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Culpa e responsabilidade

Quando analisamos o papel da maternidade na cultura humana e sua importância central podemos nos defrontar com questões controversas. É verdadeiro o peso desproporcional que recai sobre as mães pela sua condição e também a necessidade, diante do fim dos papéis sociais fixos, de redistribuir as responsabilidades que o casal tem em relação ao cuidado parental. Porém, é importante refletir sobre os significados desse peso. Se você olhar pelo lado da culpa tudo fica pesado e doloroso, mas se você olhar pelo viés da responsabilidade, a mãe é efetivamente o canal por onde a criança é introduzida ao mundo da linguagem.

Ontem eu estava contando uma história para o meu neto quando ele me interrompeu e disse: “Mas nesse lugar não tinha aranhas, né? É que eu tenho medo de aranhas. Eu e a minha mãe…”

Na verdade a mãe dele é que tem medo de aranhas e ele se identifica com seus sentimentos. As crianças sempre produzem essa conexão violenta e libidinal (originada da altricialidade) com a figura da mãe, que Freud chamou de Complexo de Édipo. É sobre essa relação intensa, amorosa e criativa que se estabelecem os fundamentos do psiquismo humano. A mãe é, portanto, o centro constitutivo da vida emocional da espécie. É natural que recaia sobre ela a responsabilidade (não a culpa) de construir o mundo afetivo das crianças, seus filhos.

A visão estrutural humana solidamente construída pelo amor primordial entre um bebê e sua mãe – e o amor que ela lhe dirige em contrapartida – nunca foi suplantada como chave essencial para compreender o desejo humano. Não acredito que seja possível aliviar o “peso da maternidade” retirando das mães a responsabilidade de serem as construtoras de mentes, introdutoras da linguagem e até mesmo aquelas que oferecem um pai ao seu filho – pai que um dia poderá resgatar esta criança das garras mortais do amor materno.

Não vejo sentido em “pegar pesado” com os autores que reconhecem a importância da mãe no sustento psíquico das sociedades humanas. Entretanto, se este valor feminino fosse extinguido, levando às últimas consequências a “liberdade da mulher”, teríamos uma sociedade sem esse peso em suas costas, mas talvez sem amor suficiente para que a própria espécie pudesse sobreviver.

É de Freud a frase:

“A maior função de uma mulher é ensinar seu filho a amar. A maior função de um homem é livrar seu filho de ser consumido pelo amor materno“.

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Feras e outras histórias de amor

Há exatos 40 anos tomei um decisão radical para a qual estava me nutrindo de coragem por algumas semanas. Convidei meu “crush” (mesmo que naquela época não houvesse esse nome) para ir ao cinema. Quem sabe as condições de pressão e temperatura pudessem quebrar o gelo que emperrava a minha iniciativa.

Havia vários filmes para ver na cidade, mas o escolhido foi King Kong, uma mega produção da época dirigida por John Guillermin e estrelada por Jeff Bridges, Jéssica Lange e…. Kong. No escurinho do cinema e após vários drops de anis eu tomei a coragem necessária para pedir a menina em namoro. Mal sabia eu que toda a minha vida seria determinada pelas escolhas daquela noite.

Exatamente 4 anos e meio depois daquele encontro eu casei com a moça simpática de olhos verdes e sorriso reservado. Todavia, o que sempre me causou espanto foi o fato de que o script da nossa vida em comum seguiu o roteiro que pautou nosso primeiro momento.

King Kong é “A Bela e a Fera” com final trágico. Uma história de amor marcada pela incompatibilidade. Como Bela, na animação da Disney, Dwan começa como cativa do monstro e com o tempo desenvolve por ele ternura, apreço e, por fim, afeto genuíno. Mas, ao contrário de Bela, que tinha a chance de reverter a maldição da Fera com seu amor, Dwan esbarrava no limite intransponível das espécies distintas e incompatíveis. O fim do monstro simiesco só poderia ser a tragédia.

É assim que também vi a minha história. Eu sempre fui o monstro incapaz de conter a fúria e a indignação. Durante anos persegui meus ideais mesmo recebendo os ataques inevitáveis de quem não aceitava a visão crítica e dura que eu apresentava. Segurando minhas convicções como Kong se apoiava no mastro do Empire States, recebi os inevitáveis disparos que surgiam de todos os lados. Por muitas vezes, durante todos estes anos de luta, a única coisa que me ofereceu um tímido consolo era o brilho dos olhos verdes da menina tímida cuja história se iniciou naquela sessão de cinema. Como o monstro da história, eu acabei percebendo que até o final dos meus dias seria este o olhar a me oferecer a força para seguir.

Quatro décadas nos separam daquela sessão de cinema. Dois filhos, dois netos, centenas de partos, muitas dores, tristezas, decepções e alegrias foram divididas. Nunca imaginei que um ogro pudesse ter tanta sorte, algo muito além do seu merecimento.

Agradeço a Zeza a companhia pelos últimos 40 anos, que formaram o que sou. Desculpe ter sido o King Kong descontrolado e furioso, e obrigado por ser a Dwan que sempre me apoiou, em especial quando o meu mundo parecia ruir.

PS: para mostrar como sou um sujeito de sorte a alternativa para King Kong naquela noite de inverno há 40 anos era “Carrie, a estranha”.

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Histórias

Terminei de contar ao meu neto Oliver uma mega história em capítulos que durou uma semana.

A história fui eu que inventei. É sobre um grupo de quatro  rapazes (todos tem os nomes de amigos do Oliver) que saem pela floresta atrás de uma lenda: a arca do tesouro que está no fundo de um lago dourado. No trajeto encontra-se com um grupo de quatro ursos falantes, que em verdade eram quatro rapazes que foram amaldiçoados pelas “Sombras” e tornaram-se ursos, e depois encontram-se com uma menina chamada Sophia que tem poderes mágicos e foi criada por uma matilha de lobos falantes – igualmente amaldiçoados pelas “Sombras“.

Os três grupos se juntam – os rapazes, os ursos e os lobos com Sophia – para juntos encontrar a arca, pois nela estão escondidas as poções mágicas que poderiam quebrar as maldições, o mapa para Sophia encontrar sua casa além de moedas de ouro que deixarão os rapazes muito ricos.

Quase no final da aventura Sophia é sequestrada pelas “Sombras” e a arca é encontrada no fundo do lago…. mas não sem antes receberem a ajuda de um gigante que os embarcou em um avião de papel e os auxiliou para que encontrassem o caminho.

Sophia é a grande protagonista. Ela domina as magias e comanda todo o grupo na busca pela arca. Exatamente por ser a mais importante e a protagonista – a única que sabia como chegar até o lago dourado – ela foi sequestrada pelas “Sombras” e precisou ser resgatada pelos amigos nas masmorras do Castelo das Sombras. Houve um episódio em que a inventividade dos rapazes utilizou um balão cheio de xixi para facilitar o resgate. Essa foi a parte que o Oliver mais gostou.

Na minha história Sophia é a personagem central e enigmática. Tudo ocorria em torno dela. Pensei que seria bom o Oliver escutar histórias em que as meninas são importantes e centrais já que as histórias de heroísmo masculino virão com naturalidade daqui por diante em sua vida e no processo de castração e identificação com o pai.

Minha ligação com a contação de histórias surgiu porque os pais do Oliver se engajaram em um esforço para diminuir ao máximo a exposição das crianças às telas – televisão, tablets e celulares – junto com outros país da escola Waldorf a que pertencem. Isso gerou (ao menos aparentemente) uma melhora no comportamento e agressividade das crianças. Por outro lado, as crianças precisam da fantasia oferecida pelas histórias para acalmar a ebulição do mundo psíquico a que são submetidas. Por isso Oliver literalmente implorava que contássemos histórias para ele.

Eu acabei sendo o encarregado mais constante de contá-las e resolvi contar as que eu mesmo inventava, para exercitar a minha imaginação e a dele ao mesmo tempo. Não havia um script fixo; a história era criada a medida em que era contada e com o auxílio das ideias que o próprio Oliver oferecia. Os nomes dos personagens foram todos criações suas (nomes de amigos da escola e de uma amiguinha da comuna). Resolvi também contar a história em capítulos para que ele treinasse a lembrança do que havia acontecido até então. Cada contação de história começava com o exercício de recapitular os episódios anteriores.

O nível de excitação dele para cada nova fase da aventura era impressionante. Seus olhos brilhavam a cada nova etapa e para cada solução que os personagens encontravam para os desafios. Era possível ver em seus olhos a construção das imagens e cenários que eram trazidos à história. Além disso ele incorporava conceitos e palavras novas (como “redemoinho”, “caule”, “muralha”, “rapto”, “poção”, etc).

A experiência foi tão agradável que resolvi escrever essas histórias para que sirvam de guia para outros contadores que acreditem na ideia de ajudar o crescimento das crianças estimulando sua imaginação.

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A América vestiu-se de Azul

Hoje completam 33 anos em que a América foi pintada de azul. Eu fui testemunha. Assisti o jogo ao lado do meu primo Cesar Blumm. Os ingressos já se haviam esgotado há semanas mas entrei no estádio de uma maneira insólita e impensável nos dia de hoje. Desesperado para assistir o jogo resolvi dar a última cartada possível, apenas uma hora antes da bola rolar. Com a cara de pau que Deus me deu bati no portão de ferro da entrada de serviço da social do estádio Olímpico e avisei ao porteiro que eu era o médico escalado para o plantão do estádio.

Na época eu tinha 23 anos e cara de 18. O porteiro – um senhor de idade – a princípio ficou confuso, mas deixou que eu entrasse por medo de alguma represália. Imagina se ocorre um acidente e ele impediu o médico de entrar? Ao lado do portão de ferro ficava o posto de emergência. Entrei ali para disfarçar e, quando o médico “de verdade” me perguntou o que eu queria, pedi para verificarem a minha pressão. 120 x 90. Aguardei uns minutos e saí de fininho, para o porteiro não se dar conta da minha malandragem

Depois de um tempo procurando na multidão que se aglomerava encontrei meu primo e assistimos o jogo quase sem respirar. Pela primeira vez um time do Rio Grande do Sul conquistava a Taca Libertadores, mas o fez ganhando do campeão da América e do mundo da época. Seria como vencer uma Libertadores ganhando do Real Madri. Foi épico, um momento inesquecível. Um jogo de pura raça Charrua. Os dois maiores copeiros da América em campo, isso antes da triste decadência econômica do futebol uruguaio.

O jogo foi pauleira pura. Nada do que se viu naquela partida sobrevive nos dias de hoje. Carrinho por cima da bola, sopapos, jogador sangrando em campo, repórter entrevistando o goleiro no tiro de meta, Renato Gaúcho debochando do adversário ao ser expulso mostrando nos dedos o placar do jogo. Tita e De Leon banhados em sangue. Torcida pulando o fosso e invadindo o gramado para comemorar. Nunca mais, nunca mais…

O futebol contemporâneo, civilizado mas asséptico, perdeu a efervescência testosterônica dos gramados. Trocamos gladiadores por barbies milionárias e sem amor pelos clubes que defendem. As arenas modernas aviltam a paixão do torcedor tanto quanto os salários estratosféricos agridem a pureza bravia do futebol. Esse dia de glória para o futebol poderei contar aos meus bisnetos. Sim, há mais de 3 décadas vovô Ric estava presente quando o pavilhão tricolor subiu mais alto entre todos aqueles da América de Simon Bolívar.

https://www.facebook.com/gremio.democratico/videos/1144739005571668

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Lágrimas na Chuva

A letra desenhada e curvilínea sempre foi esteticamente perfeita. “Letra de professora”, dizíamos. Sua paixão era ler, estudar, conhecer. Todavia, pouco conseguiu de objetivo com essa fantasia; preferiu – ou foi conduzida – à suprema felicidade da maternidade, numa época em que esta era a glória do universo feminino. Entretanto, jamais deixou de sonhar com as letras. Ao lado das colunas das páginas impressas de tantos livros espalhados pela biblioteca ela rabiscava suas ideias, opiniões e pensamentos. Com suas adições curiosas e suspicazes, os livros se coloriam, se avolumavam, ganhavam uma coautoria e, por isso, uma nova dimensão. Assim os autores se engrandeciam. Mais do que ler, minha mãe os estudava, dialogando com os escritores de forma pessoal e íntima.

Os livros na estante agora olham para seu corpo entrevado e envelhecido, ressentidos por sua misteriosa ausência. Reclamavam da falta dos rabiscos, das críticas, das observações curiosas e perspicazes, e principalmente sentem saudade do carinho que sua letra, por décadas, trilhava no papel já amarelado. A tinta gasta das folhas chorava por sua ausência e sentia falta de seu olhar que já não mais a observava e protegia.

— Sabe estes livros aqui na sua frente? Você os leu todos, mais de uma vez! – diz meu pai.

Ela sorri, um pouco sem jeito. Olha com surpresa o arranjo de volumes encadernados e do fundo do seu olhar tenta puxar uma lembrança fugidia, uma ponte para alcançar a lembrança que lhe escapa.

— É mesmo? Que impressionante! — diz ela, com um sorriso envergonhado.

Aquela letra tão bela, todos aqueles livros, aquelas ideias, todos aqueles autores e tantos amores. Todos desapareceram como lágrimas na chuva.

“Eu vi coisas que vocês não imaginariam. Naves de ataque em chamas ao largo de Órion. Vi raios C brilharem na escuridão, próximos ao Portão de Tannhäuser. Todos esses momentos se perderão no tempo, como lágrimas na chuva.” – Discurso final de Blade Runner.

No lusco-fusco do quarto seu olhar estático mira o teto, como a viajar pelo tempo a fazer-lhe perguntas. Fecha os olhos para centrar o foco, desejando que o gesto lhe devolva as lembranças. Ponho a mão em sua testa e me aproximo de seu rosto, que lentamente se volta para o meu.

— Mãe, sabe quem sou eu? — pergunto.

Ela esboça um sorriso e, de pronto, responde:

— É claro…

— Então diga quem sou, mãe.

Ela interrompe o sorriso. O rosto fica mais sério; franze as sobrancelhas e aperta os olhos.

— Eu não vou pergatilhar nomes…

Pergatilhar é apenas mais um dos seus curiosos neologismos. Talvez – como saber?- seja um verbo comum, quase banal para o idioma que agora desenvolvia. É provável – outra suposição – que seja muito usado nesse lugar que seus olhos visitam enquanto, dissimuladamente, vasculham o infinito cósmico à procura de lembranças.

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King Kong

No filme King Kong de Dino de Laurentis (Jéssica Lange e Jeff Bridges – 1976) a captura da fera se deu através de uma armadilha simples, porém engenhosa. Foi atraído para um buraco na floresta onde o gigante caiu ao perseguir membros da expedição. Logo depois foram jogadas “bombas soníferas” que liberaram um gás que o fez dormir. Corta a cena e vemos King Kong amarrado e imobilizado com grossas correntes no porão de um navio em direção à Nova York do início do século XX. Sua chegada à “esquina do mundo” serviria como rentoso espetáculo à uma sociedade ávida por produtos exóticos do “continente negro”. Corta de novo a cena para 2017. Minha mãe com 86 anos e com demência senil cai em casa e não consegue se mexer. Sente dor nas costas. Uma ambulância a leva para o hospital, depois de 4 horas de espera. Lá contata-se uma pequena fratura na vértebra lombar, e o tratamento deverá ser apenas repouso em casa. Após a liberação pelo traumatologista nos deparamos com duas possibilidades: aguardar mais 4 horas por uma ambulância que a levaria de volta para casa ou colocá-la no carro e levarmos nós mesmo. Escolhemos a segunda opção. Eu e meu irmão Marcus, auxiliados por dois enfermeiros, a colocamos esticada no banco de trás do carro. Minha mãe é miúda mas pesa 65 kg. Rodamos uma dúzia de quadras e chegamos na casa do meu pai. Tivemos uns 15 minutos de debates para escolher a melhor estratégia é decidimos por envolvê-la em um lençol e carregá-la assim até o elevador, cada um de nós segurando em uma ponta, enquanto meu pai, de 87 anos, ia abrindo as portas. Foi extremamente exaustivo porque a cada passo ela reclamava de dor e se sobressaltava. Depois de algum tempo conseguimos colocá-la na cama, dolorida, assustada e cansada. Nesse momento me veio à mente o filme que vi no dia 15 de julho de 1977, mas não me lembrei da beleza estonteante Jéssica, e sim da inquietude que tive ao sair do cinema. Depois de assistir ao filme fiquei com uma duvida que me segue até hoje. Como você retira um monstro de 30 metros de altura, desmaiado e mole, de dentro de um poço profundo e o coloca no porão de um navio, usando a tecnologia do início do século XX? Se carregar uma simples pessoa para fora de um carro foi um enorme e cansativo desafio, como seria possível dar conta desta tarefa? PS: para quem conhece a Dona Elba ela está bem, só precisa repousar. Foi apenas um susto.

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10 Dicas para PowerPoint

Algumas regras gerais para apresentações em PowerPoint:

1 – Mude o formato para 16:9 pois ele oferece mais espaço e também porque a maioria dos projetores e TVs hoje em dia são preparados para “wide screen“. Se não forem, e a única possibilidade de tela for 4:3, a imagem ficará com uma faixa escura acima e abaixo, sem atrapalhar o conteúdo..

2 – Não coloque texto na tela. Não escreva uma história que você poderia contar, e que concentraria a atenção em VOCÊ. Tire o olhar das pessoas da tela, e as conduza para lá só quando for importante. Não coloque quadros estatísticos com letras miúdas. Ninguém enxerga e tampouco memoriza isso. Coloque figuras simples e frases curtas!!! Imagens valem mais que mil palavras!!! Mude as letras para um padrão de apresentação. Uso Tahoma porque ela é gorducha e permite visualização à distância. Times é uma fonte para jornal, jamais para apresentações, pois à distância ela produz confusão. Lembrem-se que quando as pessoas não enxergam o que está na tela elas olham para o lado e se dispersam, e essa dispersão é o pânico de todo professor ou palestrante.

3 – Ajude o aluno a organizar as ideias de forma coerente!! Estabeleça critérios simples e facilmente compreensíveis para os subtítulos das páginas (por exemplo: vermelho, 40 pixels e superior à esquerda). Diante disso o aluno saberá que se trata de um novo tema, uma nova ênfase ou um novo assunto para pensar, e não a simples continuação de algo que viu na tela anterior. Dessa forma ele organizará mentalmente de uma forma mais simples o entendimento da aula ou da palestra.

4 – Organize as gravuras e os textos de acordo com configurações espaciais harmônicas e que quebram a rotina do observador. O aluno precisa ser surpreendido com a forma como as imagens e letras aparecem. É como uma estrada: se ela for reta demais torna-se monótona e produz sono; se a aula for previsível demais o mesmo fenômeno vai ocorrer.

5 – O mais importante e trabalhoso: estabeleça movimento e ritmo para a apresentação, o que a torna “profissional”. O grande problema dos slides “chapados” com bullets é que eles tendem a tornar a apresentação enfadonha e chata. Algumas aulas que assisti funcionam muito melhor que Rivotril, não pelo conteúdo ou pelo professor, mas pela forma. Normalmente quando você apresenta 5 (ou mais) itens ao mesmo tempo em uma tela alguns poucos alunos na plateia acompanham a sua leitura, enquanto a maioria faz uma leitura privada dos itens de acordo com sua própria velocidade e interesse. Com isso, boa parte da audiência para de lhe escutar, pois está lendo outro item, e não o que você está descrevendo. Se você puder controlar o que eles leem, fica mais fácil garantir a atenção e o foco de todos. Além disso, você poderá interromper em cada item e explicar o assunto, ou dar um exemplo para o que está sendo falado, pois eles estarão lendo o mesmo que você. O aparecimento das gravuras também deve ficar sob o seu controle. Essa alteração implica que VOCÊ precisa ficar com o “passador” na mão, ditando o SEU ritmo, a sua velocidade e determinando suas ênfases e paradas estratégicas. É como contar uma piada ou fazer amor: RITMO é tudo. Uma das coisas mais irritantes e criadoras de distração é a monotonia de um apresentador que diz “seguinte” para quem está controlando o computador a cada vez que precisa trocar um slide. Isso quebra o ritmo da palestra e distrai as pessoas. Aprenda a usar o passador e controlar a entrada do texto e verá que a sua aula ficará muito mais interessante.

6 – Regra geral de QUALQUER aula ou palestra: VOCÊ é o centro, não o powerpoint. As pessoas precisam focar em seus gestos, suas palavras, suas ideias e seus exemplos, e apenas olhar para a tela quando VOCÊ QUISER. A tela é apenas um acessório, e não o centro de sua aula. Nunca permita que a apresentação comande você; você precisa estar sempre à frente. Por isso estude cada slide antes e pense nos ritmos, nas ênfases e nas histórias possíveis de contar. Quando a tela é mais importante que o apresentador as pessoas imediatamente perdem o foco e começam a conversar. Isso é muito difícil de recuperar. Só os palestrantes muito geniais controlam uma audiência depois de dispersões. Eu já vi isso, mas de tão raro nunca mais esqueci.

7 – Coloque seu nome em letras bem menores no início da apresentação. Fica muito melhor e passa a ideia de que você é apenas o mensageiro, uma pessoa humilde que traz uma ideia. É importante passar o conceito de que você reconhece sua função diante da grandiosidade do tema, a qual é tão somente ser o veículo de uma mensagem importante cujos conteúdos podem até salvar vidas.

8 – Resista sempre à tentação de aparecer demais em uma aula ou palestra: coloque o foco na ideia, nos paradigmas, no conhecimento e nas necessidades dos alunos. Seja humilde, reconheça sua parte ínfima na construção e difusão de um conhecimento. Por outro lado, seja vibrante e deixe-se contaminar pela paixão que as ideias podem fazer eclodir.

9 – Termine sua aula/palestra com uma palavra de estímulo e otimismo. Ninguém suporta pessimistas e discursos apocalípticos. Se tiver alguma crença seja grato ao Universo pela possibilidade de distribuir seu humilde conhecimento para os outros.

10 – Agradeça a quem o convidou. É sempre gentil e bonito saber que seu nome foi lembrado e agradecer pela oportunidade de fazer parte da construção de algo novo e desafiador.

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Constrangimentos futuros

– Papai
– Sim filho…
– Eu estava olhando essas fotos de muitos anos atrás no seu computador…
– Sim….
– Achei essas aqui, muito bonitas. Você estava me segurando no colo com a camisa da CBF. Era jogo da seleção?
– Arram, bem, não… era uma outra coisa.
– Vejo um cartaz engraçado escrito atrás: “Somos todos Cu…“, mas não aparece o resto.
– Ahhh, isso é uma bobagem. Eu nem me lembrava mais. Coisas da juventude.
– Tem essa foto aqui que aparece “Adeus querida“, era a despedida de alguém?
– Ora meu filho…. é que, veja bem… naquela época lá em casa todo mundo assistia a Globo e era difícil ter uma informação melhor. A internet recém tinha começado. A gente acreditou em muita coisa que não devia, até em Triplex e pedalinho.
– Triplex? Pedalinho???
– Sim, outra hora te explico.
– Papai…. essas fotos… essas imagens…. essas camiseta e esse pato amarelo aqui atrás. Isso tem a ver com o “Golpe de 2016”?
– Pera lá…. calma aí filho. Não foi “golpe”, foi impeach….
– Mas pai, a minha professora de história disse que…
– Maldita professora!!! Maldita escola!!! Tinha mais é que ter votado o “Escola sem Partido” quando tivemos chance com Temer!!!!
– Papai!!! Você foi à rua pra derrubar Dilma? Pelo Temer?
– Sim!!! E bati panela!!! E votei no Aécio, mas depois que tudo foi descoberto, desvotei; e chamava Bolsonaro de “mito”!!!! Sim, eu achava Gentili engraçado!!! Por que? Vai me criticar, seu pirralho??? Ahhh, eu prefiro um filho morto que um filho de esquerda!!!
– ……..
– Filho, vem cá. Volta aqui, deixa eu explicar. Não é nada disso que você está pensando. E não dê ouvidos pra tua mãe, ela é outra maluca!!!

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Realidades chinesas

Quando das minhas visitas à China, para trabalhar junto às parteiras chinesas, as questões que mais me impressionam são sobre dinâmica familiar. Elas me perguntam muito sobre fatos e situações corriqueiras entre as famílias. Não esqueçam que aqui as famílias são minúsculas. Raros cunhados, quase nenhum irmão (só os mais jovens tem) e gente muito isolada. Elas querem saber miudezas, detalhes, coisas que nunca paramos para questionar.

Por exemplo, elas me perguntaram se “saiu muito caro para o meu filho se casar“. Diante da minha estranheza com a pergunta elas me dizem que para um filho homem se casar os pais precisam pagar tudo: cerimônia, convites, comilança, casa própria, carro, e sustento (mesada mesmo), caso ele ainda não ganhe o suficiente. Eu disse que para o meu filho dei um abraço e um chute na bunda, mas o humor chinês não consegue fazer sinapse com esse tipo de piada. Tive, então, que explicar que não nos sentimos responsáveis neste nível, e que o casamento é uma forma de estabelecer a autonomia por parte dos jovens, e que pagar para eles casarem não parece ser um bom início de vida independente.

Outra pergunta que fazem é “Quem cuida das crianças?” e eu explico que a família ajuda quando pode e que temos creche (baby care) para quem trabalha fora. Elas me explicam que na China essa tarefa é sempre da mãe da moça, quase que uma obrigação social que ela tem que cumprir; não é uma ajuda, mas uma tarefa culturalmente determinada – e cobrada

A outra pergunta é: “Como a sua nora se relaciona com a Zeza?”, e eu respondo que sempre me pareceu a melhor relação possível. Elas dizem que na China as relações da sogra com a nora são sempre conturbadas e belicosas, e existem muitas piadas e histórias sobre este relacionamento. Dizem que genro com sogra é, via de regra, uma relação muito tranquila, mas entre as “mulheres que amam o mesmo homem” ela é conflituosa e complicada. “Que sorte tem sua nora”, disseram elas. Eu disse que a relação da Zeza com a sogra dela também sempre foi ótima, mas fundamentalmente por um fato essencial: minha mãe teve a sabedoria de jamais se intrometer na vida econômica ou afetiva dos filhos sem ser convidada. Creio que Zeza tem a mesma política.

Mac Tavish, meu tradutor, me contou que, quando os chineses viajam para o exterior com seus amigos e se comportam mal na rua (adolescentes), eles fingem que são japoneses e começam a falar “saionara” e “arigatô“. Contei para ele que fazemos o mesmo com os argentinos e ele caiu no chão de tanto rir. Nunca imaginou que essa trolagem fosse internacional.

Conversando com Gillian, minha tradutora chinesa e professora de inglês me atrevo a fazer algumas perguntas da vida na China. Afetos, profissão, família, dinheiro, etc. Ela me disse que recentemente rompeu um namoro de 8 anos. Perguntei se estava deprimida por isso e ela disse que as vezes se sentia triste e só. Ela é uma menina e tem a idade da minha filha.

– Você é jovem e bonita. Não fique triste; daqui a pouco aparece um príncipe encantado.
–  Ah, tem até um menino que eu gosto, muito mais é baixinho.
– Sério?
– Sim, mais baixo que eu (ela tem 1.64m)
– Mas isso é tão importante assim?
– Bem…. eu gosto de homens altos. E, acima de tudo, as meninas chinesas gostam de homens com pernas compridas.
– Ah…. as pernas…

Lembrei da pergunta do camponês ao presidente Lincoln, no conto de Woody Allen:
– Qual o tamanho ideal das pernas de um homem?, perguntou o camponês em desespero.
– Ideal para que cheguem até o chão, respondeu de forma marota o presidente.
A partir da conversa com Gillian tenho outra resposta:

– Ideal para alcançar o coração de uma bela menina (mas esta resposta só vale na China)

Em relação ao parto e nascimento, apesar de testemunhar tantos avanços na China, me impressiona o atraso no debate sobre as posições de parto. Em 1986, há 30 anos atrás, eu comecei a utilizar a posição de cócoras na atenção ao parto, ainda como residente no Hospital de Clínicas. Para mim foi o processo de entrada no universo da humanização, que na época não tinha esse nome e ainda aparecia como “sofisticação de tutela”. Muito tempo depois é que o protagonismo garantido às mulheres se tornou o eixo central ao redor do qual todos os outros valores gravitam. Entretanto, aqui ainda não se fala de parto vertical, e todos os partos são realizados como nos anos 50: perneiras, estribos, gente torcendo ao lado, etc. Minhas aulas todas se centraram na importância de mudar a posição do parto para que esta atitude venha abrir as portas para mudanças mais significativas.

Por outro lado, alguns encontros que eu testemunhei foram extremamente gratificantes. Um desses presentes que a vida me deu foi conhecer a chefe da única Casa de Parto da China, na região do Tibete. Ela se diz parteira mas sua formação é em medicina. O hospital de referência para a casa de parto em que atendem fica há 5 minutos de distância. O número de atendimentos é de 900 por ano, por volta de 2 a 3 por dia. Os maridos nunca assistem partos, mas ela explicou que se trata de uma questão cultural (maridos nunca enxergam a mulher ir ao banheiro). Além disso, nenhum marido jamais pediu para assistir, apesar de que esta solicitação já é muito comum em cidades maiores como Linyi, Qingdao ou Beijing. Lembro do meu pai me falando que assistir o parto de seus filhos nos anos 60 jamais passou por sua cabeça. A taxa de transferência para o hospital é (preparem-se) 1%. Eu perguntei três vezes para confirmar e não dar informação errada. Mortes neonatais acontecem 1x cada dois anos. A clínica é privada e todos pagam o mesmo valor, inobstante a classe social a que pertencem. O valor pelo atendimento completo é ao redor de 1000 yuan (R$ 500.00).

Essa parteira teria muito a ensinar sobre os malefícios que a sociedade moderna (onde a obstetrícia tecnológica é apenas uma das suas manifestações) produziu sobre as mulheres, seus ciclos vitais e sua sexualidade.

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Bebel

Ontem andando pelas ruas de New Orleans com minha filha Bebel passei por dos sujeitos negros e mais velhos do que eu sentados na soleira de uma porta no centro da cidade. Quando nos viram lado a lado um deles olhou para mim e disse com um sorriso malicioso nos lábios:

– Hei man, I gotta tell you. You are a very lucky man!

Sorri de volta e agradeci. Afinal, ele estava certo, mas pela razão errada.

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