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A Preponderância do Afeto

Essa foto é de uma frase de Eugene Declercq e tem a ver com uma tese há tempo acalentada por mim, mas que não é aceita por muitos. Para mim as evidências científicas relacionadas à humanização do nascimento são absolutamente INSUFICIENTES para mobilizar o sujeito na direção de modificar suas ações, posturas, atitudes e – em especial – sua prática.

Em minha experiência pessoal, e no contato com todos os humanistas que conheci, essa transformação somente se processa através de um “choque afetivo”, no terreno das emoções, sobre elementos muito primitivos da formação da personalidade que são ativados por eventos especiais (pivotal events) capazes de resgatar estas características. A razão, por ocupar uma porção externa do encéfalo e não ser mais do que um verniz de intelecto a cobrir uma massa de pulsões e sentimentos, é incapaz de produzir tal revolução.

A construção de um humanista não se dá pela via da razão, mas pelo respeito e resgate das emoções mais básicas como a fraternidade, o carinho e a empatia. Entretanto, como um cimento unificador, as evidências científicas e toda a sua racionalidade vem depois para oferecer consistência e coesão a estas ideias.

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Tipos de Ultrassom

O ultrassom é outra novela capitalista. Existem três tipos fundamentais: ultrassons médicos, sedativos e recreativos.

Os ultrassons MÉDICOS  possuem como característica “uma pergunta, uma resposta e uma ação“, sendo esta última diretamente ligada à resposta oferecida pelo exame. São exames raramente feitos, mas são os únicos justificáveis.

Os ultrassons SEDATIVOS são subproduto da indústria do medo. As pacientes durante o pré natal são tão danificadas emocionalmente pelo modelo médico que passam a desconfiar de sua capacidade de produzir bebês saudáveis. Por esta razão, precisam de um reforço visual, uma comprovação do bem-estar fetal pela via tecnológica. As lágrimas na sala de ecografia não são – via de regra – de alegria, mas de alívio.

Os ultrassons RECREATIVOS são para olhar, espiar, socializar o bebê e para descobrir seu gênero antes do nascimento. Hoje em dia são exigidos pelas famílias como um ritual tecnológico de apropriação e introdução social do “nascituro”. Uso essa palavra controversa de propósito, exatamente porque as ecografias contribuem para a noção contemporânea do “feto como sujeito”, que tanto estrago traz às mulheres, tanto no debate sobre o direito ao aborto quanto na ocorrência de uma perda gestacional. É sabido também que tanto este tipo de ultrassom quanto o “sedativo” são incapazes de produzir melhora nos resultados perinatais.

Em verdade, as ecografias na gravidez como método de RASTREIO (em mulheres com gestações saudáveis) não oferecem nenhuma vantagem para mães e bebês do ponto de vista do decréscimo da morbi-mortalidade materna, fetal e neonatal. São “brinquedos eletrônicos” que, na imensa maioria das vezes,  não  justificam – com resultados positivos – a quantidade enorme de recursos neles aplicados.

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Vanguarda do Atraso

Existe uma cidade nos Estados Unidos que fica no meio de uma região muito careta, mas o que a salva é ser um polo universitário muito grande, o que traz estudantes do mundo inteiro que oferecem a diversidade e a pluralidade de gostos, jeitos, caras, cheiros e idiomas que se entrelaçam na malha social. Estou falando de Austin, Texas.

Pois esta cidade tem um “bumper stick”, um adesivo famoso e que se vê em muitos lugares: automóveis, jornais, lojas e até nas casas. Nele se lê: “Keep Austin Weird” – Mantenham Austin Bizarra – normalmente acompanhado de uma foto de algo muito estranho que ocorre na cidade, como uma corrida de gente pelada, festival de tatuados, galerias de arte com amostras curiosas, arte e eventos LGBT, gente jovem de qualquer combinação de gêneros se beijando, etc. Para os moradores de Austin, ser “weird” significa ser diferente, ser progressista, desafiar os limites e enfrentar corajosamente as mentes mais atrasadas que se recusam a avançar. Ser bizarro é um orgulho para seus moradores, e algo pelo que querem ser conhecidos.

Quando vejo isso fico pensando nas mentes atrasadas e estúpidas que regulam nossa sociedade. Somos comandados pela vanguarda do atraso do Brasil, e não é à toa que a nossa obstetrícia obedece ao mesmo padrão de caretice e anacronismo. Mesmo quando o mundo inteiro já tiver se dado conta da imperiosa necessidade de trocar o modelo obstétrico baseado em cirurgiões – que falhou no mundo inteiro – por um controlado por parteiras profissionais, o Rio Grande do Sul se manterá atrelado aos sistemas de poderes que oferecem supremacia para uma corporação, mesmo em detrimento do bem-estar de mães e bebês. Aqui o atraso é chique, a abertura das mentes uma dor insuportável, e a perseguição aos dissidentes um ato de desespero que se dissimula como “defesa da família” ou “práticas consagradas”.

O que testemunhamos hoje em dia é uma brutal humilhação para quem conheceu uma Porto Alegre que prometia a pluralidade, a diversidade e o sonho de “um mundo novo possível”. O que acontece agora, esse salto para trás, é muito triste e deprimente, mas tem tudo a ver com um estado que sempre se orgulhou de seus fracassos.

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Com açúcar com afeto

Ele sentou-se na poltrona à minha frente enquanto escutávamos ao longe a melodia serena da vida, envoltos na bruma matinal e escutando os pássaros alvissareiros.

– Então Ric, quer saber como foi?

– Pode contar

– Diga aí uma droga que já ouviu falar. Qualquer uma.

Minha relação com as drogas sempre foi de aversão e uma certa repulsa. Quando nos anos 90 criei o PAOH – Protocolo de Assistência Obstétrica Humanizada – um simples protocolo de atendimento baseado em premissas simples de acompanhamento ao parto de baixo risco, um dos elementos fundamentais na lista de seis itens era “Uso judicioso e restrito de medicamentos durante o trabalho de parto”. Portanto, minha distância com as drogas incluía tanto as drogas ilegais quanto as legais, posto que ambas possuem efeitos perigosos para a economia orgânica. Entendia eu que a “legalidade” de uma droga não se referia à sua periculosidade ou dano possível, mas a questões contextuais e culturais ligadas ao seu controle e produção. Maconha é ilegal e cachaça é legalizada, mas o álcool tem uma mortalidade milhares de vezes superior à maconha. Portanto, eu sabia o quanto esse valor era volátil na sociedade. As descrições de Freud sobre seu uso de Cocaína no início do século passado são curiosas, enquanto as propagandas com médicos fumando e fazendo publicidade de Camel – aliado ao (agora) estranho patrocínio da indústria do tabaco às instituições médicas – também nos ajudam a entender um pouco mais a complexidade do tema.

Fiquei olhando para Bruno com atenção enquanto pensava em uma resposta para seu desafio. Não queria dizer uma droga muito simples para não ser considerado ingênuo, mas também nenhuma muito pesada para não ser ofensivo. Ele continuava parado à minha frente com um sorriso instigante. Era alto, levemente grisalho e ostentava uma barba bem cortada.

– Cocaína, disse eu finalmente.

Com um sorriso respondeu

– Muito, doutor. E por muitos anos. Diga outra.

– Maconha? Heroína? Metanfetamina? Crack?

A todas elas me respondia afirmativamente, e para cada uma acrescentava outras em sua longa lista de drogas experimentadas. Todas tinham sua história, as quais descrevia como quem relata as lembranças de uma amante do passado: um início fulgurante, a lua-de-mel, a convivência conturbada e o longo martírio de um final catastrófico.

Levantou-se do assento em que estava e foi até a estante logo atrás. Trouxe um grosso livro de capa dura em que se lia na capa “O Pão dos Deuses”, de Terence de McKeena, uma espécie de enciclopédia das drogas. Folheei algumas páginas lustrosas ricamente ilustradas com fotos de plantas, equipamentos, cigarros artesanais, cachimbos e seringas.

– Estou limpo há três anos, doutor. Nada mesmo. Fiz essa promessa a ela.

Olhamos ambos para o quarto onde a ação se desenrolava. Ali, sua mulher respirava profundamente enquanto aguardava que suas contrações voltassem. Seu semblante era sereno, no intermezzo melífluo entre duas ondas de contração. Atrás dela a doula massageava suas costas deixando o ambiente com um suave aroma de lavanda. Abraçada a ela a parteira dançava os passos de uma dança tão antiga quanto conhecida. São dois prá lá, dois prá cá. Respire fundo, deixe seu corpo se inundar de energia.

Ficamos escutando por alguns segundos os sons do quarto adjacente enquanto eu fechava o livro de capa dura à minha frente.

– Sabe qual foi a mais difícil de largar?, perguntou

– Nunca tive que largar nenhuma, disse eu, quase envergonhado da minha caretice. Eu diria que o cigarro, pelo menos é o que tantos pacientes me disseram ser tão complexo e difícil.

Ele abriu um sorriso.

– Negativo. Não digo que larguei o cigarro de forma fácil, mas nem se compara à droga mais difícil de todas elas. Abra de novo o livro, está nas primeiras páginas.

Folheei as páginas brilhantes desde o início até o momento em que ele me pediu para parar e apontou para um montinho de grãos brancos.

– Esse aí, doutor. Para mim o açúcar foi a droga mais difícil para me libertar.

Sorri com ele. Subitamente me senti um viciado e pensando comigo “Não, eu paro quando quiser”….

Nossa conversa se manteve entre risadas, comentários sarcásticos e sussurros até o momento que Zeza me chamou.

Completou”, disse ela, com aquele sorriso cheio de satisfação que eu bem conhecia.

– Você pode ir para a banheira agora, se quiser, disse ela para a bela menina que sentia suas últimas dores.

Zeza se posicionou à sua frente, enquanto a doula permanecia ao lado. O marido abraçou-a por trás firmemente, enquanto esperávamos pela chegada do bebê. Seu corpo semissubmerso se contorcia a cada onda contrátil, e depois relaxava no espaço silente entre elas. A tudo eu observava atentamente, mantendo a câmera a postos para gravar o momento da chegada.

Enquanto as velas ao redor da banheira iluminavam o espaço do banheiro minha atenção se concentrava no rosto sereno da mãe e me perdia pensando sobre os significados últimos dessa passagem. Quando vejo o momento inexplicável do apagamento neocortical, o mergulho na “partolândia” e o mistério eterno deste momento para o mundo masculino eu sempre lembro do sorriso de Elisabeth Davis no documentário “Orgasmic Birth” ao dizer “Se lhe dissessem que esta é a maior aventura possível da existência humana e que aqui está o mapa, você recusaria?

Os minutos se sucederam na velocidade dos gemidos enquanto mantivemos o nosso silêncio solene diante do que estava para acontecer. As chamas das velas tremulavam a cada suspiro mais longo, a cada palavra que saía dos lábios da bela menina. Zeza, a postos, finalmente aponta discretamente seu indicador para me mostrar a emergência dos cabelos do bebê. O momento da chegada se aproximava.

Se há um momento nessa cultura em que as máscaras caem, é este. As carapaças pétreas que seguram nossa experiência cotidiana se desfazem diante da explosão de emoções e significados que emergem durante o nascimento. Sei que nada será como antes, amanhã…

O momento tão esperado se aproximava e eu podia sentir na pele o silêncio de Bruno. Não havia um som, uma palavra, apenas os músculos retesados de seus braços e o olhar parado sobre o ventre de sua mulher. Abraçado a ela ele aguardava calado o momento decisivo.

Zeza virou seu olhar para mim e eu percebi o sinal. Na próxima contração ele viria. O silêncio se fez ainda mais ruidoso e só foi interrompido com o grito primal, seguido do som das mãos de Zeza retirando o bebê da água e colocando-o de frente para o sorriso de êxtase de sua mãe. Registrei o momento mágico com minhas mãos trêmulas, firmes o suficiente para não estragar a imagem. Em mais um momento e o bebê silenciosamente se aninhava no colo da mãe.

Foi então que o silêncio da cena foi novamente interrompido. Como a erupção de um vulcão, Bruno gritou com o máximo de seus pulmões. Gritou não como um grito de vitória, ou de consagração, mas como algo muito mais profundo e inquietante. E sobre seu grito sobreveio outro, e mais outro e depois outro.

Zeza olhou para mim com alguma preocupação. A conversa anterior sobre as drogas me deixou preocupado, confesso. E se ele estivesse entrando em uma espécie de surto? E se ele se descontrolasse? E se algo ocorresse que colocasse a todos – em especial ele mesmo – em risco?

Olhei para Zeza e a doula e nossos olhares mudos tinham o mesmo sentido: era melhor tirá-lo da cena até que se acalmasse. Foi então que eu lhe fiz um convite irrecusável:

– Bruno, quem sabe deixamos as mulheres com essa parte e vamos tomar um café na cozinha?

Apelei para o meu vício. Talvez assim, assumindo diante dele uma parceria no universo das adições, ele se sentisse compelido a me acompanhar.

– Claro, disse ele. Eu passo um café para nós.

Colocou-se de pé, e secou o corpo com a toalha pendurada. Foi até seu quarto e rapidamente trocou a bermuda que usava. Entrou comigo na cozinha, mas não conseguia controlar-se diante das emoções que havia presenciado.

– Ric, foi muito demais. Foi algo espetacular. Foi mágico.

Colocava as mãos à frente do rosto e caminhava inquieto de um lado para o outro da cozinha, e seus passos se deixavam acompanhar pelo chiado da chaleira. O aroma do café em pó invadiu o recinto enquanto ele continuava a falar.

– Tudo Ric, não apenas o momento da chegada do bebê. Não somente o êxtase, mas tudo que o precedeu. Não se trata de valorizar o prazer de receber sua filha nos braços, mas poder valorizar a completude da experiência humana. O medo, a angústia, a espera, a tensão, a ansiedade pelo momento de sentir na pele a maciez de um bebê. Todas essas emoções fazem parte do pacote, e seu valor é imenso exatamente por isso. Como podem escolher conscientemente trocar esta rica experiência por nascimentos mediados pela tecnologia, onde as emoções são engarrafadas, pasteurizadas, controladas por máquinas e onde recebemos apenas a parte final, sem que o ciclo todo tenha se completado?

Tomou um pouco de fôlego, respirou profundamente e fixou o olhar em algum ponto do infinito cósmico. Olhou mais uma vez para mim e disse:

– Ric, eu usei todas as drogas do mundo, tive todas as sensações que a vida pode oferecer. Participei das viagens lisérgicas mais doidas e mais bizarras. Andei pelo vale das sombras e consegui milagrosamente chegar até aqui. Por isso mesmo posso te afirmar que nenhuma sensação chega sequer perto desta que acabo de sentir. Nenhuma experiência supera esta e nenhum barato consegue ultrapassar esta emoção.

Nenhuma descrição de uma experiência sensorial poderia ser mais clara sobre a temática do gozo e do prazer, e só alguém que esteve por tantos anos envolvido no mundo da adição química poderia dar uma explicação tão rica quanto esta.

Verteu a água fumegante sobre o coador repleto e serviu uma xícara para mim. Ofereceu açúcar e eu menti que não queria. Ele sorriu da minha falsidade.

Enquanto ele se preparava para sentar na mesma poltrona em que estivera nas horas que antecederam, algo milagroso ocorreu.

O telefone tocou.

Bruno titubeou por instantes antes de atender. O bebê não tinha sequer 10 minutos de vida, e alguém ligava. O que seria?

– Alô, pois não?

Eu o acompanhava com o olhar, tentando adivinhar as palavras que só ele ouvia. Não era preciso mais do que metade das falas para saber do que se tratava.

– Sim, pai, está tudo bem. A bebê acabou de nascer. Não, estamos mesmo em casa, mas depois eu explico. Não se preocupe estamos muito bem. Não, não pesamos ainda, mas ela é linda e saudável. Assim que soubermos mais detalhes vamos informar. Ela está com a enfermeira e sua auxiliar aprendendo a mamar. Amanhã vocês podem vir aqui fazer uma visita. Claro pai, muito obrigado. Sim, eu sei…. claro que eu sempre soube.

Sua voz ficou mais pesada, mais grave. Ele estava visivelmente emocionado. Pensei em me levantar e deixa-lo a sós falando com o pai, mas não houve tempo para isso.

– Agora eu também sou pai, e talvez eu possa finalmente entendê-lo. Um beijo pai e obrigado.

Ao longe escutamos o choro forte da bebê. Tomei um gole de café amargo e me diverti com o vapor que pulava da xícara para embaçar meus óculos. Melhor assim; prefiro que não vejam um velho obstetra chorar.

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Fogo amigo

“Algumas pessoas que aparentemente se situam no espectro da humanização divulgam – com especial ênfase e alarde – notícias de punições a parteiras por erros cometidos. Eu posso entender a importância da autocrítica dentro de qualquer movimento social, do combate ao racismo ao feminismo, passando pela defesa LGTB e pela humanização do nascimento. O que eu tenho dificuldade de entender é o sentido de engrossar o coro das forças conservadoras que procuram qualquer brecha para destruir um movimento frágil e iniciante como o nosso. Certamente que a motivação é pessoal, mas ainda assim eu me assombro com a intensidade e a crueldade que testemunho em algumas manifestações.

Dos cesarianas eu posso entender a violência, mas o “fogo amigo” sempre me pega de surpresa.”

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Campanhas

No Brasil as campanhas que criticam a atuação de parteiras e doulas tem um endereço evidente: renovar a crença preconceituosa de que enfermeiras e obstetrizes oferecem uma assistência de “segunda classe”, aumentar o poder médico e deixar o campo livre para as cesarianas abusivas. Dá até para escutar alguns médicos dizendo às pacientes: “Vai querer mesmo arriscar ser abusada durante o parto ou quer marcar uma cesariana já?

O modelo atual deixa a cesariana absolutamente impune, enquanto o parto normal um pode significar um risco grave para o médico ou a parteira. Com um bisturi na mão os profissionais são intocáveis; com as mãos nuas estão desprotegidos.

A culpa não está em um lugar apenas; está disseminada na cultura e atinge pacientes e cuidadores. O signo é o medo e a cesariana um refúgio para as agressões. Cesarianas em alta significam o acionamento de uma cascata de eventos, que transitam da morbimortalidade materna e neonatal aumentadas até o desmame precoce. Por outro lado o respeito aos estudos que apontam o parto normal como superior podem ameaçar o bem estar e a própria continuidade do trabalho dos atendentes de parto.

É preciso entender o que este tipo de campanha significa e onde pode nos levar.

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Parteiros Infalíveis

Uma revista de grande circulação publicou matéria sobre uma famosa parteira nordestina e seu trabalho de várias décadas na atenção ao parto. A revista prestava uma homenagem oportuna e justa, mas não foi para mim nenhuma surpresa o fato de terem informado um número exagerado de partos atendidos por ela (6 mil) além de terem acrescentado uma fala que merece uma análise mais aprofundada: “Nunca perdi um bebê“, disse ela.

Fiz um comentário discreto aqui em casa a respeito da matéria, mesmo porque sabemos que é politicamente incorreto questionar um mito muito antigo da obstetrícia: o número de partos atendidos por parteiras e médicos. Nesse terreno podemos afirmar sem medo que todos mentem sobre os famosos “múltiplos de mil” (menos eu, que anotei todos os quase dois mil que atendi na minha carreira de 30 anos).

Ora, cabe uma consideração sobre os seis mil partos que a parteira informa ter atendido durante sua carreira, sem que tenha ocorrido nenhum óbito neonatal. É importante salientar que os melhores serviços europeus de obstetrícia têm mortalidade neonatal ao redor de 4/1000 nascidos. Uma parteira que tenha atendido por volta de 6 mil partos (número obviamente inflacionado) teria o direito de perder 24 bebês. Sim …. 24!! Este é um número maravilhoso para qualquer serviço de excelência neonatal do mundo!! Portanto, essa ausência de óbitos parece deveras estranha, mas sabemos o quanto é tabu questionar tais números.

O pior cenário é quando criamos uma redoma em volta dos eleitos e recebemos uma chuva de críticas pelo que consideram “ataques aos símbolos de um movimento”. Nesse momento chamam as Deusas para acusá-lo de não respeitar “as mãos  sagradas que apanharam tantos bebês”.

Pensem bem sobre o significado em longo prazo dessas declarações. Agora mesmo eu recebi uma homenagem da Assembleia Legislativa de SC. Imaginem o que teria de repercussão se eu recebendo a homenagem declarasse: “Eu agradeço as homenagens e espero que mais nenhum bebê venha a morrer enrolado no cordão ou porque passou da hora“.

Seria justo silenciar nessa hora só porque algumas pessoas do movimento de humanização gostam de mim ou para não “estragar” uma homenagem? Estou exagerando, por certo, pois esse estrago seria muito maior do que um simples número falacioso, mas é apenas para ficar claro que jamais será justo silenciar diante dos erros.

Um episódio me marcou muito nesse aspecto. Quando eu era residente houve uma homenagem no hospital pela passagem do dia da enfermagem. Falaram enfermeiras, médicos, administradores e por fim um político, presidente da assembleia. Ele teceu uma série de elogios óbvios e previsíveis e terminou com um espetacular “afinal vocês são nossos anjos de branco”.

Resultado: vaias da galera das enfermeiras. Mas como vaiar uma homenagem???? A razão, que eu concordei quando falei com elas depois, era afastar de forma veemente o estigma desprofissionalizante das “abnegadas serviçais angelicais”. Elas me diziam “nem vem com esse papo de anjo porque anjo não tem sexo e não ganha salário“.

Veja bem…. até eu achei exagerada e grosseira a vaia a uma homenagem, mas depois entendi perfeitamente e concordei com a manifestação pois ela levava em consideração o FUTURO da enfermagem como profissão, e não uma homenagem passageira. Respeitei o ato por ele significar o cuidado com o porvir profissional de meninas que sequer estavam ali, mas que seriam as futuras enfermeiras.

Nesse caso vejo da mesma forma. Acho que se a dona Prazeres é tudo isso que falam (e eu acredito) ela vai entender a correção que nós prontamente fizemos dos números irreais. Ela deixou um legado que ninguém tira, mas corrigir estas estatísticas serve para proteger as enfermeiras que labutam e enfrentam a inevitabilidade da morte todos os dias.

Não há dúvida que este é um problema recorrente: a mitificação e a idolatria. Por está razão eu falo há tanto tempo do risco de eleger – em qualquer setor da sociedade – elementos acima do “bem e do mal” para nos representar. Dona Prazeres merece todo nosso respeito e consideração, carinho e afeto, mas ela não está acima das Deusas da Probabilidade e nem dos Deuses da Estatística. Ela é uma pessoa apenas, devotada ao seu trabalho e à sua paixão, e não um ser divino que suplantou as leis da vida e da morte.

Aprender a aceitar críticas e reparos aos nossos ídolos – de Jesus a Lula, passando lá no meio por tantas parteiras e dona Prazeres – faz parte do nosso amadurecimento. Quem deseja fazer grandes transformações terá pela frente a tarefa de remexer em solo rígido, por muitos pisoteado, e isso nunca é feito sem críticas e ataques.

O grande problema dessas fantasias disseminadas no universo dos obstetras e parteiras é desnaturalizar a morte neonatal, como se a sobrevivência dos bebês dependesse unicamente da nossa capacidade, abnegação e compaixão. Essa perspectiva irreal torna toda morte neonatal uma tragédia, fazendo a culpa recair sobre o cuidador, que será visto como negligente e incompetente.

Babies die and shit happens“, já nos avisava Marsden Wagner, chefe do serviço Materno-Infantil da OMS para o leste europeu. Criar essa ilusão de excelência é péssimo para o trabalho de parteiras e médicos. A ilusão da infalibilidade é deletéria e produz efeitos nocivos. Criar uma aura de “erro zero” para os profissionais que atendem o parto pode produzir uma expectativa irreal sobre este trabalho, e a conta será inevitavelmente cobrada depois. Sem dó.

“A tolerância exagerada com nossos equívocos gera descrédito. Credibilidade é algo que se constrói em anos e se perde em 5 minutos”.

Essa postura onipotente poderá ter um preço muito alto. Uma vez vi o filho de uma paciente que havia falecido dizer para um colega médico a respeito do óbito de sua mãe: “Como assim morreu? Hoje em dia a medicina está tão avançada; como não houve cura para ela?“.

Quem brinca de Deus será odiado pelos desastres naturais“, como também dizia o mestre Marsden.

Aqui na província um velho professor (que não fazia plantões há mais de 30 anos) disse durante uma entrevista na TV local que atendeu “mais de 30 mil partos“, e disse essa baboseira com a cara mais impávida e serena. Não passa de um mentiroso e embusteiro. Quem trabalhou nessa área sabe que número de partos é tamanho de falo, com o perdão pela comparação grosseira. Todo garoto descreve proporções exageradas de si mesmo – sempre acima da realidade – mesmo porque poucos estão interessados em ver os “documentos comprobatórios”.

Todavia, é interessante notar que essa “ilusão de excelência” surgiu quando da confrontação do trabalho milenar das parteiras com o modelo médico hegemônico que se estabelecia, onde a morte se tornou palavra maldita e considerada uma falha. As parteiras, para quem a morte tinha outro significado, acabaram por adotar o paradigma da “morte-fracasso” que os médicos instituíram, o que é uma pena; lidar com a morte com mais naturalidade seria melhor para todos. Evidentemente que “encarar a morte como parte da existência” não significa abdicar da luta para manter a vida através da arte e da competência, usando de todos os meios para mantê-la, mas significa reconhecer que ela é nossa única certeza e nosso fim inequívoco.

Por mais que tentemos evitar sua presença obscura, a morte faz parte do nosso cotidiano e dos nossos pesadelos mais sombrios. Porém, só os tolos disfarçam o medo que dela sentem ou afastam dos olhos sua miragem. Um bom obstetra ou parteira sabe o gosto que a morte tem e já sentiu seu hálito gelado a lhe trespassar a pele e congelar os ossos.

“A idolatria faz mais vítimas que o ódio explícito. Aquela é cega para os defeitos, enquanto este para as virtudes. Entretanto, ainda é melhor um defeito exagerado do que uma perversão dissimulada. Quanto às virtudes, elas aparecem, mais cedo ou mais tarde.” (Eleanor Sinclair, “Just above the Rainbow”, Ed. Aleph, pág 135.)

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Mamiferizar

Apesar de eu mesmo me considerar um humilde discípulo de Michel Odent a sua ideia de “desumanizar” o parto e de “mamiferizar” o nascimento será a grande discordância que terei com sua obra. Não há, no meu modesto ver, sentido em tornar o parto como ele ocorre entre os animais, mesmo entre os mamíferos.

Como diria Lacan, “a palavra matou o real” e é absolutamente impossível tornar o parto um processo “natural”, pelo simples fato de que é impossível abrir mão do mundo simbólico e voltar ao mundo da natureza. Mamiferizar seria assistir o parto dentro da realidade dos mamíferos, portanto, dentro da natureza de onde fomos sumariamente expulsos pelo acesso à linguagem, ao raciocínio e ao mundo simbólico. A metáfora bíblica da expulsão do casal primordial do paraíso – para toda a eternidade – deixa claro que a saída da natureza pelo acesso à razão nos impede de retornar para um mundo de perfeita harmonia – e submissão – com a natureza.

Não existe volta nesse caminho. O parto humano jamais voltará a ser “mamífero” ou “natural” pois que o acréscimo de neocórtex desenvolvido para nossa espécie – se pode ser diminuído momentaneamente, como no sexo – não poderá jamais ser abolido sem retirar de nós o que verdadeiramente nos constitui como humanos.

O parto humano só pode ser exercido dentro da contingência psíquica que nos estrutura, humano e formatado pela linguagem, jamais através de um retorno ao “paraíso perdido”.

Humanizar o nascimento é o caminho, mesmo que esse caminho seja respeitando – mas não copiando – nossa ancestralidade mamífera.

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Sobre Mulheres e Posições

Mais de 30 anos já se passaram de quando eu resolvi enfrentar o modelo obstétrico do hospital universitário em que fiz residência e coloquei as gestantes para parir de cócoras. Certamente que esta atitude – apesar de ter sido tolerada – era tratada com desdém e aversão. Um dos professores me disse que “partos de cócoras eram para índios, e só funcionavam em sua própria cultura“, da mesma forma como “acupuntura só funciona para japoneses“. Minhas lembranças da residência, como se pode perceber, não são de um local de livre circulação de ideias, informações e profundidade de conceitos.

O rechaço às posições verticais daquela época poderiam ser interpretadas hoje como resultado da falta de pesquisas que mostrassem as vantagens do parto em posição não-litotômica. Essa visão, entretanto, não resiste a uma análise mais profunda, em especial quando se analisa o fato de que a posição de litotomia (deitada de costas, pernas levantadas e presas) é uma invenção moderna e que nunca se comprovou superior às variantes verticais usadas em praticamente todas as culturas humanas.

Hoje em dia mais de 91% das mulheres no Brasil (Nascer no Brasil – 2012) continuam a parir seus filhos em posições horizontais, uma imagem fiel dos partos que testemunhei há 30 anos em minha residência médica, e que tanta indignação me causou. As últimas 3 décadas de comprovações científicas sobre a superioridade das posições verticais e sobre a livre escolha fizeram QUASE NADA para modificar o ensino médico e as opções que as mulheres tem para o nascimento de seus filhos, pelo menos no que diz respeito à posição.

Fizemos avanços na lei do acompanhante, na presença de doulas, na diminuição das episiotomias, na ambiência, nas Casas de Parto, na disseminação do parto domiciliar planejado como opção válida e segura mas ainda não foi feita nenhuma mudança considerável na posição de parto. Por quê?

Creio que a resposta para essa dúvida recai sobre elementos profundamente inseridos no inconsciente. A paciente deitada, abaixo da linha dos olhos do médico, em posição constrangedora e com as pernas abertas é a própria imagem da submissão em que ela se encontra diante do poder autoritativo do médico. Atentem para o fato de que esta posição só foi disseminada após a entrada dos médicos-homens no cenário do parto; antes disso as gravuras e estatuetas antigas sempre mostraram parteiras no mesmo plano ou mesmo abaixo da mulher a quem auxiliam. Por que essa mudança ocorreu e por qual razão se mantém apesar de todas as evidências que nos provam sua inadequação e mesmo o inegável prejuízo para mães e bebês?

Minha tese é de que o parto deitado é um reforço psíquico subliminar que auxilia o poder médico a manter sua dominação sobre o corpo da mulher. O parto deitado, posição clássica de litotomia, estabelece a assimetria de poderes que ajuda o profissional a se sentir no comando e envia uma mensagem de inferioridade para a mulher que está parindo. Por esta razão, e não pela falta de informações ou provas científicas, é que esta posição ainda é disseminada nos hospitais de ensino e utilizada na assistência a 9 de cada 10 mulheres parindo neste país. Muito mais do que representa objetivamente, ela é plena de um simbolismo patriarcal de dominação, e por essa razão resiste aos ventos do tempo e da verdade.

Muitos outros mamíferos utilizam essa posição para informar submissão a um elemento dominante no grupo. Os cães, tanto quanto os lobos, costumam se deitar e oferecer o ventre para o chefe da matilha para demonstrar sua subserviência. Este tipo de atitude está associada às estruturas hierárquicas dentro de grupos de animais que se organizam desta forma, como cães, lobos, hienas, etc. Isso reforça a tese de que essa imagem ativa elementos muito profundos do inconsciente, e por este fato é tão significativa e resistente.

A posição de parir é uma das mensagens mais fortes e intensas da iconografia do nascimento, e por isso mesmo é tão difícil de ser modificada. É provável que a mudança na ergonomia do parto será a última barreira a ser rompida, exatamente porque ela carrega essa simbologia dissimulada, mas que afeta a forma como o patriarcado se expressa nas ações de médicos e na dominação sobre o corpo das gestantes. Negamos às mulheres grávidas o “produto social” que carregam no ventre, e por isso ainda insistimos em controlar esse evento e obstruir sua autonomia.

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Cócoras

Há exatos 35 anos iniciei a atender partos em posição vertical no hospital onde fiz residência. A reação dos colegas variava entre o escárnio debochado e a aversão explícita. As explicações que davam na época são usadas até hoje: “civilizadas são diferentes”, “só índias podem/aguentam”, “o períneo enfraqueceu pela vida moderna”, “mulher de cidade não fica acocorada e não sobe em coqueiro”, etc. Nenhuma dessas afirmações se baseia em evidências, mas ainda assim o parto continua sendo tratado da mesma maneira.

Trinta e cinco anos se passaram e o parto padrão em nossas maternidades – públicas e privadas – continua sendo nas posições que favorecem médicos e instituições, mas são profundamente inadequadas para mães e bebês. O poder é (ainda) mais importante do que as evidências.

“A história é geralmente dura com os covardes, mesmo quando poderosos, e via de regra generosa com os corajosos e ousados, mesmo quando vítimas daqueles a quem denunciaram”

Sergei Kalikowski, “Piratas do Gulag”, Ed Printemps, pag 135

Veja aqui o resumo mais recente sobre posições verticais no parto:

Texto de Gail Hart:

BIRTH TOPIC: WOW!

So… here’s a nice study of birth position. 100 women were randomly assigned to birth in lithotomy position – supine (on their backs) and 100 were delivered in the squatting position.

Look at the results:

1. Second and third degree perineal tears occurred in 9% of the lithotomy group, but none in the squatting group.

2. Forceps for delivery was twice as high in the lithotomy (24%) as the squatting group (11%)

3. There were two cases of shoulder dystocia in the lithotomy group, but none in the squatting group.

4. There were no cases of retained placenta in the squatting group, but 4% of the women supine had retained placenta and 1% had postpartum hemorrhage of more than 500cc due to uterine atony.

“”There was no significant difference in the apgar scores, foetal heart rate patterns or requirement of neonatal resuscitation.””

So, wow, that’s a heck of a lot of maternal benefit simply by changing to a more physiological delivery position. It is time to assign the Lithotomy Position to the Dustbin of History! Indeed, it is long past time!

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