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Memória

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Tenho uma memória condizente com a minha idade. Isto é: uma porcaria. Nomes de ruas, atores de Hollywood, nomes de antigas pacientes e seus filhos e títulos de filmes me fogem à lembrança com muita frequência. Por sorte eu pergunto algumas coisas pra Zeza, o que ajuda um pouco. Não que ela tenha uma boa memória, mas os “black spots” dela são diferentes dos meus. No “conjunto” nós dois juntos temos uma boa memória.

Eu gostaria de ter a memória prodigiosa do meu irmão Roger sobre jogos do Grêmio nos campeonatos gaúchos dos anos 80, ou a memória da minha filha Bebel para qualquer coisa, porém não tenho estes dons. Entretanto, minha memória é seletiva e peculiar.

Tenho uma memória visual muito boa, e eu mesmo me surpreendo com ela. Há alguns dias repeti com surpresa um desses momentos. Estava no shopping, na “praça de alimentação” (nome pomposo para refeitório ou comedouro) quando, distante uns 15 metros de onde eu estava, um senhor careca se ergueu da cadeira e encaminhou-se para pegar sua bandeja. Esteve o tempo todo de costas para mim. Nesse instante, vendo-o caminhar, um sinal acendeu em minha memória.

– Esse cara estudou comigo na escola.

– É médico? perguntou Zeza.

– Não, respondi, ele estudou comigo no segundo grau, e eu não o vejo há mais de 40 anos.

Quando voltou com sua bandeja pude ver seu rosto, mas esta imagem apenas confirmou minha impressão inicial. Eu o reconheci pelo jeito de caminhar, a forma como esconde a cabeça entre os ombros, como encolhe os braços a cada passo e como gira a cabeça sem que o corpo acompanhe. E vejam… ele é calvo agora, mas na época da escola ostentava uma longa cabeleira.

A memória me parece composta de fragmentos que apenas fazem sentido quando justapostos. As coordenadas físicas do meu colega, quando colocadas lado a lado, levaram a um ponto único e especial no mapa da minha memória. Quando o ponto foi descoberto girou a chave do reconhecimento. E isso sem que fosse necessário ver seu rosto!

Passei o almoço pensando nas peculiaridades da memória porque antes de chegar à cafeteria quase esbarrei em um bela menina de sorriso meigo que foi uma paquera de escola quando tínhamos 15 anos. A mesma simpatia e timidez cativantes, o mesmo rosto redondo com covinhas. Eu a reconheci pelo sorriso e o jeito de olhar, baixando o queixo e olhando de forma reservada, de baixo para cima. A única dificuldade, e o que efetivamente me impediu de cumprimentá-la, foi que ela tem realmente 15 anos, e eu inequivocamente envelheci. A imagem que vi era apenas uma projeção paralisada há 40 anos. Será que ela congelou seu corpo nas últimas 4 décadas e acabou de ser desperta do seu sono criogênico? Será a menina que vi o clone que fez de si mesma?

Nunca saberei. Ela passou e apenas a lembrança permaneceu. Queria perguntar a ela como a vida vida a tratou, que plantas semeou, que amores, filhos, ideias e sonhos colheu. O que fez ela com a vida que ganhou?

O nome? Não lembro. Tenho uma memória péssima.

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De Ponta Cabeça

1 – A queda

Trabalhava eu em um hospital militar de Porto Alegre há mais de 20 anos. Eu, e um pequeno grupo heterogêneo de obstetras, trabalhávamos no ambulatório e fazíamos cobertura para os partos que ocorriam no centro obstétrico. Esta pequena unidade hospitalar possuía um grupo maravilhoso de enfermeiras obstetras que atendiam o plantão obstétrico, muitas delas hoje são professoras de enfermagem na universidade federal. Minha opinião é que – grande novidade – o plantel de enfermeiras era muito mais qualificado do que os obstetras que lá atendiam; alguns francamente desinteressados, outros cesaristas tecnocráticos e apenas um criticava o modelo cesarista e tinha um vívido interesse em atender de forma humanizada e com base em evidências. Naquela época encontrei um destes médicos numa praia catarinense sentado em uma cadeira de praia olhando fixamente para o mar. Era um obstetra cinquentão e solteiro que morava com sua mãe. Imediatamente me veio à lembrança a imagem de um personagem riquíssimo da literatura mundial, o compositor austríaco Gustav von Aschenbach, imortalizado por Dirk Bogarde no filme “Morte em Veneza” de Luchino Visconti (baseado na obra homônima de Thomas Mann). Talvez seu olhar perdido no oceano fosse, em verdade, uma busca angustiosa pela estética perfeita nas formas andróginas de um Tadzio insular.

Pois neste hospital as enfermeiras obedeciam uma regra muito restritiva: só poderiam atender um parto, mesmo em emergência, se houvesse um médico ao seu lado para se responsabilizar. Certamente que o diretor do hospital – um cirurgião geral militar absolutamente arrogante – jamais aceitaria (ou compreenderia) a excelência do trabalho das enfermeiras obstetras para o atendimento ao parto eutócico. A regra era baseada na desconfiança essencial de uma corporação sobre o trabalho da outra, mas estamos falando de um fato ocorrido há mais de 20 anos. Sejamos um pouco condescendentes.

Pois o fato que ficou em minha lembrança até hoje ocorreu por causa de um parto de emergência. Na verdade ele me foi relatado pela enfermeira que o protagonizou, e tenho em minha memória apenas as cenas imaginadas, construídas por sobre o seu relato.

Durante o seu plantão noturno a enfermeira recebe uma paciente atendida no ambulatório do hospital em pleno trabalho de parto. Encaminha-a para a sala de exames e descobre dois fatos que seriam a base de todo o caso: a dilatação estava completa e o bebê estava sentado. Sendo ela uma boa enfermeira e parteira de vocação, apenas sorriu para a paciente enquanto explicava a situação, deixando clara a ela que o bebê nasceria em alguns minutos. Imediatamente correu para o telefone e ligou para o obstetra de sobreaviso. Este disse que estava saindo imediatamente de casa mas, como morava na zona norte, levaria 30 minutos – na melhor das hipóteses – para chegar ao hospital que ficava no outro extremo da cidade.

Não haveria tanto tempo, e a enfermeira bem o sabia. Ela mesma teria que atender o parto de um bebê na posição pélvica completa. Entretanto, lembrou da normativa do hospital de só atender partos na presença de um médico e lembrou que o único plantonista daquela noite era o Dr. Fagundes Mayo (nome fictício), pneumologista e intensivista, que estava no andar de cima de plantão na UTI. Imediatamente ligou para o setor e convocou o médico a assistir ao parto junto com ela.

– Preciso mesmo ir?, perguntou ele, visivelmente contrariado.

– Sim doutor, são as normas, desculpe.

Mais uma contração e a ponta branca da nádega apareceu no introito. A mãe estava de cócoras com as mãos atrás apoiadas no solo, por sobre um campo esterilizado azul que a separava do chão. Sua face estava coberta de gotículas de suor, que coalescendo, escorriam pelos sulcos de seu rosto jovem. A sala de parto possuía uma curiosa construção. No canto do acanhado aposento havia uma escada espiral que foi construída para produzir um acesso direto e rápido para o andar de cima, onde ficava a UTI. Era por ali que o Dr Fagundes desceria para acompanhar o parto que a enfermeira atendia. Cada contração que se finalizava e a enfermeira olhava para o alto da escada, aguardando a chegada do médico, não porque esperasse qualquer tipo de ajuda real, mas apenas para não quebrar as normas da instituição e receber uma reprimenda imerecida.

Outra contração forte e a nádega saltou para fora da vagina, pipocando como um cubo de gelo que se solta da forminha que colocamos no congelador. O tempo agora se contava em minutos apenas. A cabeça da enfermeira virou-se mais uma vez para o alto da escada espiral, mas nada do plantonista aparecer. Mais uma contração e o corpo todo do bebê surgiu, sendo contido apenas pelos braços que se mantinham ainda enclausurados. Foi nesse exato momento em que ela escutou os passos apressados do Dr Fagundes descendo os primeiros degraus da escada. Após o primeiro giro ele parou e ficou paralisado observando a cena. Talvez as poucas experiências do meu colega fossem com partos um pouco mais “normais”. A visão de um bebê “sem cabeça”, uma espécie de alien disforme brotando de uma vagina, rodeado por gritos e suores, foi demasiada para a curta experiência de um pneumologista de formação. Com o olhar fixo na imagem e ainda tentando entender que parte do corpo se apresentava diante dos seus olhos, seu cérebro escolheu a forma mais simples de lidar com a situação. Simplesmente apagou.

Do alto da escada o jovem médico caiu desmaiado, rolando abaixo em total apagamento sensorial, para o pavor da enfermeira e da paciente.

Talvez o assombro da queda tenha sido frutuoso, pois o susto ofereceu à paciente o influxo final de adrenalina necessário para a expulsão. “Ploct“. O bebê veio ao mundo de olhos arregalados e repousou imediatamente no colo da mãe. Nunca uma enfermeira ofereceu um bebê à sua mãe com tamanha rapidez, mas neste caso foi pela existência de um outro “paciente” a atender. De pronto acolheu o colega de plantão, que aos poucos se recuperava sem nenhum trauma importante ou evidente. Claro, um pouco da sua onipotência saiu arranhada, como evitar?

“Desculpe, desculpe… não sei o que me deu. Perdão, acho que foi alguma coisa que eu comi no refeitório do hospital”.

Sim, a comida, eterna culpada universal das nossas fragilidades. Das náuseas gravídicas aos nossos mais recônditos e inconfessos temores. Uma lástima que hoje em dia os médicos reconhecem os minúsculos tumores e cistos em imagens borradas de ultrassons e tomografias, mas a vida pura, viva, intensa, pulsante e misteriosa escapa-lhes à compreensão. Um bebê nascendo não poderia ser algo espantoso para um profissional que jurou dignificar a vida em todos os seus momentos. Mas o mundo da tecnocracia oferece o distanciamento e a objetualização de quem nos procura, e os corpos animados se transformam em figuras impressas em papel ou gráficos complexos, onde cada ponto é uma vida que se vai, ou uma que acaba de chegar.

2 – A Lição

Com 21 anos de idade, imberbe e extasiado com as lições que o mundo me oferecia, eu cumpria um ritual cansativo mas empolgante: todas as sextas feiras cumpria meu plantão de 24h no hospital de uma cidade vizinha, na função que na época era chamada de “interninho”.

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Um “interno” era um estudante de medicina, entre o segundo e o quinto ano, que cumpria funções braçais, simples e por vezes extenuantes no hospital. Cabia a nós fazer suturas nas cabeças de bêbados brigões, repetir prescrições de internações sem sentido, preencher guias de internação, avaliar pulso e temperatura de pacientes, liberar a dieta e até fazer constatação de morte quando algum velhinho partia para o mundo espiritual no meio da madrugada. É claro que a maioria dessas atividades seriam vistas com outros olhos hoje em dia, mas estou contando uma história do início dos anos 80, com várias décadas a nos separar.

Entre as atividades rotineiras dos internos estava o auxílio em cirurgias. Foi neste hospital que eu dei meus primeiros pontos, minhas desajeitadas suturas e minhas absurdas episiotomias. Não havia nenhum controle rígido sobre esta atividade. Estudantes com cara de criança, como eu, entravam despudoradamente para auxiliar cirurgias em hospitais, mas é importante lembrar que alguns poucos anos antes eram as auxiliares de enfermagem, com quase nenhum treinamento, quem realizavam estas funções.

Uma tarde durante meu plantão sou chamado ao bloco cirúrgico para auxiliar em uma cirurgia de “urgência”, assim me foi dito. “Uma cesariana, corra aqui!!”, disse pelo telefone a freira mal encarada, a chefona superior do bloco cirúrgico. Lá fui eu escada acima. Troquei de roupa em segundos e quando entrei na sala de cirurgia encontro a paciente deitada na cama, ostentando um barrigão reluzente por sobre a mesa de operações.

– Vai, menino. Escova essas mãos. O Dr. Wenceslau já vai chegar e precisamos operar agora, imediatamente!! disse quase gritando a enfermeira chefe.

Corri para a larga pia da sala contígua e me escovei o mais rápido que pude. Terminei exatamente quando o Dr. Wenceslau apareceu, com cara de cansado. Ainda tive a oportunidade de lhe perguntar a razão da cirurgia e da emergência, mas ele não teve tempo de responder. Enquanto eu me dirigia de volta à sala de cirurgia escutei um grito agudo e estridente. Mais dois passos, e já dentro da sala, percebi que o grito veio de uma menina da enfermagem, e não da paciente. A cena ficou embaralhada na minha cabeça, pois eu não conseguia entender o que estava acontecendo. Aproximei-me da paciente e perguntei à enfermeira o que ocorria, e foi neste momento que a técnica de enfermagem levantou o lençol que cobria as pernas da paciente, escancarando a inesperada cena. Com os joelhos levantados e ainda deitada na mesa cirúrgica a paciente tinha metade de uma criança dentro de sua vagina, e a outra metade repousando sobre o lençol da mesa. Entretanto,  a metade que eu podia ver era a metade de baixo; era um bebê na posição pélvica que estava nascendo.

Já com as luvas calçadas, automaticamente segurei o corpo do bebê, mas sem saber o que fazer a seguir. Com 21 anos de idade eu jamais havia presenciado um parto assim, quanto menos dado assistência a um. No afã de fazer algo tracionei levemente o bebê em minha direção e percebi que algo trancava a progressão do restante do corpo. Logo em seguida ao meu gesto mais brusco ouvi um grito vindo de outra sala: “Não puxe!!!” Era o Dr. Wenceslau que ainda estava se escovando. Da porta, e ainda esfregando a escova nos braços pintados de iodo, ele continuou a me orientar:

– Seja gentil. Puxe o corpo do bebê para um lado e com a outra mão libere sem fazer força o braço do lado oposto. Muito bem. Agora, com a mesma delicadeza faça do outro lado. Certo. Continue, só falta a cabeça. Agora é a parte final, e você precisa ir com calma. Levante o bebê em direção à mãe… devagar, muito bem… Isso !!

Pronto, o bebê havia nascido. Assustado e extasiado eu havia atendido meu primeiro bebê pélvico, que foi salvo da cirurgia por uma coincidência e pela insistência inconsciente de uma mãe em parir seu bebê numa velocidade superior à pressa dos profissionais. Também foi minha primeira experiência com “tele conferência”, muito antes da invenção da internet. As orientações da sala de escovação me ajudaram a cumprir minha função simples, mas essencial, de ajudar um bebê a nascer. Não sei se ainda ensinam alunos de medicina a atender partos pélvicos. Hoje em dia o medo é tão grande que esta habilidade aos poucos se desfaz. Reconheço que nos últimos 30 anos as técnicas de atenção às apresentações pélvicas mudaram substancialmente, e percebo que o bebê daquela tarde foi assistido de um modo que hoje em dia não se justificaria. A nádega da mãe apoiada na mesa, o excesso de intervenções do “médico”, a manobra de levantar o bebê estão todas defasadas, mas na ocasião era o melhor que se sabia, e o melhor que pude fazer.

Espero que a nova geração de médicos tenha uma vivência mais próxima dos desafios que um parto nos apresenta, e que eles não sejam resolvidos da forma bruta e simplista da cirurgia. Preservar o nascimento de forma livre é um projeto ecológico e essencial para preservar o que de humano existe em nós.

3 – Função Paterna

Maria Clara me procurou já no início de sua gravidez buscando uma experiência mais natural para seu parto. Professora de história na universidade local, casada com um artista plástico “avant-garde”, ela queria que seu primeiro filho fosse trazido ao mundo de uma maneira suave e tranquila, para que o início desta vida pudesse ser o melhor possível. Dona de um temperamento enérgico e agitado ela parecia o centro estelar do casal, em volta do qual um marido carinhoso, mas apático e tímido, gravitava, com circunvoluções lentas e pacienciosas. As consultas eram sempre guiadas por ela; ele apenas sorria e mantinha-se silencioso. Com seus cabelos ora verdes, ora roxos, pintados como forma de trazer a arte ao seu semblante, ele se limitava a concordar com as determinações firmes de Maria Clara. Ela era a empoderada protagonista de uma história escrita por ela.

O pré-natal seguiu sem maiores sobressaltos até que na consulta da 36ª semana confirmou-se o que há algumas semanas estávamos suspeitando: a sua pequena filha teimava em permanecer sentada, pélvica, com o dorso à direita e a cabecinha, como um pequeno abacate, repousava logo abaixo das costelas. Como Maria Clara era de compleição magra foi fácil constatar a posição alterada, que a ecografia posterior apenas confirmou.

– Podemos tentar fazer uma versão externa, suave e tranquila, para tentar mover a pequena. Que achas?

Ela olhou para o marido que me observava ao seu lado, mas ele nada disse, apenas deu de ombros. Em seu olhar ele parecia dizer “se for para ajudar, porque não?”. Expliquei a ela que a versão só poderia ocorrer se fosse absolutamente suave, o bebê estivesse desencaixado e não causasse nenhuma pressão ou dor. Ela aquiesceu e deitou-se na mesa de exames. Algumas poucas e delicadas trações foram suficientes para perceber que ela não cooperaria. Estava por demais tensa e preocupada. Não entendia bem o que havia ocorrido e a ideia de fazer um bebê girar massageando sua barriga lhe pareceu invasiva. Assim que pressionei a cabeça do bebê em sentido anti-horário ela aumentou o tem da voz e disse:

– Não quero! Pode parar. Estou nervosa, não tenho condições de continuar. Deixe que ela fique na posição que escolheu. Desculpe.

Expliquei a ela que não deveria se desculpar e que aquela era apenas uma tentativa. Sem uma cooperação plena de confiança nenhuma tentativa prosperaria. O marido continuava em silêncio, observando nossa conversa. Disse, finalmente, que poderíamos continuar tentando com moxabustão, homeopatia, rebozo e exercícios. Pedi que voltasse na semana seguinte para conversarmos e me despedi. Uma posição alterada sempre suscita uma série de questões. O percentual é de 4 a 6% de bebês que permanecem pélvicos até o final do ciclo gestacional, mas a pergunta que sempre me fiz foi: eles têm alguma razão para escolher esta postura? Será coincidência ou haverá alguma causalidade recôndita a guiar seu posicionamento? Sentar-se, de braços cruzados sobre o colo uterino é uma determinação fetal, ou um ordenamento materno? Se pudermos “viajar” para mais além, haveria um conluio secreto entre ambos para que aquela posição imprimisse um destino especial, conhecido apenas por ambos? Porque um bebê insiste em colocar-se de costas para o mundo? Talvez eu jamais tenha a resposta para estas perguntas.

Nas semanas seguintes houve pouca modificação. Maria Clara voltava a cada consulta convencida de que nada havia se modificado. Dizia que, se houvesse uma mudança de posição, ela certamente acabaria sabendo. Entretanto, sua gestação mantinha-se plácida, tranquila, serena e imóvel. Nenhuma diferença visual, e os batimentos cardíacos continuavam a ser percebidos como um tropel de cavalos bem acima da cicatriz umbilical. Era teimosa a menina, mesmo diante dos nossos exercícios, tratamentos e súplicas. Com 39 semanas de gravidez Maria Clara, entre decepcionada e constrangida, veio me comunicar sua decisão.

– Ricardo, não tenho condições de passar por um parto deste tipo. Falta-me a coragem. Minha família, com exceção do meu marido, não me apoia sequer para um parto normal. Quando souberam que o bebê estava sentado queriam me internar na hora e operar. Foi uma dificuldade explicar que tudo estava bem e que eu ia manter o meu pré-natal como havia planejado. Entretanto, ter a minha filha nessas condições está para além das minhas forças e minhas capacidades.

Olhei para seu marido que permanecia em silêncio. Minha pergunta silenciosa e insistente era se a sua atitude era de respeito à autonomia que ela requisitava para si ou apenas um desinteresse. Havia um “respeito aos espaços” ou uma falta de aptidão para questionar e opinar sobre uma questão que parecia lhe fugir ao controle? Resolvi perguntar a ela sobre sua decisão.

– Maria Clara, existe alguma coisa que eu possa dizer para lhe demover da decisão de partir para uma cesariana?

Ela mais uma vez olhou para o marido, que por sua vez permaneceu imóvel.

– Não. Esta é a minha decisão.

Estimular o protagonismo tem este preço. Se você realmente quer promover a autonimia plena precisa estar preparado para as decisões que não lhe agradam. Entretanto, como negar à uma paciente que seja honesta com seus limites? Como assumir como meta o protagonismo restituído a elas sem pagar o preço – por vezes muito alto – da decepção? Como ousar subverter a ordenação centenária que coloca o médico em posição superior sem correr o disco de encontrar pelo caminho uma escolha que não lhe parece sensata? Não há como fazer uma omelete sem quebrar os ovos.

– Ok, se não há o que dizer, quem sabe ainda exista espaço para planejarmos a sua cesariana da melhor maneira possível. Um parto pélvico planejado apenas pode ocorrer com a plena aquiescência e colaboração da mãe. Não há, dentro da humanização, espaço para imposições deste tipo. Bem sabemos o quanto um corpo pode se fechar e combater a própria fisiologia, seja por uma contrariedade consciente ou por um medo que brota do território obscuro das emoções inconscientes. Entretanto, creio que uma cesariana seria menos danosa se o bebê pudesse ao menos dar seus sinais de nascer. Assim teríamos o nascimento de sua filha na data que ela determinou, e não no momento que seria melhor para os outros. Que acha da ideia de sua filha escolher a data do seu aniversário? Ela pela primeira vez sorriu durante aquela consulta. Olhou para o marido que, como de costume, concordou com a ideia.

– Como seria? perguntou-me.

– Quando começarem as contrações me chamem. Elas não precisam sequer ser fortes o suficiente para dilatar o colo, basta que sinalizem o início do trabalho de parto. Como é seu primeiro filho espera-se que este processo leve algumas horas, portanto teremos tempo de ir para o hospital, chamar a equipe e fazer a sua cirurgia. O que lhes parece?

Concordaram com a ideia sem questionar. Ficou combinado que tão logo as primeiras contrações chegassem o chamado seria feito e a equipe se encontraria no hospital para ajeitar os pormenores da chegada de sua filha. Não se passaram mais do que alguns dias até que recebi o telefonema de Maria Clara me avisando que havia percebido umas frágeis e esparsas contrações, além da perda de uma gota de sangue, percebida após urinar.

– É o momento, disse eu. Podemos ir para o hospital. Arrume suas coisas que eu chamarei a equipe. Nos encontramos lá.

Imediatamente liguei para meu colega anestesista, parceiro de décadas. Avisei que se tratava de uma cesariana por apresentação pélvica e que podíamos ir para o hospital agora, para evitar que ela tivesse contrações sem necessidade. Ele concordou de imediato e eu arrumei as coisas para ir ao hospital. Nessa ocasião houve uma coincidência curiosa. Quando estacionei meu carro no apertado estacionamento do hospital percebi que um carro fazia o mesmo ao meu lado. Pois era Marco, o anestesista. A piada óbvia não pôde ser evitada: “Se tivéssemos combinado isso nunca aconteceria”. Caminhamos lado a lado pelos corredores e pegamos o elevador até o terceiro andar, onde fica o centro obstétrico.

Quando a porta do elevador se abriu fomos surpreendidos por gemidos vindos do CO. Ao escutá-los ainda tive a oportunidade de brincar com meu colega e dizer “Pelo menos algum parto normal vai ocorrer neste hospital hoje”. Estávamos em um dos hospitais líderes de cesarianas na cidade, que já na época ultrapassava os 80%. Poucos médicos ainda ousavam atender partos normais por lá, e hoje em dia o número diminui de forma marcada, aproximando-se tristemente de zero. Apertei a campainha do centro obstétrico ainda conversando alegremente com Marco. A enfermeira abriu a porta rapidamente, e sorriu ao me ver.

– Graças a Deus o senhor chegou doutor. A sua paciente está muito ansiosa. Não para de gritar e disse que está com muita contração.

– Minha paciente quem?, perguntei eu

– Ora, a Maria Clara. O senhor não pediu a ela que viesse para cá? Ela está em franco trabalho de parto e disse que tem vontade de fazer força!!

Não é possível. Eram dela os gemidos que ouvimos do corredor! Eu havia falado com ela havia menos de uma hora, com leves contrações espaçadas e frágeis. Não poderia ter progredido de forma tão rápida e intensa em poucos minutos. Eu precisava avaliar para confirmar o que estava acontecendo. Ao lado esquerdo da porta de entrada ficava a sala de exames, para onde as pacientes iam para o exame inicial e a avaliação dos sinais vitais, e de lá se dirigiam para a sala de pré- parto e parto. Abri lentamente a porta e pude ver Maria Clara transtornada, segurando a mão de um silencioso marido de cabelos verdes. Quando me viu, gritou a todos os pulmões.

– Porque demorou? Estou com muita dor! Quero a minha cesariana agora! Nós combinamos a cirurgia, você concordou! Não me deixe esperar mais, por favor!

O marido parecia atônito e não ousava falar, talvez com medo da reação de sua histriônica esposa. Olhou para mim timidamente, e de forma educada perguntou se poderíamos dar seguimento ao nosso acordo inicial.

– Claro que sim, o anestesista está aqui comigo. Tudo foi rápido demais, você recém tem uma hora de trabalho de parto. As contrações surgiram de forma inesperada, intensas e frequentes. O anestesista já está pronto, do lado de fora desta porta. A nós basta apenas passar para a sala de cirurgia, chamar meu auxiliar e avisar a neonatologia. Isso não ultrapassa uns poucos minutos. Tente aguentar firme.

Ela ainda esboçou um “mas vai demorar?”, mas enquanto ela ensaiava esta queixa eu e seu marido a levantamos da maca onde estava e a levamos caminhando até a entrada da sala cirúrgica. Entretanto, antes que pudéssemos fazer isso, ela parou para mais uma contração, e pude ouvir o som inconfundível da guturalidade, a conexão sonora grave entre a glote e o colo uterino, o som das expulsões que antecipa os nascimentos.Surpreso pelo som que acabara de ouvir, segurei sua mão com firmeza e pedi que parasse.

– Espere, entre na sala de parto, disse eu. Preciso avaliar imediatamente onde está o seu bebê.

Colocamos Maria Clara na cama de lençol branco e acendemos a luz. Pedi à enfermeira uma mão de luva para realizar o toque vaginal. Esperei por menos de um minuto pela próxima contração e, quando a nova onda surgiu, pude avaliar o que acontecia no íntimo de suas contrações. Uma nádega pequena cobria inteiramente a cavidade vaginal. A dilatação tsunâmica havia se completado em minutos, e a descida do bebê foi espetacular. Afastando-se os lábios vaginais já era possível vislumbrar a bolsa protusa e a nádega pálida que se escondia por detrás, no aquário de bolsa, vérnix e água. Levantei os olhos para o casal e lhes disse, sem pestanejar:

– Não há como segurar. Este bebê vai nascer. Está dentro da vagina, e nada mais o segura. Não há tempo, e muito menos razão, para se fazer uma cesariana. Sua filha vai nascer dentro de instantes.

Maria Clara me olhou com olhos de pavor. Fitou os olhos do marido e depois os meus. Colocou-se de joelhos na cama e clamou aos céus:

– Por favor, Ric, faça alguma coisa. Uma criança não pode nascer assim!! Ela vai ficar presa, vai entalar, vai sofrer!! Eu não quero que ela venha ao mundo desta forma! Nós havíamos combinado que você ia me operar, e eu fiz tudo o que foi combinado. Eu não tenho culpa da velocidade, mas você pode resolver isso. Por favor, me opere, agora!!

Olhei para os olhos de Maria Clara e tentei, da forma mais calma do mundo explicar as características emergenciais do caso.

– Acho que você não entendeu. Não se trata de querer ou não operar. Não se trata muito menos de cumprir ou não o acordo anteriormente firmado. Sua filha vai nascer em instantes, basta que você solte o corpo e a ajude. Ela está praticamente saindo. O anestesista está ali, do lado de fora, mas até levar você para o bloco e operar ela já estaria nos seus braços.

Aponto para a porta da sala de parto onde o anestesista estava nos acompanhando pela fresta. De lá ainda pôde dizer “estou aqui se precisarem de mim”. Depois disso mais uma contração e pude constatar o “sinal do bochecho”, que é como chamo a apresentação que empurra o períneo fazendo duas “bochechas” ao lado do óstio vaginal. Não adiantou muito a minha fala, e antes que a próxima contração chegasse ela despejou seu derradeiro esforço de capitulação.

– Você me enganou! Disse que faria a cirurgia e está me enrolando. Eu não mereço ser tratada assim, quero minha filha!!

Finalmente, a cartada final. Virou seu rosto para a esquerda e olhando duramente para o marido disparou sua queixa mais grave, entre gritos, gemidos e choro.

– E você não faz nada? Está me deixando aqui sofrer e não diz coisa alguma, nenhuma palavra, nenhuma defesa? Estou lidando sozinha com toda essa contrariedade e de você não recebo nenhuma ajuda. Quando é que você vai…

– Cale-se. Fique em silêncio por um minuto apenas. Pare de falar e concentre-se no que você tem a fazer. Eu mesmo vi que nossa filha está saindo. Ela vai mesmo nascer agora. O doutor está certo, e isto é o melhor a fazer. Confie e pare de tagarelar sem parar! Chega de choramingos inúteis e vazios. Faça força e feche a boca!

Depois disso apenas o silêncio, que durou a eternidade de alguns poucos segundos. Sim, eu não poderia falar isso; jamais teria esse direito. Os gritos severos vieram do seu esposo, o mesmo que se mantivera quieto por todo o tempo, e cuja voz eu havia escutado não mais do que meia dúzia de vezes durante todo o pré-natal. Imediatamente, como se fosse banhada por uma cachoeira de sensatez, ela silenciou. Olhou para mim e depois para o marido. Fungando e secando o rosto umedecido pelas lágrimas, perguntou:

– Então vai nascer mesmo? Devo fazer força? Vai dar tudo certo?

– Claro, dissemos os dois. E vai ser agora.

Ela reconheceu a chegada da contração e pela primeira vez vi seu corpo relaxar e entregar-se à força de seu útero. Solta dos arreios da tensão de seu corpo, que se contrapunham às forças expulsivas, e seu bebê pôde finalmente escorregar pela vagina. Mais uma última força e o desprendimento da cabeça foi suave e tranquilo.

– Nasceu!! gritou ele, e de sua garganta veio um grito trancado há muito tempo. Sua cabeça voltou-se para cima e começou uma mistura incompreensível de lágrimas, choro e gargalhadas ruidosas. O homem do cabelo verde extravasava de alegria pela tensão concentrada de um parto cuja rapidez desafiou toda a nossa paciência e sangue frio.

Ela aconchegava seu bebê ainda com estranheza. Nem 15 minutos haviam se passado desde que chegamos, e ela já estava com sua menina no colo. Ria e chorava, olhava para os primeiros lamentos de sua filha, limpava-lhe o rosto e acariciava seus cabelos. O marido a abraçou e ambos choraram em uníssono uma grande vitória sobre o inesperado.

Por quase duas décadas este parto ocupou meus pensamentos, e acho que nele existem vários temas que podemos perseguir. O que mais me estimula é a atitude inesperada e firme do marido. Em verdade, creio que sua ação forte e impositiva, estabeleceu um limite para o descontrole de sua esposa. Ao meu ver, este foi o fator essencial que permitiu o nascimento na contração seguinte. Não fosse o tom, a voz e a sua autoridade e ela continuaria numa espiral de desconfiança, medo, angústia e tensão, exatamente os elementos que estavam impedindo a progressão do parto e o nascimento. Muito se diz da função paterna, o estabelecimento de limites, aquilo que constitui o pai em uma relação. Pois para mim, a ação súbita, inesperada e firme daquele pai, selou de forma intensa e duradoura a sua função na vida daquela criança. O grito primal fez um dueto com a voz forte e decisiva do pai, e juntos formaram a harmonia de sons que culminou em um nascimento vitorioso.

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Deficiência Carnavalística

Carnaval 01

Acabo de ver meu neto Olizinho fantasiado para participar de uma festa infantil de carnaval e fico pensando que talvez ele consiga alcançar algo que nunca fui capaz: o gosto pelo Carnaval.

Entretanto, a minha não gostância em relação à “festa da carne” não se baseia em qualquer critério moral (é uma falta de pocavergonha essas mulher pelada!), de saúde pública (são esperadas centenas de mortes no trânsito e nas estradas, ocasionadas pela bebida) ou o descritério econômico (tanta criança sem escola e o governo gastando com carnaval!). Não, pelo contrário. Eu acho o Carnaval extremamente importante do ponto de vista da cultura, pelos seus aspectos democráticos – todo mundo brincando e se fantasiando como quiser – pelo turismo que ele atrai e pela economia que gira, principalmente nas classes mais baixas.

Minha questão tem a ver com uma obliteração emocional, a mais pura falta de conexão com este tipo de alegria exuberante e extrovertida que se exige do folião. Vejo as pessoas cantarolando as velhas marchinhas, sentindo a letra em seus corações, dançando e pulando sem parar, bebendo cerveja de forma irrestrita… mas não consigo ver nenhuma graça, nenhuma alegria, mesmo reconhecendo (e invejando!!!) a inequívoca felicidade que os foliões experimentam durante as festividades de Momo.

Tenho a mesma impressão com o álcool e as drogas. Sei o quanto elas podem ser agradáveis para quem fuma ou bebe, mas não consigo sentir isso em mim. Sou obrigado a imaginar a sensação de prazer que elas percebem, mas neste caso pelo menos não me martirizo invejando.

Sim o Carnaval tem múltiplas formas de expressão, mas infelizmente nenhuma delas me atrai: blocos, carnaval de rua, carnaval de clube, trio elétrico, escolas de samba, pagodes na esquina, frevo de Recife, Galo da Madrugada, da noite ou da tarde. Nada disso me diverte, e fico esperando que isso tudo passe e a vida volte ao normal depois da quarta-feira. Todavia, longe de mim criticar quem gosta do Carnaval; adoraria que, com um passe de mágica, eu pudesse escutar as músicas que bombardeiam meus ouvidos e extrair delas algo feliz e grandioso, que meus pés pudessem sambar livremente ao som dos tamborins, e que a alegria inequívoca das folias pudesse encher minha alma do prazer inebriante que as pessoas descrevem.

Sou um deficiente carnavalístico, e não acredito que haja prótese ou cura. Sinto muito.

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Desamor Canino

Cão

O ano de 2014 – eu me dei conta agora – foi um dos mais difíceis da minha vida. Resta esperar que 2015 seja mais suave.

Mais de 2015 eu já aprendi uma lição: Jamais espere que alguém possa lhe perdoar por algo que você não fez. Fico pensando em algumas pessoas que explicitamente me detestam e tento me lembrar algo de rude, torpe ou grosseiro que tenha feito… e, por mais que honestamente tente recordar, não lembro de nada. Nenhuma atitude verdadeiramente má me vem à mente, até porque a própria distância impediria ou dificultaria isso. Pior, algumas dessas pessoas (sim, várias) foram sempre alvo de elogios sinceros e de admiração que – me obrigo a confessar – continuam válidos inclusive agora, quando os laços de amizade foram definitivamente desfeitos.

Todo mundo, eu acho, já passou por isso. Uma coleguinha na escola, um professor, um integrante da turma de amigos, um colega de escritório ou a sogra, um desconhecido no trânsito, um chefe, um motorista de táxi ou uma menina bonita… que não vai com a sua cara. Nada importa o que você fez ou venha a fazer: você está condenado a ser desconsiderado e, se bobear, odiado eternamente.

A questão central, e a mais difícil de entender, é a unilateralidade. Um problema semelhante, mas diferente nas consequências, é quando os desafetos se relacionam com as “santidades“. Isto é: quando ambos os sujeitos confessam suas mútuas malquerências com a famosa expressão: “nossos santos não batem“. Bem, ainda aqui ao menos existe a reciprocidade; a raiva e os sentimentos negativos são compartidos entre ambos. Para estes casos, quando possível, o melhor é um simples distanciamento.

Todavia, existe um modelo muito mais doloroso, o qual chamo de “desafeto canino”. Acreditem, este é bem pior. Existem pessoas que odeiam os cães, os maltratam, desprezam, chutam, deixam passar fome, mas o pobre cão não passa a lhe odiar por causa disso. Ele está lá, sempre olhando, admirando e o considerando alto, forte e vigoroso, sem ter qualquer noção do que leva você a tratá-lo tão mal. Ele o admira e ama, apesar de você desprezá-lo.

Esta é a tristeza do modelo canino: não se trata de algo que o cachorro fez ou deixou de fazer. Ele pode ter os esfíncteres mais educados do mundo, o latido mais gentil, o ferormônio menos ofensivo, e mesmo assim ser maltratado. A verdade é que a sua própria condição canina é o que obstaculiza, e por vezes impede, o afeto.

Desgraçadamente ele não pode, sob pena de desaparecer, deixar de ser cão. É da sua essência, imutável, eterna. Ele está condenado a ser desamado por você.

Para nós humanos, que sofremos no desamor canino, o que sobra é a brutal sensação de impotência ao perceber que a desafeição nunca foi fundada em algo que realmente fizemos, algum ato de desprezo, desconsideração ou maledicência. Não… o desamor vem porque representamos algo, ocupamos um lugar subjetivo, pessoal, inconsciente e independente de fatos objetivos que pautam qualquer relação. Não foi algo que fizemos, mas algo que “somos”. E sobre quem somos, para o imaginário daquelas pessoas, não há nada que se possa fazer.

Podemos apenas lamentar e nos entristecer, mantendo a esperança que um dia  possamos ser vistos com olhos mais condescendentes.

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Bruxas

Apesar da minha promessa de início de ano, baseada em inúmeros erros do passado, voltei a cometer o mesmo equívoco lamentável de tantos anos: debater com as vítimas.

Ainda hoje vi a notícia do assassinato de uma mulher (servidora pública da guarda civil) dentro do seu automóvel enquanto aguardava a chegada de sua filha de 7 anos. Uma morte estúpida, inaceitável e dolorosa, pois atinge todo aquele que vive em uma cidade. A morte de Ana Paola é um pouco a morte de todos nós.

O pior, como sempre, são os comentários, mas isso pode ser entendido como a explosão de sentimentos advindos da identificação dessas pessoas com a mulher que foi vítima, ou com seus familiares enlutados. O problema é que a dor e a indignação de muitos acaba se transformando numa explosão de ressentimento e ódio, sem que haja qualquer tipo de anteparo civilizatório, pelo menos em tempo de debate cibernético. Qualquer forma de linchamento é válida; julgamentos sumários são propostos e a vingança contra o meliante passa a ser muito mais importante do que a solução de um problema – a violência urbana – que existe há séculos e que se incrementou nas últimas décadas.

Pior: qualquer tentativa de estabelecer um diálogo, ou mesmo um pedido de que haja ponderação acarreta o rechaço imediato dos vingadores e justiceiros. A frase clichê nessas circunstâncias é: “Ah, está com pena? Então leve para casa.” Pedir que as pessoas entendam que um crime não justifica outro parece, aos ouvidos das vitimas, o mesmo que defender a prática criminosa. Dizer que o assassinato dessa moça não significa que temos que baixar a idade penal para 10 anos (sim, isso foi proposto), ou que a pena de morte deveria ser instituída, é o mesmo que dizer que essa morte não representa nada e que o criminoso é inocente.

Para a vítima, movida pela intensa emocionalidade do momento, não existe ponderação ou razoabilidade, apenas paixão e dor. Nestes casos somos TODOS vítimas, e a manifestação popular é a síntese dessa sensação de medo e insegurança.

Resolvi que nada deveria dizer, além de um breve comentário: “Os comentários fascistas acima são tão tristes quanto a notícia. Os defensores do linchamento são apenas criminosos que ainda não tiveram sua oportunidade ou circunstância para delinquir. É muito triste ver do que é feita a “opinião pública” do nosso povo. Assassinos em potencial.” Escrevi e me retirei.

Podia ter ficado quieto, até que uma ativista da humanização escreveu um texto dizendo que o parto não é lugar para “doulos“, pois este espaço é feminino e deve ser assim preservado. Imediatamente reconheci nesse texto uma forma característica de sexismo com sinal trocado: a imposição externa de uma “cartilha”, feita para que as mulheres sigam um comportamento de acordo com o ideário feminista, mas sem levar em consideração o que aquela específica mulher entende como sendo sua necessidade ou desejo. Tentei explicar que nós homens fomos obrigados a testemunhar a invasão feminina de espaços historicamente destinados aos homens e que esta ocupação de funções e posições ocorreu pela luta por igualdade e equidade que as mulheres empreenderam. A entrada das mulheres na medicina, no direito, na administração e na política – mesmo estando ainda longe do ideal – foi um movimento especial na história da cultura ocidental, que ainda está atrasada no oriente. Minha posição, entretanto, é que, assim como as mulheres puderam empreender esta benfazeja invasão, também os homens poderia ocupar os espaços que historicamente as mulheres detinham.

Entre eles o cuidado de gestantes.

Se achamos que a equidade deve ser buscada e incentivada ela certamente é uma via de duas mãos. Se desejamos ocupar espaços antigamente determinados como fixos para o sexo masculino (lutas, guerras, cirurgia, futebol, mecânica, etc.) porque não admitir o parto como um território livre para a escolha das mulheres? Porque criar uma “reserva de mercado” para a ação feminina, quando nenhuma destas reservas se admite para os homens?

Pareceria até um argumento razoável, mas lembrei que numa sociedade machista como a nossa, ainda dominada pelo patriarcado, as mulheres são todas vítimas. Pressionadas e constrangidas por uma sociedade injusta podem debater da posição subjetiva de vítimas, usando de forma liberal a emocionalidade e a violência verbal que jamais é adequada em um debate racional, principalmente se considerarmos que os debatedores eram amigos.

Erro grosseiro da minha parte. Fui criticado e ofendido de forma desnecessária, em agressões “ad hominen“, por pessoas que deveriam estar do mesmo lado na luta pelas mulheres. Meu engano foi, mais uma vez, tentar tratar de forma racional temas que são extremamente doloridos para algumas mulheres. Mostrar as contradições do discurso de algumas feministas é, para elas, o mesmo que queimar parteiras e bruxas. Não há meio termo: ou você participa do linchamento ou é um “mascus” asqueroso enganador de mulheres.

Sim, a história estabeleceu estes espaços para os homens, como a política, a guerra e os esportes em geral. A cultura, em sua dinâmica, deixou as mulheres confinadas à família, aos cuidados com os filhos, à culinária e ao lar. Esta é a história do patriarcado que, ao meu ver, foi uma brilhante solução cultural adaptada ao paleolítico superior e todos os séculos de guerra que o seguiram. A crise desse sistema só agora, felizmente, pôde aparecer. Essa mesma dinâmica cultural adaptativa proporcionou a decadência do patriarcado criando as condições para a invasão que hoje vemos, fortuita e bem vinda, como disse anteriormente. Por isso advogo que as invasões no outro sentido sejam também respeitadas.

O uso da palavra “invasão” se justifica por ser a que mais claramente traduz a luta das mulheres para conquistar (e não simplesmente “ocupar”) espaços na sociedade ocidental contemporânea. Aliás o MUNDO não é masculino nem feminino, mas algumas funções foram assim determinadas. Essas “funções” nada mais são do que acertos temporários de adaptação às condições internas e externas dos grupamentos humanos. O patriarcado determinou uma delimitação em que muitos afazeres ficaram com os homens, como citei acima. Mas basta você trocar a fralda do sei filho ou entrar na cozinha da sua casa para ver como as mulheres dizem (jocosamente, mas nem tanto) que ali quem manda são elas. O que o mundo pós-pílula fez foi questionar os lugares alocados pela cultura, oferendo oportunidade para que as mulheres invadissem locais antes tradicionalmente masculinos. A palavra “invasão” é boa exatamente porque a ocupação não foi (e não é) pacífica. Vejo beicinho por todo lado quando uma mulher ocupa um posto que sempre foi ocupado por homens, e vi muxoxos quando afirmei que somente a mulher pode decidir se quer ou não um homem como “doulo“.

Haveria muito mais a ser dito sobre este tema e de forma profunda, mas existem pessoas feridas pelo machismo que não suportam qualquer referência ao tema sem responderem com emocionalidade, o que é plenamente compreensível, mas impede o progredir dos debates. Lembro do Déda, meu vizinho russo, que fugiu do seu país durante a guerra, e que acompanhou o totalitarismo stalinista nos seus primórdios. O tema “Stalin” e a Revolução de 17 eram absolutamente insuportáveis para ele, que se alterava bastando para isso tocar de leve nestes assuntos. Ele foi vítima, e também com ele me dei conta que é inviável tentar debate racionalmente. A carga emocional era tanta que Babá, sua esposa, me fazia sinais pelas costas avisando para não falar no tema. Com alguma mulheres, vítimas de um machismo cruel e abjeto, muitas vezes é melhor calar e esperar que as feridas se fechem, para que, com o tempo, elas sejam capazes de debater sem serem vencidas pela dor e pelas lágrimas.

Minha tese, por defender postulados feministas sem sê-lo, é que as bem vindas invasões não podem causar estranheza apenas quando os homens são deslocados de suas exclusividades. Que as mulheres sejam militares, políticas, guerreiras ou matadoras de aluguel, sem problema. Invadam e tragam feminilidade e diversidade psicológica a estes campos. Todavia, aceitem que homens queiram ser babás, professores infantis, educadores de creche, cuidadores de berçário e…. doulas! Aceitem esta invasão também, pois, assim como as outras, ela vai ajudar a trazer ensinamentos masculinos para um campo em que as mulheres sempre dominaram.

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Das onze à meia-noite

Há alguns anos eu costumava jogar bola nos domingos à noite com meu filho Lucas e sua turma de amigos da escola. Imaginem o tiozão, 20 anos mais velho que todos, mas que se esforçava para jogar de igual para igual. O jogo ocorria no famoso “Gauchão”, quadra de esportes próxima de nossa casa onde hoje fica a Terceira Perimetral. O local foi demolido para a construção de um condomínio de edifícios e dizem as más línguas que o maior acionista dos prédios era o colega que recolhia a nossa contribuição para o famoso embate “das onze à meia-noite“.

As regras dos confrontos eram simples, e foram cumpridas de forma correta por muitos anos. Todos eram amigos. Não se discutia o jogo depois de acabado. Quem chegasse atrasado era zoado por todos e ia imediatamente para o gol. Não era permitido brigar ou discutir de forma ríspida. Não podia faltar e deixar seu time capenga. Não podia tomar gol de propósito para sair do gol mais rápido. Semana que vem sempre tinha mais.

Era para ser assim, mas evidentemente ocorriam deslizes. Um desses deslizes aconteceu em uma partida na qual eu perdi a cabeça com a falta de dedicação de alguns para o jogo, o fato de não passarem a bola ou exagerarem nas firulas. Jogadas mais ríspidas e um certo deboche da equipe que estava ganhando. Briguei com os meninos, xinguei, falei mais alto e nitidamente perdi a cabeça. Até eles acharam que eu estava estranho. Não confraternizei com ninguém após o jogo e logo fui embora. Ainda dirigindo o carro de volta para casa argumentei com o Lucas que não se tratava de futebol, mas que aquilo era um ensinamento para o resto da suas vidas, e que eu tinha a obrigação de mostrar a eles as condutas e comportamentos que poderiam ser danosos para o desenvolvimento emocional de adolescentes. Lucas apenas me respondia “Mas pai, é apenas um jogo de futebol no domingo. Nós até podemos perder a cabeça, afinal somos adolescentes. Você é que não pode se comportar dessa maneira“.

Cheguei em casa ainda irritado com os acontecimentos do jogo. Pensei que era a minha obrigação mostrar a eles a maneira correta, a forma adequada, o brio, a disputa leal, a determinação, o empenho, a lealdade e o companheirismo. O que eu havia visto se afastava disso. Parecia a mim importante não deixar que um comportamento assim passasse sem um contraponto. Afinal, eu era o adulto no lugar, e eles precisavam aprender regras de convivência enquanto ainda eram jovens.

Passei algumas horas pensando nisso e depois adormeci. No dia seguinte o meu destempero e as minhas palavras duras ainda ecoavam na minha cabeça. Entretanto, aos poucos as brumas da irritação foram se dissipando e eu comecei a enxergar o episódio com outros olhos. Mais do que uma oportunidade de mostrar a importância da disciplina e do empenho aqueles fatos do jogo de domingo poderiam me oportunizar um outro ensinamento.

Sim, lentamente pude perceber que os valores mais importantes a aprender daquele fato eram a temperança, a calma e a serenidade. Mais do que o foco no jogo e suas consequências, a visão de uma postura conciliatória e pacífica. Lucas tinha mesmo razão: era apenas um jogo de meninos, e minha reação extrapolava os limites do aceitável.

Encontrei Lucas à frente do seu computador e apenas lhe disse: “Sim, meu filho. Você tem razão. É apenas um jogo. Não podemos brigar por causa disso. Somos amigos, companheiros, parceiros. Um jogo de futebol não pode ser uma fonte de mágoas, rancores e ressentimentos. Vamos manter nossos desacertos apenas dentro da quadra e chutar em frente o resto“.

Lucas sorriu e até hoje sinto seu contentamento por perceber a lição que todos tivemos naquele jogo “das onze à meia-noite“.

Convido a todos para que pensem nisso quando o calor da disputa eleitoral passar dos limites. Somos todos amigos, irmãos. Vamos deixar o debate eleitoral no seu devido lugar, e não permitir que ele invada nossos corações destruindo afetos e histórias bonitas de convivência.

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Palavras

Olizinho Palavras

“As palavras, vovô, as palavras. Nelas estão as verdades, codificadas, escondidas, nobres guardiãs de sentidos sutis. Conte para mim o que elas dizem, e mais ainda, o que não dizem. Explique para mim aquele silêncio perturbador que habita o vão que as separa. Diga, vovô, qual a razão para tantas palavras”.

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Saber Parir

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Tentem imaginar minhas tentativas de explicar as múltiplas vantagens das posições verticalizadas (cócoras, joelhos, em pé com apoio) em meu primeiro ano de residência, há 28 anos, para os meus colegas. Depois de ler “Aprenda a Parir com os Índios”, do obstetra Moysés Paciornik, um mundo enorme de possibilidades se abria à minha frente, e meu entusiasmo era grande, quase tão grande quanto a minha ingenuidade. Eu só conseguiria entender a razão para a rejeição a estas ideias muitos anos depois. Após me escutar discorrendo de forma emocionada sobre o parto de cócoras, um destes colegas, hoje um famoso mastologista, me fuzilou com os olhos e calmamente falou: “Ric, você só não cai no meu conceito porque de onde você está não há como cair“. E isso apenas porque eu achava que a posição de parir era inadequada, absurda, insensata e “ilegal” (pois ia contra a mais antiga das leis deste planeta: a “lei da gravidade”).

Porém, a posição em que o médico se coloca durante o segundo estágio do parto (da dilatação completa até a expulsão do bebê) tem muito mais a ver com questões semióticas e políticas do que com a biomecânica do parto. Médicos “acima” e pacientes “abaixo” transmite uma potente mensagem para a paciente: “Obedeça, seja dócil, estou aqui em cima, controlando tudo. Eu sou o médico e tudo está em minhas mãos, mesmo que você não as possa ver”.

Essa postura física implica, por sua vez, uma “postura” subserviente e subalterna das pacientes, e isso é tudo o que desejamos: docilidade e complacência. Por isso é que, mesmo que TODAS s evidências científicas do mundo demonstrem há décadas – e por várias maneiras e perspectivas – as posturas verticais como sendo melhores para mães e bebês, basta fazer uma visita por qualquer maternidade no Brasil para perceber que o parto deitado (posição de “frango assado”) ainda é preponderante. Conheço colegas que me confessam que “nuca fiz diferente, ademais não saberia como conduzir um parto que não fosse com a paciente deitada na cama e com as pernas amarradas“.

Mas porquê tanta resistência e dificuldade? Ora, a razão para isso é porque não se trata de uma questão racional, que possa ser combatida com evidências e estudos, mas ligada ao desejo. Assim, a posição da paciente em um parto cai na definição clara de um ritual, conforme a visão de Robbie Davis-Floyd: uma ação caracteristicamente repetitiva, padronizada e simbólica, carregada de valor cultural. O simbolismo expresso na posição de parto é a dominação sobre o corpo da mulher e a manipulação deste pelo saber racional, desconsiderando a sabedoria intrínseca que a mulher carrega (o “chip” de parto nativo) sobre os modos de parir e, em especial, o SEU modo específico de fazê-lo.

Mudar este padrão é tarefa difícil, pois há muito mais do que simplesmente uma posição. A própria visão que os profissionais tem da mulher e suas habilidades é que precisa mudar…

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Comedoras de Placenta

Mulher comendo

Trabalho com humanização do nascimento, mas tenho pouquíssima experiência em placentofagia. Na verdade apenas vi isso, em salas de parto, como uma espécie de brincadeira entre o casal, algo para servir de laço entre eles. Sei que existe este costume entre algumas pessoas, inclusive aqui no Brasil, especialmente algumas parteiras tradicionais do nordeste, mas não acredito que seja uma prática muito disseminada.

Veja bem, até mesmo entre os animais a placentofagia é relacionada muito mais às questões ecológicas e em, menor grau às determinações espécie-específicas. Isto é: não dá para se dizer que os leões, por exemplo, comem a placenta, ou os babuínos, gorilas ou chimpanzés como uma característica da espécie. Para estes mamíferos o uso alimentar da placenta, quando ocorre, é feito por duas razões específicas principais: obter reserva alimentar em contextos de falta de alimento ou para afastar predadores, que poderiam ser atraídos pelo odor de sangue. Assim, muitas espécies em cativeiro (onde não há risco nem fome) jamais comem a placenta. Por outro lado, na vida selvagem isso pode ocorrer mais do que se observa.

No ser humano nenhuma das justificativas acima se adaptaria à placentofagia. Não temos predadores que se atrairiam pelo cheiro de sangue  nem parece razoável usar 700 gramas de carne para suprir deficiências alimentares absolutas. Portanto, o uso é principalmente simbólico, mas pesquisas sobre seus efeitos medicinais poderiam nos oferecer informações importantes para tratamentos de transtornos do puerpério, entre outros.

Qualquer ato simbólico, incorporado em um ritual, pode parecer  “bizarro” para algumas pessoas, mas pode ser facilmente incorporado por outras culturas. Para alguns, os rituais de batismo ou casamento são igualmente estranhos e até mesmo degradantes. Se quisermos ter uma visão mais abrangente diante da enorme diversidade de rituais existentes no planeta,  não haverá nada de muito estranho em alimentar-se ritualisticamente do envoltório recentemente expelido de um bebê. Compare isso com o corte do perineal (episiotomias) ou a extirpação do prepúcio (circuncisão,  realizada pelos semitas e por grande parte da população dos Estados Unidos), que são cirurgias ritualísticas e mutilatórias da medicina ocidental, e perceberás que, subitamente, a placentofagia se torna muito mais inocente do que estas práticas.

Assim sendo, fica fácil perceber que as críticas à placentofagia são carregadas de preconceitos. Porém, a carga recente contra essa prática mira as placentas que são “devoradas”, mas na verdade tenta atingir as mulheres que procuram fazer do seu parto um processo de empoderamento pessoal. Reivindicar o protagonismo às mulheres no momento do parto passou a ser um “caso de polícia”.

Perceba com cuidado. Retire os véus que cobrem a questão das “mulheres comedoras de placenta” para enxergar o que se esconde por detrás do meramente expresso na placentofagia. Da mesma forma como algumas mulheres queimaram sutiãs e usavam minissaias nos anos 60 e 70, seria um erro grotesco acreditar que tais manifestações eram direcionadas à moda ou à “liberdade de movimentos”. É claro que não; as queimas e as pernas à mostra eram SÍMBOLOS de uma demanda muito mais séria. Tratava-se do grito contra a opressão de uma sociedade patriarcal, chauvinista e machista que sufocava a natural expressão do feminino. E, tais movimentos, mudaram a cultura ocidental, como podemos perceber.

Hoje em dia, as “devoradoras de placenta” estão apenas sinalizando que o protagonismo do parto lhes pertence; que o parto precisa ser regulado por um outro paradigma. Tratá-las como seres bizarros e mulheres “malucas” é perder a perspectiva e o momento histórico de “revolução” no parto.

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Fast Food

Hamburger meal served with french fries and soda close-up

O sol escaldante torrava o capô do carro enquanto os pneus derretiam sobre o asfalto fumegante. Ao aproximar-se o pino do Astro Rei as crianças começavam a se estranhar pelo tédio de uma manhã inteira dentro de uma caminhonete alugada. Minha mulher Norma tentava em vão acalmá-los, dizendo que amanhã, por esta hora, estaríamos nos divertindo no “parque aquático Schlitterbahn”, descendo na velocidade da luz por escorregas infinitos de água cristalina.

Meu filho Pedro de 10 anos, e minha filha Lauren, de 7 estavam visivelmente excitados com a possibilidade de visitar um lugar que há muito eu lhes havia recomendado. Entretanto, a viagem até lá, partindo de San Antonio, levaria mais de duas horas, e precisaríamos parar para almoçar. Mais do que a inevitável excitação pelo passeio, agora a fome também contribuía para nossa inquietude.

– Pare assim que for possível, disse Norma. As crianças precisam comer algo. Podemos almoçar, descansar um pouco e depois continuar viagem. Mas por favor, não pare nessas lanchonetes de “junk food”. Quero que eles comam algo de verdade.

Concordei, mas percebi que se eu me mantivesse na estrada seria impossível encontrar algo diferente de “Wendy’s”, “Mac Donald’s”, “KFC” ou “Taco Bell”. A monotonia das autoestradas americanas é indescritível. Uma sucessão infinita de “dejá vu” que se repetem a cada entroncamento. Os edifícios onde se situam tais lanchonetes parecem feitos de LEGO, monótonos e pré-moldados. Todos feios e previsíveis.

Decido virar a direção em uma saída aleatória. “Exit 348”, mas poderia ser outro número qualquer. Mantive-me no acesso lateral até me sentir seguro para dobrar à direita e adentrar nas ruas do local. Uma via asfaltada e sem calçadas descortinava um bairro residencial, mas eu esperava encontrar algum lugar onde fosse possível sentar e comer. Talvez se eu continuasse minha rota adiante poderia descobrir um centro comercial, uma rua de compras ou um restaurante de comida mexicana. Ou indiana, tanto faz.

Quanto mais eu prosseguia, mais difícil aparecer um lugar para almoçar. Já cansado de girar o pescoço para os lados à procura de uma placa, resolvi parar em um posto de gasolina. Pergunto onde há um restaurante.

– Aqui temos vários. Pode dobrar na próxima rua. Ali tem um “Mac Donald’s”, e mais adiante…

Eu o interrompi antes que me desse a lista que eu já conhecia.

– Na verdade estamos a procura de um restaurante que não seja de “fast food”. Algo como “comida caseira”, sabe? Arroz, feijão, um bife, fritas, ovos, cenouras, tomates, etc. Conhece algum?

O rapaz coçou a cabeça e franziu a testa. Disse para virarmos para o outro lado, pois ele lembra de que perto do monumento havia algo parecido com isso.

Seguimos nosso rumo para onde nos indicou o frentista, mas não havia nenhum restaurante no local indicado. Em verdade o prédio descrito há muito estava abandonado, coberto de madeiras e sem vida. Porém, do outro lado da rua havia uma lanchonete. “Burger King”, estava na placa luminosa.

– Vamos até lá para perguntar onde está este restaurante. As crianças estão aflitas e eu também estou morrendo de fome. Vamos, não custa nada.

Claro, era Norma falando. Homens tem uma natural aversão a pedir informações, talvez porque parece que a cultura tem a expectativa de que nós sempre tenhamos pleno conhecimento de onde estamos e para onde vamos. Pedir informação é uma capitulação, uma fraqueza.

A lanchonete estava vazia, talvez pelo calor, quem sabe por ainda não ser meio-dia. Atrás do balcão uma menina de uniforme e semblante hispânico, e no caixa um senhor aparentando 50 anos, de bigode ralo e óculos, que parecia ser o gerente. Aproximei-me dele e perguntei se havia algum restaurante no bairro que vendesse “comida caseira”, tipo “feita em casa”.

Ele levantou os olhos para a rua e disse:

– Aqui havia um na esquina mas, como pode ver, fechou. Não creio que você vá encontrar algum por aqui. Talvez em Northcliff, porém não posso garantir. Mas temos várias opções de lanches. Veja, temos o Whooper, o Chicken Jr, o…

Norma o interrompeu com a mão à frente.

– Eu sei os produtos que existem aqui, mas é que as crianças são pequenas. Não gostamos de comida industrializada para eles. Além disso, nunca sabemos exatamente do que estes lanches são feitos.

Dois hambúrgueres alface queijo molho especial cebola picles um pão com gergelim…

Minha filha Lauren sorria ao meu lado. Seu sorriso infantil e desdentado não me permitia sequer censurá-la. A música havia colado em sua mente, e ela a repetiu irrefletidamente.

O gerente continuou.

– Bem, esta é a musiquinha do concorrente, mas não está muito longe nos nossos produtos. Veja, temos um controle de qualidade insuperável. Nossas máquinas são calibradas semanalmente e nossa equipe é treinada de maneira altamente profissional. As nossas refeições são preparadas sem contato com as mãos. Uma máquina corta o pão, a outra prensa o hambúrguer, uma outra coloca os ingredientes e esta última aqui atrás de mim os empacota. Tudo asséptico e tecnológico.

– Eu entendo… senhor?

– Gonzáles, ao seu dispor.

– Eu entendo Sr. Gonzáles, disse eu. Por outro lado é exatamente esta falta de presença humana que me assusta. Eu gostaria de uma refeição que se adaptasse ao meu gosto particular, à quantidade de carne que minha mulher gosta, ou à alergia às cebolas de minha filha Lauren. A comida que os senhores servem não parece comida: parece ração, pois não é feita para pessoas, e sim para entidades biológicas que precisam de nutrientes para continuar a trabalhar. Para nós comida é um pouco mais do que isso, pois cumpre uma função simbólica.

Gonzáles me olhou como se eu estivesse falando algo assustador e bizarro.

– Mas temos análises feitas por laboratórios que nos garantem que os nutrientes usados…

Interrompi mais uma vez o gerente.

– Gonzáles, eu concordo com você. Reconheço as pesquisas, mas não se trata de ciência, mas de valores. Eu acho que o ato de se alimentar vai muito além dos nutrientes, dos carboidratos, da glicose e das proteínas. Comer é um ritual, repleto de simbologias, que incluem sinalizadores de valores culturais inconscientes. Portanto, não se faz comida com nutrientes, mas com palavras.

Claro que Gonzáles ficou ainda mais assustado com o meu discurso.

– Eu não conheço nenhum restaurante do jeito que vocês querem por aqui. Se vocês voltarem para a auto estrada encontrarão Wendy’s, KFC e o “concorrente”, vocês sabem qual. Olha, vou confessar a vocês. Nasci do outro lado da fronteira, se é que você me entende, em Nuevo Laredo. Vim para cá pequeno, junto com minha família. Meus pais tinham um restaurante por lá. Mas era um trabalho duro atender a clientela, pois cada prato tinha uma particularidade. Uns não queriam tomate, outros não aceitavam picles; outros comiam metade do prato, e desperdiçávamos o resto, e outros ainda reclamavam que era muito pouco. Trabalhar para cada pessoa isoladamente é muito cansativo e dispendioso. Trabalhar da “maneira antiga” demandava muito tempo. Os dias de hoje não permitem mais essa dedicação à cada cliente. Precisamos de tempo, muito tempo, o elemento mais escasso no mundo atual.

Respirou fundo e continuou.

– Aqui as coisas melhoraram muito. Agora todos os lanches são iguais, independente da fome que você tiver. Todas as porções são idênticas, todos os elementos os mesmos. Não trabalhamos com a diversidade que tanto nos atrapalhava. Apostamos no modelo industrial de manufatura de produtos. Veja ali…

Gonzáles apontou para uma máquina atrás dos balcões e no fundo da loja, e continuou sua explanação.

– Ali está o pão antes de ser cortado, e ali começa o seu lanche, na primeira máquina. Depois ele vai passar por estas outras aqui, sem que ninguém toque nele, até chegar nesta espécie de prateleira vertical, embrulhado, asséptico e pronto para comer. Não acham isso uma maravilha?

– Uma esteira de montagem, disse Norma.

– Sim!! disse Gonzales. Seu olhar era de pura sinceridade, com inegável entusiuasmo. Sim, parecia uma maravilha que a tecnologia economizasse o seu tempo para fazer uma refeição para os outros. Também parecia interessante o fato do processo praticamente não precisar de pessoas, o que explicava o número restrito de funcionários àquela hora do dia.

– Bem, Gonzáles, não queremos mais tomar seu tempo. Obrigado pelas orientações e pelas explicações do seu trabalho. Vamos continuar a procurar mais um pouco. Felicidades e boa sorte.

Ele sorriu com visível amabilidade e acenou com a mão.

Buena suerte y hasta luego, disse ele ao deixarmos o local.

Quanto nos aproximamos do carro havia um senhor de mais idade perto de onde o estacionamos, sentado em uma cadeira de praia sob o toldo de uma loja de equipamentos elétricos. Ainda curioso com a situação me aproximei do senhor e fiz uma pergunta.

– Bom dia, o senhor poderia me dizer o que houve com o restaurante que fechou aqui na esquina?

– O Gilda’s?, perguntou o senhor.

– Sim, aquele da esquina ali, disse eu apontando para o prédio com tapumes.

– Ah, fechou há alguns anos. Não havia interesse em continuar. O dono saiu da cidade. Ele também era maltratado pelos colegas concorrentes. Tinha uma empresa de buffet e fazia comida para festas. É … ele cozinhava na casa das pessoas.

– Uma pena, disse eu.

– Sim, respondeu o senhor. Agora se você quiser almoçar tem que comer comida de papel com bife de plástico.

Sorri para ele e me despedi.

Dentro do carro a ideia foi tentar mais alguns minutos e, se nada encontrar, voltar para a autoestrada e parar em uma lanchonete mesmo. Afinal, a fome estava cada vez pior, e as crianças mais agitadas.

– Podemos ficar dois dias em Schlitterbahn papai? Quero andar em todos os tobogãs, em todas as piscinas, em todos os brinquedos!

Lauren era a mais entusiasmada de todos, sem dúvida.

– O que o papai disse? Podemos brincar hoje. Não teremos muito tempo para ficar pois sua mãe tem que voltar para casa, e você sabe porque, não é?

– Sim!, disse ela. O bebê vai chegar!!

O ventre reluzente de Norma mostrava o quinto ocupante do carro. Suas semanas estavam findando, mas o passeio foi um acordo que fizemos com o pequeno Martin. “Aguarde um pouco para que seus irmãos possam se divertir”, dissemos a ele. Até agora ele havia cumprido sua parte no acordo.

– Sim, mamãe precisa estar descansada e precisamos estar próximos de casa para ir ao hospital, certo?, disse eu.

Dois hambúrgueres alface queijo molho especial cebola picles um pão com gergelim…

Era Pedro, cantarolando irrefletidamente a canção, enquanto mexia no seu Tablet.

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