda. Não, não havia clima para estas perguntas incômodas. A solução encontrada foi uma chamada conjunta de todos que vestiam o abadá verde-amarelo para que os seguranças jogassem todos os penetras para fora. “Voltem para o seu lugar”, gritavam. “Eu tenho o direito de estar aqui, você não”, diziam outros. “Eu paguei, não tenho culpa se você é pobre”.

Em alguns minutos, após a intervenção violenta dos seguranças, a ordem foi restaurada e mais uma vez só havia abadás verde-amarelos entre as cordas. “Eles que façam um carnaval só para eles”, disse o alemão barrigudo que segurava a mulata pela cintura. “Esse aqui é nosso”, completou. O trio elétrico parado na Praça chacoalhava os vidros dos sobrados centenários de Salvador e fazia as ondas do mar próximo quebrarem no ritmo dos atabaques. No centro da praça, impávido e pétreo, Castro Alves recitava em solilóquio alguns versos que surgiram em seu pensamento. Talvez – como saber? – fosse uma lembrança que, sem perceber a razão, lhe ocorreu naquele exato instante de euforia máxima e frenesi apoteótico.

“Existe um povo que a bandeira empresta
Prá cobrir tanta infâmia e cobardia!…
E deixa-a transformar-se nessa festa
Em manto impuro de bacante fria!…
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,
Que impudente na gávea tripudia?
Silêncio.  Musa… chora, e chora tanto
Que o pavilhão se lave no teu pranto! …”

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Bandidos

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“Qualquer texto que contenha a frase “nós que trabalhamos e pagamos impostos” (para se contrapor aos “pretos molengas e vagabundos que se sustentam do estado”) vem da mesma origem: a classe média ressentida que vestiu verde amarelo e agora vê o Brasil se destroçado por obra da MESMA elite escravocrata que defende a falácia da meritocracia e que falsamente combate a corrupção. A mesma classe que não enxerga um presídio com 80% de negros e continua acreditando que as oportunidades são iguais, “basta querer”. Esse é o mesmo grupo que, sem conseguir se recuperar adequadamente do golpe sofrido com a Lei Áurea, pretende que pobres e negros sejam eternamente cordiais, conformando-se com a desigualdade que sua condição social e racial lhes impõe por viverem no país mais desigual e cruel do mundo.

Bandidos são também – e principalmente – vítimas de uma sociedade cuja engenharia perversa produz a marginalidade e a exclusão como subprodutos inevitáveis.

A Casa Grande jamais aceitou, e jamais aceitará, um país para todos.”

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Dona Zilá

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Dona Zilá (apenas um nome fictício) foi atendida por mim na Venezuela, apesar de nenhum de nós dois jamais ter visitado este pais. Dizia-se um pouco tonta e vomitava . “Não para nada no estômago, nada mesmo” dizia ela, apertando seus pequenos olhos castanhos por detrás dos óculos de aro dourado. Disse ter 81 anos e mais de 20 de viuvez. “Agora um cólica violenta me retorce por dentro, doutor“. Suas mãos estavam trêmulas assim como seu corpo inteiro. A pressão estacionara em 140 x 100, mas trazia na sua bolsa inúmeros remédios para todas as afecções que lhe cabiam por direito.

Estava acompanhada da nora, “um anjo que Deus colocou em minha vida”. Dona Zilá me disse: “Eu tive 9 abortos, doutor, mas pari 4 filhos. No dia seguinte aos partos eu já fazia toda a lida da casa. Nunca me entreguei a nada. Não havia frescuras no meu tempo“.

A nora me mostrou as medicações que ela dispunha dentro da bolsa. Remédio para pressão, ansiedade, falta de sono. Verifiquei mais uma vez a pressão e estava mais alta, mas o braço rígido tremia cada vez que eu verificava. Difícil saber os valores exatos.

A nora me conta que os vômitos começaram ao ser impedida de sentar ao seu lado quando entraram no avião. Pela disposição dos assentos precisariam ficar distantes, até que todos estivessem acomodados e uma troca fosse viável.

Foi então que ela começou a tremer e vomitar. Ela  indignada com a comissária e com medo de viajar sem minha o presença constante ao seu lado. Acho que é dos nervos, o senhor não acha?“.

A conexão entre os fenômenos da alma e aqueles do corpo é mais facilmente identificada pelas pessoas comuns do que pelos profissionais da saúde. Disse à ela que provavelmente isso era verdade, mas que a prudência mandava ficarmos atentos. Afinal, sua idade assim determinava.

Expliquei às comissárias de bordo do que se tratava, até para deixá-las mais tranquilas. Pedi que trouxessem a caixa de remédios de urgência, mas só vi utilidade na velha metoclopramida. Solicitei à enfermeira, a qual também atendeu o chamado das comissárias e veio acudir dona Zilá, que aplicasse o medicamento; afinal estávamos trabalhando em equipe. Ela ficou bem feliz em ajudar. Os tremores continuavam, mas era evidente que diminuíam à medida que conversava comigo. Enquanto me contava sua história as cólicas foram parando e não se preocupou mais em vomitar.

Meu marido morreu cedo. Era um homem rico e nos deixou uma indústria. Depois de sua morte ela foi vendida e dividida entre todos. Eu, meus 4 filhos e a outra mulher que ele tinha, e mais seus três filhos, os quais só descobrimos depois de sua morte.” Ela me contou esse detalhe com absoluta naturalidade, sem nenhum sinal de ressentimento. “No tempo que eu fui pobre não tinha nem luz elétrica na minha casa. Criei quatro filhos trabalhando duro. Criei ainda mais um neto, que nunca se deu com os pais. Infelizmente ele fez direito e entrou na policia, mas eu não gosto de polícia e nem de ladrão“.

Rimos todos, até as belas aeromoças que nos cercavam. O tremor estava visivelmente menos intenso à medida em que desenrolava como um longo fio sua narrativa de vida. “Meu marido morreu falando comigo. Virou a cabeça para o lado e fim. Infarto fulminante. Muito pesado, estressado, fumante.

Resolvi usar um medicamento sublingual que estava em sua bolsa pois a pressão chegou a 170 x 116. Apesar da rigidez dos braços achei melhor diminuir um pouco esses valores. “Ela adora remédios“, disse a nora angelical. “E quem não enxerga nos remédios um substituto para o contato humano que a vida nos retira com o tempo?“, pensei eu.

Perdi o café da manhã no voo, mas dona Zilá precisava de alguém para lhe oferecer ouvidos e ajudar a acalmar sua alma aflita. Verifiquei mais uma vez a pressão só para me certificar que estava baixando. 160 x 100 já me deixou satisfeito.

Olhei no mapa ao lado da comissária e vi que nosso avião se aproximava do Brasil. Era hora de me retirar e voltar para meu lugar. Faltavam algumas poucas horas para o pouso mas deixei claro que estaria à disposição se ainda precisassem. Ela me abraçou e perguntou meu nome. “Ricardo“, respondi.

Ela então sorriu pela primeira vez e disse: “O nome do meu filho e do meu neto!! Viu como foi Deus que o mandou aqui?

Como duvidar? Voltei para meu assento e vi o ponto dourado no mapa atravessar a linha que separa o Brasil do resto da América. Faltava pouco para chegar em casa.

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O menino da bicicleta

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Meu carro parou no cruzamento movimentado em sua rotineira volta para casa. O rádio antigo, travado em uma estação ordinária, repetia músicas feitas por um computador que fabrica sucessos imediatos e letras sem sentido. A fila de carros que passavam à minha frente parecia interminável enquanto eu procurava uma brecha segura para cruzar a preferencial. As canções intercaladas com propagandas de mercearias e bancas de advogados populares enchiam o espaço do carro com mensagens enfadonhas de amores desprezados e retirada de multas. E eu apenas sonhava em chegar em casa para tomar café.

Finalmente uma brecha apareceu ao longe. Pisei no debriador e coloquei a primeira marcha. Sabia que a brecha logo se fecharia e, sabe-se lá quando, outra apareceria. Ah, o trânsito desses dias. Olho para o retrovisor e há mais 4 carros aguardando em fila atrás de mim. Minha determinação e agilidade vai determinar não apenas o meu café, mas de todos estes que aguardam impacientes a minha decisão.

Piso no acelerador avisando que vou me arriscar em instantes. O carro anda 20 cm para frente. A brecha se aproxima. Vou sair.

Detenho-me.

Ao longe surge um personagem que não havia percebido: um menino e sua bicicleta. Ele pedala o mais que pode e está no meio da brecha. Vejo diante de mim duas possibilidades: correr e obrigar o menino a frear sua “bike” ou esperar que ele passe, e provavelmente perder a janela de rua vazia à minha frente.

Escuto a primeira buzina a apertar meus tímpanos enquanto meu pé angustiado aguarda as ordens do cérebro. Na dúvida avanço mais 20 cm e vejo melhor o menino da bicicleta que se aproxima. Sua imagem cresceu no vidro dos meus óculos e pude notar quem era o personagem que atrasava a fila de motoristas que tanto desejavam voltar para casa.

Negro, 20 anos, magricela. Sua bicicleta era tão simples e despojada quanto suas roupas: uma bermuda, camiseta e um chinelo havaianas. Olhou para mim mais uma vez enquanto se aproximava do cruzamento e seu olhar se fixou em mim, talvez querendo saber o que eu faria a seguir.

Desisti. Pisei no debriador e ajustei a marcha do carro para o “ponto morto”. Ouvi mais uma buzinada e me resignei. Coloquei as duas mãos no volante apenas a tempo de ver a nova leva de carros surgir ao longe na esquina da rua em frente. Minha brecha havia escapado. Eu nunca mais voltaria para casa. Adeus meus filhos, minha mulher e meu café com torradas.

Olho consternado para a rua enquanto o menino da bicicleta finalmente se aproxima do cruzamento. Foi então que o milagre aconteceu.

Quando sua bicicleta passava em frente ao meu carro ele levanta a mão esquerda, aponta o polegar para cima e me envia o mais belo sorriso do dia. Do mês, e certamente do ano que havia iniciado há 48 horas. Ele agradecia minha espera, minha paciência, meu tempo de aguardo para que ele pudesse passar. Respondi com um sorriso tímido, meio sem graça, e me limitei a esticar os dedos da mão esquerda do volante. Ele passou com pedaladas vigorosas e eu novamente fiquei aguardando pela bendita brecha.

“O menino pobre e negro agradeceu a oportunidade que o senhor branco havia lhe dado”. Não, talvez não. “O menino da bicicleta exigiu que sua vez de passar fosse respeitada pelos carros”. Pode ser. “O sorriso agradecido do menino negro desvela sua humildade diante de um confronto de classes e perspectivas de vida”. Quem sabe. Fui atropelado pelas metáforas possíveis sem saber a razão de ter ficado pensativo e, por que não, emocionado.

Talvez nenhuma das hipóteses anteriores e tudo se resume a ficar encantado diante de um sorriso de agradecimento

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“Revelhom”

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Fotos de revelhom:

Mulheres: lindas e sorridentes (ok, já disse), arrumadas, produzidas, pintadas, batom, lápis, delineador, cabelos (ohhhh!!!), sapatos, poses, caras e bocas, blusas, vestidos, tubinhos, mini-tubinhos, pretinhos, adereços, gloss (não sei exatamente o que é), calcinhas (não vi nenhuma, mas sei da preocupação), bijuteróias (um blend das duas), filhos e filhas.

Homens: Bermuda, chinelo e cerveja na mão.

Na maior parte do tempo ser homem é algo muito pesado. Morremos mais cedo, infartamos, brigamos, somos feridos e mutilados, precisamos matar o leão todos os dias para apresentar ao Pai. Mas nas festas temos uma folga. Casamentos, batizados, velórios, Natal e Ano Novo nossa preocupação com a apresentação é quase nula. Isso é uma bênção.

Durante 1 ano antes de me formar escutei as conversas das colegas sobre as “provas” que tinham a fazer, mas não eram os exames da residência médica, e sim as provas de roupa de formatura nas suas exigentes costureiras. Pior ainda, algumas delas me mostravam desenhos de roupas e pediam minha opinião!!

Toda a preocupação que tive com minha roupa de formatura foi engraxar meu sapato no dia da cerimônia e vestir exatamente a mesma roupa do meu casamento, que eu havia usado há 3 anos.

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Destino sábio

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Neste ano de 2017 completarei 40 anos de namoro. Comecei a namorar aos 17 anos, quando fazia cursinho pré-vestibular. Tinha a fixação de cursar medicina desde os 15 anos, surgida em uma enigmática epifania ao abanar para minha mãe que embarcava para a Europa para lá encontrar meu pai. Minha namorada não tinha muita certeza do que fazer, mas queria também cursar algo na área da saúde.

Havia dois cursos públicos de Medicina na época: Universidade Federal e Faculdade Católica  (que não era pública, mas subsidiada, portanto pagável). Para ambos estudar na PUC era absolutamente impossível; não haveria como nossos pais pagarem por isso, e nem chegamos a fazer o vestibular para lá.

Eu me decidi pelo ingresso mais difícil: a Universidade Federal, mas ela disse que teria mais chances na Católica. Fiquei muito triste de pensar que, se ambos passássemos, não seríamos colegas de turma. Consegui convencê-la a mudar de ideia e fazer para a mesma universidade que eu.

O resultado disso foi que eu passei e ela entrou em segunda opção – educação física. Só no ano seguinte ela fez novo vestibular e entrou na enfermagem. Entretanto meu remorso vem do fato de que a nota do primeiro vestibular para medicina foi insuficiente para entrar na Universidade Federal, mas teria a pontuação necessária para entrar na Faculdade Católica. Não fosse pela minha insistência egoísta em ser seu colega e ela teria cursado medicina. Assim as nossas histórias de vida teriam sido mais distantes, e por certo completamente diferentes.

Eu me divirto em pensar que hoje ela seria rica, tendo se especializado em “medicina estética”. Estaria casada com um cirurgião vascular famoso e milionário. Teria dois filhos: Wesley e Jéssica, ele surfista, ela modelo. Teria filhos só depois dos 30, pois seu namorado médico era obviamente cuidadoso e responsável. E eu …. bem eu seria para ela apenas aquela lembrança que passa pela cabeça das mulheres e que se expressa para nós como um suspiro. A gente tolamente pergunta “está cansada?” e elas, com o olhar preso no infinito, respondem “não, estou bem” e … suspiram de novo.

Por alguns anos carreguei essa fantasia e essa culpa, mas a minha namorada sempre disse que o destino foi sábio com ela. Sua realização sempre foi ligada à enfermagem. Todavia, o pensamento que hoje tenho é de que minha atitude egoísta ao desejá-la como colega e as consequências disso – não passar em medicina  e cursar enfermagem – acabaram sendo a maior bênção que eu poderia receber. A melhor parte do que fui como médico veio do fato de conviver 24h por dia com alguém cujo foco principal de seu trabalho não era cortar, intervir e medicar, mas cuidar e amparar.

Como se pode facilmente perceber, o destino foi sempre muito bondoso comigo. Por mais que 2016 tenha sido um ano de tristezas, perseguições e decepções seria uma injustiça imperdoável não olhar para trás e agradecer a dádiva de ter vivido aqui.

Feliz 2017

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